Hélio Oiticica (1937-1980), nascido no Rio de Janeiro, participou ativamente do engajamento político junto com demais artistas de sua época. Sua contribuição para as artes brasileiras é inestimável em vários campos.
Oiticica elabora uma nova possibilidade artística intitulada Nova Objetividade. Sobre este movimento o próprio artista define
Nova Objetividade seria a formulação de um estado da arte brasileira de vanguarda, cujas principais características são: 1: vontade construtiva geral; 2: tendência para um objeto ao ser negado e superado o quadro do cavalete; 3: participação do espectador (corporal, tátil, visual, semântica etc.); 4: abordagem e tomada de posição em relação a problemas políticos, sociais e éticos; 5: tendência para proposições coletivas e consequente abolição dos “ismos” característicos da primeira metade do século na arte de hoje (tendência esta que pode ser englobada no conceito de “arte pós-moderna” de Mário Pedrosa); 6: ressurgimento e novas formulações do conceito de antiarte (OITICICA, apud FERREIRA, COTRIM, 2006, p. 154).
Segundo o artista, o que difere a formulação artística no Brasil também é consequência de ser o brasileiro um povo em busca por uma caracterização cultural, justificado por todo histórico de formação do país e por não existir aqui um legado cultural milenar como existe em países europeus, assim como, nos Estados Unidos com sua superprodutividade exportando sua cultura mundo a fora.
A partir desta explicação, o artista explica a necessidade construtiva do brasileiro visando abolir de certa forma os resquícios do colonialismo, e, para ele, é esta necessidade que explica a função primeira da Nova Objetividade: buscar “pelas características nossas, latentes e de certo modo em desenvolvimento; objetivar um estado criador geral, a que se chamaria de vanguarda brasileira, numa solidificação cultural”. Para Oiticica este esforço fundamental inclusive, se para isso, for necessário usar métodos especificamente anticulturais (OITICICA, apud FERREIRA, COTRIM, 2006, p. 154).
Hélio Oiticica, juntamente com Antonio Manuel, elaboram juntos Tropiália no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Tropicália recriava o espaço dentro de uma favela do Rio de Janeiro a partir dos materiais que os próprios moradores da favela utilizavam em seu cotidiano. Eram dois barracos de madeira cobertos com tecidos coloridos. No espaço, o chão coberto de areia e pedra, que propiciava o
114 público caminhar descalço, também estavam papagaios vivos, andando dentro de uma grande gaiola, componho a exposição. Em um ambiente escuro uma televisão era usada para recriar os sons e ruídos da cidade, em um segundo ambiente a inscrição “A pureza é um mito”.
FIGURA 27: Tropicália (1967)
Fonte: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/evento81894/nova-objetividade-brasileira-1967-rio-de- janeiro-rj acesso 05 de nov. 2017.
Em 1959, Oiticica funda com Lydia Clark, Franz Weissmann e Amilcar de Castro o grupo Neoconcreto, mudando de vez as feições da arte moderna brasileira. Sobre este movimento o poeta Ferreira Gullar escreve um manifesto19 no qual faz importantes afirmações sobre a arte. Para o crítico a obra de arte não deveria ser
19 Ferreira Gullar, “Manifesto Neoconcreto,” IN: 1 a.Exposição Neoconcreta, catálogo (Rio de Janeiro:
Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, 1959), s. p. O crítico escreveu esse manifesto, que foi co- assinado pelos participantes da exposição inaugurada em 19 de março de 1959.
115 concebida nem como máquina tão pouco como objeto, para Gullar a arte é um “quasi- corpus”, ou seja, a arte assume a perspectiva de um ser, cuja realidade, não finda nas relações externas de seus elementos. Para Gullar a pintura e a escultura foram superadas por uma arte que transpassa o espaço, alcançando a vida e no Brasil este entrelaçamento se dá de forma problemática as conexões entre arte e vida. Gullar também assume que o movimento Neoconcreto brasileiro é definido pela transição da arte modernista para a arte vanguardista.
Além de todo engajamento de Hélio Oiticica no grupo Neoconcreto, ele também faz fortes contribuições as críticas ao governo ditatorial. Uma singular atitude do artista, ocorre no ano de 1965, quando a polícia matou um marginal chamado Cara de Cavalo, pessoa com quem Oiticica tinha contato na favela. Sobre o acontecimento, os jornais noticiaram a morte do marginal com uma foto, a qual Oiticica usou para compor um estandarte, com a técnica da serigrafia sobre tecido. Ele alterou a legenda original do jornal e re-escreveu a seguinte frase: “Seja Marginal. Seja Herói20”. A obra foi exposta na Boate Sucata durante um show dos Mutantes com Gilberto Gil. Esta atitude causou o fechamento da boate e consequentemente justificou a perseguição aos músicos. A obra tinha o nome de “Homenagem a Cara de Cavalo”, o que era, claramente, uma afronta aos militares.
Em 1968, Oiticica junto com Antonio Manuel elabora mais uma ação coletiva. A pedido de Oiticica, Manuel cria a série intitulada Urnas Quentes que contava inteiramente com a participação do público e fazia duras críticas ao regime militar. A ação aconteceu no Aterro do Flamengo e o público era solicitado a quebrar vinte caixas lacradas e dentro destas caixas haviam recortes de jornais, textos, poemas e fotografias da época. Todas as urnas eram diferentes, cada uma continha um conteúdo específico e só era acessível ao público após ser quebrada com martelo.
Claudia Calirman (2013) analisa a intervenção com uma curiosidade, a qual possivelmente o próprio Antonio Manuel desconhecia. O artista intitulou a obra de Urnas quentes devido a urgência do problema político brasileiro, e também com uma profunda ironia a supressão das eleições no Brasil durante a ditadura, no entanto, Guy Brett observa a palavra urna, em inglês é urn é associada a cinzas e morte, diferente da palavra no português que refere-se a uma caixa apenas, reforçando ainda mais a crítica situação vivida pelo país.
116
FIGURA 28: Urnas Quentes (1968)
Fonte: http://brmenosmais.blogspot.com.br/2010/08/antonio-manuel-urnas-quentes-1968.html acesso 05 de nov. 2017.
FIGURA 29: Urnas Quentes (1968)
Fonte: http://brmenosmais.blogspot.com.br/2010/08/antonio-manuel-urnas-quentes-1968.html acesso 05 de nov. 2017.
117