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Le contrôle de la puissance de transmission

RÉSEAU AD HOC ET ROUTAGE

4. Etat de l’art

4.2 Le contrôle de la puissance de transmission

O estilo de Clarice Lispector, na obra Perto do Coração Selvagem, é incomum, diferente das obras existentes no período da sua publicação e, até os dias de hoje, com emoções sempre à beira de um impacto. Com uma adjetivação insistente, que procura o íntimo, o âmago dos personagens, mesmo com a utilização de metáforas insólitas, com epifanias e em busca da memória de suas personagens surge no cenário nacional e mais tarde mundial a escrita da jovem Clarice Lispector, que mudou a realidade literária da 3ª fase do Modernismo no Brasil, com sua maneira irreverente de narrar.

Na obra, Perto do Coração Selvagem, a personagem Joana transmite, por meio de repetições, o que acontece em sua vida, o seu dia a dia, mas as experiências pelas quais a mesma vivencia, acaba alternada pelas fases de meninice às de adultas, que imergem, ora no passado, ora no presente.

Joana foi criada por seu pai a quem confiava, mediante brincadeiras, seus questionamentos de criança e suas incertezas. Muito sonhadora, porém muito inteligente, conseguia deixar as pessoas estupefatas com suas perguntas; pois, desde cedo, escrevia versos, inventava palavras. Era irreverente, irrequieta, esperta e muito estranha, sempre buscava conforto nos braços de seu pai, pois tinha medo de dormir sozinha.

Joana não conheceu sua mãe que morrera quando ela era bem pequena e suas recordações sustentavam-se pelas descrições de seu pai. Mas o infortúnio de Joana foi a morte de seu pai que ocorreu quando ela era pequena. Aí começa o drama de Joana. Ela precisou ir morar com seus tios, no estágio de orfandade, sem ter mais ninguém, não teve alternativa; Joana, logo no início de seu convívio com os tios, passou a sentir a severidade dos mesmos que acabaram por revelar o lado fingido, hipócrita que estes mantinham. A tia não gostava de Joana, pois a presença da sobrinha a sufocava e acabou por conduzir a menina a viver em um colégio interno.

Essa atitude ocorre porque Joana, ao acompanhar a tia às compras, como num teste para si mesma e para causar espanto aos outros, principalmente à tia, rouba um livro e, quando questionada a respeito da atitude da menina, Joana não demonstra nenhum sentimento de culpa. Para ela isso era uma ação normal. Essa atitude demonstra sua frieza e maldade com as pessoas, sua tia a considerava uma víbora, pois sentia que a sobrinha, de forma aparente, era incapaz de amar, pois gozava de um enorme prazer ao cometer atos de crueldade. Mas,

com as leituras sucessivas é possível perceber que Joana não é uma figura representada pela maldade, mas sim a utiliza como uma maneira de se proteger.

Como uma pessoa muito egoísta, Joana não dedicava sentimentos de bondade e nem se importava com os outros, dizia que a bondade lhe causava “náuseas”. Na escola, sente-se atraída por seu professor, quando ainda era uma criança, pois considerava ser uma menina feia em relação à esposa dele que, por sinal, era muito encorpada, esguia, bonita e sensual.

Joana teve, no decorrer de sua vida, diversas paixões que não deram certo devido à sua personalidade fria e incapaz de demonstrar amor verdadeiro. Todavia, tinha seu lado amoroso, romântico, meigo, doce, inocente, que se encontrava no de profundis, onde poucas pessoas chegavam e não conseguiam ver e nem sentir; fazia questão de demonstrar seu pessimismo que ela pensava ser realismo. Esse fluxo de consciência identifica uma personagem conflituosa, epifânica.

Quando sai do internato, casa-se com Otávio, que também apresentava ser um tanto quanto divagador. Mas, Otávio, mesmo casado, não consegue esquecer sua ex-noiva e acaba por manter um relacionamento deveras amoroso com a mesma. Lídia engravida, o que se fomenta mais ainda o desejo de Otávio em se separar de Joana por não ser a mulher que ele pensava que ela fosse. Outros fatos também ocorridos entre Joana e Otávio delineiam o temperamento de ambos, a expectativa de vida e a própria compreensão de mundo dos dois. Eles não se entendiam, já que Joana não desconhecia o relacionamento de Otávio e Lídia, constatou a verossimilhança da situação de forma natural, sem criar polêmicas, escândalos ou mesmo uma trama passional. Porém, antes da concretização da separação, Joana pretendia engravidar, mas sua tentativa fracassou e Otávio foi embora.

Ao se findar o relacionamento com Otávio, Joana passa a andar sem direção, por caminhos diferentes dos quais costumava andar, e passou a ser seguida por um desconhecido. Certo dia, em um dos seus passeios, Joana se viu no interior da casa desse desconhecido e, mesmo sem saber seu nome, passou a ter um relacionamento com o mesmo. Embora não soubesse seu nome ansiava ter um relacionamento mais duradouro e profundo, o que não ocorreu. Esse desconhecido, que se tornou parte de sua autoinvestigação, um dia partiu, deixando-a novamente só. Não se sabe realmente se este homem era imaginário ou real. Joana engendra uma viagem e parte sozinha para continuar o processo de autoinvestigação, quer descobrir a sua essência, o seu âmago mas, na verdade, pretende resgatar-se em suas próprias emoções e sentimentos.

O percurso de Joana inicia-se em sua infância, transpassa a difícil e gloriosa juventude, sente-se aprisionada pela felicidade do casamento, mas consegue se livrar dessa

prisão com o amante anônimo, para que, assim, possa desmembrar-se na viagem, através do mar, percurso esse aberto para novas conquistas, novas pesquisas que, por ora, se principiam. A morte, de certa maneira esclarecida no monólogo final, sugere que as duas extremidades da vida de Joana - infância e morte, aliás, o majestoso sintagma daquela narração, encontram-se ligadas por um estranho relacionamento.