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2.2 Les projets de changement

2.2.1 Le changement organisationnel

Comparativamente A Criação do Mundo — O Sexto Dia o Diário XII realça melhor, ou seja, nota-se ainda maior preocupação no que respeita à não-identifi - cação do Eu com a paisagem africana; esta afasta-se em muito daquela da pátria. O Eu sente que o sentimento da terra africana também é mútuo em relação a si, esta rejeita-o recusando-se a integrá-lo mesmo depois de morto. Na nota do

Diário XII datado de 19 de Maio de 1973, a partir de Luanda, explicita a exclusão

telúrica do Mesmo relativamente ao Outro e vice-versa:

Escrevo diante da mesma paisagem feia para que abri os olhos de manhã - zinha e que parece abafar como eu. Paisagem seca, pulverulenta, ardida, de vegetação precária e rasteira, que algumas cabras famélicas depenam e algumas presenças arbóreas tentam em vão erguer: embon deiros disfor - mes, edemaciados, monstruosos; mangueiras sombrias, espessas, maciças; mamoeiros esgrouviados, sintéticos, de testículos ao pescoço. Numa apli - ca ção esforçada, tento compreender este chão em si mesmo, espe cifica - mente, mas os sentidos refilam, inseguros fora dos seus padrões habituais — transmontanos, alentejanos ou beirões. E, por mais que não queira, sinto-me nele intruso, rejeitado, excluído, com a impressão incómoda de que, se morresse aqui, seria mais facilmente comido por dois abutres que me espreitam da ponta de um galho seco do que pela terra da sepultura.19

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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17Torga, Miguel, A Criação do Mundo — O Sexto Dia, pp. 169-170. 18Torga, Miguel, Diário XII, p. 1248.

O Eu nunca perante uma paisagem alheia foi tão peremptório no seu juízo de valores, embora previamente se tenha esforçado por interiorizá-la na sua dife - ren ça. Mas o seu relativismo cultural europeu de parâmetros geográficos tão díspares no tamanho e na forma (exemplo do embondeiro) não se conseguiu adaptar à nova realidade, o que não sucedeu no Brasil. Tzvetan Todorov quando aborda o tipo de relações do Mesmo com o Outro indica como exemplar o caso do espanhol Diego Duran que foi para o México ainda criança e, por isso, conse - guiu apreender excepcionalmente no século XVI em pleno as duas cultu ras: a espa nhola e a dos astecas.20Podemos compará-lo nesta medida a Torga de

A Criação do Mundo — O Segundo Dia, em relação à vivência deste durante a sua

meninice e juventude no Brasil profundo, telúrico que é também àquele onde ele tem a pretensão de chegar em África, ao contrário dos primeiros desco - bridores e dos colonos que Portugal tentou fixar no interior africano, através das várias tentativas (frustradas) de repovoamento rural europeu ao longo dos séculos até aos finais da Guerra Colonial. Não podemos esquecer, porém, que estes dois continentes tiveram colonizações diferentes como o próprio Torga o diz, assim como o testemunham outros críticos que já aqui referimos.

A barreira entre a geografia natal e a indígena é demasiado grande, como no-la anuncia na nota do Diário, datada de 25 de Maio de 1973, a partir do deserto de Moçâmedes, a actual Namibe. Naquilo que regista no dia seguinte ainda do mesmo local afigura-se-lhe intransponível essa diferença, apesar de atenuada pela presença humana. Como sucede em relação à alteridade relativa ao humano, também no referente à paisagem devemos considerar a existência de uma alteridade completa, ou seja, radical.

A paisagem africana é realmente um enigma para o Eu e a vegetação um escár nio na figura do embondeiro, mas a sua presença é afinal idêntica à da vegetação pobre das fragas nativas transmontanas, que para além de cilício funcio na também como um sortilégio. Neste âmbito tem cabimento a frase reiterativa “infeliz pássaro que nasce em ruim ninho” na obra do autor relati va - mente à pátria, assim como o poema “Embondeiro” no que respeita a África:

Por mais que mude a luz De cada panorama, O teu vulto persiste Em ser a imagem triste Da tristeza africana.21

Isabel Maria Fidalgo Mateus

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20Todorov, Tzvetan, La Conquête de L’Amérique: La Question de l’Autre. Paris: Éditions du Seuil,

1982, pp. 208-224.

Podemos assentir que a atitude prospectiva do Eu face à paisagem africana o leva a cotejá-la com a nativa e, embora não lhe negue a alteridade, esta propor - ciona-lhe pelo paralelismo estabelecido o conhecimento, embora antagónico, dos dois países telúricos.

2.2.2. Alteridade relativa à caça

Intimamente ligada à paisagem surge a caça por duas razões. Primeiro, pelo facto óbvio de o cenário da caçada corresponder a uma vegetação específica da savana africana, obrigando o caçador a permanecer durante horas “enterrado no capim à procura de rastos, através dum nariz e duns olhos nativos, e a alvejar a presa a duzentos metros de distância com carabinas de precisão”22, o que

conduz ao segundo motivo — a falta de identificação do Eu com o modo como a activi dade cinegética aqui se pratica. O cotejo entre a própria caça (os animais), a forma de caçar em Portugal e em África, Gorongosa, acentua essa clivagem. Em Portugal há igualdade de circunstâncias entre o caçador e a presa, ou pelo menos não há traição: “Que saudades de uma perdiz bem mandada numa encosta do Douro, abatida de papo!”23

A caça não é a única em desigualdade de circunstâncias, o negro também está em desvantagem perante o branco e a comparação do poder de Torga, a sua superioridade das balas em relação ao leão desarmado tem a mesma conotação do colonizador perante o negro, o indígena: “(…) E, a autenticar a obra, a vetusta assinatura do autor, figurada na juba do leão deitado ao lado da companheira, a olhar com majestática sobranceria o pobre rei da criação que eu era, a exibir um ceptro de cinco balas nas mãos aterradas”.24

É ainda neste cenário de caça que o Eu se confronta com o Outro humano da África profunda. Realidade ainda diversa da brasileira, novamente constata também aqui que indígenas e colonizadores não conseguem comunicar, enca - rando-se como perfeitos desconhecidos dentro da mesma pátria. Citando de novo Todorov e encarando a alteridade no plano da epistemologia, diríamos que o português nunca se mostrou interessado em conhecer o africano e que, por isso, a frase “j’ignore l’identité de l’autre” retrata a postura do colonizador versus o colonizado.25

Miguel Torga: a África colonial e a sua percepção do Outro

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22Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256. 23Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256. 24Torga, Miguel, Diário XII, p. 1256.

25Todorov, Tzvetan, «Typologie des relations à autrui », pp. 191-207. Neste primeiro ponto

A caça foi o meio de chegar até eles, isto é, ao povo africano. Contudo, a bar - reira de quinhentos anos interpôs-se entre o Mesmo, o viajante Torga, e o Outro.

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