VI. LES PERSPECTIVES D’ACTION POUR 2022
3) Le dispositif de participation à compter du 01/01/2022
Outro elemento que compõe a atitude linguística é o discurso público sobre a língua, que está relacionado ao seu próprio modo de falar e o do outro, podendo haver valores de juízo tanto positivos como negativos (SCHLIEBEN-LANGE, 1993). Para Labov (1972), os membros de uma comunidade de fala compartilham traços dialetais de uma língua que a
diferenciam de outra. Essa atitude linguística têm, então, uma relação direta com a visão de mundo dos falantes nativos, podendo sofrer influência de fatores históricos e socioculturais que atuam nos comportamentos linguísticos do indivíduo.
Nesse sentido, ao perguntarmos aos sujeitos qual era a língua que eles acham mais bonita, obtivemos as respostas dispostas no quadro 14.
1ª geração 2ª geração 3ª geração
1.1 M: A língua rikbaktsa porque é a nossa língua
1.2 M: A língua rikbaktsa
1.3 M: Rikbaktsa, porque é o nosso idioma
1.4 M: Rikbaktsa, porque é com ela que mantemos as culturas e tradições rikbaktsa
1.5 M: Rikbaktsa 1.6 H: Rikbaktsa 1.7 H: Rikbaktsa
1.8 H: Rikbaktsa, porque é a minha língua materna
1.9 H: A língua rikbaktsa, porque é a nossa língua verdadeira
1.10 H: Rikbaktsa, porque é a língua do meu povo
2.11 M: Língua rikbaktsa
2.12 M: Rikbaktsa, porque eu sei falar um pouco
2.13 M: Português, porque eu entendo mais
2.14 M: A língua rikbaktsa, porque é a nossa língua
2.15 M: Rikbaktsa 2.16 H: Rikbaktsa
2.17 H: Rikbaktsa, porque é a língua do nosso povo
2.18 H: Rikbaktsa 2.19 H: Rikbaktsa 2.10 H: Rikbaktsa, porque é diferente 3.21 M: Rikbaktsa 3.22 M: Rikbaktsa
3.23 M: Rikbaktsa, porque entendo um pouco
3.24 M: Rikbaktsa, porque eu sei um pouco
3.25 M: A língua rikbaktsa, porque é a nossa língua
3.26 H: Rikbaktsa
3.27 H: Português, porque eu sei falar
3.28 H: Português, porque eu gosto de falar
3.29 H: Rikbaktsa, porque é a língua do meu povo
3.30 H: Rikbaktsa, porque é a nossa língua e também porque temos que preservá-la
Quadro 14: Qual a língua que você acha mais bonita?
Apesar de usarem mais a língua portuguesa, os Rikbaktsa acham mais bonito o idioma ancestral, caracterizando um pertencimento à identidade étnica indígena. É importante observar que alguns resultados apontam a língua rikbaktsa como mais bonita por associar a língua que usam no nível da fala e da compreensão: porque eu sei falar um pouco, porque entendo um pouco. Tal comportamento é diferente dos demais posicionamentos que refletem condições de pertencimento e importância para o povo e a cultura Rikbaktsa. Entretanto, os resultados da presente pesquisa apontam uma divergência: apesar de algumas expressões revelarem o orgulho da comunidade de origem, 3/30 dos sujeitos (um da segunda geração e dois da terceira) afirmam que acham mais bonito o português, como podemos ver no quadro 15.
Atitudes manifestadas: + rikbaktsa Atitudes manifestadas: + português A língua rikbaktsa, porque é a nossa língua Português, porque eu entendo mais Rikbaktsa, porque é o nosso idioma Português, porque eu sei falar Rikbaktsa, porque é com ela que mantemos as culturas e tradições
rikbaktsa
Português, porque eu gosto de falar
Rikbaktsa, porque é a minha língua materna
A língua rikbaktsa, porque é a nossa língua verdadeira Rikbaktsa, porque é a língua do meu povo
Os Rikbaktsa valorizam sua cultura, pois no julgamento estético a língua rikbaktsa é a mais prestigiada. Por outro lado, a convivência prolongada em outra comunidade de fala pode despertar um sentimento de pertença, no qual o indivíduo se reconhece no grupo social em que está inserido. Esse sentimento é uma consequência do bilinguismo social, pois a escolha linguística do indivíduo afeta não apenas o falante, mas toda a comunidade de fala envolvida (FISHMAN, 1972). Os verbos entender, saber e gostar presentes nas afirmações, reafirmam que, por compreender melhor o português, os sujeitos da pesquisa acham-no mais bonito do que a língua tradicional.
As relações de contato influenciam as escolhas individuais do falante que são construídas por uma coletividade, ou seja, trata-se de avaliações subjetivas do indivíduo, as quais são reflexo dos conflitos linguísticos e sociais vivenciados pela comunidade de fala. Para Schlieben-Lange (1993), os julgamentos de bonito ou feio são argumentos descritivos ou avaliativos do discurso público. Assim, perguntamos aos sujeitos qual era a língua que eles achavam mais feia. De acordo com as respostas obtidas nas entrevistas, foi possível produzir o quadro 16.
1ª geração 2ª geração 3ª geração
1.1 M: Português 1.2 M: Português 1.3 M: Português
1.4 M: Português, porque não é minha língua 1.5 M: Português 1.6 H: Português 1.7 H: Nenhuma 1.8 H: Nenhuma 1.9 H: Português 1.10 H: Português 2.11 M: Português 2.12 M: Nenhuma 2.13 M: Nenhuma 2.14 M: Português 2.15 M: Português 2.16 H: Português 2.17 H: Português 2.18 H: Português 2.19 H: Português
2.20 H: Nenhuma, pois todas são bonitas 3.21 M: Português 3.22 M: Português 3.23 M: Nenhuma 3.24 M: Nenhuma 3.25 M: Português 3.26 H: Nenhuma 3.27 H: Nenhuma 3.28 H: Nenhuma 3.29 H: Português 3.30 H: Português
Quadro 16: Qual a língua que você acha mais feia?
Os Rikbaktsa acham feia a língua portuguesa “porque não é minha língua” (1.4 M), acham o idioma ancestral mais bonito. Esse sentimento de pertencimento, que é revelado nas respostas, demonstra o vínculo existente entre língua e identidade étnica. Mas em todas as gerações alguns responderam: “nenhuma, pois todas são bonitas” (2.20 H). O indivíduo consegue descrever o seu falar a partir do falar do outro, além de transmitir informações sobre os falantes e estabelecer relações sociais (GIMENES-MORALIS, 2000). O fato de nenhuma língua ser feia demonstra que esses indígenas consideram as duas línguas como pertencentes ao seu repertório linguístico. No julgamento de valor, nenhuma das duas é desmerecida, pois ambas são importantes para o falante em seus momentos de interação. Diante desse fato,
analisamos que o uso linguístico e os fatores sociais influenciam as atitudes dos entrevistados quanto às línguas.
A sociedade não-indígena possui um “padrão de vida” relacionado à maneira de se vestir, ao comportamento e a diversos valores que, aliados à pressão econômica, impõem um estilo de viver diferente dos índios. Dessa maneira, os jovens Rikbaktsa, sobretudo os que saem da aldeia em busca de estudo e trabalho, precisam cada vez mais do português para as suas interações cotidianas. Entretanto, essa necessidade gera um conflito de valores e atitudes, pois a facilidade de acesso desses jovens à sociedade não-indígena coloca essa geração em uma situação em que é preciso conciliar o que é interno da etnia, suas tradições, com aquilo que é externo, mas indispensável para as relações cotidianas. Saber o idioma do outro é sentir-se parte dessa sociedade, mas é preciso que cada indivíduo possa refletir até que ponto essa influência vem prejudicando a preservação de seus costumes e de sua cultura.
Ter domínio do português é uma necessidade para os enfrentamentos junto à sociedade não-indígena, para serem compreendidos em suas necessidades nos mais diferentes âmbitos: saúde, educação, território, direitos etc. O grande desafio é estabelecer os limites dos usos da língua não-indígena nos domínios sociais e familiares na aldeia. E até que ponto um indivíduo bilíngue tem controle desses usos nas diferentes situações comunicativas (o que fala? para quem? quando?) de modo a evitar o deslocamento da língua materna em prol do uso do português em todos os contextos.
Nenhum entrevistado afirmou que a língua rikbaktsa é feia, sendo uma atitude positiva em relação ao idioma ancestral, mas somente essa atitude não assegura a manutenção da língua materna nas aldeias, pois não sabemos se as crianças, quando adultas, vão ter a mesma atitude de seus pais e avós. Vale observar que as futuras gerações não estão crescendo no mesmo espaço que os seus familiares, pois antigamente o contato com o português não era tão intenso, a relação com o não-indígena era limitada. Atualmente, o uso da língua portuguesa é necessário para as relações cotidianas, ou seja, todos precisam saber o idioma majoritário.
Assim, indagamos os entrevistados sobre qual seria a língua que eles acham mais fácil. Diante das respostas adquiridas, foi possível produzir o quadro 17.
1ª geração 2ª geração 3ª geração
1.1 M: A língua rikbaktsa, porque eu falo muito bem
1.2 M: Rikbaktsa
1.3 M: Rikbaktsa, porque é mais fácil de falar
1.4 M: Rikbaktsa porque eu falo e
2.11 M: Rikbaktsa
2.12 M: Português, porque é mais fácil de falar 2.13 M: Português 2.14 M: Rikbaktsa 2.15 M: Rikbaktsa 3.21 M: Português 3.22 M: Português
3.23 M: Português, porque é mais fácil
3.24 M: Português, porque é mais fácil de falar
entendo muito bem 1.5 M: Rikbaktsa 1.6 H: Rikbaktsa 1.7 H: Rikbaktsa 1.8 H: Rikbaktsa, porque eu entendo bem 1.9 H: Rikbaktsa
1.10 H: Português, porque todo mundo sabe
2.16 H: Rikbaktsa 2.17 H: Português
2.18 H: Rikbaktsa, porque é muito fácil de aprender
2.19 H: Rikbaktsa
2.20 H: Português, porque todo mundo fala
3.25 M: A língua rikbaktsa, porque eu acho fácil de aprender
3.26 H: Português, porque é mais fácil de falar
3.27 H: Português, porque é melhor de falar
3.28 H: Português 3.29 H: Português
3.30 H: A língua rikbaktsa, porque é fácil de aprender
Quadro 17: Qual a língua que você acha mais fácil?
Os dados revelam que na primeira geração apenas um sujeito acha o português mais fácil e a justificativa é “porque todo mundo sabe” (1.10 H). A língua é um importante fator de unidade em um país, principalmente no Brasil, em que se acredita que só se fala português. Entretanto, há outras línguas minoritárias que estão ameaçadas de extinção, pois possuem pouco apoio de políticas públicas e linguísticas que visem colaborar para a manutenção da língua tradicional nas aldeias. Concluímos, então, que a situação de contato dos Rikbaktsa é a motivação para aprender o português, pois precisam da língua oficial do país para solicitar informações, conversar, ler etc. Assim, quando o entrevistado afirma que todo mundo sabe o português, revela que a língua portuguesa é uma necessidade, pois os indígenas precisam saber o idioma dominante para poder se comunicar com as outras pessoas. Nesse sentido, Byzyk51 afirma que: “eu acho bonito o nosso idioma, mas o português é mais
falado, todo lugar as pessoas se comunicam em português, desde pequeno a gente aprendeu a falar. Quando tem que comprar alguma coisa, mandar um recado, tudo é em português”.
Por outro lado, os verbos falar, entender e saber, presentes nas afirmações da primeira geração, além do advérbio de intensidade muito bem, demonstram que os demais sujeitos, por serem os mais velhos e, provavelmente, aqueles que adquiriram o idioma ancestral como língua materna (conforme demonstramos no quadro 17) acham mais fácil a língua rikbaktsa, reafirmando na resposta: “só falava rikbaktsa” (Pududu – quadro 17). Ukba, por sua vez, fala a respeito da sua língua: “eu sempre falei rikbaktsa, aprendi desde pequena e nunca esqueci. Eu tive que aprender português, mas não deixo de fala meu idioma, todo dia eu converso com meus parentes. Eu gosto de conversar na nossa língua e fico feliz quando falam comigo no idioma”.
Na segunda geração, 6/10 acham mais fácil a língua tradicional e 4/10 preferem o português. A justificativa por preferir o idioma do outro é dada pelas respostas “porque é mais fácil de falar” (2.12 M) o, “porque todo mundo fala” (2.20 H). Na terceira geração, apenas
2/10 acham mais fácil a língua rikbaktsa, os outros preferem o português e usam a mesma justificativa da segunda geração: “por ser mais fácil de falar” (3.24 M; 3.26 H). Como no cotidiano a língua portuguesa é mais usada, os informantes a consideram mais fácil. Entretanto, no segundo e terceiro grupos de entrevistados, os que consideram a língua tradicional mais fácil justificam esse juízo de valor “porque é muito fácil de aprender” (2.18 H). Paitopi afirma que “na escola da aldeia a gente aprende português, mas é muito difícil as regras, eu não consigo escrever direito. A partir das respostas obtidas durante as entrevistas, observamos algumas atitudes manifestadas e produzimos o quadro 18.
Entre os Rikbaktsa há um conflito que ameaça a sobrevivência da língua nativa. Esse fato parece ser atribuído ao contato interétnico que resultou no crescente uso da língua dominante, até mesmo nos domínios tradicionais indígenas, desencadeando um processo de deslocamento linguístico. Contudo, mesmo com a comunidade sendo afetada pelas pressões externas, esse deslocamento no repertório linguístico dos falantes provém também das suas atitudes linguísticas, ou seja, do julgamento de valor em suas escolhas individuais. Embora atitudes positivas contribuam para a preservação da língua minoritária, isso não significa que o comportamento linguístico do falante seja também a favor dessa língua. Esse é o caso dos Rikbaktsa que, apesar de terem avaliações positivas, no uso linguístico prevalece o português.
Observa-se, também, que alguns consideram mais fácil o português porque “todo mundo sabe”, “todo mundo fala”. Isso reflete que o português é a língua de maior contato entre os indígenas, expressada por “todo”, tornando, portanto, a proficiência em português mais fácil, mais natural, pois é a língua que todos estão imersos, ouvem e falam diariamente. Nesse sentido, vejamos as respostas dos entrevistados quando perguntamos sobre qual era língua que eles achavam mais difícil. Assim, de acordo com as respostas, foi possível produzir o quadro 19.
1ª geração 2ª geração 3ª geração
1.1 M: Português, porque eu não falo
muito bem
1.2 M: Português
2.11 M: Português
2.12 M: A língua rikbaktsa, porque eu
falo pouco
3.21 M: Rikbaktsa 3.22 M: Rikbaktsa
3.23 M: Rikbaktsa, porque nem todos
Atitudes manifestadas: + português Atitudes manifestadas: + rikbaktsa Português, porque todo mundo sabe A língua rikbaktsa, porque eu falo muito bem Português, porque é mais fácil de falar Rikbaktsa, porque é mais fácil de falar
Português, porque todo mundo fala Rikbaktsa, porque eu falo e entendo muito bem Português, porque é mais fácil Rikbaktsa, porque é muito fácil de aprender
Português, porque é mais fácil de falar A língua rikbaktsa, porque eu acho fácil de aprender Português, porque é melhor de falar A língua rikbaktsa, porque é fácil de aprender
1.3 M: Português
1.4 M: Português, porque falo muito
pouco 1.5 M: Português 1.6 H: Português 1.7 H: Português 1.8 H: Nenhuma 1.9 H: Nenhuma 1.10 H: Português
2.13 M: Rikbaktsa, porque eu não sei
falar algumas coisas
2.14 M: Português 2.15 M: Português 2.16 H: Português 2.17 H: Rikbaktsa 2.18 H: Português 2.19 H: Português 2.20 H: Rikbaktsa
os jovens sabem falar
3.24 M: Rikbaktsa, porque falo pouco 3.25 M: Português
3.26 H: Rikbaktsa, porque falo muito
pouco
3.27 H: Rikbaktsa, porque os jovens
não querem falar na língua
3.28 H: Rikbaktsa, porque não falo
muito bem
3.29 H: Rikbaktsa
3.30 H: Português, porque é ruim
escrever Quadro 19: Qual a língua que você acha mais difícil?
A primeira geração, por falarem pouco o português, considera essa língua mais difícil. Na segunda geração, 6/10 dos entrevistados acham difícil a língua portuguesa e os demais (4/10) fazem esse juízo de valor em relação ao idioma ancestral. Os mais jovens, do terceiro grupo, revelam que a língua rikbaktsa é mais difícil (8/10) e justificam suas respostas pelo desuso do idioma no cotidiano: “nem todos os jovens sabem falar” (3.23 M) e “porque os jovens não querem falar na língua” (3.28 H). Por sua vez, Skipuk52 conta que: “eu acho
difícil aprendê rikbaktsa, porque é complicado as palavras, é muito diferente do português e na escola os professores sempre explicam que tem diferença, a gente aprende o idioma, mas não é fácil, tem as cartilhas e eu sempre tenho em casa pra estudar”. Vejamos o quadro das atitudes manifestadas:
Apesar de a maioria dos sujeitos acharem a língua rikbaktsa mais bonita (quadro 14), a segunda geração e, principalmente, a terceira, consideram o português mais fácil (quadro 17) e o idioma ancestral mais difícil (quadro 19). Hamel (1988) já mostra isso em líderes indígenas no México visto que, para o referido autor, por trás dos conflitos linguísticos há uma disputa de poder pela legitimação e transformação social em que a classe dominante exerce uma influência econômica, social e cultural sobre as sociedades menos prestigiadas.
52 O Rikbaktsa Skipuk mora na Aldeia Barranco Vermelho, tem 29 anos e seus pais não estiveram no Internato.
Atitudes manifestadas: + português Atitudes manifestadas: + rikbaktsa Português, porque eu não falo muito bem A língua rikbaktsa, porque eu falo pouco
Português, porque falo muito pouco Rikbaktsa, porque eu não sei falar algumas coisas Português, porque é ruim escrever Rikbaktsa, porque nem todos os jovens sabem falar
Rikbaktsa, porque falo pouco Rikbaktsa, porque falo muito pouco
Rikbaktsa, porque os jovens não querem falar na língua Rikbaktsa, porque não falo muito bem
Em uma situação diglóssica, é importante analisarmos até que ponto as atitudes do grupo influenciam o comportamento linguístico dos indivíduos e comprometem o futuro do idioma ancestral (HAMEL, 1988). Geralmente, a língua majoritária é a mais prestigiada e recebe avaliações positivas. Por outro lado, o grupo dominado pode ter atitudes opostas, de resistência aos valores impostos pela sociedade dominante, valorizando a língua minoritária. Para Fishman (1998) essa valorização se refere à consciência étnica e linguística dos grupos menos favorecidos para o fortalecimento das suas tradições. Assim, essa consciência etnolinguística se configura como uma forma de resistência cultural às pressões da sociedade dominante, pela garantia não apenas de direitos básicos (terra, saúde, educação, etc.), mas também pela normatização da língua tradicional (FISHMAN, 1998). O uso da língua minoritária, em uma dimensão moral, consiste na lealdade linguística de todo aquele que se sente pertencente ao grupo étnico.
Nessa perspectiva, perguntamos aos sujeitos se eles acham que os Rikbaktsa rejeitam a própria língua e a partir das respostas obtidas, montamos o quadro 21.
1ª geração 2ª geração 3ª geração
1.1 M: Sim, porque não têm interesse de falar a sua própria língua
1.2 M: Sim, porque não querem falar a língua
1.3 M: Sim, porque não têm interesse de aprender a língua 1.4 M: Sim, porque não têm interesse em aprender a falar a língua do seu povo
1.5 M: Sim, porque não têm interesse de falar a língua rikbaktsa
1.6 H: Sim, porque muitas pessoas não falam mais a língua do seu povo
1.7 H: Não
1.8 H: Sim, sentem vergonha 1.9 H: Sim, porque não têm interesse de falar o idioma 1.10 H: Sim
2.11 M: Sim, porque não têm interesse de falar
2.12 M: Não
2.13 M: Sim, porque os jovens têm vergonha de falar
2.14 M: Sim 2.15 M: Sim
2.16 H: Sim, porque muitos jovens não têm interesse de aprender a falar sua própria língua
2.17 H: Sim, porque não tem interesse de falar o próprio idioma
2.18 H: Sim, porque muitos jovens não se interessam em aprender a falar a língua do seu povo 2.19 H: Sim, porque muitas pessoas não têm interesse de falar a língua do povo
2.20 H: Sim, sentem vergonha
3.21 M: Sim, até porque muitas pessoas não têm interesse de falar a língua rikbaktsa
3.22 M: Sim, porque os jovens não falam, não se interessam
3.23 M: Sim, porque têm vergonha de falar a sua própria língua 3.24 M: Sim, acho que têm vergonha de falar
3.25 M: Sim 3.26 H: Sim
3.27 H: Sim, porque não têm interesse
3.28 H: Sim
3.29 H: Sim, porque nossos jovens quase não falam a língua do povo
3.30 H: Sim
A partir dessas respostas, podemos perceber que as atitudes linguísticas são manifestadas nas interações sociais em que o fato de o falante aceitar ou rejeitar uma determinada língua é reflexo das suas crenças e está diretamente relacionado à preservação dos idiomas envolvidos. Dessa forma, a língua de maior prestígio, o português, exerceu uma pressão social nos Rikbaktsa, criou uma atitude negativa dos falantes com o idioma ancestral e fez com que a língua desse povo fosse substituída pelo português. Além disso, o “não interesse de falar a sua própria língua”, como relata Ukba, ou o fato de que “sentem vergonha”, segundo Tabita, assim como a asserção de Awvik de que “muitos jovens não têm interesse de aprender a falar sua própria língua”, configuram atitudes que demonstram o desprestígio da língua rikbaktsa.
Nesse sentido, Tabatsau afirma que: “a gente ensina o idioma pros mais jovens, mas alguns não têm interesse em aprender, outros são bem dedicados, estudam a cartilha e sempre conversa com a gente na língua. Eu fico triste quando eles não se dedicam pra aprendê o nosso idioma”. Alguns índios saem da aldeia e vão morar nos centros urbanos em busca de trabalho e estudo, a partir daí buscam se aproximar do modo de vida do não-indígena, adotando no seu cotidiano os padrões de vestimenta e os costumes.
Essa migração traz a convivência com o não-índio, por meio da qual acabam percebendo que a língua indígena é desprestigiada pela população dominante, pois algumas pessoas se referem ao idioma ancestral “como ‘gírias’, ‘dialetos’, ‘línguas pobres’ ou ‘línguas imperfeitas’. Isso faz com que os falantes indígenas passem a se envergonhar de suas línguas, passem a ter atitudes negativas em relação a elas, terminando por abandoná-las” (BRASIL, 1998, p. 117). Assim, pode ser que a rejeição ao idioma materno venha desse desprestígio da sociedade envolvente, interferindo diretamente no indivíduo, de forma a gerar uma atitude negativa no falante. Em relação a isso, Tabita conta que: “eu acho que alguns jovens têm vergonha de falar o nosso idioma porque foram repreendidos. Muitos não-indígenas falam que a nossa língua é feia, que não entende, daí os jovens ficam com vergonha de falar”.
Para Schlieben-Lange (1993), o estereótipo é um argumento do discurso público ou daqueles que concorrem entre si. A partir desse entendimento, observamos nas respostas dos entrevistados que os falantes buscam evitar qualquer tipo de estigma relacionado ao uso do seu idioma e adotam o uso da língua de maior prestígio. Diante disso, interrogamos: você acha que a língua rikbaktsa está desaparecendo? Por quê? A partir das respostas obtidas durante a coleta de dados, elaboramos o quadro 22.
1ª geração 2ª geração 3ª geração 1.1 M: Sim, porque muitas pessoas
não fala mais a língua rikbaktsa. 1.2 M: Sim, porque muitos não falam mais a língua rikbaktsa.