Irving King Jordan, primeiro reitor surdo da Gallaudet University, se referiu a Stokoe como ‘o homem certo no lugar certo, na hora certa’. Essa afirmação foi usada por ele na apresentação de: The study of signed languages: essays in honor of William C. Stokoe, uma coletânea de artigos apresentados na conferência em honra a Stokoe realizada na Gallaudet University em 1999, por ocasião de seu 80º aniversário.
A declaração é retomada no prefácio da mesma publicação pelos editores Armstrong, Karchmer e Van Cleve (2002). Os pesquisadores (2002) afirmam que Stokoe era o homem certo, pois apesar de seu desconhecimento acerca da língua de sinais antes de ingressar na Gallaudet, e da pouca fluência que adquiriu na língua mesmo depois de anos estudando-a, ele teve a sabedoria de ver o que outros mais experientes na área não viram, além de ter uma persistência nata para defender seu ponto de vista. Acrescenta-se ainda o fato de ele ser amigo do reitor George Detmold, que o convidou para trabalhar na instituição, conforme se observa nos resistros de Maher (1996). Detmold, além de ser responsável direto pelo ingresso de Stokoe na Gallaudet, protegeu-o e possibilitou o desenvolvimento de suas pesquisas na instituição. Conforme observa e sintetiza Maher (1996):
It was William Stokoe’s observations and discoveries that led recognition of American Sign Language as a complete and sophisticated language system, and it was Stokoe who encouraged both deaf and hearing researches to develop the field of sign language linguistics. But it was George Detmold who fought with the Gallaudet administration, with the faculty, even 99 Lou Fant era filho de pais surdos e visto pela comunidade como alguém que dedicava seu coração aos surdos. Lou era professor, intérprete de ASL/Inglês e ator de destaque na televisão americana.
with the students, to give Stokoe the time, space, and funding necessary for his work. (MAHER, 1996, p. 39)100
Sobre os amigos, a autora afirma ainda:
This humanistic view is in stark contrast to the philosophy of deaf education that prevailed when Detmold and Stokoe began teaching. The two men had never heard of Helmer Myklebust101; they had
never been instructed in the anatomy and physiology of the ear; the hadn’t learned how to administer hearing tests and distinguish among hearing aids; they hadn’t learned about the various types of audiometry as had their “properly trained” counterparts. (IDEM, 1996, p.37)102
A aposta de Detmold foi bem sucedida, pois Stokoe já em seu segundo ano lecionando na Gallaudet College (atual Gallaudet University), começou a investigar a hipótese de que ‘os gestos’ utilizados pelos estudantes surdos para se comunicar nos momentos
100 Foram as descobertas e observações de William Stokoe que levaram ao reconhecimento da Língua de Sinais Americana como sistema linguístico completo e sofisticado, e foi Stokoe quem incentivou pesquisadores surdos e ouvintes para desenvolver a área da linguística em línguas de sinais. Mas, foi somente com a luta de George Detmold contra a administração da Gallaudet - com o corpo docente e inclusive com estudantes – que deu a Stokoe tempo, fundos e um espaço necessários para seu trabalho. (MAHER, 1996, p. 39). 101 Helmer Myklebust autor do livro ‘The Psychology of Deafness’ (1957), que durante anos foi usado como texto de referência na formação de professores de Surdos, afirmava ter observado habilidades de memória inferiores em crianças surdas e alertava aos seus leitores sobre a probabilidade de a deficiência auditiva impedir a realização do potencial intelectual dos sujeitos surdos devido à sua linguagem limitada. (MAHER, 1996, p. 19).
102 Tal ponto de vista humanístico tem um contraste claro com a filosofia da educação de surdos que prevalecia quando Detmold e Stokoe começaram a ensinar. Ambos nunca haviam ouvido falar de Helmer Myklebust; eles não tinham instrução sobre a anatomia ou fisiologia do ouvido; eles ainda não tinham aprendido como administrar exames de audição ou distinguir dentre diferentes aparelhos auditivos; e não haviam aprendido sobre os diversos tipos de audiometria como seus colegas "propriamente treinados". (IDEM, 1996, p.37, tradução nossa)
extraclasse – dentro de sala de aula era utilizado o inglês sinalizado – eram elementos de um sistema linguístico estruturado.
O lugar certo era a própria instituição de ensino, que reunia e reúne Surdos de diversas partes do mundo ‘sinalizando’ suas opiniões, experiências e percepções. Mesmo quando a língua de sinais não era considerada como língua de instrução, as pessoas surdas a utilizavam fluentemente nos corredores das escolas de surdos.
Quanto à hora certa, os autores associam ao ‘movimento dos direitos civis’. Quando Stokoe ingressou na Gallaudet o movimento estava se iniciando e atingiu seu auge em 1960, defendendo fortemente que nos Estados Unidos nenhum indivíduo poderia ser privado de seus direitos legais, civis, educacionais ou econômicos por serem membros de diferente etnia, ou movimento religioso ou grupo linguístico.
Deve-se acrescentar ainda o impacto das pesquisas de Noam Chomsky103
na linguística nos anos imediatamente anteriores à publicação de Stokoe (1960).
Partindo dessas singulares condições Stokoe desenvolveu um projeto de trabalho com quatro grandes metas:
1. Provar que os sinais utilizados pelos estudantes surdos apresentavam todas as características semelhantes às línguas orais e tinham o mesmo potencial para a comunicação humana.
2. Desenvolver um sistema descritivo dessa Língua de Sinais para convencer os pesquisadores (linguistas e educadores de Surdos) do fato citado em 1.
3. Convencer o público em geral e estabelecimentos educacionais da importância de permitir que as crianças Surdas se comunicassem em língua de sinais.
4. Sua maior meta: Aplicar os conhecimentos adquiridos nas pesquisas em Língua de Sinais em problemas mais amplos da natureza e evolução da capacidade humana de uso da linguagem.
2.2.3.1 A primeira meta: ASL é língua
Stokoe alcançou sua primeira meta em 1960 publicando seu artigo Sign Language Structure: An Outline of the Visual Communication Systems of the American Deaf, dando início à sua
103 Chomsky conclui sua tese de doutoramento, um trabalho de mais de mil páginas no qual desenvolveu a sua abordagem original às ideias linguísticas, intitulada ‘Logical Structure of Linguistic Theory’,em 1955. Em 1957, publicou um resumo desse trabalho em seu livro ‘Syntactic Structures’.
trajetória de reconhecimento e críticas. A obra obteve reconhecimento por parte de outros pesquisadores das línguas de sinais e da linguística em geral e críticas principalmente dos colegas professores e dos estudantes surdos da Gallaudet.
Nessa publicação ele apresentou uma descrição da ASL com mapeamento de locais de realização do sinal, possibilidades de configurações de mãos e movimentos, tendo ainda associado um símbolo a cada um dos aspectos observados de forma a representar por escrito a realização espacial dos sinais. Além disso, propôs termos para descrever essas características, conforme o próprio Stokoe (2005/1960) explica:
The aspects of the structure of the sign need more convenient terms than position, configuration, and motion; and it will be as well to avoid the suggestion of mutual exclusiveness these words have in their ordinary uses. Tabula, designator, and signation may be easily shortened to tab, dez, and sig, and we may define them thus: A tab is that aspect of the unanalyzed visual complex called the sign which by proximity to a part of the signer’s body, by position in space, or by configuration of the non-moving hand signals position as contrasted with dez and sig. A dez is the configuration of the hand or hands which make a sig in a tab. A sig is the movement or change in configuration of the dez in an otherwise signaled tab. (STOKOE, 2005/1960, p.21)104
Um exemplo do uso desses símbolos é apresentado abaixo (figura 15) na representação do sinal SEE.
104 Os aspectos da estrutura do sinal carecem de termos mais convenientes do que posição, configuração e movimento; e também será vantajoso evitar a sugestão de exclusividade mútua que estas palavras têm em seus usos comuns. Tabula, designator e signation podem ser facilmente reduzidas para tab, dez e sig definidos do seguinte modo: Tab é o aspecto do complexo visual não- analisado chamado sinal, que é medido pela proximidade do corpo do sinalizante, por sua posição no espaço ou pela posição e configuração dos sinais da mão que não está se movendo, diferentemente de dez e sig. Dez é a configuração de mão ou mãos que formam um sig na tab. Sig é o movimento ou mudança de configuração da dez no que seria uma tab sinalizada. (STOKOE, 2005/1960, p.21, tradução nossa).
Figura 15 – Representação do sinal SEE em símbolos usados por Stokoe
Fonte: STOKOE (2005/1960, p.25)
O primeiro símbolo identifica o TAB, isto é, o local de realização do sinal (no caso: face ou cabeça). O segundo símbolo se refere a DEZ, ou seja, à configuração de mão (forma da mão). O terceiro representa o SIG, ou a interação entre a configuração de mão e o local de realização, neste caso identifica que é realizado próximo a face. O quarto representa o movimento, no exemplo, se afastando do ponto inicial. Vejamos uma imagem do mesmo sinal por meio da captura de frames do vídeo de uma pessoa sinalizando (figura 16).
Figura 16 – Representação do sinal SEE
Fonte: <http://www.aslpro.com>
Conforme anteriormente comentado, a descrição proposta por Stokoe inicialmente não foi bem recebida por alguns membros da Comunidade Surda, que consideraram uma ‘invasão em sua privacidade’. Como podia Stokoe expor tão detalhadamente a língua que antes só era conhecida por pessoas Surdas e por um pequeno grupo de ouvintes – em sua maioria filhos de Surdos?
A ideia de que ele foi o homem certo no lugar certo prevalece, mas talvez não tenha sido tão fácil. Como relata Sacks (1996):
Stokoe himself has commented: ‘Publication [of Sign Language Structure] brought a curious local reaction. With the exception of… one or two colleagues, the entire Gallaudet faculty rudely attacked me, linguistics, and the study of signing
as a language’. (Sacks in MAHER, 1996, p. xiii)105.
Mesmo assim ele persistiu em seu projeto e deu continuidade às suas investigações, coleta e análise de dados, e ainda, na elaboração de um dicionário de ASL, um projeto que levou 4 anos para ser finalizado.
Sobre as desconfianças em torno de sua pesquisa Stokoe (1996) relembrou: “We were rebels; we were saying the emperor has no clothes on” (MAHER, 1996, p.111)106.
2.2.3.2.A segunda meta: O Dicionário e seu sistema descritivo A parceria com pesquisadores Surdos resultou, em 1965, na publicação em coautoria com Casterline e Croneberg, do dicionário intitulado A dictionary of American Sign Language on linguistic principles (DASL). Além de listar os sinais e explicar seu significado e uso, apresentava também uma análise linguística das partes de cada sinal, e cumpria sua segunda meta.
No DASL apresentaram-se as descrições dos sinais coletados e analisados na investigação de Stokoe e colaboradores. Os sinais do DASL foram extraídos de filmagens realizadas com 16 informantes, sendo 14 surdos e 2 ouvintes. Para a descrição Stokoe – que tinha apenas 4 anos de contato com a ASL como professor e pesquisador da Gallaudet University e breve experiência de aprendizagem formal da ASL – contou com o conhecimento de Carl Croneberg107 enquanto estudante por vários anos em escola para Surdos na Suécia e enquanto estudante e posteriormente professor na Gallaudet University – totalizando 9 anos de convivência na instituição; e de Dorothy
105 O próprio Stokoe comenta que: 'A publicação de [Sign Language Structure] resultou em uma reação local curiosa. Com a exceção de... um ou dois colegas, o corpo docente inteiro da Gallaudet atacou com rudeza a mim, a Linguística, e o estudo da sinalização como língua'. (Sacks in MAHER, 1996, p. xiii, tradução nossa).
106 "Fomos rebeldes; fomos aqueles que denunciaram a nudez do imperador" (MAHER, 1996, p.111, tradução nossa).
107 Sueco, nasceu ouvinte e perdeu a audição aos 12 anos. Sabia sueco e alemão tão bem quanto inglês – ASL era sua quarta língua. Estudou B.A. na Gallaudet e em 1959 completou o M.A. em inglês na Catholic University, sendo uma das primeiras pessoas surdas a receber o título de pós-graduado em uma instituição regular.
Casterline108 enquanto estudante de escola para surdos e vários anos de trabalho com associações no Havaí, além dos 4 anos como estudante na Gallaudet. Ambos eram suficientemente proficientes em ASL – para se comunicar com os informantes da pesquisa – e suficientemente proficientes em inglês falado e sinalizado para comunicar suas descobertas a Stokoe. O dicionário levou quase 4 anos para ficar pronto, sendo a maioria do trabalho realizado durante as férias de verão devido aos compromissos acadêmicos de Stokoe e Croneberg.
O DASL foi a primeira grande coletânea de sinais da ASL com informações de significado e uso, além de apresentar a primeira e mais completa análise linguística dos sinais organizados de acordo com as partes que os constituem. Organizado não em ordem alfabética, mas sim, de acordo com as unidades formacionais apresentadas por Stokoe em 1960.
O sistema de notação de Stokoe era carregado de símbolos e difícil de entender. Alguns pesquisadores de Línguas de Sinais chegaram a utilizá-lo, mas acabou ficando restrito às áreas de investigação acadêmica, mais especificamente de linguística das Línguas de Sinais. Sua relevância estaria justamente na análise linguística realizada e não no aspecto didático do material.
Com a colaboração de pesquisadores Surdos em seu laboratório de pesquisa, na Gallaudet, Stokoe não parou mais, tendo realizado várias conferências em níveis nacionais e internacionais para defender seu argumento que a ASL tinha o mesmo status linguístico das línguas orais. Enquanto isso, Gallaudet e outras instituições de Surdos continuavam não usando a Língua de Sinais como língua de instrução.
As duas primeiras metas estavam diretamente ligadas à publicação de Sign Language Structure e A Dictionary of American Sign Language: on linguistic principles. No primeiro Stokoe apresentou argumentos para comprovar a estrutura linguística da língua de sinais, destacando que embora o foco de seu estudo tenha sido a ASL, também considerou em sua pesquisa resultados de investigações semelhantes na França, Dinamarca, Japão, Israel, China, Nova Guiné, entre outros – indicando as referências consultadas. No segundo apresentou mapeamento de locais de realização do sinal, possíveis formas assumidas pelas mãos e movimentos realizados por elas. Tendo ainda associado um símbolo a cada um dos aspectos observados – 55 símbolos
108 Nasceu ouvinte e perdeu a audição aos 13 anos. Ingressou na Gallaudet em 1955, mesmo ano de Stokoe. Era familiarizada com vários dialetos havaianos (Hawaiian pidgins and creoles).
no total – de forma a representar por escrito – Stokoe Notation – a realização espacial dos sinais.
Para cada uma das três categorias propostas por Stokoe (tab, dez e sig) ele mapeou possibilidades e constatou que estas eram finitas – 12 para TAB (localização) (quadro 4), 19 para DEZ109 (configuração de mão) (quadros 5 e 6), 24 para SIG (ação) (quadro 7). Ele também constatou que essas possibilidades estavam presentes nos sinais em combinações variadas, demonstrando que as recombinações delas originariam outras unidades lexicais.
Quadro 4: Símbolos utilizados por Stokoe para descrever a posição do sinal no espaço
Fonte: Stokoe, Casterline, Croneberg (1976/1965).
Assim, as 19 possibilidades para DEZ, por exemplo, foram identificadas a partir da associação das formas da mão utilizadas para soletração do alfabeto. Conforme explicou Stokoe (2005):
The twenty-six letters of the English alphabet are represented in finger-spelling by nineteen distinct configurations. Different attitudes of three of these configurations add five more
letter symbols, and motion of two of the configurations give the last two. (STOKOE, 2005, p.17)110.
Para Stokoe havia 19 configurações em “posição normal” – A, B, C, D, E, F, I, K, L, M, O, R, S, T, U, V, X, Y – 3 em “posição inversa” – Q (inversa de D), P (inversa de K), N (inversa de U) – 2 em “posição horizontal” – G (em relação a D), H (em relação a U) – 2 com “movimento” – Z (em relação a D), J (em relação a I).
Evidenciando a função linguística dessas ‘formas da mão’, Stokoe registrou: “Like consonant and vowel, the aspects position, configuration, and motion may only be described in terms of contrast with each other” (STOKOE, 2005, p.20)111.
110 As 26 letras do alfabeto da língua inglesa são representadas em soletração de mão por meio de 19 configurações de mão distintas. Atitudes diferentes de 3 destas configurações adicionam 5 símbolos de letra, e o movimento de 2 destas configurações criam as duas últimas. (STOKOE, 2005, p.17).
111 "Como consoante e vogal, os aspectos posição, configuração e movimento podem somente ser descritos em contraste um com o outro" (STOKOE, 2005, p.20).
Quadro 5: Símbolos utilizados por Stokoe para descrever a configuração de mão (continua...)
Fonte: Stokoe, Casterline, Croneberg (1976/1965).
Quadro 6: Símbolos utilizados por Stokoe para descrever a configuração de mão (Conclusão do Quadro 5)
Quadro 7: Símbolos utilizados por Stokoe para descrever o movimento do sinal
Fonte: Stokoe, Casterline, Croneberg (1976/1965).
Assim, apesar do acréscimo de mais dois aspectos – orientação da palma (Friedman, 1975; Battison, 1978) e expressão facial e corporal – o modelo proposto por Stokoe continua sendo amplamente utilizado visto que os três aspectos inicialmente propostos por ele se mantêm até hoje na descrição de diferentes línguas de sinais.
Sobre a análise da orientação Stokoe (2001a) declara:
Orientation works well for geographers and navigators, from which it was purloined; but a signer’s fingers and hands are far too mobile to supply anything like cardinal directions, and the number of all of the directions in three- dimensional space happens to be infinite. No wonder orientation becomes intractable. When
some sign phonologists tried to solve the problems that orientation introduces by adding more categories or ‘‘parameters,’’ the problems became still more troublesome. (STOKOE, 2001a, p. 436)112
Alguns de seus descritores serão utilizados na transcrição dos dados dessa pesquisa, pois permanecem atuais e atendem com êxito o propósito de etiquetagem para análise da formação das unidades lexicais especializadas.
A metodologia utilizada por Stokoe do olhar externo e isento, essencialmente descritivo, tornou-se base inspiradora para a análise dos elementos do corpus dessa investigação. Por sua vez, a forma escolhida por Stokoe para descrever os fenômenos linguísticos observados provavelmente se deva à influência estruturalista de Trager e Smith.
A partir da observação de sinais registrados em vídeos (assim como nessa investigação) e considerando que toda análise discreta da comunicação humana real é de certa forma artificial, Stokoe conseguiu definir categorias econômicas e precisas para os fenômenos observados durante a realização dos sinais. De maneira que as categorias definidas por ele mostraram-se as mais adequadas para descrever os fenômenos observados na realização de sinais terminológicos. Assim como na proposta do DASL, a presente investigação não tem como objetivo descrever o sinal de forma que outras pessoas ao lerem seus descritores consigam entender e realizá-lo. Provavelmente o fato da coletânea de sinais descrita em símbolo por Stokoe e colaboradores (1965) denominar-se American Sign Language Dictionary os símbolos propostos foram incompreendidos por alguns. Para entender o sinal tem- se o vídeo. O que se busca é o mapeamento dos fenômenos linguísticos que ocorrem na realização das unidades terminológicas.
Sobre a contribuição de Stokoe, Leite (2008) afirma:
112 A orientação serve para a Geografia e navegação de onde foi emprestada; mas acontece que os dedos e mãos de sinalizantes são móveis demais para fornecer uma orientação cardinal, e o número de direções no espaço tridimensional é infinito. Não é de se surpreender que a orientação torne-se impossível de controlar. Quando alguns pesquisadores de fonologia da língua de sinais tentaram solucionar os problemas que a orientação introduziu adicionando mais categorias ou "parâmetros", os problemas tornaram-se ainda maiores. (STOKOE, 2001a, p. 436, tradução nossa).
Na fonologia, a análise revolucionária de Stokoe sobre a capacidade recombinativa de unidades mínimas dos sinais permaneceu em sua essência inalterada, com exceção das reformulações necessárias para dar conta da sequencialidade dos sinais e, consequentemente, dos processos fonológicos e morfológicos observáveis. (LEITE, 2008, p.35)
Essa capacidade recombinativa que a presente pesquisa busca identificar nos sinais apresentados no Glossário Letras-Libras, que constituem o corpus analisado.
2.2.3.3. A terceira meta: a aceitação da Língua de Sinais nas instituições educacionais
A terceira meta de Stokoe tornou-se ainda mais difícil que as duas primeiras. Mesmo com aceitação de sua tese por parte de linguistas e antropólogos, mesmo com um número considerável de colaboradores Surdos produzindo pesquisas em seu laboratório, em 1975, a universidade Gallaudet adotou o método Cued Speech, um sistema pelo qual pessoas Surdas poderiam distinguir os sons – através de pistas manuais realizadas em diferentes locais perto da boca (que representam as vogais), complementando sua habilidade de leitura labial.
Stokoe escreveu um ensaio de protesto, destacando que a surdez, especialmente no início da vida, impõe uma situação comunicativa que exige uma língua altamente desenvolvida, resultado da evolução de várias línguas visuais. Conforme o autor recordou em uma das entrevistas concedidas a Maher (1996):
A language and a special communicative situation