5.4 Discussion
6.4.5 Le mal du simulateur
Sabe-se a partir de Marx (1991), que os objetivos da geração da relação social chamada capital advém da progressão das necessidades humanas, sejam individuais ou coletivas. Quando falamos em uma determinada atividade sob a rubrica desta relação, estaremos provavelmente relacionando em nosso discurso as características dos instrumentos de sua produção, ou seja, os meios de corporificação do trabalho.
Dessa forma a história (no sentido de uma direção e de um processo) é instrumento fundamental para entendermos as nuances da mudança. Milton Santos (1996) afirmara que ‘a roda’ do capitalismo não pára, por que se inventa a cada minuto, e na sua alteridade, salienta ou prostra relações, espaços, objetos e atividades na medida das adaptações regulares dos seres humanos. Com isto, ele quer dizer que existe uma lógica de sincronia da produção humana com a técnica, com o tempo e com a lucratividade que demanda a necessidade de melhoramentos ‘daquela roda’ a toda hora.
Para entendermos esta idéia na prática, basta atentar para o decurso da historia local do nosso objeto de estudo: a produção de bananas de Jacinto Machado. Esta atividade, na sua manifestação recente (a partir do final dos anos 80) contém a explicação para a sua condição atual de marginalidade.
Rugosidades para Santos (1978) são formas extemporâneas, de tempos pretéritos, na maioria das vezes obsoletas e descontextualizadas, e que não apresentam função, a não ser a de representar um marco vivo do processo de produção. Com isto quer se dizer que não há
como ignorar a perspectiva da duração dos eventos. As rugosidades existentes nos subespaços são importantes contribuintes para se conhecer a acumulação de ações nos níveis concretos de existência, ou seja, os processos (fluxos) que ocorrem entre a escala local-global. Podemos então utilizar essa analogia (com as devidas ressalvas) para apontar a necessidade de ajustes da produção da fruta naquele município.
Assim devemos contextualizar o panorama social experimentado naquele momento. A primeira grande constatação é que os anos 80 marcam a entrada do país em uma nova fase social. Embora a economia nacional cresça em ritmo desacelerado, a ponto dos cientistas proclamarem os anos 80 como a “década perdida”, o que se presencia é uma reordenação dos padrões de desenvolvimento espacial no país, que não podem ser desmerecidos, sejam eles dados pelos novos comportamentos e gostos humanos, no fortalecimento do poderio das empresas e do setor produtivo privado ou ainda no papel do Estado na articulação de procedimentos legais. BENKO (1996).
Para se ter uma idéia dessa reordenação, basta atentarmos topicamente para a mudança do padrão consumo de alimentos do brasileiro. Historicamente muito mais focada na disponibilidade regional, a década de 80 e o inicio dos 90 vão marcar um divisor de águas para a historiografia do consumo alimentar no Brasil através da abertura comercial e do aumento da disponibilidade de alimentos através ampliação das redes de varejo. O crescimento populacional traz a necessidade da artificialização das cadeias agroalimentares. Assim, fortalece o rigor agroindustrial com o agronegócio, o agribusiness e automaticamente se estabelece novos parâmetros culturais para a prática social do comer e do alimentar-se.
Para exemplificarmos esses novos padrões a partir dos anos 80 construirmos um gráfico simplificado contendo a evolução de consumo de algumas frutas que ao nosso ver constituem a alimentação das populações interioranas no país. Repare-se então no graf. 4 a tendência decrescente de consumo nos três anos disponíveis e, em espacial ao consumo em quilogramas/ano
Gráf. 4 – Estimativa da evolução do consumo por habitante de algumas frutas no Brasil38 0 5 10 15 20 Banana-prata Laranja-pêra Tangerina Maçã Uva
Quantidade consumida (kg/ano) 1974 1987 1996
Fonte:P.O.F/IBGE 1987 e 1996 e Levantamento Estatístico de Aquisição Alimentar 1974 - IBGE
* Toma-se como base de análise a banana-prata e a laranja-pêra;
** Não conseguimos obter dados a respeito do consumo de Maçã e Uva no ano de 1974.
Nesse sentido é importante fazermos uma ressalva. Embora Não é somente pela maior disponibilidade de recursos e ativos técnicos e dos organismos de crédito que se garante a agricultura o seu caráter de setor econômico essencial, mas justamente na contrapartida social, ou seja, a adaptabilidade das atividades (e da população) aos ambientes jurídico, social e econômico.
A bananicultura de um modo geral, pouco se adaptou as mudanças tecnológicas. Enquanto algumas zonas produtivas eram criadas com advento de programas estatais e de incentivo a fruticultura (vide a CODEVASF no Norte Mineiro, e Sudeste da Bahia; o Nordeste catarinense, e o Rio Grande do Norte) foram se desenvolvendo as custas de um processo de excelência (irrigação, rigoroso controle de qualidade dos frutos, crédito rural extensivo, utilização de mudas certificadas, associativismo comercial para exportação, modelo empresarial de gerenciamento da cadeia) e outras, como o Vale do Ribeira, iam se
38 Existem muitas disparidades de metodologia e de dados a respeito do consumo de alimentos no Brasil. Optamos, todavia
tencionando para acompanhar o ritmo das mudanças, a bananicultura do sul do Rio de Janeiro e do sul catarinense, iniciavam seu período de agruras, sistematizados pela dificuldade de adaptação as novas necessidades que o mercado impunha como: normas de qualidade do produto, capacidade de resposta tecnológica, e aumento absoluto da oferta nacional da fruta.
Prancha 2 - Aspectos da realidade da produção de bananas em Jacinto Machado
Sobre este último aspecto, salientamos que o escoamento da produção do município de Jacinto Machado foi bastante prejudicada, por que houve a partir de 1980 um aumento expressivo de oferta especialmente dos estados de Minas Gerais e Bahia e Pernambuco e do Norte catarinense, e uma intensificação das redes de abastecimento das zonas produtivas daqueles estados em direção aos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, maiores
demandantes nacionais da fruta SIQUEIRA (1997). Por motivos logísticos e de qualidade, a banana jacintomachadense que como já mencionamos era escoada para estes centros consumidores, passou a ser paulatinamente preterida, o que auxiliou o panorama de diminuição da produção com o abandono da atividade e o êxodo rural39.
A seguir, apresentamos um gráfico com a evolução da área plantada no país por estados. Reparem a evolução total entre os censos de 1970 e 1985, bem como os avanços de produção de Santa Catarina, Bahia e Pernambuco neste período.
Gráf. 5 - Evolução da área plantada (ha) com bananas no Brasil, por estados.
Fonte: Censos Agropecuários do IBGE
Em consonância a grande expansão da área de produção nacional de bananas, outra questão importante para a constituição do panorama de crise na bananicultura vem da própria organização dos agentes. O agricultor é na maioria das vezes vítima de sua frágil condição sócio-econômica (falta de conhecimentos técnicos, de educação básica, dificuldade de articular/incentivar outros produtores a produzir e de receber conselhos e críticas), acabando por estar terminantemente dependente dos interesses de grupos de comerciantes provenientes ou não de outras cidades.
39 A população rural do município que segundo o IBGE era de 9.958 pessoas em 1980 sofreu um decréscimo de 29% até
ano de 1996, totalizando 7.082 habitantes. Segundo Speck (2004) pode-se atribuír este panorama aos problemas conjugados da lavoura da banana que no inicio da década de 80 constituía a melhor fonte de renda das propriedades.
BOX IV - A coordenação da cadeia no município: o alijamento do agricultor.
Ao nosso ver, não se pode apreender o significado da crise da produção de bananas sem atentar para as questões de estruturação da cadeia produtiva. Salientamos que não é nosso objetivo dedicarmos esforços em demasiado para a explicação das estratégias setoriais, mas torna-se oportuno lembrar que estamos nos referindo a uma prática social, e, pois, a um universo de inter-relações humanas.
Em tempos da globalização as informações e a necessidade dos consumidores/clientes demandaram que mudanças fossem geradas nas cadeias. Da mesma forma ocorreu o rebaixamento de custos de produção e o aumento da taxa de rentabilidade em prol do grande capital comercial e industrial, mas nem todos os agentes e espaços foram beneficiados. (MACHADO, 2002; FARINA 1999)
Acreditamos que como uma amplitude técnica, a cadeia produtiva da banana evoluiu juntamente com a progressão espacial da produção, não somente em termos locais, mas também nacionais e mundiais. Todavia, não se possa falar de uma única estrutura empírica por conta das formações sócio-espaciais distintas que promovem ajustes e deformações no circuito, especialmente a montante (na fase produtiva).
A grande dificuldade da cadeia de bananas e m Jacinto Machado, assim com a maioria das chamadas cadeias de FLV (frutas, legumes e verduras frescos) se encontra no gerenciamento de suas estratégias. Como estas cadeias se definem numa ampla e pulverizada rede de agentes, na qual nem sempre todas as pessoas conhecem o que estão negociando, ou ainda negociam “tête à tête”, não existem mecanismos que garantam especialmente ao agricultor (o elo primário e essencial da cadeia) uma autonomia produtiva ou ainda um poder de barganha para enfrentar um mercado competitivo, por que é o capital comercial que determina os preços.
Da mesma forma o produtor ainda depende fortemente do intermediário o que reforça o papel deste ultimo na constituição da cadeia de valor. Solitário e atomizado, o produtor fica a mercê dos ditames do capital comercial, que abocanha percentualmente mais do que o valor gerado pelo trabalho no campo.
3.4.3 PROBLEMA 3: As dúvidas na modernidade e o discurso estatal na produção de