B. Des structures partenariales existantes fortes d’une expérience de coordination locale des acteurs
V. Le groupe départemental de pilotage des classes relais
A terceira carta (Cx4cp05), selecionada como sugestiva do sistema literário na medida em que é reveladora dos bastidores do mercado editorial, evidenciando o peso principalmente das traduções e da crítica literária é assinada por Paulo Rónai.
Cx4cp05 Datilografada
Remetente: Paulo Rónai
Local/data: Rio de Janeiro, 2 de maio de 1946 Ver cp99 e cp122
Rio de Janeiro, 2 de maio de 1946
Ilustre Amigo e Senhor J. Guimarães Rosa,
Recebi o seu livro Sagarana e apresso-me a agradecer-lhe a fineza de ter-se lembrado de mim.
Por enquanto, desejo dizer-lhe já quais as qualidades que mais me prenderam. Uma rara originalidade antes de tudo: amplidão épica da narrativa; a riqueza extraordinária da língua e a flexibilidade do estilo; capacidade igualmente forte para o trágico e cômico; conhecimentos verdadeiramente enciclopédicos sobre plantas, bichos, costumes, superstições e tradições do Brasil e o conhecimento profundo do brasileiro, e, em geral, da natureza humana; uma curiosidade das mais vivas e uma excepcional faculdade de observação para satisfazê-la. Vários desses dotes encontram-se separados ou reunidos em outros escritores também; o que, a meu ver, lhes dá um colorido novo na obra do Amigo. É que a gente sente a subestrutura sólida de uma vasta cultura e o controle seguro de um escritor inteiramente consciente e lúcido. Por um efeito deveras admirável deste controle a sua cultura não prejudica a espontaneidade.
Sagarana tem alguns aspectos que eu de maneira alguma poderia abordar: os da língua, do estilo, da cor local exigem apreciação de críticos e eruditos brasileiros. Mas, talvez possa me aventurar a examiná-lo de um ponto de vista especial, o da arte de contar, problema de que tanto me preocupo desde que estou compilando Mar de Histórias. A minha segunda leitura do livro obedecerá pois, a esse critério (E já prevejo uma terceira, exclusivamente consagrada a um estudo linguístico, só para mim, a fim de completar meus conhecimentos do português do Brasil; e uma quarta, inteiramente desinteressada, só pelo prazer de ler e saborear...).
Quis comunicar-lhe também, lealmente, minhas restrições, mas não as tenho – a não ser que o estilo, às vêzes, me parece denso demais, “trop touffu”. Agora é bem possível que isto apenas seja uma prova do meu desconhecimento da língua brasileira e de seus inúmeros recursos.
Talvez o meu interesse, a minha ordem de preferência, inteiramente subjetiva: A hora e a vez de Augusto Matraga, O burrinho pedrês, Duelo, A volta do marido pródigo, Corpo Fechado, São Marcos, Sarapalha, Minha Gente, Conversa de bois. Um de meus futuros projetos consiste na publicação de uma antologia húngara do conto brasileiro e, desde já, peço autorização para incluir o primeiro da lista acima (De certo, não será fácil traduzi-lo). Penso incluir nesse livro ao máximo doze contos, de outros tantos autores: Machado, Lima Barreto, Mário de Andrade, Alcântara Machado, Ribeiro Couto, Marques Rabelo, Haníbal Machado, Monteiro Lobato, Luís Jardim, Lia Correa Dutra, Aurélio Buarque de Holanda... Espero, aliás, que me ajudará com sugestões.
Já entreguei ao Aurélio o exemplar destinado a ele.
Permita-me assinar esta carta, além da estima e da amizade de sempre, com a minha nova e sincera admiração pela sua arte
Paulo Rónai
(assinatura manuscrita)
Rónai acena com duas possibilidades.
A primeira é a publicação de um artigo em periódico, cujo foco será a estrutura narrativa, uma vez que, como já mencionado, Rónai avalia insuficientes seus conhecimentos acerca da “língua, estilo e cor local” (Cx4cp5).
A segunda possibilidade, bem mais atraente no que diz respeito à circulação, é a tradução, que abriria as portas do mundo para Sagarana.
Talvez o meu interesse, a minha ordem de preferência, inteiramente subjetiva: A hora e a vez de Augusto Matraga, O burrinho pedrês, Duelo, A volta do marido pródigo, Corpo Fechado, São Marcos, Sarapalha, Minha Gente, Conversa de bois. Um de meus futuros projetos consiste na publicação de uma antologia húngara do conto brasileiro e, desde já, peço autorização para incluir o primeiro da lista acima (De certo, não será fácil traduzi-lo). Penso incluir nesse livro ao máximo doze contos, de outros tantos autores: Machado, Lima Barreto, Mário de Andrade, Alcântara Machado, Ribeiro Couto, Marques Rabelo, Haníbal Machado, Monteiro Lobato, Luís Jardim, Lia Correa Dutra, Aurélio Buarque de Holanda...Espero, aliás, que me ajudará com sugestões.
Já entreguei ao Aurélio o exemplar dele (Paulo Rónai, Cx4,cp5).
Chama a atenção o discurso persuasivo de Rónai. A lista, que se inicia com Machado de Assis, Lima Barreto, Mário de Andrade e Alcântara Machado (já falecidos), prossegue com autores ainda vivos àquela época.
Quem fecha a lista é o companheiro de Rónai na organização da antologia de contos mundiais, Aurélio Buarque de Holanda, seguido de reticências, o que marcaria o caráter quase irrecusável do convite, que, se aceito, ampliaria a circulação de Sagarana para além das fronteiras da língua portuguesa.
A antologia húngara de contos brasileiros viria a ser publicada apenas em 1986. Segundo a dissertação de mestrado intitulada Paulo Rónai, um brasileiro made in Hungary, (SPIRY, 2009, p.39-40),
Boszorkányszmbat de 1986 é um livro de contos brasileiros organizado, selecionado
e anotado por Rónai: começa com um conto de Machado de Assis, passando por Lima Barreto, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, em um total de 18 autores (SPIRY, 2009, p.39-40).
Persiste a dúvida se Rónai incluiu ou não “A hora e a vez de Augusto Matraga” em seu projeto anunciado quarenta anos antes em carta a Guimarães Rosa, uma vez que na bibliografia consultada encontrou-se apenas uma tradução para a língua húngara. Trata-se de “A terceira margem do rio”, publicado em 1968 na revista Nagyvilág (OLIVEIRA, 2004, p.513).
Em resposta ao e-mail de 4 de dezembro de 2010 (ver anexo), em que se pergunta a Spiry se Guimarães Rosa está entre os dezoito escritores brasileiros que compõem
Bozorkányszmbat, a pesquisadora gentilmente enviou a relação dos dezoito autores, o título do conto em húngaro e em português.
Tabela 7. Contos de Bozorkányszmbat
ESCRITOR TÍTULO EM HÚNGARO TÍTULO EM PORTUGUÊS
Machado de Assis Egy apa-egy anya Pai contra mãe
Afonso Henriques de Lima Barreto Aki tudott jávaiul O homem que falava javanês
José Bento Monteiro Lobato Vevö a tanyán O comprador de fazendas
Mário de Andrade Karácsonyi pulyka O peru de natal
Aníbal M. Machado A liftes O ascensorista
Rui Ribeiro Couto Boszorkányszombat Mistério de sábado
João Alphonsus de Guimarães Eljött az éjszaka Eis a noite!
António de Alcântara Machado Öt fazék arany As cinco panelas de oiro
Luís Jardim Elvesztett draga táj Paisagem perdida
Carlos Drummond de Andrade Flyópart Beira-rio
Orígenes Lessa Fortaleza Roteiro de Fortaleza
Marques Rebelo A Tijucai Szeszélyesek Caprichosos da Tijuca
João Guimarães Rosa A folyóharmadik partja A terceira margem do rio Aurélio Buarque de Holanda Ferreira Apám kalapja O chapéu de meu pai Rachel de Queirós A kisasszony és a Bandza A donzela e a moura torta Lygia Fagundes Telles Gyerre nézzük meg a naplementés Venha ver o por-do-sol
Oto Lara Resende Arckép a fiókban O retrato na gaveta
Clarice Lispector Boldog születésnapot Feliz aniversário
Fonte. SPIRY, Zsuzsanna. Mensagem pessoal, 2011 (ver anexos).
Não é portanto com “A hora e a vez de Augusto Matraga” que Guimarães Rosa comparece à antologia longamente planejada pelo amigo, crítico e tradutor Paulo Rónai. Se em 1946 esse conto era apontado por grande parte da crítica – Álvaro Lins, Antonio Candido, Agripino Grieco e pelo próprio Rónai em carta (Cx4cp3) – como o melhor conto de Sagarana, atualmente “A terceira margem do rio”, lançado em 1962 como um dos contos de Primeiras Estórias, aparece para outros críticos, como a obra que melhor condensa o estilo e o pensamento rosianos.
Tal é o ponto de vista de Oliveira (2004, p.513), que ao comentar as traduções de “A terceira Margem do Rio” para as línguas inglesa e alemã afirma que “nesse conto identificaram eles [alemães e norte americanos] um dos núcleos do pensamento rosiano, senão que a sua síntese”.
Também Perrone (2003, p.96) corrobora esse ponto de vista. Ao analisar a recepção da obra rosiana nos Estados Unidos no contexto da literatura latino-americana, verificou que “‘The third bank of the river’ apareceu em todas as antologias pertinentes de ficção latino- americana [...] e se estabeleceu como obra e conceito representantes de JGR”.
Talvez por essa razão – a representatividade – Rónai preferisse “A terceira margem do rio” a “A hora e a vez de Augusto Matraga”. Em todo caso, a escolha de Rónai parece evidenciar o crescimento qualitativo da escrita de Guimarães Rosa, bem como o amadurecimento e aprofundamento da fortuna crítica rosiana.
Constituindo-se um instrumento imprescindível à ampliação da circulação da obra literária, a tradução para línguas estrangeiras abre ao escritor não apenas a possibilidade de aumentar o público leitor, mas principalmente a possibilidade de consagração mundial, haja vista o efeito de um prêmio Nobel na vida de um autor.
Entretanto, a tradução do texto literário exige uma série de cuidados.
Nesse sentido, a carta (Cx4cp67) datada de Rosário, 22 de setembro de 1953, aborda alguns aspectos preciosos, acerca da relação de Guimarães Rosa com seus tradutores. Manuscrita, o nome do remetente está ilegível.
Meu caro Guimarães Rosa
Recebi ontem a sua carta do dia 12 e muito lamento a sua decisão. Embora reconheça a extraordinária dificuldade de traduzir “Sagarana” acreditava que poderíamos chegar a fazer um bom trabalho. Adolfo Casalheanea (?), ex ministro da educação, bom conhecedor do idioma luso e pessoa de grande cultura, folclorista também poderia realizar satisfatória tradução castelhana sobretudo se estivéssemos em cima, submetendo qualquer dificuldade à sua apreciação no Rio e algum (?) decano da faculdade de Letras, Dr Frines (?) grande amigo meu. Se você quiser, podemos tentar sem nenhum compromisso. Você poderá recusar definitivamente em qualquer momento. A mim agradam as dificuldades... É preciso superá-las com trabalho e mais trabalho. E “Sagarana” bem o merece.
Xingue o ---(?) por mim, pois há muito não me escreve. Desde que se encarapitou no Gabinete...
Cumprimentos à sua esposa e aceite afetuoso abraço de seu amigo que muito desiludido ficou com a sua carta.
(Assinatura Manuscrita) (Cx4cp67)
Ao reconhecer a necessidade de condições singulares para a tradução de Sagarana, que demandaria “estivéssemos em cima, submetendo qualquer dificuldade à sua apreciação no Rio”, a carta antecipa um dos desdobramentos mais caros do contexto das traduções da obra rosiana: a necessidade do diálogo constante entre autor e tradutor, prática que
posteriormente resultaria na publicação da correspondência de Guimarães Rosa com seus tradutores.
Tais são os casos de João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri (2003), Correspondência com seu tradutor alemão Curt Meyer- Clason (1958-1967) (2003) e Cartas a William Angel de Melo (2003), este último, seu tradutor para a língua espanhola.
Por outro lado, a negativa de Guimarães Rosa, lamentada pelo remetente, talvez tenha duas razões. A primeira talvez tenha a ver com o fato de que no ano de 1953, o escritor já estivesse bastante atarefado com Corpo de Baile e Grande Sertão: veredas, duas obras de fôlego que seriam lançadas em 1956, como sugere carta a Mário Calábria de 7/12/1953, onde declarou já estar “escrevendo um livro, um livrão, um livralhão. São novelas labirínticas, nelas me perco, por elas quero me salvar. Vão ser 9 e já comecei a 6ª” (GUIMARÃES ROSA apud COSTA, 2006, p.33).
A segunda razão pode estar relacionada aos cuidados de que Guimarães Rosa cercava seus lançamentos. Sabedor da dificuldade da tradução de sua obra, ele “se preocupava com todos os detalhes da recepção no exterior, intervinha no processo da tradução, e mantinha correspondência com os tradutores” (PERRONE, 2003, p.89).
Ora, em meio ao processo de escritura de Corpo de Baile e Grande Sertão: veredas, mediar tão de perto, naquele momento, a tradução de Sagarana, seria tarefa praticamente impossível, como o próprio escritor dá a entender em outro trecho da já mencionada carta a Mário Calábria, de 7/12/1953. “Já estou resolvido. Daqui por diante é escrever sem parar. O destino do homem é o moto-contínuo. Agora, cesso. Já escrevi longo demais, o que me assusta. Quando a gente está no meio de um livro, as cartas saem sem vitamina.” (GUIMARÃES ROSA apud COSTA, 2006, p.33).
As primeiras traduções de textos rosianos aconteceriam somente cinco anos depois daquela carta datada de Rosário, 23 de março de 1953 (Cx4 cp67), em que o escritor declina da oferta da tradução de Sagarana para a língua espanhola, como já apontado.
Em 1958, “L’heure et la chance d’Augusto Matraga”, tradução de Antonio e de Georgette Tavares Bastos, publicado na antologia Les vingts meilleures nouvelles de L’Amérique latine. Em 1959, Edoardo Bizzarri traduziria o conto “Duelo”, de Sagarana, para o italiano. A tradução foi publicada no periódico Il Progresso Ítalo-Brasiliano, n.6-7 (COSTA, 2006, p.40).
Tal fato, cruzado à já mencionada declaração do próprio Rosa que em carta de 7/12/1953 a Mário Calábria revela não apenas estar escrevendo “um livralhão”, mas também que a escritura do “livralhão” compromete a qualidade do diálogo epistolar – bastante caro à tradução de sua obra – viabiliza a hipótese de que a negativa de Rosa à possibilidade de tradução de Sagarana para a língua espanhola no ano de 1953, deveu-se ao fato não só de ele estar escrevendo Corpo de Baile e Grande Sertão: veredas, mas também à dificuldade do diálogo frequente com seu tradutor, àquela época viável quase que exclusivamente por via epistolar.