Nelly Novaes COELHO “Não sei quem sou, que alma tenho. (...) Sinto-me múltiplo.
Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.”
Eis que através de manuscritos inéditos em prosa, agora colocados ao alcance do grande público, no volume Páginas intimas e de Auto-interpretação1, Fernando Pessoa revela- se-nos na intimidade de seu gênio, oferecendo novas e fecundas perspectivas para uma penetração mais funda na essência de sua poesia.
Pelo paciente labor de Georg Rudolf foram esses manuscritos extraídos também da preciosa (e parece que inexaurível!) arca guardada em Lisboa; e com a colaborado de Jacinto do Prado Coelho e da Sra. Rudolf Lind foram eles decifrados e organizados de maneira a comporem este primeiro volume de textos inéditos; a que se seguirá logo outro, segundo se anuncia na introdução. Os textos em inglês (língua que Fernando Pessoa manejava tão desenvoltamente como a materna) foram registrados no original e em seguida na cuidadosa tradução feita por Jorge Rosa.
Como já e amplamente sabido dos amantes da poesia fernandina, o “esfíngico” poeta lusitano preocupou-se basicamente com a produção de sua obra, não se empenhando para a natural publicação, pois sabia-se um incompreendido e acreditando em seu gênio, sentia-se fadado unicamente à compreensão póstuma. Dai sem dúvida a circunstância de sua obra estar ainda praticamente inédita por ocasião da morte do poeta, em 1935, e também o fato de ele haver guardado escrupulosamente em uma arca, desde muito jovem, tudo o que escrevia: poesias, projetos de obras, páginas de diário, comentários de leituras, ensaios fragmentados acerca dos mais variados temas, etc. etc.
É sobre esse espólio do Poeta que, deste mais ou menos 1940, se vêm debruçando os estudiosos a fim de trazer à luz o testemunho poético de um homem que viveu aguilhoado pelo desejo de romper suas limitadas dimensões de ser humano e pela ânsia de tomar-se múltiplo como o universo.
Num dos manuscritos ora publicado, podemos ler sua desesperada confissão: “Ficarei o inferno de ser Eu, a Limitação Absoluta, Expulsão-Ser do universo longínquo! Ficarei nem Deus, nem homem, nem mundo, mero vácuo-pessoa, infinito de Nada consciente, pavor sem nome, exilado do próprio mistério, da própria Vida”. (p. 60)
Personalidade invulgar, lá amplamente revelada por sua obra poética, Fernando Pessoa agora através destes inéditos revela-nos diretamente a dimensão abissal de seu espírito e também o valor absoluto que a arte assumia aos seus olhos.
“O meu espírito vive constantemente no estudo e no cuidado da Verdade, e no escrúpulo de deixar, quando eu despir a veste que me liga a este mundo, uma obra que sirva o progresso e o bem da Humanidade”. (p. 68)
Como já aconteceu com tantos outros gênios que só viveram pelo que poderiam dar de valioso, de eterno aos homens que viriam depois, Fernando Pessoa recusou adaptar-se à dimensão precária e fugaz de um ciclo de vida aceito pelo comum dos homens e viveu
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projetado no futuro, por acreditar na eternidade da arte e em sua missão de Poeta.
Um verdadeiro manancial de temas para reflexão e de “chaves” para uma maior penetração na obra fernandina, é o que encontramos neste recente volume de inéditos, que, para maior facilidade de consulta, foram ordenados em dez secções, conforme a natureza de seu conteúdo; e só parcialmente submetidos a uma sucessão cronológica, pois muitos estavam sem datas e os organizadores só puderam indicar as épocas prováveis em que foram escritos.
Abrem o volume dois esclarecedores ensaios introdutórios: “O relativismo criador de Fernando Pessoa”, por Georg Rudolf Lind e “Fernando Pessoa, pensador múltiplo”, de Jacinto do Prado Coelho; pelos quais o leitor já tem a atenção atraída para dois temas fundamentais desenvolvidos através dos escritos ali recolhidos: o fenômeno da criação, para Fernando Pessoa; e o problema da heterônoma.
Preciosos documentos reveladores da personalidade intima de um gênio, os manuscritos, agora dados a público, abarcam desde “notas diárias” de índole não-literária, com o lacônico registro dos incolores incidentes cotidianos, até as mais complexas reflexões acerca de estética, filosofia, religião, etc.
Dentre os dez tópicos em que são eles ordenados, destacamos principalmente dois pelo que trazem de importante testemunho, no sentido de esclarecer não só certas facetas da obra fernandina como também certos aspectos fundamentais do ideal estético que informou a época em que viveu o Poeta. Trata-se dos capítulos IV e V, “sobre ORPHEU, Sensacionalismo e Paulistamo” e “Sobre Paganismo, Cristianismo e Neopaganismo”.
No primeiro deles temos, em uma centena de páginas, o registro da ambiciosa e complexa posição estética de Fernando Pessoa, através da argúcia critica com que o Poeta procurava, explicar as dimensões filosóficas da arte que ele e seus companheiros estavam construindo (ou tentavam construir!).
Adepto do Sensacionalismo (arte aberta a todas as posições literárias), Fernando Pessoa desenvolve, nos textos agrupados nesse capitulo IV, uma série de interpretações acerca do que era a arte para o grupo do “Orpheu”; interpretações fundamentadas, em três premissas: “Toda arte é criação e está portanto submetida ao principio fundamental de toda a criação: criar um todo objetivo” (...); “Toda arte é expressão de qualquer fenômeno psíquico”, e “A arte não tem, para o artista, fim social. Tem sim, um destino social, mas o artista nunca sabe qual ele é, porque a Natureza o oculta no labirinto de seus desígnios”. (p. 212)
Desenvolvendo dialeticamente essas premissas, estes textos oferecem aos estudiosos da poesia fernandina uma esplêndida fonte de sugestões para pesquisa e análise, que forçosamente ampliarão as possibilidades de interpretado textual.
No capitulo V estão reunidos textos assinados por Fernando Pessoa ele mesmo e pelos heterônomos: Antônio Mora e Ricardo Reis. Versam todos eles acerca do problema filosófico-religioso da decadência do cristianismo dentro da nossa civilização, paralelamente à necessidade da criação de um neopaganismo português (em cuja linha é colocado Alberto Caeiro). De raízes rigidamente aristocráticas, a filosofia que devia alicerçar a nova cultura e a nova vida portuguesa rejeitava: “a democracia, todas as formas de governo não-aristocrático; todas as fórmulas humanitárias, (...) o feminismo, porque pretende igualar a mulher ao homem e conceder à mulher direitos políticos e sociais, quando a mulher é um ser inferior (sic) apenas necessário à humanidade para o fato essencial mas biológico apenas, da sua continuação...” (p. 227)
Rejeitando ainda as fórmulas tradicionalistas, Fernando Pessoa reivindica a reconstrução do paganismo puro dos gregos, despidos das distorções interpretativas de que vem sendo vitima. É fácil notar que, apesar das múltiplas formas que o paganismo de Fernando Pessoa vai adotando, através dos textos, o que fica é sua presença constante influindo na configuração das demais posições do Poeta.
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Seja pelos textos dos dois capítulos acima mencionados, seja pelos que fornecem dados para a “compreensão”, de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, do “Cancioneiro” ou da “Mensagem”, o volume ora lançado torna-se elemento de indispensável consulta por todo aquele que pretenda estudar a genial poesia fernandina. E ao lê-lo, inevitáveis perguntas nos assaltam: Até que ponto Fernando Pessoa teria sido sincero em seu testemunho? A extraordinária lucidez com que eles são dados, já não viria de um desdobramento da personalidade, tal como aconteceu com sua poesia? Impossível decidir. O que fica realmente é a espantosa versatilidade e inquietação de um espírito que sentia fundamente a sua complexidade.
“O autor humano destes livros”, diz Fernando Pessoa num projetado Prefácio para suas Obras Completas, “não conhece em si próprio personalidade nenhuma. Quando acaso sente uma personalidade emergir dentro de si, cedo vê que é um ente diferente do que ele é, embora parecido; filho mental, talvez, e com qualidades herdadas, mas as diferenças de ser outrem.
Que esta qualidade no escritor seja uma foi me da histeria, ou da chamada dissociação da personalidade, o autor destes livros nem o contesta, nem o apóia. De nada lhe serviriam, escravo como é da multiplicidade de si próprio que concordasse com esta, ou com aquela teoria, sobre os resultados escritos dessa multiplicidade.
Que este processo de fazer arte cause estranheza, não admira; o que admira é que haja cousa alguma que não cause estranheza”. (p. 06)
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1967 – n. 26 – p. 3
INFORMAIS
Laís Corrêa de ARAÚJO
Entre os livros de poesia recebidos por esta seção, estão os de Mário Dionísio, poeta português, que lança agora, pelas Publicações Europa-América, sua “Poesia incompleta”, onde vemos o melhor de suas produções. Do poeta português, diz Urbano Tavares que “tem o senso agudo do ritmo (...) onde se derrama a lúcida gravidade, a original visão do mundo”; e também o de Enrique de Resende, um dos componentes da famosa revista “verde”, à qual este suplemento dedicou um de seus últimos números, livro intitulado “A última colheita”, que o autor, modestamente, chama de “livro velho de um velho poeta”. Se os poemas enfeixados neste volume não mostram uma unidade formal mais consonante com as pesquisas formais de nosso tempo, a sensibilidade de Enrique de Resende não envelheceu, continuando capaz de suscitar a emoção e mostrando a sua habilidade e verdadeira ternura pelo oficio de lidar com a palavra.
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1967 – n. 35 – p. 3