No capítulo anterior foi discutida a problemática da (re)conciliação entre a vida profissional e a vida pessoal e familiar. Uma das ideias que a investigação tem consolidado é a de que em profissões que exigem uma maior carga horária, constantes deslocações, flexibilidade e disponibilidade do trabalhador, é mais difícil conciliar o trabalho com a vida pessoal, especialmente a vida familiar. Os profissionais de consultoria e de auditoria, prefiguram esse estereótipo que a teoria menciona, em especial os que desenvolvem a sua atividade nas Big Four. Nas últimas décadas as empresas de consultoria têm passado por grandes transformações, nomeadamente em Portugal, onde o mercado é relativamente pequeno e muito competitivo. Algumas das transformações refletem-se nas exigências a que os profissionais são sujeitos. A formação de jovens recém-licenciados e os sistemas de avaliação do desempenho acentuam as exigências com que a atividade profissional confronta os consultores e consultoras. Por isso, o universo das Big Four pareceu particularmente adequado aos objetivos deste estudo, nomeadamente para uma análise exploratória do modo como a realidade do trabalho se concilia, ou não, com a a vida pessoal e familiar destes profissionais. A teoria (ef. Hochschild e Machung, 2003) revela que os constrangimentos exercidos pelo trabalho sobre a vida familiar afetam sobretudo as mulheres e essa foi uma das dimensões em que este estudo incidiu.
Neste sentido, o enquadramento teórico enquadrou e orientou o processo de investigação, nomeadamente, a opção pela investigação qualitativa, bem como pelas histórias de vida como método de análise da informação recolhida. Assim, este capítulo apresenta o desenho da pesquisa, a uma breve caracterização da população que constitui o objeto empírico do estudo, os métodos de pesquisa e técnicas de
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recolha de informação bem como os procedimentos que foram orientaram tratamento da informação recolhida.
1. Objetivos do Estudo
O presente estudo apresenta como objetivo principal responder a três questões de investigação. Em primeiro lugar, se a conciliação entre trabalho e vida pessoal e familiar constituía, de facto, um problema dos consultores que trabalham nas empresas Big Four. Caso a resposta a esta questão fosse positiva, era preciso responder a outra, que se encontra relacionada: na presença de problemas de conciliação entre trabalho e vida pessoal e familiar, seriam estes problemas sentidos da mesma forma por consultores e consultoras, ou seria o género uma variável a determinar diferenças? Havendo um efeito de género, a última questão seria a de identificar as diferenças que se manifestam quando profissionais inseridos em meios profissionais semelhantes, acabam por sentir os efeitos do contexto de forma diferenciada.
Para esclarecer estas questões, pareceu fundamental proceder ao estudo e análise da atividade de consultoria no contexto das empresas multinacionais denominadas
Big Four. Para tanto, pareceu necessário averiguar as principais caraterísticas da
atividade de consultoria, particularmente as que se podem apresentar como obstáculos e dificuldades à conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e familiar. Igualmente importante seria compreender e averiguar quais as estratégias desenvolvidas pelas consultoras e consultores para lidar com os constrangimentos do contexto do trabalho. Finalmente, pareceu relevante procurar informação sobre o modo como a organização das empresas contribui ou poderia contribuir para atenuar as dificuldades que eventualmente consultoras e consultores sentem para conciliarem o trabalho com a vida pessoal. Convirá notar que o contexto nacional favorece, sobretudo, as empresas, devido à rigidez do mercado de trabalho e, por
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isso, ao excesso de oferta de mão-de-obra, sobretudo de natureza qualificada. Esta circunstância pode dessensibilizar a gestão, que não sentirá grande pressão para a mudança e pode, assim, concentrar-se nos resultados.
2. Metodologia da Investigação
A concretização dos objetivos deste estudo dependiam de informação que possibilitasse a compreensão de aspetos inerentes à vida de profissionais de um conjunto muito particular de empresas, as Big Four. Assim, os métodos qualitativos assentam em alguns pressupostos básicos: (1) a realidade social pode ser vista como o produto e a atribuição de sentido; (2) este tipo de pesquisa pressupõe que a realidade social possui uma natureza processual e reflexiva; (3) que é através da atribuição de significados subjetivos que as circunstâncias objetivas de vida adquirem relevância e, (4) a realidade social possui uma natureza comunicacional, a qual torna possível que a reconstrução da construção da realidade social possa constituir o ponto de partida da investigação (Flick et al., 2004). Por outras palavras, é a partir do ponto de vista e da reflexividade dos outros que se pode conhecer a realidade, não como ela é, de facto, mas as construções sobre a realidade que os indivíduos fazem no seu quotidiano. O trabalho de pesquisa constituirá, precisamente, o estudo efetuado a partir da reconstrução que os participantes na investigação farão, das construções sobre a realidade que caracterizam a sua própria existência.
Assim, o presente estudo privilegiou a experiência subjetiva dos outros como fonte de conhecimento. Desse modo, as respostas para as questões de investigação irão surgir a partir da perspetiva e experiência do outro (Almeida & Freire, 2007). Portanto, a análise da informação terá de explorar a forma como as pessoas constroem interactivamente as significações que atribuem à sua vida e ao seu contexto, quer ao nível profissional quer ao nível pessoal e familiar (Almeida &
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Freire, 2007). Precisamente, os métodos qualitativos permitem um nível de construção conceptual da informação de tal forma que é possível obter um ‚ on m nto qu pro un l r ompr nsão x stên um n ‛ (Polkinghorne, 1988, p.159 cit in, Fernandes & Maia 2011). Portanto, para compreender o modo como as consultoras e consultores se posicionam face às eventuais dificuldades em conciliar o trabalho com a vida pessoal e familiar, será necessário compreender como é que estas realidades são construídas. Que sentidos os profissionais atribuem aos diversos aspetos da realidade que nela aparecem envolvidos, trabalho, carreira, sucesso, família, tempo para si, lazer, para só referir alguns. Para dar corpo a um tal objetivo de investigação, o método das histórias de vida pareceu o mais vantajoso. As histórias de vida dão voz aos indivíduos, os quais, através da narração, reconstroem a sua experiência, os seus projetos, as suas trajetórias. Dão a conhecer a forma como as pessoas dão sentido, experimentam e interpretam o mundo social em que estão inseridas (Almeida & Freire, 2007).
A história de vida é, assim, individual e única. Trata-se da história de um narrador particular contada a partir da sua perspetiva e à luz da sua experiência, da sua subjetividade. Ainda que os acontecimentos possam obedecer a uma ordem temporal, também é certo que o tempo da narração pode ser fluído sem que por isso perca plausibilidade ou coerência no contexto da narração. Essa fluidez constitui, como se antevê, um dos desafios do investigador, que terá de reconstruir, através da narrativa, uma realidade já ela reconstruída e envolta na subjetividade do narrador. Tratando-se de um tipo de investigação que incide no ser humano (Webster & Mertova, 2007), porque a informação obtida concretiza-se em histórias de vida. Do mesmo modo, este método não é compatível com as operações que o investigador leva a cabo para construir e/ou aferir a validade de uma teoria. Isto porque, o que o narrador transmite é uma visão particular do mundo e de si, derivada do conhecimento que tem do mundo e de si (Brandão, 2007).
Enquanto método de investigação qualitativa, a história de vida não está direcionada para a produção de conclusões rigorosas, menos ainda de certezas. Não
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possibilita, por isso, a generalização dos resultados que surgirem. O objetivo principal deste tipo de pesquisa e de método é, antes de mais, que os resultados estejam ‚b m un m nt os‛ ‚suport os‛ r t n o um ên s n r l linguística da experiência humana (Webster & Mertova, 2007, p. 4). Este terá de ser, necessariamente, um dos aspetos a considerar aquando da tomada de decisão sobre os métodos que se irão utilizar na pesquisa. O método das histórias de vida proporciona informação que permite conhecer a realidade subjetiva dos indivíduos. Possibilita a compreensão da natureza subjetiva da realidade social. Não possibilita a obtenção de verdades, nem de conclusões que se possam generalizar. Por isso, o investigador tem avaliar se este método é, ou não, compatível com a análise que pretende efetuar (Brandão, 2007).
Como o objetivo deste estudo é, precisamente, o de conhecer o modo como consultoras e consultores experimentam um contexto muito particular, a opção recaiu, como se disse, pelas histórias de vida. Como diz Seideman (2006), o simples ato de contar uma história é uma forma de transmissão de conhecimento. A raiz da p l vr ‚ stór ‛ v m o Gr o s n qu l qu é ‚s{b o‛ ‚ pr n u‛ (Watkins, 1985, p. 74). Neste sentido, quando os indivíduos contam histórias selecionam detalhes da sua experiência que estão presentes na sua consciência. Ao contarem uma história com princípio, meio e fim, os indivíduos refletem sobre a sua experiência. É neste processo de seleção de detalhes constitutivos de experiências, em que os indivíduos não só refletem sobre os acontecimentos, mas também lhes dão uma ordem, que contar uma história permite a partilha de uma experiência com significado (Seideman, 2006). A pesquisa qualitativa descreve modos de vida "de dentro para fora", a partir do ponto de vista dos indivíduos que nela participam. Deste modo, ao contar a sua história os indivíduos contribuem para uma melhor compreensão das realidades sociais e orientam a atenção do investigador para processos, padrões de significado e caraterísticas estruturais (Flick et al., 2000).
Para a realização da presente investigação foram realizadas dez entrevistas individuais semiestruturadas. A entrevista foi a técnica de recolha de informação
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privilegiada para recolher informação junto dos participantes, uma vez que se insere nas abordagens qualitativas e adequa-se aos objetivos das histórias de vida., nomeadamente a compreensão da experiência e da construção de significados (Fernandes & Maia, 2001). Ademais, a história de vida, quer espelhe um trabalho sobre um único indivíduo, quer seja uma técnica utilizada para a leitura de um universo mais vasto de indivíduos, tem sempre como prática essencial a entrevista (Poirier et al., 1995).
A utilização da entrevista semiestruturada permitiu criar um momento de interação entre o investigador e os entrevistados, na medida em que esta técnica de recolha de informação favorece as respostas espontâneas e possibilita uma maior abertura e uma proximidade desejável nas abordagens qualitativas (Boni & Quaresma, 2005).
3. Amostra por Conveniência
Na realização das entrevistas que serviram como base para a presente investigação, recorreu-se a uma amostra não probabilística com critérios de seleção definidos antecipada e intencionalmente (Almeida & Freire, 2007). Isto é, recorreu-se a um tipo de amostragem em que a seleção dos elementos da população para compor a amostra depende do julgamento do investigador. Conforme referido anteriormente, este estudo contou com a participação de dez indivíduos (n=10) e os critérios de seleção foram: o género (cinco sujeitos do sexo feminino e cinco do sexo masculino) e trabalharem ou terem trabalhado em consultoria e auditoria numa Big
Four em Portugal.
A amostra foi constituída por conveniência. Sendo certo que se trata da técnica de mostr m ‚m nos r oros ‛ M rs ll 1996: 5 3 pr sente o risco de poder gerar informação de fraca qualidade, era a que permitia aceder aos potenciais entrevistados com maior economia de tempo e de meios. As características da
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população estudada dificulta o estabelecimento de contactos. Também complica o próprio processo de entrevista, dada a indisponibilidade frequente dos profissionais. Assim, tendo igualmente em conta as questões dos prazos para a realização do estudo, optou-se por mobilizar contactos pessoais para encontrar os dez consultores de empresas Big Four em que o estudo se baseou.
As empresas Big Four surgiram como o contexto ideal para uma investigação que pretende compreender como é que os profissionais de consultoria sentem e experimentam os eventuais conflitos entre as exigências de trabalho e a vida profissional. Assim, as atividades de consultoria e de auditoria exercida pelos participantes neste estudo, foram foco de análise por se associarem a um elevado grau de exigência, um horário de trabalho volumoso, uma grande responsabilidade e elevada pressão no cumprimento rigoroso dos prazos (Guerreiro et al., 2004).
4. A Recolha e Análise de dados
Numa fase inicial, foi estabelecido o contato com os participantes por telefone. O objetivo de todas as primeiras abordagens pelo telefone foi a obtenção do consentimento dos potenciais participantes para a realização das entrevistas. Nos contactos telefónicos foram explicados os objetivos da pesquisa e as condições em que a entrevista iria decorrer. Adicionalmente, os potenciais entrevistados foram informados sobre o compromisso com a confidencialidade e o anonimato dos participantes no estudo. A todos foi garantido que a informação não será utilizada senão em contexto académico. Assim, após a obtenção do consentimento de cada participante foi agendada a respetiva entrevista.
As entrevistas realizaram-se nas datas acordadas, durante os meses de Novembro e Dezembro de 2014 e Janeiro de 2015, apesar de algumas dificuldades derivadas dos ritmos e horários de trabalho praticados. Num caso, a entrevista teve mesmo de ser adiada por indisponibilidade do entrevistado no dia acordado. Nos outros casos, as
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entrevistas decorreram consoante o que havia sido previamente agendado. As entrevistas obedeceram sempre à mesma sequência, que integrou os momentos assinaladas na Figura 3.
Figura 3. Sequência de momentos definidos durante a realização das entrevistas
Numa primeira fase, foi facultada a cada participante no estudo uma declaração de confidencialidade, na qual consta o nome do entrevistado e do entrevistador e se explicita a reserva de utilização, da informação obtida pelas entrevistas, para fins unicamente académicos e o compromisso de anonimato dos entrevistados e referidas empresas Big Four (Cf. Anexo 1). Todas as declarações de consentimento informado foram devidamente assinadas e encontram-se em anexo especial, devido ao compromisso de sigilo e anonimato.
Após a assinatura da declaração de consentimento informado, os participantes tomaram conhecimento dos objetivos do estudo e da entrevista a realizar, conforme se pode verificar na Figura 4, abaixo:
Sequência de momentos nas entrevistas realizadas 1 Assinatura da declaração de confidencialidade 2 Introdução e explicação dos objetivos da entrevista 3 Entrevista e questões
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Figura 4. Objetivos da entrevista explicados a cada participante
Seguidamente, numa terceira fase, decorreu a entrevista propriamente dita. Conforme foi referido, as entrevistas foram semiestruturadas. O objetivo era o de deixar que os entrevistados falassem sobre a sua trajetória profissional e o seu trabalho na Big Four. Conforme lhes foi solicitado, esperava-se igualmente que abordassem o modo como encaram as exigências do trabalho e se tais exigências desafiavam a sua vida pessoal e familiar. Deste modo, a intervenção do entrevistador deveria ocorrer apenas em situações nas quais fosse necessário aprofundar ou esclarecer uma ideia relevante. A intervenção poderia ainda justificar-se no caso de o entrevistado ser lacunar.
O carácter semiestruturado da entrevista não obstou à conceção de um guião de entrevista, no qual se encontravam listados todos os temas que, idealmente, os entrevistados deveriam abordar. O guião de entrevista permite, assim, assegurar a recolha de informação importante para que os objetivos do trabalho possam ser realizado (Cf. Anexo 2). Todas as entrevistas foram gravadas em formato áudio. As entrevistas foram realizadas presencialmente ou por telefone. Concretamente, cinco
Objectivos da entrevista
1 Compreender a realidade familiar do entrevistado (e.g. profissão dos pais, situação familiar, nível de escolaridade), bem como a sua trajetória profissional. 2
Compreender a atividade de consultoria numa empresa multinacional como uma
Big Four. Compreender a cultura destas empresas, bem como quais as caraterísticas
da atividade. 3
Compreender como é que as as caraterísticas que o trabalho realizado numa Big
Four podem constranger a (re)conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e
familiar.
4 Compreender como os entrevistados contornam os constrangimentos mencionados em 3.
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Compreender como é que a organização poderia facilitar a conciliação entre vida de trabalho e vida pessoal e familiar dos consultores.
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entrevistas foram presenciais e cinco tiveram de ocorrer por telefone, por indisponibilidade física dos entrevistados. Durante a realização das entrevistas os participantes revelaram constrangimentos de tempo, mostrando-se preocupados com a duração da entrevista. O tempo havia sido já um constrangimento aquando da marcação das entrevistas dado o preenchimento das agendas de trabalho. O mesmo motivo determinou sucessivas remarcações das entrevistas, o que acabou por tornar a investigação empírica mãos morosa do que inicialmente planeado. Duas entrevistas foram mesmo realizadas de madrugada, durante a semana de trabalho, por ser esse o único tempo disponível dos entrevistados.
No final de cada entrevista procedeu-se ao registo de notas sobre o contexto da entrevista. Essas notas foram úteis para recuperar algumas ideias que foram ocorrendo ao longo da entrevista e ajudaram na sua análise posterior. As entrevistas foram transcritas por especialistas (Cf. Anexo 3). Seguidamente, procedemos à etapa de construção das histórias de vida. No próximo capítulo apresentamos um conjunto de dez histórias de vida, de cinco consultores e auditores do género masculino, e de cinco consultores e auditores do género feminino que laboram nas Big Four portuguesas.
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