Nos Estados Unidos, o movimento ambientalista se expressou, originalmente, com característica preservacionista, ou conservacionista, com a criação do Parque Nacional de
Yosemite (inaugurado em 1864, com 3.100 km2) e do Parque Nacional de Yellowstone (inaugurado em 1872, com 8.980 km2).
O movimento ambientalista teve como principal alvo de críticas o lançamento de grandes quantidades de produtos químicos no meio ambiente, sem o entendimento dos seus impactos sobre a biosfera. O livro Silent Spring, de 1962, da escritora e bióloga Rachel Carson148 provocou o questionamento e a proibição do uso de pesticidas nos Estados Unidos, no começo da década de 1970, e a obra A Sand County Almanac, de 1949, do filósofo ambiental, acadêmico e conservacionista, Aldo Leopold foram marcos do movimento ambientalista nos EUA, dentre os mais influentes no mundo ocidental.
Afinal, nos anos 1960, o movimento se fortaleceu com o ativismo contra o uso de pesticidas nas plantações. Em seguida, a ênfase foi dada ao aquecimento global, ao esgotamento dos recursos do planeta e, mais recentemente, às mudanças climáticas.
O movimento ambientalista, também conhecido como “movimento verde” nasceu da justa indignação de alguns em relação ao desmatamento, à poluição do ar, dos rios e dos mares, além da preocupação com os riscos para a saúde humana provenientes da atividade industrial. Com o tempo, o movimento foi transformado pela ideologia de esquerda para representar essas questões na política.
O movimento ambientalista francês, a exemplo do movimento Les Écologistes, voltou- se para a ecologia política, fator decisivo no processo de ruptura com o pensamento hegemônico, principalmente, para uma crítica social de alienação, com autores como André Gorz, Castoriadis e o próprio Félix Guattari. Alegavam que, até então, a natureza e os diagnósticos científicos aparentavam não ter direito de participar da vida política, argumento que fomentou a criação de um partido. Porém, mesmo tendo surgido uma nova geração de pensadores, seus trabalhos não pareceram interessar à constituição dos “Verdes” (Greens ou
Les Verts), eleitos pelo Partido Verde.
Além disso, por muito tempo, a Ecologia foi situada à margem das elites e, consequentemente, os “verdes” franceses também foram colocados à margem. E, sem conseguir desenvolver uma nova divisão política, as ideias ecológicas tiveram que ser transmitidas à sociedade por outro meio – a conscientização ecológica-política – o que passou a ser um horizonte possível para o futuro, no contexto francês.
148 Rachel Carson (1907-1964) foi escritora, cientista, bióloga marinha e ecologista norte-americana. Sua
Diferentemente do pensamento anglo-saxão, não utilizavam arranjos institucionais, à exceção da proposta de uma “renda básica de cidadania”149, como uma quantia paga em dinheiro a cada cidadão pertencente a uma nação e que poderia ser ou não incondicional.
Há vinte anos, não havia adesão na França sobre o reconhecimento da parcela humana da natureza, atualmente já aceito, nem a sensibilização ao sofrimento animal: comer menos carne por razões éticas e ecológicas. Estas são questões que já fazem parte da consciência ecológica básica neste país. De modo geral, a opinião pública pareceu fazer muita diferença entre as ideias relacionadas ao pensamento ecológico e o Partido Verde. Este último, encarnava uma força política, porém não incorporava, plenamente, a causa ecológica.
Alain Lipietz (1995), principal economista do Partido Verde francês, eleito para o Parlamento Europeu, escreveu Green Hopes: the future of Political Ecology, abordando a Ecologia Política como uma alternativa “verde” aos movimentos e doutrinas políticas tradicionais. Desenvolveu a teoria da regulação, termo derivado da chamada Escola da Regulação150, que congregava o pensamento de economistas como Michel Aglietta, Robert Boyer e Alain Lipietz.
Tendo em vista os desafios deste novo milênio, Lipietz (1991) propôs uma transformação radical nos conceitos tradicionais de política econômica, ecológica e social, que já haviam sido esboçados em trabalho anterior. Optou também por uma mudança mais geral sobre a política econômica da esquerda. No livro Audácia: uma alternativa para o século XXI descreveu as engrenagens da economia, em crise, e desmontou as bases políticas que vinham sendo utilizadas há vinte anos. Demonstrou seu pensamento e também apresentou uma trilha capaz de provocar uma mudança de rumo – reorganizar o trabalho disponível, distribuição mais justa da riqueza produzida, mudar as relações Norte-Sul, a partir de uma Europa mais social –, capaz de incentivar uma prática democrática mais longa e mais diversificada, optando por enriquecer o desenvolvimento, sem o esgotamento dos recursos naturais. No momento em que foram apresentadas, essas opções, foram vistas, muitas vezes, como utopias, no entanto, atualmente, apresentam-se mais realistas – sendo vislumbrada como eixo de uma alternativa para os próximos anos.
Dentro do movimento ambientalista, também pode-se incluir o Movimento Hippie que,
149 No Brasil, a Lei 10.835, aprovada pelo governo Lula aplicou o Programa Bolsa Família (criado em 2003)
visando se aproximar à ideia de subsídio universal. Em fevereiro de 2008, 1/3 da população do Brasil se beneficiava deste programa assistencial. A origem do rendimento de cidadania (RC), como renda para os pobres, indica ter sido visionada por Tomás Morus (1516) em seu livro A Utopia.
um século após a morte de Thoreau, utilizava suas ideias como inspiração. Com o lema “Paz e Amor”, os jovens contestavam os valores tradicionais da sociedade de consumo e a hegemonia do complexo econômico-militar nos anos 1960. Os hippies buscavam praticar a não-violência em todas as relações que mantinham, constituindo um movimento pelos direitos civis, de combate às injustiças e de defesa da natureza, nos moldes da luta de Gandhi e Martin Luther King. Ou seja, inspirados na ideia de “desobediência civil” de Thoreau (1997) e na defesa dos direitos da natureza, provenientes de sua autobiografia Walden ou A Vida nos Bosques.
4.2.2. Movimento das Ecovilas
Originadas das comunidades intencionais151, as ecovilas surgiram de ideias desenvolvidas simultaneamente em diferentes lugares, a partir da reapropriação do conceito de antigas vilas. Em princípio, quando genuínas, eram lugares de moradia e convívio movidos pela integração entre natureza e comunidade, produzidas e organizadas por autogestão – fator que as distingue dos condomínios fechados produzidos pelo setor imobiliário – a partir da modulação deste conceito.
As ecovilas152 localizavam-se em ambientes urbanos ou rurais, procurando respeitar e manter os ciclos naturais do solo e da água. Muitas se colocavam como lugares de experimentação social que procuravam integrar moradia e convívio, trabalho, lazer e vida cultural. Com isso, as ecovilas fortaleceram a comunidade do entorno, tanto ecológica quanto econômica, social, cultural e espiritualmente.
Diferenciam-se das comunidades autossustentáveis promovidas pelo Movimento
Zeitgeist que surgiu em 2008, com o exemplo do Projeto Venus153 (não mais vinculado ao movimento desde 2011). Esses formatos são mais radicais por considerar as possibilidades de mudanças reais muito reduzidas, principalmente pelas atuais estruturas econômicas e políticas estarem engessadas e baseadas em valores que não se adaptam à natureza e que tendem a ser reforçados culturalmente. Dessa forma, a proposta de comunidades autossustentáveis partiu do
151 As comunidades intencionais nos Estados Unidos e Canadá são conectadas em rede pelo Fellowship for
Intentional Community – FIC, desde 1937. Alguns exemplos incluem ecovilas, co-housing, casas cooperativas,
comunas, cooperativas de estudantes, comunidades espirituais e outras formas de vida compartilhada. A Global
Ecovillage Network (GEN) as reúne a partir da Europa, desde 1990.
152 Disponível em: <http://www.okosamfund.dk> Acesso em: 15/07/2017.
153 O Projeto Venus, com o slogan “além da política, pobreza e da guerra” é uma proposta do designer industrial
Jacque Fresco. Iniciado em 1975 em uma área de 8,5 ha na Flórida, abriga a proposta de uma nova cidade com uma economia baseada em recursos. Enquanto proposta futurista com enfoque na mudança cultural e que conecta a natureza e a comunidade, assemelha-se às utopias do século XIX pelo protagonismo técnico propositivo e unidirecional.
design estrutural projetado para serem centros sociais dinâmicos e sustentáveis, pois nesses
lugares se acredita que enquanto o atual sistema social e econômico permanecerem hegemônicos, uma independência completa seria impossível. Portanto, tem o objetivo de tornar tais sistemas populacionais comunitários, a regra no mundo.
Com base no artigo de Albert Bates154 (2003), sobre as raízes e ramos (desdobramentos) das ecovilas, foi possível recuperar uma versão sobre a origem deste movimento a partir de uma visão crítica de um de seus membros ativos. Segundo Bates (2003), a primeira ecovila surgiu na Alemanha, como ativismo anti-nuclear, com a construção de uma pequena vila ecológica
okordof (ecovila) no lugar onde seria lançado lixo radioativo na cidade de Gorleben, sendo
removida por ação da polícia após a 2a Guerra Mundial. Porém, a ideia se difundiu por toda Alemanha e a partir de 1985 foi publicada a revista Okordof Informationen, que se tornou
Eurotopia, desde 1996, como um diretório de comunidades publicado em forma de livro. Após
a reunificação da Alemanha, em 1990, esse movimento local se uniu ao movimento internacional de ecovilas.
No mesmo período, na Dinamarca, um número de comunidades intencionais começou a ver benefícios sociais no formato de co-housing155 e em outras formas cooperativas de moradia com enfoque ecológico adaptadas ao meio ambiente urbano. Em 1993, um pequeno grupo de comunidades inaugurou a rede dinamarquesa de ecovilas – Landsforeningen for Okosamfund156 – atuante até os dias atuais (BATES, 2003, p.26). Segundo dados colhidos no próprio website, a rede abrange pequenos assentamentos em torno de fazendas desativadas ou abandonadas (5 a 20 unidades), em vilas orgânicas maiores (10-400 unidades com mais ou menos ocupações afiliadas) e comunidades em torno de um centro espiritual (10-40 unidades). O nível de construção ecológica e estilo de vida varia, mas é comum a intenção de viver de forma que se possa entregar um mundo melhor para a próxima geração.
Do mesmo modo, observou-se que o Reino Unido, ao lado da Dinamarca e outros países europeus, foi precursor do cooperativismo no século XVIII, originado das estratégias de sobrevivência na zona rural em épocas de escassez pós-guerras, antes mesmo da Revolução Industrial. Mais adiante, o cooperativismo pretendia constituir uma alternativa política e
154 Albert Bates foi um dos primeiros secretários regionais da Global Ecovillage Network (GEN). Seu artigo
Ecovillage roots (and branches) foi publicado na Revista Communities em 2003.
155 Co-housing ou coabitação são eco-comunidades urbanas, baseadas em iniciativas voluntárias para melhoria de
estilo de vida com maior convivência e apoio mútuo, motivação ecológica e social em que compartilham espaços comuns e infraestrutura, veículos, além da co-gestão da energia, água, destinação de resíduos.
econômica ao capitalismo, procurando eliminar os papéis do patrão e do intermediário, e conferindo ao trabalhador a propriedade de seus instrumentos de trabalho e a participação nos resultados de seu próprio desempenho. Reformadores sociais como os socialistas utópicos Robert Owen e Charles Fourier criaram cooperativas de produção na Inglaterra do final do século XIX, conforme visto no Capítulo 3 desta tese.
Nos Estados Unidos, ao longo dos anos 1980 e 1990, a revista In Context157 (GILMAN, 1991, p.25) publicava histórias de ecovilas e estratégias para se criar uma cultura mais sustentável. Quando os fundadores da organização Gaia Trust158 conheceram a revista, logo se conectaram e organizaram encontros, convidando estes e outros visionários capazes de refletir sobre as necessidades planetárias e apoiar questões socioambientais.
Três estratégias potenciais emergiram daqueles encontros. A primeira, inspirado pelo modelo da “célula verde” do físico sueco Karl Henrik Robert (2002, p.26), propiciou a criação do programa The Natural Step, que foi utilizado para a reforma de metas no setor industrial no nível global. A segunda estratégia foi a reforma da educação formal ocidental, que estava preparando crianças para vidas especializadas e compartimentadas, como máquinas de produzir e consumir, originando o Gaia Education159. A terceira estratégia, inspirada em parte na ajuda dedicada a jovens russos durante a transição de regime, após a dissolução da União Soviética, foi dedicada a construir modos alternativos de vida sustentável, ou seja, as ecovilas.
Em 1990, a organização Gaia Trust solicitou aos consultores da revista In Context para produzir um relatório sobre o tema “ecovilas e comunidades intencionais”160, para catalogar os diversos esforços das comunidades sustentáveis em andamento em diversos países, registrando em detalhe sua filosofia e princípios emergentes. O relatório foi entregue em 1991, quando o termo “ecovilas” recebeu sua primeira definição:
Ecovilas são assentamentos de escala humana, funcionalmente completos, onde as atividades humanas se integram inofensivamente com o mundo natural, de uma maneira que dê suporte ao desenvolvimento saudável deste e possa perdurar por um futuro indefinido (GILMAN, 1991, p.27-28, tradução nossa).
157 Diane e Robert Gilman são os editores da revista In Context, sediada em Seattle.
158 Gaia Trust é uma organização beneficente criada na Dinamarca, a partir da doação de 90% da participação de
lucros na empresa Gaia Corporation, onde Ross trabalhava como especialista em computação para o mercado financeiro. Ao oferecer ao público seu modelo de algoritmos, gerou uma fortuna para os investidores. Com esse fato, em vez de ficarem com os rendimentos apenas para si, Ross e Hildur Jackson (advogada e ativista social) criaram a Gaia Trust.
159 Gaia Education, é uma organização não governamental criada pelo grupo de educadores GEESE - Global
Ecovillage Educators for a Sustainable Earth, que reuniu 10 anos de experiências das ecovilas associadas à Global Ecovillage Network (GEN). Disponível em: <http://gaiaeducation.org/.> Acesso em: 07/07/2016.
A partir de então, foram convocados vários encontros reunindo pessoas dessas comunidades intencionais para discutir estratégias para seu desenvolvimento e fortalecimento. Formou-se redes nacionais e internacionais de ecovilas, com a decisão de desenvolver o projeto de uma nova organização – Global Ecovillage Network (GEN)161 – que, a partir de 1994, foi formalizada. A primeira ação da rede foi disponibilizar, via portal na internet, o conteúdo reunido sobre ecovilas, formando o banco de dados de maior referência para estudos de sustentabilidade até aquele momento.
O Movimento das Ecovilas foi oficialmente iniciado em 1995, quando a organização
Gaia Trust e a Fundação Findhorn162 co-patrocinaram a primeira conferência internacional
Ecovillages and Sustainable Communities – Models for the 21st Century163, realizada na mais antiga ecovila em Findhorn, na Escócia.
Após a conferência, um grupo de 25 membros, de comunidades de diversos países, participou de uma reunião formativa para organizar três regiões administrativas no mundo: Europa e África; Ásia e Oceania; e Américas, com a inteção de conectar centenas de pequenos projetos que estavam surgindo em todo o mundo com uma motivação comum, mas sem ter o conhecimento dos seus pares; e de reunir e promover “bons exemplos do que significava viver em harmonia com a natureza de forma sustentável e espiritualmente satisfatória em uma sociedade tecnologicamente avançada” (BATES, 2003, p.28; JACKSON, 2004). A organização
Gaia Trust se comprometeu em financiar a formação da rede nos seus primeiros cinco anos164. O movimento experimentou um rápido crescimento, conectando-se com redes anteriormente já estruturadas, como a rede Green Kibbuts Network; a rede Russian Ecovillage
Network, e comunidades com base na permacultura na Austrália165. Nove representantes foram designados para dar suporte às ecovilas por regiões geográficas, como delegados e conselho consultivo. Na virada do século XXI, a rede GEN já havia catalogado milhares de ecovilas, centros de aprendizado e moradia, além de ter iniciado experimentos de ecovilas em universidades, e ter patrocinado viagens semestrais de extensão universitária para ecovilas entre os seis continentes.
161 Rede Global de Ecovilas. Disponível em: http://gen.ecovillage.org/en/projects/map. Acesso em: 20/05/2016. 162 Fundada em 1962 no norte da Escócia.
163 Ecovilas e Comunidades Sustentáveis – Modelos para o Século XXI (tradução nossa). 164 Entretanto, 20 anos após seu início, a Gaia Trust continua renovando este compromisso.
165 Abordagem adotada por diversas comunidades na Austrália, tornou-se uma espécie de movimento social de
grande crescimento na década de 1980, culminando em encontros regionais, nacionais e internacionais (International Permaculture Conferences - IPCs) e uma série de publicações especializadas.
Em 2001, a organização obteve status consultivo no Conselho Econômico e Social da ONU, dando assistência ao Habitat II, ao Fórum Mundial Social e a Cúpula Mundial, distribuindo livros e planos de ação para os delegados e decisores políticos. A rede GEN começou a providenciar seminários de treinamento e serviços de consultoria a líderes municipais, arquitetos e planejadores urbanos em vários lugares do mundo. (Ibid., p.58)
Em 2015, ocorreu o encontro de vinte anos da rede, divulgado como GEN+20, em
Findhorn, com a presença em média de 300 pessoas, dentre delegados, ativistas e membros de
ecovilas de mais de 50 países, das cinco regiões diferentes do mundo. Tendo participado, presencialmente, de maneira ativa em grupos temáticos166 e de interesse, foi possível evidenciar a força e a diversidade do movimento e interagir com moradores de diversas ecovilas. A participação ativa permitiu uma maior compreensão da organização da rede e da renovação de suas estratégias. Neste evento, foram distribuídos prêmios de excelência entre projetos desenvolvidos pelas ecovilas, cada um com valor de 1500 euros, sendo entregues ao Programa de Incubadora de Ecovilas (Espanha), Bafut Ecovillage (Camarões) e ao projeto ComúnTierra (América Latina).
No ano de 2016, devido à imigração em massa proveniente da crise no Leste europeu, o programa educacional Gaia Education, em parceria com a Red Cross Denmark e a ONU ofereceram aos imigrantes uma formação em ecovilas e autossuficiência. Caso semelhante tem sido promovido no Senegal como política de desenvolvimento local, baseada na promoção da autossuficiência de aldeias, utilizando princípios de sustentabilidade resgatados pelas ecovilas.
Atualmente, o Movimento das Ecovilas continua sendo fomentado pela rede GEN, que modera o cadastro em seu portal da web e vem conectando cerca de 15.000 práticas comunitárias no mundo. Analisou-se a base de dados disponível no website que reúne as redes de cada continente (GEN Europe, GEN Africa, GEN Oceania; GEN Américas, CASA167 Continental; Red Iberica de Ecoaldeas - RIE) e mantém uma classificação macro: iniciativas de transição, vilas tradicionais, assentamentos sustentáveis e projetos de reassentamento, assim como comunidades intencionais, ecovilas urbanas e rurais, ecobairros, co-housings e até caravanas itinerantes. Também são registradas as fases diferentes de implantação em que se encontram: em projeto, já iniciadas, em consolidação e finalizadas.
166 A agenda da conferência foi dividida em cinco grupos temáticos (Reconciliação Norte/Sul, Estratégias GEN,
Educação, Situações de emergência GEN, Projeto da organização, etc.).
167 CASA – Consejo de Asentamientos Sustentables de las Americas. Disponível em:
Segundo essa fonte de informação, as iniciativas cadastradas compartilham a visão da construção de um mundo formado por cidadãos e por comunidades capazes de projetar e implementar seus próprios caminhos para um futuro sustentável, construindo pontes de solidariedade internacional. Em geral, elas tornam-se organizações institucionalizadas por meio de associações, fundações ou cooperativas, além de praticar formas diferenciadas de propriedade coletiva da terra. Experimentam práticas comunitárias que são exemplos de inovação em todas as dimensões da sustentabilidade: social (formas de tomada de decisão; comunicação não-violenta; gestão horizontal; co-gestão, etc.); ecológica (tecnologias limpas e apropriadas, etc.); econômica (economia solidária; economia circular; consumo consciente; moeda local; negócios justos, etc.); visão de mundo (cultura de paz; práticas inter-religiosas, etc.). Estas dimensões foram identificadas pela rede GEN e estão incluídas na Avaliação de Sustentabilidade Comunitária (ASC)168.
De modo geral, as ecovilas demonstram utilizar tecnologias inovadoras e portam-se como “laboratórios de experimentação” nas dimensões citadas acima e também em outras dimensões, como a cultural, a comunicação, a saúde, a política e a espiritualidade (GILMAN, 1991; FREITAS, 2009).
De forma experimental, a via da ação propositiva e da aplicação da técnica mais apropriada ao contexto materializam lugares de moradia e convívio, tendo como ênfase uma ou mais dessas dimensões. Nesse sentido, certos autores consideram que as práticas comunitárias em ecovilas são tentativas de resposta territorializada às crises do projeto civilizatório contemporâneo. Em contrapartida, o mercado imobiliário já tem praticado o uso do termo ecovila para qualificar empreendimentos de especulação da iniciativa privada, não muito diferentes dos condomínios fechados tradicionais, sem nenhuma relação com as ecovilas genuínas169. (JACKSON, 2004; SANTOS Jr., 2012; 2016)
Pesquisas sobre a temática examinam os alcances e limites do Movimento das Ecovilas, evidenciando contradições (GARDEN, 2006), mas também positividades (GILMAN, 1991;