• Aucun résultat trouvé

Le "Battery Management System"

Diferentes atividades foram desenvolvidas ao longo do primeiro semestre letivo do ano de 2017 com os estudantes do componente curricular de Estágio Curricular Supervisionado de Ensino I. Logo, para essa tese, será considerado a participação e os trabalhos dos 6 estudantes apresentados no item 3.1.

Conforme será visto, por ser esse o contato inicial do licenciando com a escola, houve uma maior preocupação em orientá-los sobre a importância dos múltiplos olhares que podem ser lançados nesse espaço e a importância do registro. Dentro disso, as atividades avaliativas formais realizadas para essa componente curricular foram: produção de relatos, diários de bordo e livro de relatos. Para facilitar o entendimento dessas atividades, apresento separadamente cada uma delas.

Estágio Curricular Supervisionado de Ensino I - A produção de relatos

Partindo das observações escolares e discussões ocorridas nos encontros presenciais quinzenais na UFGD, no primeiro semestre letivo de 2017, foram produzidos quatro relatos, intercalados por reflexões e vivências escolares, conforme pode ser visto no cronograma. Os relatos 2 e 4 foram produzidos em um movimento dialógico entre professor e estudantes e, posteriormente, entre os discentes, estimulando a escrita e a reescrita dos trabalhos. Em virtude do tempo, o relato 2 foi lido e comentado 3 vezes, já o relato 4, duas vezes. A seguir, apresento as dinâmicas envolvidas na produção de cada um dos relatos.

a) Relato 1 – O exercício de estranhamento

O primeiro relato de observação escolar se deu a partir da atividade denominada Exercício de Estranhamento, desenvolvida no segundo e no terceiro encontro presencial. Tal experiência já foi discutida por Flôr e Cabral (2012) em outro cenário de pesquisa. Como primeira etapa dessa atividade, foi discutido o texto do autor Horace Miner intitulado Ritos Corporais entre os Nacirema (ANEXO III). O texto em questão inicia- se com a apresentação de diferentes rituais que a chamada sociedade Nacirema realiza no que diz respeito ao corpo humano. Conforme o texto avança, os rituais vão sendo descritos, e, após a leitura individual do texto, foi iniciada uma conversa com os estudantes da UFGD sobre esses rituais, a forma como são apresentados e quais as

características de uma sociedade que os pratica. Os sentidos sedimentados pelos alunos após a leitura culminaram para uma sociedade arcaica, dogmática, sadomasoquista e com rituais nunca vistos.

A atividade seguiu com a desconstrução dos sentidos apresentados. Num segundo movimento, foi pedido aos estudantes que relessem o texto, lendo, nesse momento, as palavras desconhecidas ao contrário. Nesse momento, revelou-se o fato de que “nacirema” ao contrário é “american”, e outros termos, como “Notgnihsaw”, o herói mítico dos nacirema, que vira “Washington” e “latipsoh” mostra-se como “hospital”. Ao serem revelados os nomes dos diferentes personagens e locais dos Nacirema o texto assume outro sentido, aproximando os Nacirema dos costumes da sociedade norte-americana. Partindo dessas mudanças de perspectiva e possibilidades de diferentes sentidos que a leitura do texto de Miner (1976) suscitou, busquei aporte na AD para discutir o papel da linguagem no Ensino de Ciências, apontando que não existem sentidos únicos e prontos por detrás de um texto, e sim um processo de produção de sentidos que nega a transparência da linguagem e a existência de um leitor que se coloque na condição de observador neutro (ORLANDI, 2012).

Logo, foi discutida com os estudantes a perspectiva de que o lugar que é escolhido para a escola influencia as leituras que fazemos deste ambiente. Sendo proposta uma desnaturalização do olhar, buscando novas leituras para um ambiente que é, muitas vezes, tão naturalizado. Trabalhando com essas considerações, de que é necessário abandonar os altos postos de segurança, no caso, as teorias pedagógicas que olham para a escola de uma posição privilegiada, lancei aos estudantes a seguinte tarefa: se você não fosse um estudante, inserido há pelo menos doze anos no processo de escolarização; se não tivesse passado pela escola e não soubesse exatamente o que significam as pessoas, objetos, cargos e discursos presentes nessa instituição, o que veria quando adentrasse no ambiente escolar?

Partindo da questão lançada os estudantes foram convidados a estranhar o ambiente escolar e apresentar suas leituras na forma de relatos. Geraldi (2013) destaca que se pode ir ao texto para usá-lo na produção de outros textos, chamando-o de texto pretexto, “[...] pretextos legítimos, em qualquer circunstância. Penso aqui, por exemplo, no diretor do teatro que, montando uma peça, sua obra não se mede pela fidelidade ao texto que a sustenta, mas pelo novo texto (montagem) que o faz reaparecer” (p. 173). Nesse sentido, considero o Exercício de Estranhamento um texto pretexto, pois, a partir desse exercício, haverá um desencadeamento de outro relato. Assim, alguns relatos

sobre o Exercício de Estranhamento produzidos por estudantes de disciplinas anteriores foram utilizados a fim de apresentar as diversas possibilidades para a sua construção. A proposta é de que os estudantes ampliem seu olhar para a escola, estranhando-a e fazendo um movimento discursivo de deslocamento, da formação discursiva pedagógica para a formação discursiva antropológica. Durante duas semanas, os estagiários foram para as escolas buscando esse novo olhar e construindo um relato, que podia assumir a forma textual escolhida pelo estudante: vídeos, apresentação de slides, cartazes, desenhos, textos escritos. Na turma em questão todos apresentaram relatos escritos. A partir dessa produção textual, os estudantes observaram o ambiente escolar sob outros pontos de vista, procurando re-significar tanto a escola quanto a atividade de observação do componente curricular de Estágio Curricular Supervisionado de Ensino I.

Esse primeiro relato, por ter um caráter exclusivamente criativo, sem necessidade de aportes teóricos nem rigor de estilo na apresentação das observações, não sofreu alterações, a não ser de correção gramatical e ortográfica.

b) Relato 2 - Apontamentos do exercício de estranhamento

Partindo da leitura em grupo do exercício de estranhamento de cada estudante, foi possível observar os apontamentos dos sentidos que mais se destacaram a partir do terceiro e quarto encontro presencial nas dependências da UFGD. Assim, no Quadro 6 apresento o pseudônimo de cada estudante, bem como o tema indicado para a produção do segundo relato e os fragmentos dos relatos.

Quadro 6: Síntese dos relatos produzidos no primeiro semestre letivo de 2017.

ESTUDANTE TEMAS FRAGMENTO DO TEXTO

Bruna

História da Química e/ou doutrinação

“Entrei em uma das salas comunais na qual uma senhora da área e conhecimento de alquimia iria doutrina-los ao seu conhecimento”

José Uniforme escolar e/ou indisciplina

“e uniformes sendo usados contra a vontade dos alunos”

Maria Indisciplina

“... outros dormiam em cima das cadeiras, poucos falavam com a mulher, e assim novamente surgiu o grande barulho e todos saíram iguais loucos para o enorme portão,

como animais presos que não viam a hora de serem libertos.”

Júlia Sino escolar

“... escutou-se então um ruído estranho, na qual as pessoas começaram a guardar seus pertences, e alguns, já mais apurados, foram embora mais rapidamente.”

Ana Clara Avaliação

“E apesar da importância que se dava aquela folha de papel, tinham aqueles que simplesmente a olhavam, sem escrever nada, porém também não podiam deixar o ambiente, olhar para os lados ou conversar.”

Ana Estrutura física escolar

“... entrei pela porta estreita, dentro era um lugar bem restrito. No interior desta área, havia aparelhos diferentes, onde no seu teto estava pendurada uma ferramenta na qual tinha quatro asas...”

Fonte: elaborada pelo autor.

Diante dos temas que surgiram após a leitura e discussão dos exercícios de estranhamento os estudantes puderam optar por se aprofundar em um ou mais temas. Iniciando, com isso, novas leituras, buscando o diálogo entre referenciais teóricos e a realidade vivenciada na escola, o que, para Orlandi (2012) marca a noção de intertextualidade, que remete ao fato de que um texto nasce em outros textos, assim como, também, aponta para outros tantos. Como produto dessa discussão, das novas leituras e observações na escola, um novo relato foi produzido e entregue. É importante salientar que para dialogar com os relatos não foi solicitada a utilização exclusiva de alguma fonte acadêmica, embora tenha sido ressaltada a sua importância.

c) Relato 3 - Fotografias e poesias

Para a produção do terceiro relato, foi indicado que fotografassem aspectos que chamassem a atenção no espaço escolar. A única ressalva era de que preservassem a imagem dos alunos envolvidos, excluindo seus rostos e solicitando a autorização para discussão e divulgação no encontro presencial. Além disso, os estagiários deveriam articular essa imagem com uma poesia ou poema. Conforme pode ser visto no 5º encontro presencial do cronograma do componente curricular, os estudantes elaboraram

um conjunto de slides para apresentação. A dinâmica, que consistiu na explanação e discussão de cada produção, teve como principais apontamentos a biblioteca, a preservação e depredação do espaço físico escolar, o laboratório, a avaliação, as relações interpessoais, os modelos para aprendizagem em Química e a importância das fontes não acadêmicas.

d) Relato 4 – Leitura de uma produção audiovisual e as articulações com as vivências escolares

As nuances das diferentes relações que podem ser estabelecidos entre os membros de uma comunidade escolar, bem como os caminhos que são seguidos pelo docente, são temas trazidos com frequência para discussão pelos estagiários. Para que fosse possível o trabalho com essas questões, o filme norte americano Escritores da

liberdade, que retrata os desafios e estratégias de uma professora iniciante em uma

escola de periferia, foi assistido. A produção audiovisual não apresenta uma perspectiva pedagógica ou um método, mas sim, aponta para a sensibilidade, a tolerância, o respeito e, ainda, o valor do professor em suas relações com os estudantes e os diferentes mecanismos para valorizá-los a partir de suas histórias de vida. Mediante a leitura do filme houve a indicação da produção do quarto relato, que consistia na escrita de aproximações e distanciamentos entre o filme e o contexto escolar.

Tal como discute Sercundes (2011), ao apresentar diferentes formas de chegarmos à escrita, essa atividade se aproxima da “escrita como consequência”, em que podem ser “resultantes de uma leitura, um filme um passeio, enfim cada um desses itens será um pretexto para se realizar um trabalho escrito” (p 82).

Consequentemente, na aula posterior houve uma conversa sobre as principais questões que emergiram a partir do filme e da leitura dos relatos dos estudantes, buscando sempre aproximar com as vivências escolares. Para fortalecer o debate, foi solicitado que cada estudante indicasse duas palavras que remetessem à produção audiovisual, não podendo repetir os termos. O conjunto de palavras podem ser vistas na Figura 3, disposta abaixo. Para a construção dessa figura, os acadêmicos se reuniram em torno do computador disponível na sala de aula e utilizaram uma plataforma online.

Fonte: elaborado pelos licenciados.

O conjunto de palavras agrupadas, bem como as discussões ocorridas nas dependências da UFGD, culminaram na indicação de reescrita do relato. Dessa forma, os estagiários deveriam inserir pelo menos quatro dessas palavras em seus relatos, ampliando e articulando as discussões.

Os relatos 2 e 4 apresentados foram produzidos em um movimento dialógico entre professor e estudante e, posteriormente, entre os estudantes. Nessa dinâmica, os relatos eram produzidos em versão preliminar e entregues em data marcada. Na sequência, eram lidos pelo professor do componente curricular que fazia comentários, observações e correções ortográficas. Os relatos eram devolvidos aos estudantes para que realizassem as mudanças necessárias e os reapresentassem. A dinâmica era então repetida entre os estudantes, a fim de que fosse possível chegar a uma versão final do relato.

Como já dito, o relato 1, por ter um caráter mais criativo, não havendo necessidade de aportes teóricos, não sofreu alterações no decorrer das aulas, a não ser de correção gramatical e ortográfica. Já o relato 3, ao apresentar uma fotografia juntamente com uma poesia, também não passou por um processo de escrita e reescrita.

No anexo IV estão elencados todos os quatro relatos produzidos pelos discentes no Estágio Curricular Supervisionado de Ensino I.

- Diário de Bordo

Em cada encontro presencial, nas dependências da UFGD, um estudante ficava responsável por tomar nota das discussões que antecedeu e apresentá-las no início da próxima aula. Não foi indicado um modelo para esse diário, que poderia ser variável para cada estudante, permitindo, com isso, uma escrita mais fluida para expressar as reflexões sobre o encontro. Dessa forma, o gênero textual para apresentação foi escolhido por cada aluno, optando por aquele que melhor se adequava a sua proposta.

- Construção do livro de relatos

Ao final do componente curricular, os quatro relatos produzidos pelos seis estudantes foram compilados em um livro de Estágio, sendo cada estudante responsável pela escrita de um capítulo. Para isso, os estudantes elaboraram uma capa e indicaram um título, além de buscar articulações entre os relatos escritos de forma a dar coesão e coerência ao capítulo. O livro foi salvo em uma mídia digital (CD) e entregue aos membros da escola – professor, orientador e direção – como retorno das atividades e reflexões propiciadas por aquele ambiente. No anexo IV estão os quatro relatos produzidos pelos discentes no Estágio Curricular Supervisionado de Ensino I, compilados no livro de relatos.

Como visto no Quadro 7, várias foram as atividades realizadas, entretanto, apenas algumas farão parte do corpus analítico, e, por isso, apresento-as em negrito no mesmo quadro.

Quadro 7: Síntese das atividades desenvolvidas. ATIVIDADES DESENVOLVIDAS Relato 1 – Exercício de Estranhamento

Relato 2 – Apontamentos do Exercício de Estranhamento Relato 3 – Fotografias e poesias

Relato 4 – Leitura de uma produção audiovisual e as articulações com as vivências escolares

Construção do livro de relatos Diário de bordo

Foram apresentados, nesse capítulo, os caminhos e algumas das condições de produção dessa pesquisa, sendo algumas dessas pano de fundo para compreender os movimentos analíticos que serão apresentados no próximo capítulo.

4. A PRODUÇÃO DE RELATOS E OS DESLOCAMENTOS NO