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Le cadre théorique de la problématisation

et conceptualisation dans un débat scientifique

1. Le cadre théorique de la problématisation

Enumeremos estas correlações para cada episódio, na ordem em que se fazem presente na narrativa de Judá e Tamar.

1ª) De uma forma mais geral, a conexão mais forte e clara de Gênesis 38 com as nar- rativas anteriores está no seu foco temático: a geração de descendência, que é o grande tema do livro (veja 1.2.2). No contexto imediato, a macronarrativa de Gênesis 37 a 50 também está interessada na sobrevivência da linhagem de Jacó: José vai para o Egito para permitir que a família sobreviva à fome que impera em Canaã (Gn 42.2). Dentro deste tema universal, o leitor reconhece em Gênesis 38 algumas questões familiares apresentadas anteriormente: o problema da exogamia, a dificuldade de gerar filhos, a nomeação de recém-nascidos, a disputa pela pri- mogenitura, o apego ao filho único, o pesar pela morte da esposa que leva a novos meios de procriação, o encontro com a futura esposa em um poço. (CLIFFORD, 2004, p. 528).

2ª) O deslocamento de Judá (v. 1) ao se afastar de seus irmãos contrasta com a impor- tância da unidade familiar patriarcal. Esta unidade familiar é valorizada nos capítulos anteriores do livro, pois toda separação familiar é explicada como fruto de contendas: Ló se afasta de Abraão, Hagar de Sarai, Jacó de Esaú, José de seus irmãos (em alguns casos, a separação não é voluntária). O leitor estranha a separação no início de Gênesis 38 porque o narrador não explica a motivação de Judá, nem indica se houve alguma briga. A alusão mais específica parece ser à história de José no capítulo 37, que salienta o vocábulo “irmãos”. O verbo “descer” (v. 1) se conecta à expressão de pesar de Jacó pela separação de José (dois versículos antes, 37.35: ele “descerá” ao sepulcro) e insinua uma possível relação entre as duas descidas, sugerindo que o afastamento de Judá se deriva do pesar do pai. O verbo também se conecta ao início do próximo capítulo (duas vezes em 39.1), que descreve a descida de José ao Egito.256 Nestas ocorrências, o verbo parece salientar a separação familiar que se opõe à unidade almejada. (ANDREW, 1993, p. 262; ALTER, 2007, p. 19; COTTER, 2003, p. 280).257

3ª) A associação de Judá com cananitas em negócios e casamento (v. 1-2) também não

256 Contudo, “o distanciamento de Judá é voluntário (verbo ativo), ao contrário do de José (verbo passivo).” (WÉ-

NIN, 2011, p. 79).

257 Na história posterior da leitura desta narrativa, a obra judaica Gênesis Rabá (85.1) salienta explicitamente esta

recebe comentário elucidativo do narrador. Talvez haja aqui uma alusão ao comportamento de Esaú, tio de Judá, que se casou com uma cananita para demonstrar seu desgosto com a família (28.6-9), já tendo abandonado antes (26.34-35) a premissa patriarcal do casamento endógeno (24.2-6; 27.46–28.2). (SMITH, 2005, p. 161-162). Em contrapartida, estabelece-se um con- traste com o posterior casamento de José (46.20) – embora tenha se casado com uma estran- geira, José permanece fiel a Javé, enquanto Judá se desvia de suas tradições familiares ao se casar com a filha de Xua e gerar filhos perversos.258 (LANGE, 2008, p. 591). O perigo desta miscigenação de Judá é a contaminação da linhagem eleita, o que conecta esta narrativa a peri- gos similares enfrentados pelas matriarcas Sara e Rebeca (12.10-20; 20.1-18; 26.1-11).

4ª) Outra diferença está na brevidade da descrição desta narrativa quanto ao nasci- mento dos filhos de Judá (cena 1), em comparação com a descrição de outros nascimentos (29.31–30.24). Nos casos anteriores, a designação de nome para o recém-nascido revela seu significado e a circunstância de seu nascimento. Mas a cena 1 de Gênesis 38 não explicita estes significados; só a última cena volta ao padrão da nomeação com significado.

5ª) A dificuldade de Tamar em gerar filhos (cena 2) se compara ao padrão apresentado nas narrativas patriarcais, em que o nascimento de um personagem importante se dá após anos de dificuldades.259 (SHARON, 2005, p. 298). O enredo não atribui a Tamar a “usual” esterili- dade que é uma barreira para o cumprimento da promessa da descendência, só resolvida por intervenção divina. O leitor recorda os casos de Sara (11.30; 15.2; 17.17; 21.1-2), Rebeca (25.21) e Raquel (29.31; 30.22) e percebe o contraste. (ALEXANDER, 1989, p. 14). O impe- dimento aqui se origina dos homens (Er, Onã e Judá) e não há intervenção divina explícita.

6ª) Quando Javé faz morrer Er e Onã por suas perversidades, há imediata lembrança da ação divina similar de extermínio de grupos inteiros no dilúvio (6.5-7,13) e em Sodoma e

258 A macronarrativa estabelece clara diferença entre associar-se com os cananitas e com os egípcios. Na associação

com os cananitas, há perigosa miscigenação cultural e religiosa que precisa ser evitada (daí a premissa do casa- mento endógeno). Na associação com os egípcios, não há grande perigo, devido ao preconceito racial e social deles (43.32; 46.34), o qual fez que a família de Jacó habitasse em uma região separada (45.10,18). Assim, toda a família de Jacó desceu ao Egito com a bênção de Deus (46.2-4). A clara justificativa teológica do livro para o deslocamento do povo eleito para o Egito é a proteção dos seus valores culturais e religiosos. (AALDERS, 1981; BOICE, 1999, v. 3, p. 894).

259 Tikva Frymer-Kensky acrescenta: “Assim, a bisavó, a avó e a mãe de Judá superaram vulnerabilidade e impo-

tência para dar à luz e determinar o sucesso do avô e do pai de Judá e do próprio Judá. Tamar continua este padrão na geração seguinte. Todas elas estavam preparadas para enfrentarem escândalo, humilhação, ostracismo ou morte para terem filhos em suas famílias. Todas foram assertivas e pró-ativas, e cada uma delas se envolveu em uma atividade sexual não convencional para alcançar seu propósito. E o mesmo é certamente verdadeiro das outras mães da linhagem de Davi, as filhas de Ló e Rute.” (2002, p. 276).

Gomorra (Gn 18.20; 19.13,24). A narrativa de Gênesis 38 inova por apresentar a primeira oca- sião bíblica em que Javé extermina dois indivíduos (v. 7,10).

7ª) Em contraste com o extensivo pesar de Jacó (37.34-35), a história de Judá omite qualquer expressão de luto da parte dele pela morte de seus filhos. Mesmo após a morte da esposa, Judá parece ser rapidamente consolado (v. 12). (ALTER, 2007, p. 20). Isto causa estra- nhamento ao leitor e o conduz em sua percepção do personagem. No caso de Abraão e Isaque, a morte de Sara (respectivamente, esposa e mãe) os leva a buscar esposas (24.67–25.1). Con- trariando a expectativa do leitor, Judá sai para a tosquia e se engaja em um “consolo” temporário à beira do caminho.260