A percepção compõe-se, também, como uma Função Psicológica Superior. O ato de perceber exige que os sentidos sejam humanizados e, desta forma, esta percepção não é só uma questão biológica, no sentido de possuir só uma observação de uma obra de Arte, mas é a percepção já humanizada e que permite ao ser humano se apropriar do conjunto que compõe uma obra de Arte. Assim, pela percepção o ser humano deve revelar a vivência psicológica que uma obra de Arte apresenta e pela própria percepção consegue explicar essa reação estética que se dá no psiquismo humano:
Eis que a percepção da arte também exige criação, porque para essa percepção não basta simplesmente vivenciar com sinceridade o sentimento que dominou o autor, não basta entender da estrutura da própria obra: é necessário ainda superar criativamente o seu próprio sentimento, encontrar a sua catarse, e só então o efeito da arte se manifestará em sua plenitude (VIGOTSKI, 1999, p. 314).
Perceber uma obra de Arte não significa estabelecer um simples contato com ela ou só captar a sua forma externa, pois pelo ato criativo o ser humano se apropria da essência da própria obra de Arte. O processo de percepção humano não se restringe, portanto, a observar cor e forma, tratando-se de um apropriar-se dos sentidos e significados existentes no mundo. Desta forma, o ser humano se diferencia do animal porque este só percebe as formas externas do objeto, sem perceber essa essência que possui cada objeto.
Essa percepção que o animal possui é parte do seu estado biológico. Já no ser humano, a percepção é um processo que se desenvolve por etapas como, por exemplo, a diferença de percepção que há entre uma criança e um adulto. A percepção humana é produto da própria cultura onde está inserido cada indivíduo e uma criança que nunca
teve contato com uma bolinha de golf terá uma percepção diferente do que outra que conhece a função social que essa bolinha tem no mundo. Ou seja, ambas as crianças têm um contato com a bolinha de golf, no entanto, só a criança que se apropriou do sentido e significado dessa bolinha consegue perceber a função social dela, a sua essencialidade e não só a sua categoria externa.
O animal percebe a realidade como um simples campo visual, sem captar suas formas e conteúdos. Já o ser humano percebe a realidade como um campo dinâmico de grandes transformações e gerador do desenvolvimento das suas Funções Psicológicas Superiores. Por exemplo, a criança desenvolve a sua atenção, a sua linguagem e a sua própria conceitualização da realidade, motivo pelo que Vigotski (1999) indica que a própria percepção provoca catarse no ser humano, uma vez que pela percepção a criança se apropria dos sentidos e significados dos signos e ferramentas. Quando a criança se apropria do símbolo de “PARE”, que se encontra na placa de trânsito de uma avenida, ela entenderá no futuro que essa placa indica parar, prestar atenção, olhar com atenção antes de atravessar essa avenida etc. Já o animal não percebe o sentido e significado que esta placa possui.
Nesse sentido, Petrovsky (1980) conceitualiza a percepção afirmando que:
Se llama percepción a la imagen de objetos o fenómenos que se crean en la conciencia del individuo al actuar directamente sobre los órganos de los sentidos, proceso durante el cual se realiza el ordenamiento y la asociación de las distintas sensaciones en imágenes integrales de cosas y hechos (PETROVSKY, 1980, p. 223).
Pela percepção, o ser humano compreende de forma plena o objeto que é percebido não no sentido de um olhar simples, mas no sentido de compreender coisas e fatos que estão na realidade. Assim, o animal não percebe coisas e fatos como os percebe o ser humano. Se mostrarmos, por exemplo, um quadro com uma imagem de uma vaca a um macaco este não compreenderá que no quadro está a imagem de uma vaca, no entanto, se mostramos essa mesma imagem a uma criança ela compreenderá que é uma vaca e poderá compreender, então, o conceito de vaca. Ao expor a criança a uma imagem de festa de aniversario, por exemplo, ela compreenderá que alguém completou um ano mais de vida, e assim sucessivamente irá ampliando e humanizando a sua percepção, maneira pela qual estimulará grandes transformações no seu desenvolvimento psicológico.
O ser humano percebe o sentido das coisas na sua forma generalizada, de modo que:
El desarrollo de la percepción semántica del adulto puede compararse con el modo cómo se mira un tablero de ajedrez o cómo juega con él un niño que no conoce el juego y el niño que ya lo conoce. El niño que no sabe jugar se divierte con las figuras del ajedrez, las selecciona por el color etc., pero el movimiento de las figuras no se determinará estructuralmente. El niño que aprendió a jugar se portará de otro modo. Para el primer niño el peón blanco y el caballo negro no están relacionados entre si; pero el segundo, que ya conoce los pasos del caballo, comprende que la jugada del caballo amenaza a su peón. Para él, tanto el caballo como el peón constituyen un todo […] Percibimos la realidad circundante lo mismo que el ajedrecista ve el tablero, no sólo percibimos la vecindad o proximidad de los objetos, sino todo cuanto hay, toda la realidad con sus vínculos y relaciones semánticas (VYGOTSKI, 2006, p. 379).
Para o autor, a percepção humana é cultural e o ser humano não nasce com a sua percepção já formada, sobretudo porque ela deve ser elaborada pela influência da própria cultura. O objetivo da Arte é, então, o de ajudar a desenvolver formas de percepções para que o ser humano se aproprie das suas vivências, visto que “las obras de arte pueden ejercer una influencia tan enorme en la conciencia social gracias a su lógica interna” (VIGOTSKY, 2012, p. 27).
Ou seja, pelo fato das obras de Arte estarem repletas de emoções contribuem para a formação da consciência social, considerando que é pela percepção que o ser humano se apropria da estrutura complexa da realidade, ou seja, de sua lógica interna e passa a olhar de forma integradora o conjunto presente na realidade. O ser humano percebe que o mundo está formado por diversas partes integradas e relacionadas entre si e essa apropriação das partes integradas e relacionadas entre si só é possível pelo ser humano que, no entanto, não nasce com essa estrutura já constituída ou formada, devendo a mesma ser progressivamente aprimorada por sua vivência específica em meio à sua própria cultura.