Já antes deixamos expresso o principal motivo que nos levou a recorrer ao inquérito por questionário como um dos instrumentos de recolha de dados a utilizar na investigação. Vejamos agora o que é o inquérito por questionário de acordo com o que se extrai da bibliografia da especialidade.
Inserindo-se numa tradição positivista em investigação, orientada por um modelo epistemológico de construção do saber dominado pela noção de objetividade, o inquérito por questionário é um instrumento de observação, baseado numa sequência de questões escritas, que são dirigidas a um conjunto alargado de indivíduos, envolvendo as suas opiniões, representações, crenças e informações factuais, sobre eles próprios e o seu meio (Quivy & Campenhoudt, 2003). Fundamentando-se na afirmação e prática da neutralidade dos métodos de investigação, o paradigma positivista observa a realidade sem o investigador se implicar com o objeto de estudo (Marques & Sarmento, 2007). Foi, de resto, o que aconteceu nesta investigação com os inquéritos por questionário cuja aplicação e recolha aconteceu sem contacto direto entre investigador e inquiridos, já que todo o processo se desenrolou online sem que os intervenientes soubessem quem é quem.
O recurso ao inquérito por questionário permite ao investigador a análise das relações entre as variáveis envolvidas no estudo que está a ser realizado através do seu tratamento estatístico, bem como a comparação de resultados. Tratamento estatístico e análise de dados que quando realizados através de meios informáticos136, tornam o
inquérito por questionário numa técnica de recolha de dados bastante apetecível, sobretudo, quando o investigador necessita de celeridade nesse processo. Lembre-se que o pouco tempo disponível para a investigação foi determinante na opção por esta técnica de recolhas de dados. Também determinante seria o facto de o questionário se constituir como uma técnica privilegiada para recolha de dados extensivos (Cervo & Bervian, 1983), já que possibilita ao investigador medir o que pretende.
135 Todos os passos da investigação tiveram um tempo previsto de execução, de acordo com um cronograma
pensado e elaborado em função do período de tempo que tínhamos disponível para desenvolver e concluir o doutoramento.
136São vários os programas informáticos existentes no mercado para organização de dados e análise estatística, tais como
o SPSS (http://www.ibm.com/analytics/us/en/technology/spss/), o Minitab (http://www.minitab.com/pt-br/), o Statistica (http://www.statsoft.com/) e o SAS (http://www.sas.com/pt_pt /home.html).
Partindo do princípio defendido por Hill & Hill (2008) de que “é muito fácil elaborar um questionário mas não é fácil elaborar um bom questionário” (p. 83), ou seja, elaborar um questionário que consiga colher os dados para responder às hipóteses operacionais de uma investigação porque estas dependem da natureza das hipóteses gerais, dos métodos de investigação e dos métodos de análise de dados. E tendo em atenção que “para tomar boas decisões, o investigador precisa de um plano porque, na elaboração de um bom questionário, a palavra chave é ‘PLANEAMENTO’137” (Id., ibid.), foi elaborado um plano
contendo: (i) as variáveis da investigação; (ii) o número de perguntas para medir cada uma das variáveis; (iii) a versão inicial de cada pergunta; (iv) a identificação dos tipos de hipóteses, das diferenças entre grupos de casos138 e de relações entre variáveis; (v) as
técnicas estatísticas adequadas para testar a hipótese, nomeadamente as que se referem ao tipo de escala de medida das respostas; (vi) a definição do tipo de resposta desejável para cada pergunta; (vii) as instruções associadas com as perguntas para informar o respondente como deve responder; (viii) e, finalmente, o planeamento das secções do questionário139
(Id., ibid., pp. 84-87).
Desse plano, e assente no princípio de que todos os instrumentos de recolha de informação devem ser previamente testados (Foddy, 1996; Moreira, 2007; Bell, 2008), resultou um “pré-teste”140 (Foddy, 1996; Gaspar, 1996; Ghiglione & Matalon, 1997;
Moreira, 2007), cujo primeiro objetivo era o de, eventualmente, melhorar o questionário a aplicar, através das opiniões dos inquiridos e da forma como eles perceberam as perguntas (Foddy, 1996, p. 204). Ou seja, se as questões faziam sentido, se eram compreendidas e provocavam as respostas esperadas e se as instruções eram suficientes (Moreira, 2007, p. 248). Depois, não menos importante, era saber quanto tempo demorariam os inquiridos a responder ao questionário (Bell, 2008, p. 128). Aqui a importância derivava do receio que tínhamos de que os inquiridos abandonassem o inquérito antes de chegar ao fim devido ao tempo necessário para responder e porque estávamos convencidos que o feedback obtido no que a este aspeto dizia respeito nos permitiria eliminar questões que não conduzissem a dados relevantes (Id., ibid.), reduzindo dessa forma o tempo de resposta e,
137 A negrito no original.
138 Para Hill e Hill (2008), “tecnicamente chamam-se ‘casos’ da investigação aos respondentes ao
questionário” (p. 87).
139 Segundo Hill e Hill (2008, p. 163) a palavra secção significa um bloco de perguntas que têm um tema
homogéneo.
consequentemente a probabilidade de não resposta por abandono do questionário antes do fim do seu preenchimento.
Este pré-teste, que no dizer de Gaspar (1996) é uma “aplicação experimental do questionário” (p. 54), do qual falaremos em pormenor no ponto 5.2 deste capítulo, foi aplicado a “uma pequena amostra de indivíduos com características idênticas à população do estudo” (Moreira, 2007, p. 248).
Dado ser nossa intenção obter informação qualitativa para contextualizar e complementar informação quantitativa, o questionário aplicado foi, de acordo com a tipologia de Hill & Hill (2008), do tipo misto. Isto é, dele faziam parte perguntas cujas respostas eram construídas e escritas pelo próprio respondente – perguntas abertas –, e perguntas nas quais o respondente tinha que escolher entre um conjunto de opções de resposta alternativas fornecidas pelo autor do questionário, as chamadas perguntas fechadas. Perguntas fechadas para as quais, na maioria, optamos pela utilização de uma escala de Likert de cinco níveis, sendo os níveis mais utilizados: discordo totalmente; discordo; não concordo nem discordo; concordo; concordo totalmente. A estes cinco níveis entendemos juntar uma sexta opção de resposta – não sei –, para os casos em que o respondente não conseguisse ou não estivesse em condições de responder.
No que respeita à natureza das perguntas, seguindo os conselhos de Hill e Hill (ibid.) procurou-se o equilíbrio entre perguntas gerais e perguntas específicas e, igualmente, o equilíbrio entre perguntas abertas e fechadas já que este equilíbrio permitia um compromisso entre a objetividade dos comportamentos a estudar e o grau de detalhe e liberdade na sua abordagem (Ghiglione & Matalon, 1997). Também foi tido em conta que a extensão e a clareza das perguntas é fundamental para o sucesso de um questionário, admitindo que estes atributos se influenciam reciprocamente, ou seja, quanto maior a extensão menor a clareza e vice-versa (Hill & Hill, 2008).