1.3 Les caractéristiques du sol
1.3.2 Caractéristiques physicochimiques
1.3.2.2 le complexe absorbant
Somam-se à extração e mineração dos dados outros dois aspectos relevantes à compreensão do que possibilita a propagação das informações falsas: o “tráfego de informação por públicos calculados” (GILLESPIE, 2018) e seu funcionamento nas chamadas “bolhas de filtros” (PARISIER, 2011).
No primeiro caso, Gillespie argumenta que o fator “público calculado” está relacionado a diferentes formas algoritmos de segmentação. Quanto às bolhas, Parisier (2011, p. 129) defende que o grau de personalização está moldando fluxos de informação que extrapolam empresas como o Facebook, uma vez que redes de produção de notícias passam “a nos fornecer manchetes” de acordo com nossos interesses, o que ocorre com os blogs que lemos e até vídeos que assistimos.
A nova geração de filtros on-line examina aquilo de que aparentemente gostamos – as coisas que fazemos, ou as coisas das quais as pessoas parecidas conosco gostam – e tenta fazer extrapolações. São mecanismos de previsão que criam e refinam constantemente uma teoria sobre quem somos e sobre o que vamos fazer ou desejar seguir. Juntos, esses mecanismos de informação criam um universo de informações exclusivas para cada um de nós – o que passei a chamar de bolhas de filtros – que altera fundamentalmente o modo como nos deparamos com ideias e informações.
No Facebook, por exemplo, usuários colaboram com a criação da própria bolha discursiva indicando, ou melhor, autorizando, nas configurações de privacidade quem pode ter acesso às publicações disponíveis em suas páginas pessoais. Dentre as opções de compartilhamento de conteúdos postados estão: amigos, amigos dos amigos, apenas o usuário... A plataforma, a partir de seus algoritmos.
A partir daí, as informações dos usuários e a de usuários autorizados passam a circular na mesma bolha. Distinguimos tais bolhas como espaços “discursivos logicamente estabilizados” (PÊCHEUX, 2015, p. 143-144), nos quais se trabalha com a construção do “sentido adequado” de moral, política, religião e gênero.
Indursky (2013, p. 32) salienta que aspectos linguísticos e sociais são acionados na produção de sentidos. “O centro organizador do domínio nocional, além de semântico, também é ideológico, selecionando certos efeitos de sentido relacionados a um termo e excluindo outros”. Com as bolhas de filtros não é diferente. O entendimento é que, ao acessar determinados conteúdos, ao curtir publicações específicas, algoritmos que calculam públicos entendem que assuntos e pessoas com perfis aparentemente similares ou aproximados devem fazer parte da mesma bolha, do mesmo grupo e, dito de outra forma, do mesmo gueto. O que determinaria, assim, na linha do que afirma a autora, o apagamento ou a inclusão de determinados públicos e, consequentemente, os sentidos outros que circulam em “bolhas” às quais o usuário não pertence.
Um dos problemas é que esse processo pode incorrer em uma sobreposição dos grupos forjado s pelos algoritmos em detrimento dos grupos que o usuário efetivamente procura. E o que é ainda mais preocupante, sob a perspectiva da AD, é que esses mesmos algoritmos, de acordo com Gillespie (2018, p.115-116), “vão além, fazendo afirmações sobre os públicos que pretendem conhecer e o lugar dos usuários no meio deles”. Esse é o caso do “trendings50” do Twitter, que promete aos usuários um vislumbre do que um público particular (nacional ou regional) está falando em um determinado momento.
Partindo do princípio de que o público é algoritmicamente construído, Gillespie (2018, p.115) questiona quem são os escolhidos pela medição e os que são deixados de fora. E mais, “como essas tecnologias, não apenas tecnologias de avaliação, mas de representação, ajudam a constituir e codificar os públicos […] que de outra forma não existiriam, exceto quando os algoritmos os convocam”. Estamos de acordo com o autor quanto ao alcance de tais representações, criadas com base em critérios de inclusão e exclusão desconhecidos e que, ainda assim, podem vir a ser tomados em sua questionável legitimidade.
Retomamos Pêcheux (2014) para marcar a relevância da materialidade do sentido. De acordo com o referido autor, o sentido é “determinado pelas posições ideológicas que estão em jogo no processo socio-histórico no qual as palavras, expressões e proposições são produzidas (isto é, reproduzidas)” (p. 146). Chama a atenção, nesse aspecto, a autonomia algorítmica para “jogar” com formações imaginárias, manipulando o caráter material do sentido, à revelia dos usuários e de acordo com orientações mercadológicas que, no caso das fake news, são determinações político-partidárias, religiosas com efeitos na regulação da moral e dos costumes.
A análise das sequências SD2 Escola sem homofobia - KIT GAY e SD2 - comentário A mostra a maneira discriminatória como as bolhas que representam formações discursivas religiosas e conservadoras, enunciam, por meio de fake news, o gênero em ambientes de comunicação digital:
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Figura 10 – Sequência discursiva 2: Escola sem homofobia – Kit Gay
Fonte: Agência Lupa, 2018
SD2 – Escola sem homofobia – KIT GAY: “Bolsonaro é chamado de homofóbico por causa disso que você está vendo, eu cobri a parte do homem, isso é as capas do Kit gay que querem ensinar as crianças a partir dos 6 anos aprender isso. Tenho um filho de 6 anos e não aceito isso e você vai aceitar? Então, não vote em ninguém do PT, PC do B, PSOL, PSDB entre outros, eles defendem isso. Bolsonaro é o único capaz de bater de frente a esses malignos que querem mexer o cérebro das crianças, se isso entrar na escola do meu filho tiro ele da escola. Pela família e pela ética moral, voto em Bolsonaro, presidente 17. E me perdoem por postar essa imagem, é a única maneira de mostrar para as pessoas quem ama a família”.
Em agosto de 2018, a SD2 circulou nas redes sociais e em grupos de WhatsApp. A imagem faz referência à capa de um suposto “Kit gay”, com distribuição pelo Ministério da Educação em caso de vitória do então candidato à presidência da República Fernando Haddad. O processo de checagem da Agência Lupa confirmou a falsidade da imagem. De acordo com a Lupa, o “Kit gay” era, na verdade, uma referência ao programa do governo federal Brasil Sem Homofobia, organizado em 2011. A campanha, organizada por ONGs, era voltada para a formação de educadores com o objetivo de contribuir com o debate sobre gênero e sexualidade.
A Lupa confirmou ainda que nenhum dos materiais didáticos do programa estampava a imagem da SD2. Durante o processo de checagem, foi constatado que a mesma imagem
circulou em 2012, durante a campanha de Haddad para prefeito de São Paulo e, em 2015, na disputa para sua reeleição.
Nesta análise, observamos que o enunciado “Escola sem homofobia” pressupõe que o ambiente da escola é homofóbico, portanto, que nele existe homofobia. E que a homofobia na escola é um problema que pode ser resolvido com o Kit gay. A construção pressupõe o kit funcionando como um antídoto para um problema real por meio de efeitos de sobreposição.
A utilização de pronomes “você” e “eu” marca a entrada dos “outros”, enquanto os nanicos. A idade (6 anos), já analisada na SD1, é retomada, mostrando que as fake news foram produzidas a partir de uma mesma formação discursiva, conservadora. Ainda que diante da impossibilidade de identificação da autoria, elas partem de uma mesma construção, na qual arriscaríamos a dizer de uma escrita feminina ou forjada no feminino, com apelo emocional, afetivo.
Verifica-se que a escola aparece como um espaço de disputa na cena enunciativa do discurso político, em questões como “quem vai dominar a escola, ‘eu’, ‘você’ ou ‘eles?’”. Embora a escola não seja o lugar, a arena de discurso político, ela é posta na cena enunciativa como esse espaço. A referência à escola também remete a uma marcação de gênero na enunciação, enquanto uma preocupação e um alerta de mãe, aquela que acompanha o desenvolvimento escolar das crianças.
Cabe observar que o então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro é chamado de homofóbico: Bolsonaro é homofóbico. O “chamado de” está funcionando como um efeito que produz o como se não fosse, porque é. Do ponto de vista do discurso, alguém diz que “é”, embora ele não precise que alguém diga que ele “é”, o que funciona reforçando o já dito e não a sua negação: “Bolsonaro é homofóbico”. Os dizeres são apresentados pelo funcionamento de um sujeito em primeira pessoa do singular (“eu cobri”, “eu tenho”, “eu não aceito”, “eu tiro” e “eu voto”), e à segunda pessoa do singilar cabe apenas votar.
Vê-se, então, que já se trata de Kit gay ou de tirar a criança da escola, porque isso quem vai fazer sou “eu”. Temos aqui uma ameaça na qual “eles querem”, as crianças são “elas”, e você “não vote”. Uma vez apresentados os elementos argumentativos, com um efeito de conclusão (“eu não aceito isso”), tem-se a interpelação do interlocutor (“E você vai aceitar?”), seguida de uma indicação objetiva, com uso do imperativo: “Então, não vote em ninguém”. A resposta do outro é aquela a que estou interpelando o interlocutor a responder, exatamente o que eu quero que ele responda, numa construção na qual eu respondo por ele, na relação “senão, então”, sendo seu complemento para uma resposta negativa. Embora presente, o interlocutor recebe a pergunta e a possibilidade de resposta pretendida. A indeterminação do
interlocutor constitui também um mecanismo que contribui para a viralização, uma vez que possibilita um alcance maior de identificação com determinada formação discursiva.
Por sua vez, as siglas partidárias PT, PC do B, PSOL, PSDB são nomeadas no campo político adversário, trazendo, no entanto, um caráter homogêneo na nomeação dos “inimigos” para uma condição heterogênea, bastando considerar as filiações ideológicas de PSOL e PSDB. A polarização que ocorre de modo constitutivo no discurso político, nos termos de Corten (1997), estende-se também ao discurso religioso, considerando os amigos e os inimigos de Deus. A expressão “capaz de bater de frente a esses malignos” é um exemplo, na referência aos “sem-deus”.
A figura do “filho”, enquanto propriedade dos pais, reforça o poder da família e sua suposta autonomia face ao Estado. O dizer “tiro ele” da escola, em sua expressão coloquial, contribui para uma aproximação das classes populares, “ignorando” a norma culta, sendo esta uma estratégia de aproximação com os falantes periféricos (da favela, da comunidade), cuja escolarização, geralmente, depende da escola pública. A não preocupação com a norma não configuraria um erro, pois se insere no argumento da sustentação desse dizer, que busca o efeito de identificação com o interlocutor e coloca a irrelevância do saber da variação padrão face à relevância do efeito imperativo que reforça a necessidade da manutenção da heteronormatividade.
No enunciado “pela família, pela ética”, são observados elementos que articulam na formação discursiva uma posição-sujeito que se apresenta como única, uma determinada maneira de dizer (pelo esquecimento 2) às pessoas (“vocês”) quem realmente ama a família, enquanto instituição social que só pode ser constituída em bases binárias.
A imagem no discurso materializado na SD2 traz a marcação da questão de gênero funcionando como um alerta ao perigo de uma suposta entrada da sexualidade LGBTQI+ nas escolas. Primeiro, observamos que a alternância entre o colorido e o preto e branco remete a algo voltado para estudantes. O aspecto didático é reforçado pela construção gráfica em quadros, como algo que se desloca entre o livro e as histórias em quadrinhos. As figuras que ilustram, no entanto, remetem a conteúdos para adulto, com ênfase em posições sexuais. Casas gays e mulheres lésbicas simulam posições sexuais, algumas delas tidas com tabu na formação discursiva religiosa: o sexo anal e o sexo oral.
A discursivadade da imagem também apela para cores simbólicas da comunidade LGBTQI+. A primeira delas, o pink, vem em destaque no título “Kit gay”. Referência no universo gay masculino, a cor também é associada ao pink money (dinheiro gay), numa alusão
não apenas à capacidade de compra de lésbicas, gays, bissexuais e transexuais, como também aos produtos e serviços voltados para esse público e que apoiam a causa da diversidade.
Ainda na hierarquia da cena imagética, o dizer “Escola sem homofobia” é grafado com as cores do arco-íris, considerado o símbolo máximo da diversidade e da inclusão, representadas na bandeira51 LGBTQI+.
Figura 11 – Sequência discursiva 2: Comentário A
Fonte: Agência Lupa, 2018
SD 2 – Comentário A: Foi por Causa da Luta contra esse Kit gay que o Bolsonaro tomou nome de homofóbico. Essa é apenas uma das capas do famoso kit gay, criado para ensinar seu filho que ele pode brincar de boneca e pode se apaixonar por outro menino. Criado para ensinar sua filha que ela pode ser menino, pode fazer sexo com outra menina. Esse kit é simplesmente para ensina sexualidade a seus filhos, ou seja, as crianças. Se você não conhece essa depravação, aconselho que procure se informar sobre Fernando Haddad, o criador do Kit Gay e esse que é candidato do PT é o poste de Lula… (compartilhem o máximo). Vamos eleger Bolsonaro Urgente. Vamos Salvar Nossas Crianças.
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A bandeira do arco-íris foi idealizada por Gilbert Baker em 1978. O estandarte foi utilizado pela primeira no mesmo ano, durante as comemorações do Dia de Liberdade Gay de San Francisco, na Califórnia (Estados Unidos).
Na SD2 – comentário A, sobre a temática do Kit gay, verificamos algumas modificações realizadas no enunciado em relação à SD2. Observa-se que, nas sequências discursivas SD2 e SD 2 comentário A, o falso Kit gay funciona metaforicamente como um “cavalo de troia”, com potencial de introduzir o mal, a sexualidade LGBTQI+ nas escolas. A questão da imagem, no entanto, permanece preservada. Nota-se também o reforço à questão eleitoral. O uso da associação entre “eleger” e “as crianças estão perdidas” possibilita a construção do dizer “Nós, com Bolsonaro, vamos salvar (nossas crianças)”, em um compromisso que compromete/inclui o interlocutor (“Nós”). Bolsonaro, com o trocadilho de um dos seus sobrenomes, é levado à condiçao de messias, aquele que salva as crianças, mas para que tal salvação aconteça a sua eleição é pré-condição. Atentamos novamente para o não pedido de votos, mas a convocação para elegê-lo. O importante é que ele tenha votos, mas mais que isso, que esses votos sejam suficentes para elegê-lo.
Estão imbricados nessa construção o discurso político e o discurso religioso, que, postos nessa relação constitutiva, só existem em relação ao outro, não havendo como separar o que é do religioso e do político. Apontam-se elementos de saber que designam uma formação discursiva, mas que, nessa estrutura, o funcionamento discursivo não se realiza isoladamente: eles estão juntos. Com Bolsonaro, usa-se o verbo “salvar”, que remete ao discurso religioso, e o que está suprimido do nome dele é messias, aquele que salva.
Os exemplos de enunciação de notícias falsas analisadas colocam a relevância da observação da distinção entre diferentes aspectos de personificação, pensados para demarcar que esta não se restringe à propaganda de produtos à venda nas plataformas on-line. As bolhas de filtros (que neste trabalho tratamos como bolhas discursivas) funcionam em diferentes instâncias: bolhas políticas, bolhas culturais, bolhas religiosas, e que têm em comum filtrar sentidos e silenciar discursos outros. “Para uma porcentagem cada vez maior de pessoas, feeds de notícias como o do Facebook estão se transformando em sua fonte principal de informações”, alerta Parisier (2011, p. 115).
A limitação dos espaços aos quais os usuários estão segregados e, consequentemente, os sentidos produzidos, é posta por Kakutani (2018) como algo antigo e que só tende a aumentar, no que se refere aos filtros e sua relação com aspectos tecnológicos e geopolíticos. Conforme Kakutani (ibidem, p. 131):
as paredes de nossas bolhas políticas só ganharam corpo; o isolamento acústico das nossas câmaras de eco ficou mais espaço. Antes mesmo de sermos encerrados em bolhas de filtros impenetráveis pelos feeds de notícia do Facebook e pela busca do Google, já vivíamos segregados em termos de política, cultura, geografia […].
Nessa perspectiva, entendemos, metaforicamente, as plataformas no seu aspecto movediço quanto à falta de transparência. A opacidade do funcionamento normativo impede que se tenha uma visão objetiva das engrenagens que as movimentam. E também pelo fato de que usuários facilmente “afundam” nesse terreno digital desterritorializado. Em referência à falta de transparência do processo de inclusão de usuários em bolhas de filtros, a autoratraça um comparativo com canais tradicionais de mídia, os quais podemos escolher entre assistir a um telejornal de um canal de televisão com notícias mais ou menos progressistas ou conservadoras. O mesmo não ocorre com as pautas e sentidos que nos são impostos por tais bolhas.
O grau de segmentação torna-se ainda mais preocupante diante das transformações por que passa a relação entre os consumidores e os meios de acesso às notícias. Dito de outra forma, significa dizer que os algoritmos tomam para si a prerrogativa de enviar para os usuários informações sobre serviços, lazer, compras, matérias jornalísticas e fake news, ainda que não tenham sido solicitadas.
A identificação do imbricamento entre discurso, artefato tecnológico e a eclosão das informações falsas corresponde ao substrato deste trabalho. E nele reconhecemos a pertinência do destaque dado por Maldidier (2017, p. 20), que, ao tratar do terreno sobre o qual emerge a Análise Automática do Discurso, refere-se à “estranheza (premonitória) do recurso à informática”, área que estava “longe de ser um instrumento neutro”. Ainda segundo Maldidier (ibidem, p.26), além da reflexão sobre a alma da máquina, “é preciso rever detalhes de suas rodas”.
O movimento de observação das engrenagens que possibilitam o girar das rodas nos leva, obrigatoriamente, a entender os mecanismos técnicos e ideológicos que incidem na maneira como o intradisscurso das notícias falsas é propagado. E não apenas isso, entendemos que a análise da intersecção entre o instrumento e o dizer representa a chave para o reconhecimento das forças materiais que sustentam o dito nas plataformas digitais.
4. CONTAMINAÇÃO DISCURSIVA – A GRANDE FAMÍLIA BINÁRIA
Nesta seção trazemos a tônica do controle incidindo sobre o sentido de família que entra em circulação nas fake news a partir da retomada do discurso religioso e da ascensão da extrema-direita no Brasil. Estabelecemos a relação entre práticas mecanizadas (uso de robôs, contas falsas) e o avanço do discurso contra os gêneros não binários em que se observa a desarticulação premeditada entre história e prática social.