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3.2. Le frittage d’argent comme alternative à la brasure

Em “Mito e psicanálise” (Azevedo, 2004), buscamos conhecer melhor a psicanálise enquanto saber que estabelece o logos ‘mito-poético’ de que nos fala Herrmann (2001).

Para Azevedo (2004), há uma lógica comum à linguagem do mito e da psicanálise, de modo que esta última tem se alimentado do mito na construção de suas teorizações, ou seja, a psicanálise tem se utilizado daquele para ilustrar suas descobertas.

Desta forma, de acordo com a autora, há uma lógica no mito, uma mito-lógica, que tem servido para ilustrar a própria lógica do funcionamento inconsciente.

O termo grego mythos designa composições de vários gêneros literários (épico, lírico, dramático), relatos históricos e lendas de tradição oral. Assim sendo, o significante

mythos contém múltiplas significações: é relato, fabulação ou estória que envolve uma lógica

na articulação de seus elementos, que não permite que a eles sejam atribuídos significados fixos. Assim, uma das ambiguidades de mythos é a condensação de sentidos e a tensão entre o geral e o particular, o coletivo e o individual, o singular e o universal.

Para a autora, a “repetição” é outro aspecto da linguagem mítica, pois há algo que se repete, que é similarmente insistente na linguagem mítica, em meio às suas particularidades históricas ou culturais.

Há uma similaridade das histórias ao redor do mundo, sendo que tal repetição expõe um ponto nodal dessa linguagem que é a atenção às contradições e a sua superação. É recorrente no mito a coexistência de sentidos antitéticos, os embates entre vida e morte, o mesmo e o outro, o perene e o transitório, a diferença sexual.

O inconsciente também produz uma linguagem fundada no paradoxo, na combinação de opostos e na repetição, na tendência a retornar sempre ao mesmo ponto, ao ponto de encontro de uma satisfação originária. No mito e na comunicação inconsciente: “somos sim, confrontados, às vezes afrontados por questões que gravitam em torno das origens, do sujeito, do mundo, do sujeito no mundo, da (sua) história.” (Azevedo, 2004, p. 16)

No mito e na psicanálise há o esforço de rememorar o que não pode ser esquecido. Ao que não pode ser esquecido dá-se o nome de alétheia, traduzido por verdade. É dessa verdade que se ocupam o mito e a Psicanálise. No mythos encontramos a confluência de – verdade (alétheia) e esquecimento (léthe): “tal ambiguidade perfaz a lógica da linguagem

mítica que se caracteriza por transbordar o princípio da não contradição – é isto e aquilo” (AZEVEDO, 2004, p. 18).

Também na psicanálise, a dualidade é o princípio basal, o que constitui a vida psíquica. O sonho, via régia do inconsciente, também caracteriza-se por ignorar as oposições e empreender uma combinação dos contrários em torno de um único elemento.

Na palavra situa-se tanto o enganoso quanto o verdadeiro. As palavras mentem, mas também constituem a via de acesso à verdade, pois propiciam a porta de entrada para a revelação de algo que poderia ser silenciado, esquecido e censurado. O poder da palavra mito - poética é que ao ser cantada, é possibilitada a restauração da saúde dos enfermos:

Tal como o poeta arcaico, o analisante dedica-se ao relato (uma das tradições possíveis de mythos). Muitas vezes pleno de ficções, de fantasia, de psêudes, o relato leva o sujeito à trazer à luz, a ver, a re-velar, sob a égide de Memória ou do trabalho de rememoração, dimensões de sua verdade, de Verdade (AZEVEDO, 2004, p. 23).

Encontramos a presença de “Memória” no mito e na psicanálise, ou seja, no relato da palavra mito – poética, há a presença de alguém que fala e de alguém que ouve, e o relato volta-se para o passado, para o que foi e tendo em vista o que será. A palavra mito – poética é enredada na dimensão ‘do ser e do tempo’, no que se foi, no que se é, e no vir a ser. Desta forma, Memória põe o tempo em movimento e liga o que aparece e o que desaparece, o que é e o que não é.

Estes são alguns dos pontos, dentre outros, trabalhados por Azevedo (2004), os quais nos possibilitam pensar a psicanálise enquanto logos mito – poético. É desse lugar que buscamos pensar as produções culturais humanas, em especial, as metáforas do corpo, criações humanas, o real ficcional. Nas metáforas do corpo, buscaremos a linguagem e seus enigmas, no centro dos quais encontra-se o homem (o anthropo), caminho aberto por Freud ao inaugurar a psicanálise.

Enfim, deslindar a complexidade de aspectos envolvidos no tema da cientificidade da Psicanálise requer que possamos observar que Freud produziu sua obra em um contexto epistemológico atravessado por diferentes concepções de ciência. De um alado, a medicina romântica, cuja filosofia é o vitalismo, o qual apregoava a íntima ligação entre fenômenos corporais e psíquicos, uma medicina da totalidade, que visava a uma integração entre poesia, ciência e religiosidade. De outro, a medicina positivista do laboratório de Brucke, onde Freud

realizou suas primeiras pesquisas em neurologia, vertente médica a qual defendia que apenas forças físico-químicas eram atuantes no organismo.

Quando Freud estudou em Viena, Peter Gay (Gay, 1989) salienta que os positivistas tinham pleno comando, de modo que todo o estudo da mente era realizado em bases materialistas, ou seja, como efeito da fisiologia do sistema nervoso, como já destacamos a propósito do contexto em que Freud realizou seus “Estudos sobre histeria”.

A subversão realizada por Freud, em relação a toda ortodoxia positivista reinante, foi resultado de uma lenta transformação de suas ideias, as quais resultaram em uma síntese original, mantendo-se uma linguagem fisicalista, mas com uma direção de pesquisa baseada em uma inovadora teoria da mente, uma autêntica psicologia para médicos, com bases novas, as quais nos revelaram uma cientificidade que é própria das ciências humanas.

Para Gay (1989), a contribuição específica de Freud à noção de inconsciente, foi a de tomar uma noção vaga, ainda permeada pela mística romântica que a aproximava de “estados crepusculares’, imbuídos de religiosidade, para dar-lhe precisão conceitual e convertê-la no fundamento de uma psicologia do inconsciente, com suas características específicas, conteúdos e modos de expressão.

No entanto, para que possamos fornecer estofo substancial à noção de Psicanálise como ciência e ficção, uma ciência humana da psique mundanizada que visa ao desvelamento dos sentidos dos produtos inconscientes encarnados na cultura, e objetivar uma recuperação do método psicanalítico que nos possibilite tal desvelamento, complementaremos as contribuições de Freud com as de Fábio Herrmann, por meio da Teoria dos Campos.

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