1.1 Construction de la base de cas initiale
1.1.2 Le processus de mise en forme des données
Outra ilusão de certos eruditos: “imaginar que a cada problema histórico corresponde um tipo de documento, específico para esse uso”. A história só é feita recorrendo-se a uma multiplicidade de documentos e, por conseguinte, de técnicas: “poucas ciências, creio, são obrigadas a usar, simultaneamente, tantas ferramentas dessemelhantes.”226
O trabalho de pesquisa é mesmo muito interessante, o pesquisador embora busque trabalhar com determinado objeto, suas fontes o direcionam por outros caminhos, ir em busca de legislações que pudessem indicar a luta por uma educação antirracista me levou a tomar conhecimento de ações de alguns membros comunidade negra que lutava por uma identidade negra e promovia formas de valorização da cultura negra tendo a educação como suas bandeiras de mobilização.
- Mas houve alguma lei? Houve algum projeto relacionado com a educação? - Teve. O grupo de estudo conscientização é o mesmo que estudar. Só que essa conscientização era pra analfabetos, estudantes e professores.
- Como é que esse grupo ia atuar?
- Ia se alfabetizar em história. As histórias que se passavam. Tinha o livro do Mandela....
- Aonde que seria?
- Na casa de uma conhecida nossa. Do Congo Verde. Camisa Verde.227
O conhecimento de Histórias de personalidades negras e outras lutas do povo negro no Brasil, ou em outros lugares do mundo, servia para promover a conscientização da raça, de como romperam com suas realidades como exemplos de superação do racismo e exclusão ao qual estivesse submetidos, essa era uma das ações do Grupo de Estudo e Consciência Negra de Ituiutaba, que acreditava que todos os negros deveriam ter conhecimentos do seu lugar na sociedade, atuavam de maneira conjunta, os que haviam conseguido um grau mais elevado de instrução, compartilhava esse saber com os que ainda não tivesse tido oportunidade de instruir-se.
Uma das atuações do movimento negro de Ituiutaba dentro das escolas foi através de palestras que eram feitas relacionadas com a discriminação racial e sobre doenças que atingiam a população negra, como forma de conscientizar dos cuidados com a saúde e de instruir como as pessoas deveriam agir.
226 BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002. p.27. 227 Sônia Maria entrevista realizada 20 outubro de 2016
Dentro desse Ituiutaba, a nossa pedra fundamental aqui dentro de Ituiutaba chama-se Sônia Maria Silva do Carmo. Foi através da Sônia, que a gente fazia nas escolas, fazia reuniões nas escolas, palestras, a gente fazia, chamava, tinha médicos que davam palestras para o nosso povo sobre anemia falciforme, a parte de saúde da mulher.228
Atitudes como da professora Sônia, foram realizada em vários lugares do país, por mulheres que procuravam atuar na valorização e reconhecimento da cultura negra.
[...] é preciso registrar que o grande aliado do movimento de mulheres negras, no combate aos preconceitos na educação, foi o movimento de docentes das escolas públicas (no qual há uma predominância feminina), que teve uma atuação muito vigorosa nos anos 80. “Na medida em que o movimento negro se engajou nas lutas pela valorização da escola pública, ele pôde sensibilizar o setor educacional na defesa de suas reivindicações contra o racismo.”229
As parcerias com os órgãos responsáveis pela a educação no município eram sempre buscadas pelas professoras, quando estes não demonstravam interesse em promover parcerias mais solidas, eles contavam com ações de alguns secretários que atendiam as demandas de promover pequenos eventos em que pudessem esclarecer os alunos de doenças que atingiam a população negra, ou mostrar alguma representatividade negra, no qual os alunos negros pudessem se ver representados. Estes possibilitavam que houvesse
[...] palestras e forneciam pra gente, médicos pra alertar sobre as doenças, falar com as mulheres negras e não negras, tinha que procurar médico pra fazer os exames que praticamente a gente faz. Então tudo isso a gente puxava nas escolas públicas do município e a gente fazia isso. Agora do estado, do município não, do estado, mas com apoio do município. Porque nós tínhamos uma pessoa que tinha essa visão. Que o nosso povo precisava ser esclarecido através de médicos, através de educadores, e ela tinha essa visão. Então a gente fazia, montava os seminários, que geralmente acontecia. E tinha também a parte de cultura. A gente trazia muitas pessoas, livros, pra dar, como chama? Escritores negros.230
O contato com as escolas do município era de forma mais flexível, que nas estaduais. A preocupação não era somente promover uma conscientização de cuidado com o corpo e a saúde, mas de mostra o quanto a cultura afro-brasileira era importante, para isso buscava-se parcerias com pessoas de outras localidades, como do Hélio Santos231 que na época fazia parte do grupo Interministerial Ministerial, que vinham falar de Histórias de valorização da cultura
228 Adirce Maria, entrevista realizada em 20 agosto de 2016.
229 GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira; SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves e. Movimento negro e educação. Revista Brasileira de Educação, n.15, set. out. nov. dez. 2000.p. 155.
230 Adirce Maria, entrevista realizada em 20 agosto de 2016.
negra, alguns eventos registrados em jornais232 , eles ocorriam especialmente em datas
emblemáticas para a população negra e no aniversário do Palmeira clube no mês de Julho. Isso aí acontecia durante o ano e dava essas datas aqui, acredito eu, que era mais ou menos na época do Julho o, que era aniversário que reunia o pessoal, o pessoal vinha mais, tinha interesse de vir. E a gente aproveitava essa ocasião e mostrava, e mostrava o trabalho. E dentro desses seminários, sempre a gente fazia seminários com os professores da rede pública buscados pela Sônia, né? A gente fazia isso e dava essas palestras. Pra que valorizasse, que valorizasse a nossa criança, que a nossa criança não fosse discriminada dentro das escolas, porque você sabe que é. Eu fui pra escola de trancinha. Trancinha, lacinho. Minha mãe gostava de aprontar a gente bonitinho, então lacinho, trancinha, e a gente geralmente era discriminado pela trancinha. Então tinha que falar que a trancinha é nossa cultura. É bonito, nós somos negros, lindos, e não tem nada que menino achar que nossa trancinha tá feia, nossa trancinha tá linda.233
Nota-se que a atuação do movimento negro não se resumia a ir conversa somente com os alunos, mas de promover uma formação dos professores para que estes tivessem consciência de que a criança negra sofre discriminação nas escolas e que os professores teria que estar atentos a isso. Pois, a discriminação tem sido um dos fatores de repetência e evasão de crianças negras das escolas.234 Nossa entrevistada, toca numa questão, que é motivo de alta estima e identidade, o cabelo da criança negra, especificamente o penteado que utiliza, as tranças. Nilma Gomes que estudou sobre corpo negro e cabelo crespo conclui que “Para esse sujeito, o cabelo carrega uma forte marca identitária e, em algumas situações, é visto como marca de inferioridade.”235 Isto porque:
O cabelo do negro na sociedade brasileira expressa o conflito racial vivido por negros e brancos em nosso país. É um conflito coletivo do qual todos participamos. Considerando a construção histórica do racismo brasileiro, no caso dos negros o que difere é que a esse segmento étnico/racial foi relegado estar no pólo daquele que sofre o processo de dominação política, econômica e cultural e ao branco estar no pólo dominante. Essa separação rígida não é aceita passivamente pelos negros. Por isso, práticas políticas são construídas, práticas culturais são reinventadas. O cabelo do negro, visto como “ruim”, é expressão do racismo e da desigualdade racial que recai sobre esse sujeito. Ver o cabelo do negro como “ruim” e do branco como “bom” expressa um conflito. Por isso, mudar o cabelo pode significar a tentativa do negro de sair do lugar da inferioridade ou a introjeção deste. Pode ainda representar um
232 DIÁRIO REGIONAL. Ituiutaba, 3 mar. 2002.p. 1-2. I Seminário de direitos Humanos tinha como “objetivo e conhecer, buscar e proteger o cidadão de raça negra, buscando alertar para as diversas formas de discriminação e elevar a autoestima do cidadão negro”.
233 Adirce Maria, entrevista realizada em 20 agosto de 2016.
234 CAVALHEIRO, Eliane S. Introdução. Educação antirracista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.639/0. Brasília: MEC-SEC D, 2005, p.12.
235 GOMES. Nilma Lino. Educação, identidade negra e formação de professores/as: .um olhar sobre o corpo negro e o cabelo crespo. Educação e Pesquisa, São Paulo, v.29, n.1, p. 167-182, jan./jun. 2003.p. 173.
sentimento de autonomia, expresso nas formas ousadas e criativas de usar o cabelo.236
A autora esclarece como a classificação do cabelo em ruim ou bom, marca a construção do racismo brasileiro, mas que não é aceita pelos negros, como Adirce apontou a mudança que penteado adquiriu ao longo do tempo, na sua época de escola as tranças representavam a marca de inferioridade, pois era discriminada por usar esse penteado, mas atualmente é visto como valorização da cultura negra, o penteado é usado como marca da identidade de crianças negra.
Com a aprovação da legislação federal as ações dos movimentos negros tiveram mais legitimidade como em ações como um projeto que procurava trabalhar a lei 10639/03 do Grupo de Estudos e consciência negra. “Nos Caminhos da Cultura Afro-brasileira”. Nele constava que o vinte de novembro contava com uma série de atividades culturais e desfiles de beleza.
A Fundação Zumbi dos Palmares, que recebe uma verba do município para suas despesas. Aparece no orçamento do município de Lei nº 4295, de 2014 com uma previsão de gasto com contratação de profissionais especializados na aplicação da lei. Além do profissional, o orçamento previa eventos culturais da FUMZUP dentre eles a Semana da Consciência Negra.
E a fundação foi criada pra isso. Pra atender à comunidade. Pra agregar a comunidade. Se você tivesse um projeto, que hoje não funciona assim, por exemplo, você pertence à escola fulana de tal. Olha, eu tenho um projeto aqui pra trabalhar, pra tirar a criança de rua, tal. Qual é o passo do projeto? O que que você precisa? Então isso, isso, leva lá na fundação e a fundação obrigatoriamente teria que correr atrás do recurso. Foi pra isso que ela foi criada. Pra agregar. O grupo de estudo precisa de um projeto. Que trabalhar com tirar as crianças da rua. Inclusive nós tivemos esse projeto no grupo de estudo.237
Além de aprenderem a tocar, os alunos teriam aulas de informática e digitação, como meio de os prepararem para o ingresso no mercado de trabalho.238
Então nós do grupo reunia as crianças, levava pro Palmeira Clube, que era o espaço que a gente tinha, e o Vicente Paixão trabalhava essas crianças na escola de samba. Mas pra essa criança ter acesso a esse projeto, ele tinha que ter nota boa lá na escola. Ele tinha que frequentar a escola, tinha que ter nota, tinha que ter comportamento, tinha que ter aquilo que você sabe que tem que ter um projeto dessa forma. Então geralmente a gente voltava, por a
236 GOMES. Nilma Lino. Corpo e cabelo como símbolos da identidade. Ação educativa.[20..]. p. 3Disponível em:<http://acaoeducativa.org.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Corpo-e-cabelo-como-s%C3%ADmbolos- da-identidade-negra.pdf.>. Acesso em 23 de jan. 2018.
237 Adirce Maria, entrevista realizada em 20 agosto de 2016.
238 JORNAL DO PONTAL. Ituiutaba, nº 1359, 10 mai. de 2003, p.24 “Projeto promove cultura e profissionalização em Ituiutaba.”
gente estar numa escola de samba mirim, o menino tem que ter nota boa. Nós não trabalhamos na educação? Por que a escola de samba? Porque Rio de Janeiro tem escola de samba, a cultura, entendeu. Então isso trazia pra cá e lá na escola a gente trabalhava a valorização do menino negro. Que nessa época a maioria dos menininho era negra que pertencia à escola. Tinha branco? Lógico que tinha. Lógico que tínhamos branco. Não é? A gente não vai discriminar assim. Criança é criança.239
Outro dado é como a FUZUMP tem procurado promover a implementação da História e Cultura Afro-brasileira e Africana no município240, por meio de parcerias, como a com uma
instituição de curso superior que chega em 2007 na cidade de Ituiutaba o campus avançado da Universidade Federal de Uberlândia a Faculdade de Campus Integrado do Pontal-FACIP, que promove cursos, oficinas e seminários relacionados com a temática da formação para as relações ético-raciais.
239 Adirce Maria, entrevista realizada em 20 agosto de 2016.
CAPÍTULO 3. “QUE FORMIGUINHA É ESSA QUE NÃO ANDA?” IMPLEMENTAÇÃO DO ENSINO DA HISTÓRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA E AFRICANA EM DUAS ESCOLAS DE ITUIUTABA
Neste capítulo no primeiro momento procuro relatar as ações das secretarias de educação do município de Ituiutaba diante da aprovação da lei federal 10639/03 que tornava obrigatório o ensino da História e Cultura da Afro-brasileira e Africana, nos estabelecimentos de ensino, ações estas que sinalizaram ou não para Implementação dessa legislação.
Em seguida apresento o ambiente escolar, local de trabalho das professoras de História. Descrevendo as características físicas desse lugar, bem como procurando perceber os aspectos políticos presentes em um dos seus documentos, o Projeto Político Pedagógico-PPP, que oferece pistas de qual tipo de currículo é ou pode têm a intenção de ser praticado nessas instituições. Imagino assim poder fazer emergir a cultura escolar destas instituições educacionais.
No próximo passo descrevo o perfil dessas profissionais colaboradoras a partir das informações coletadas de um questionário aplicado a elas, na sequência procuro dialogar com as falas dessas profissionais no sentido de ter uma compreensão de como desenvolviam seu trabalho, e se o ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Africana esteve presente ou não nas suas práticas pedagógicas.
E por último descrevo as duas últimas atividades desenvolvidas por mim, no ano de 2017, como uma possibilidade de trabalho da História e cultura afro-brasileira e africana na sala de aula.