L’ORGANISATION POLITICO-ADMINISTRATIVE DE LA BOLIVIE
4 L’organisation politico-administrative de la Bolivie
4.3.1 Le maillage administratif est un long processus historique
Depois de analisar os diários de classe da 7ª série do turno matutino de 2010, levantei o nome de alunos que têm os piores índices de desempenho escolar para que pudesse selecionar dois para o estudo. Essa lista contém o nome de sete alunos, entre eles, duas meninas e cinco meninos. Isso ocorreu porque o número de alunos com baixos índices nas avaliações é muito maior do que o de alunas. Após definição dos nomes, fiz uma reunião com a pedagoga, com o propósito de ter o seu parecer. Sônia tece comentários sobre todos eles:
Sônia: - Jany tem bom potencial, não tem problemas de aprendizagem, mas
falta muito, quase não frequenta. Mariana é realmente muito fraca. Wellington também é muito fraco, muito fraco, parece ter problemas de aprendizagem e é muito desinteressado. Paulo tem graves problemas, não consegue aprender. Tarcísio não tem problemas, só não tem interesse, é desmotivado. Quanto a Tadeu e Gilmar, os dois ficaram reprovados e assim não poderiam fazer parte da pesquisa porque estão repetindo a 7ª série/8º ano.
Entre os alunos da lista, apenas um aceitou participar da pesquisa. As meninas frequentam pouco as aulas. Só tive contato com elas dois meses após o início do ano letivo e nunca consegui falar com seus familiares. Há muita resistência ao fato de eu ser psicóloga. Os alunos demonstram acreditar que participar de um estudo comigo era atestar para todos que têm problemas psicológicos/mentais.
Também com algumas resistências, Wellington aceita participar do estudo e após um mês de observação em sala de aula, começamos a nos encontrar para entrevistas após o término das aulas.
Apresento aqui alguns dados sobre Wellington, entretanto, sua história será posteriormente mais detalhadamente apresentada.
Wellington tem 16 anos, é magro, moreno, estatura mediana, cabelos claros e encaracolados e olhos esverdeados. Nasceu em Vitória, no bairro Aimorés, onde sempre residiu. Mudou de casa apenas uma vez, quando era pequeno, morava no beco e depois foi morar na parte alta do bairro, com a avó, onde reside atualmente.
Sua casa é um sobrado, uma construção simples, de alvenaria, cor de rosa. A rua é asfaltada. O acesso à casa é difícil por ser no alto do morro, em uma rua muito estreita. Em sua casa moram ele, a bisavó, o avô, a avó, a tia, o tio e a mãe. Em nosso primeiro encontro, relata que quando tinha dois anos seus pais se separaram. Ele não sabe o motivo da separação.
Filho único do casamento de seus pais, contudo o pai teve uma filha, hoje com 29 anos, no primeiro casamento. Atualmente o pai está casado, terceiro casamento e tem dois filhos (13 e 7 anos). Sua mãe nunca mais se casou e não teve mais filhos, seu pai tem aproximadamente 50 anos e sua mãe 35. O pai é funcionário público e trabalha em uma empresa de saneamento da cidade e reside em um município que faz parte da Grande Vitória. Wellington não sabe qual é a escolaridade do pai. A mãe tem 7ª série, trabalha em uma pizzaria e também vende espetinhos em uma garagem.
Wellington sempre estudou na mesma escola e ficou reprovado na 5ª série por duas vezes.
Em nosso primeiro encontro ele fala sobre as reprovações, conta que faltava muito às aulas e não gostava de estudar. Procuro saber mais sobre sua história escolar.
Pesquisadora: - O que você pensa que fez com que ficasse reprovado por duas vezes?
Wellington: - Os amigos.
Wellington: - Eu ia com eles para o subsolo da escola, onde ficávamos
escondidos e por isso fiquei reprovado por falta e nota.
Pesquisadora: - Você tinha mais dificuldade em alguma disciplina?
Wellington: - Minha maior dificuldade era na leitura e escrita, e ainda tenho
essa dificuldade. Eu também troco o D e o T. Nos números sou muito bom.
Pesquisadora: - Como estão as notas neste ano?
Wellington: - Não sei, porque não recebi nenhuma.
Pesquisadora: - Na escola alguém já percebeu que você tem dificuldade na leitura e na escrita e que troca o D e o T?
Wellington: Não. Eles não têm tempo, têm muitos alunos. Nem sabem quem eu sou. Mas nem eu sei quem eu sou. (Silêncio.)
Wellington atualmente não trabalha, mas no final do ano 2010, durante as férias, trabalhou com lanternagem e pintura de carro. Segundo seu relato, “estava indo muito bem, já sabia fazer tudo”, mas quando a aula começou, achou que iria prejudicar os estudos e só iria ganhar R$ 10,00 por dia, por isso resolveu não trabalhar mais.
Faz uma única atividade além de estudar, o basquete na escola, no período da tarde. Quando estava trabalhando, como tinha dinheiro, podia pagar e fazia Muay Thai, um tipo de luta marcial. Diz adorar lutar. Teve que deixar por falta de dinheiro para as mensalidades. Gosta de esportes. Durante os recreios sempre está na quadra jogando ou assistindo a jogos.
Frequenta uma igreja evangélica, Presbiteriana. Passou a frequentá-la porque seu chefe na oficina o levou e ele gostou. Não é a igreja de sua família. Ele não sabe qual a religião da família. Comenta que nunca foi batizado e que gostaria de ter sido.
Apesar de durante nosso encontro ter sido muito comunicativo, ter uma boa fluência, demonstrar gostar muito de conversar, durante minhas observações em sala de aula, percebo que ele não consegue se expressar tão bem, é sempre muito quieto, não participa muito, fica muitas vezes alheio. É sempre muito educado, assíduo, procura sempre acatar as normas da escola. Quando consegue, faz as atividades propostas pelos professores em sala.
Tem muita dificuldade para escrever, em tarefas onde é exigida a leitura e escrita fica perdido, demora muito, pede ajuda aos colegas. Durante um ditado na aula de Português, não consegue acompanhar e copia do colega ao lado. Algumas vezes em que precisa ler em voz alta, para toda a turma, não consegue. Fica constrangido, abaixa a cabeça.
Em um dia em que seu grupo deveria apresentar um trabalho, quando chegou sua vez de falar, não consegue ler uma folha com o texto referente à apresentação. Parece apavorado e o colega ao seu lado lê ao seu ouvido para que ele repita em voz alta. Ao final da apresentação é humilhado pela professora por não saber ler.
A professora comenta, ao final de sua apresentação: - Vocês sempre falam em
mico, mas mico pra mim é ir para frente e nem saber ler. Isso é vergonha, é mico.
Wellington permaneceu de cabeça baixa.
Nenhum professor parece saber de suas dificuldades de leitura e de escrita. Em algumas provas, por apresentarem questões interpretativas, ele não consegue ter um bom desempenho e me diz não ter conseguido entender as questões. Nunca, em nenhum momento em minhas observações, algum professor demonstrou perceber as dificuldades de Wellington e nunca propuseram nenhuma estratégia para sua aprendizagem. Ele sempre está sozinho e muitas vezes busca ajuda junto aos colegas.
Durante conversas que tive com alguns de seus professores, relatam não saber de suas dificuldades. Alguns sequer sabem quem ele é.
Em muitos de nossos encontros, ele relata não saber quem é, não saber sobre sua história.
Wellington: - Nem sei quem sou. Não sei sobre quando era bem pequeno,
mas não tenho curiosidade para perguntar. Não quero saber do passado, mas gostaria de saber o que vai acontecer amanhã. Tenho medo de perguntar algumas coisas pra minha mãe e ela ficar triste. Prefiro não perguntar. Não sei quem sou eu. (Abaixa a cabeça e passa as mãos no cabelo.)
Nos capítulos seguintes, com o propósito de conhecer mais sobre Wellington, sobre a escola pesquisada, e sobre as políticas de avaliação do governo federal, apresentarei mais densamente o que se desvelou a partir do material obtido em campo.
4 AS POLÍTICAS QUANTIFICADORAS DO GOVERNO E SEUS