Paragraphe I- Le modèle d'accumulation 1966-1979
2- Le processus d'accumulation et son fonctionnement :
O debate dos saberes locais, adotados também como conhecimentos tradicionais ou indígenas, tem surgido com o objetivo de chamar a atenção da pluralidade de sistemas de produção de saber no mundo e sua importância nos processos de desenvolvimento (SANTOS et al., 2004); estes respondem à tradição de cada povo ou comunidade, a qual, segundo Vansina (1985), é composta pelo
produto resultante da memória e do esquecimento, e pelo processo que produz esse conteúdo.
A expressão ―tradição oral‖ é aplicada tanto ao processo quanto aos produtos. Os produtos são mensagens orais baseados em mensagens orais prévias, pelo menos uma geração mais velha. O processo é transmitido dessas mensagens por boca a boca até o desaparecimento da mensagem (VANSINA, 1985, p. 3).
A lógica ou estrutura interna que resulta da satisfação das necessidades com a exploração dos recursos naturais e as relações de autointeresse entre homens apresenta uma base de sistemas simbólicos (MARCUS; FISCHER, 1986), os quais, ao serem formalizados e aprovados, são posteriormente transmitidos. As práticas e as normas se reproduzem ao longo das gerações na atmosfera lentamente diversificada dos costumes, assim as tradições se perpetuam em grande parte mediante a transmissão oral, com seu repertório de anedotas e narrativas (THOMPSOM, 1992).
A acumulação dos conhecimentos locais reflete em certa medida os sistemas de adaptação importantes para a permanência num determinado lugar, que passam a ser constantes quando são efetivos e garantem a sobrevivência (MENESES, 2003). São esses saberes refletidos em experiências acumuladas que permitem que as técnicas de usos dos recursos naturais sejam utilizadas em benefício próprio e do ecossistema, rompendo com o mito de que o único papel do homem é modificar seu ambiente de forma negativa (SANTOS et al., 2004).
Quando há um certo equilíbrio entre o uso dos recursos com a necessidade das populações locais, o conhecimento tende a ser culturalmente mantido. No entanto, quando as interferências são alheias ao espaço, as tradições não são mantidas; o meio é modificado, e seu valor local perdido (Santos et al., 2004 p. 66).
Embora exista uma diferença aparente na definição dos conhecimentos locais e tradicionais (enquanto os primeiros outorgam uma noção limitada ao meio e de difícil aplicação a outros, os segundos remetem a presença de um sistema homogêneo de pensamentos), o importante é considerar que os conhecimentos são socialmente construídos, resultando de práticas sociais organizadas e vinculados a contextos e situações específicas, portanto que não há nem conhecimentos puros, nem
conhecimentos completos, há ―constelações de conhecimentos‖. (SANTOS et al., 2004).
Lévi-Strauss (1989) foi um dos antropólogos que iniciou os estudos dos saberes locais, ou etnociência, ao analisar os sistemas de classificação indígena e sua relação com seus conhecimentos e manifestações sociais. As comparações interculturais entre a ciência ocidental e os sistemas de conhecimento local trouxeram nova informação ao debate, mostrando continuidade e disjunções entre eles (HORTON, 1967), sendo que as dicotomias criadas entre o conhecimento especializado e os locais (racional/mágico, universal/particular, teórico/prático) condicionam o modo de argumentação privilegiando uma forma de conhecimento em detrimento de outras (SANTOS et al., 2004).
Com o decorrer dos anos e baseados em pesquisas etnocientíficas, veem-se conceituando pontualmente o conhecimento ou saberes locais. Para Diegues; Arruda (2001) os conhecimentos tradicionais representam as experiências e formas de apropriação dos recursos naturais.
Conjunto de saberes e saber-fazer a respeito do mundo natural, sobrenatural, transmitido oralmente de geração em geração [...] existem diferenças marcantes entre as formas pelas quais as populações tradicionais produzem e expressam seu conhecimento sobre o mundo natural e aquelas que foram desenvolvidas pela ciência moderna. Essas diferentes visões se refletem no uso de conceitos desenvolvidos e aceitos por esta última, como o de recursos naturais, biodiversidade e manejo. (DIEGUES; ARRUDA, 2001, p. 30-31).
Schmidt (2001) acrescenta que a construção dos conhecimentos tem vasta relação com o ambiente físico e social habitado pelas populações dependendo da junção entre ―os saberes dos antigos‖ com os cotidianos; em palavras de Cunha (1999, p 159) ―uma combinação de pressupostos, formas de aprendizado, de pesquisas e de experimentação‖ ou como Santos et al. (2004) sintetizam: um conhecimento prático, coletivo, implantado no local refletindo as experiências. Pelas características, a proteção do conhecimento local considera-se um regime particular, de uso próprio ou sistema sui generis, que considera aspectos religiosos, culturais, sociais e ambientais ligados ao conhecimento local.
Segundo Hounde (2007), o conhecimento tradicional pode apresentar seis tipos de representações inter-relacionados entre si. a) Observação objetiva, classificação e sistema dinâmico, b) Sistema de manejo, c) Conhecimento objetivo do uso
passado e atual da natureza, d) Ética e valores, e) Identidade cultural, e, d) Cosmologia. A primeira refere-se ao conhecimento que ostentam os habitantes para sua sobrevivência, sendo relevante para os planos de manejo de recurso naturais. A representação em sistema de manejo ressalta a compreensão dos habitantes locais sobre os processos ecológicos, que permitem o uso sustentável dos recursos naturais através da conformação de diferentes estratégias. A terceira representação refere-se à dinâmica espaço–temporal do conhecimento tradicional sobre as condições dos recursos em seus territórios, sendo transmitido entre gerações por meio da oralidade. A representação ética e valores relaciona as boas práticas que devem ser adotadas para o manejo adequado de atividades extrativistas. A Identidade cultural ressalta a importância de lugares que ostentam um significado intrínseco para a comunidade, gerando uma relação visceral com o território que está representado por meio de histórias. Finalmente, a representação através da cosmologia compreende o imaginário e significados do meio do qual os indivíduos se encontram, gerando rastros culturais que estabelecem sua identidade e a maneira como se relacionam com seu entorno.
Nesta pesquisa, os saberes locais representam uma base para a compreensão da dinâmica temporal da paisagem, já que as formas de apropriação, uso e manejo dos recursos naturais determinam as mudanças dos ecossistemas ao longo dos anos, assim como as necessidades e potencialidades para a recuperação.
3 USO E MANEJO DOS RECURSOS NATURAIS E SUA INFLUÊNCIA NA