66 FRANÇA, 1991: 439; FERREIRA, 2010: 47. 67 PORTAS, 2008: 198-201; FERREIRA, 2010: 48-49.
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o SoLar doS bertIandoS:
UMa CaSa nobre LIMIana
silvana vieira de sousa*
Segundo o Dicionário de Arte Barroca em Portugal entende-se por Solar a «Casa- -mãe de uma família nobre» ou «residência principal da nobreza de província, com especial incidência Entre Douro e Minho e Alto Douro»1, sendo que sobre os solares
portugueses, e baseando-nos no que escreve Carlos Azevedo, estes podem ser clas- sificados genericamente consoante a época/século de construção. Durante o sécu- lo XVI permanece a tradição medieval, mais evidente no Norte do país, já que os elementos renascentistas desempenham um papel secundário, surgindo também a ideia de casa voltada para o exterior e a adopção da varanda. A casa com torre é mais notória no Entre Douro e Minho, como torres senhoriais, que embora possam ter tido função defensiva inicialmente, rapidamente se tornaram símbolos de poder e domínio2. Quando as torres solarengas não tinham espaço suficiente para a habita-
ção, construíam-se espaços em redor destas, constituindo assim três tipos de mora- dias, sendo elas: casa com uma ala anexa à torre, casa com duas torres e um corpo que as unia, e por fim, casa com torre ao centro (tipologia a que o Solar de Bertiandos pertence). No século XVII a principal evolução arquitectónica parece encontra-se na utilização de plantas em U. A 1ª metade do século não apresenta grandes construções
* Mestre em História da Arte pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 1 MATOS, 1989: 458-460.
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devido ao país estar sob domínio filipino, mas na 2ª metade essas construções multi- plicam-se, principalmente com projectos de autores anónimos em vez de projectos de autor. Assumem-se plantas mais regulares desenvolvendo-se em comprimento, e é aqui que surge a construção de espaços religiosos (capelas) anexas ou nos arredores da casa senhorial. No século XVIII assume-se uma arquitectura verdadeiramente portuguesa3,
já que ao contrário do que acontecia com o barroco italiano, o barroco português não se exprime nas plantas dinâmicas ou nas paredes ondulantes, mas antes, por exemplo, no ritmo dos vãos de iluminação ou na estrutura das escadarias. Pode-se ainda evidenciar algumas características gerais deste período como: esforço decorativo concentrado na fa- chada principal e a utilização de fogaréus e pináculos para acentuar a verticalidade dos edifícios que em simultâneo é quebrada por barras horizontais. Desenvolve-se também a escadaria, elemento que emprega dinâmica à casa, e tenta-se a aproximação entre a casa e o jardim.
Localizado junto ao Rio Lima, no coração do Alto Minho, e próximo de outros edifícios de carácter semelhante (atente-se nos pilares das varandas, no remate em pi- náculo dos torreões e na cornija das torres com gárgulas de canhão terminando com merlões chanfrados da Casa da Lage e da Casa dos Barbosa Aranha respectivamente, também em Ponte de Lima), o Solar de Bertiandos apresenta-se de facto com estes e outros elementos aqui referidos, oferecendo um exemplo de requinte construtivo da família dos Pereiras.
Fernão Pereira, neto de uma irmã do Condestável D’Nuno Álvares Pereira e filho de Lopo Rodrigues Cerveira, alcaide-mor de Vila Nova de Cerveira, e de Brites Pinheiro, 3 AZEVEDO, 1969: 66.
Fig. 1. Fachada principal do Solar de Bertiandos. Bertiandos, Ponte de Lima
o SoLar doS bertIandoS: UMa CaSa nobre LIMIana
funda a Casa de Bertiandos por volta de 1497. Posteriormente, depois do casamen- to do seu filho Lopo Pereira com Inês Pinto, constrói-se uma torre datada de 1566, acrescentando terras e criando dois vínculos dependentes que serão a base de cons- trução para os dois solares setecentistas construídos inicialmente pelos dois irmãos (filhos deste casal), Francisco Pereira e António Pereira Pinto, aumentados e modifi- cados nos séculos seguintes pela descendência, e que hoje formam o edifício tal como o conhecemos.
Fig. 2. Fachada principal da Casa da Lage. Construção inicial do final do séc. XVII e início do
XVIII. S. Pedro de Arcos, Ponte de Lima
Fonte: C. M. Ponte de Lima
Fig. 3. Fachada principal da Casa dos Barbosa Aranha. Construção inicial do séc. XVII. Centro histórico de Ponte de Lima
Fonte: SIPA, 1992
Fig. 4. Planta do Solar de Bertiandos
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Analisando a planta do Solar de Bertiandos consegue-se perceber a articulação de dois corpos ou alas distintas com uma torre ameada ao centro, mandada cons- truir por D.ª Inês, e ainda a construção de uma capela, a Capela de Nossa Senhora da Conceição4 nas traseiras do edifício, anexa a este e com entrada para o caminho
lateral que corre a propriedade, com data de conclusão em 1846 aquando o Inqué- rito do Arcebispado de 1845-1846. Há ainda a indicação da construção, segundo o Conde d’Aurora (escritor limiano, neto da 2ª Condessa da Casa de Bertiandos, que viveu entre 1896 e 1969), na parte posterior oeste do edificado de um celeiro, junto à Casa, mandado construir por António Pereira, que constrói também a capela e o portal desta5.
O terreiro do edifício, cortado em 1875 depois da abertura da estrada nacional 202, iria até junto do Rio Lima, e possuiu, após esse acto, um jardim da autoria do arqui- tecto António Inácio Pereira Freitas (jardim esse que foi suprimido em meados do século XX aquando do restauro do Solar). Este espaço, actualmente delimitado por uma sebe, apresenta ainda o que foi o pelourinho de Bertiandos enquanto esta foi vila (de 1750 até 1852 data do 1º Conde de Bertiandos, Gonçalo Pereira, que rece- beu o título de D. Maria II). Seria um antigo marco miliário romano do século III inicialmente localizado na estrada que ligava Braga a Astorga, encontrado enterrado na freguesia vizinha da Feitosa e mandado trazer para Bertiandos por Frei António Pereira Lima, irmão de Francisco Pereira da Silva, e que na segunda metade do século XVIII foi adornado com um capitel e uma cruz de ferro.
Sobre o portal de acesso à Capela, do século XVIII, consegue-se perceber a sua delimitação por pilares toscanos, rodeado por um muro alto em meia-lua. O vão da porta, de ferro, surge em arco abatido ladeado por pilastras também toscanas e o re- mate do portal apresenta um frontão contracurvado com nicho, onde se insere uma cruz latina em flor de lis. Por outro lado, e segundo Maria Amélia da Silva Paiva, o portal de acesso principal ao Solar de Bertiandos surge como uma construção dos anos 70 do século XX, a mando de D. Sebastião de Lencastre, ligando dois panos de muro baixo. Apresenta forma de um arco abatido com aduelas almofadadas e o no fecho do portal surge a pedra de armas em granito dos Pereiras (com a cruz), retirada da Capela de S. Romão em S. Pedro d’Arcos, capela esta encomendada pela família dos Pereira.
A torre do século XVI, com merlões chanfrados, e a escadaria que surge do cen- tro da casa dando acesso ao piso nobre do edifício e apresentando o patamar superior assente sobre arcos redondos sobre colunas e patamar inferior quadrangular, resul- tam como elementos de ligação de todo o conjunto arquitectónico. A escadaria terá 4 SOARES, 1986: 77.
o SoLar doS bertIandoS: UMa CaSa nobre LIMIana
sido construída ao redor de 1790 depois dos descendentes dos dois irmãos Francisco e António, resolverem uma antiga disputa e quererem unir os dois vínculos através do casamento do 10º Administrador do 1º vínculo de Bertiandos, Damião Pereira da Silva de Sousa e Menezes, com a 9ª Morgada do 2º vínculo, D. Maria Angelina Senhorinha José Justa Pereira Forjaz de Eça Montenegro.
A Ala Poente do início do século XVIII, mais baixa e recuada, apresenta uma parte central com as armas, assente em dois arcos abatidos (que no início do século XX estavam fechados) e com duas janelas em sacada. Apresenta corpos laterais em varanda com alpendre de colunelos toscanos assentes em plintos, e ainda um piso térreo com janelas de peitoril, contribuindo para uma certa tendência barroca que se nota pela composição em superfície e pelo tratamento das fachadas, fortes mas sóbrias. Mais ainda se nota que o remate do corpo poente, ou seja, a continuidade dos pilares da varanda acima do telhado, vai buscar o mesmo tipo de merlões chanfrados à torre, criando assim uma continuidade construtiva e arquitectónica. A Ala Nascen- te, de meados do século XVIII, mais alta e avançada, apresenta o corpo da fachada principal com dois torreões rematados com pináculos, sendo que entre os torreões encontra-se o corpo central com varanda, fechada e envidraçada no início do século XX e posteriormente aberta, possivelmente aquando do restauro nos anos 40. Aliás, a varanda aliada ao torreão que vemos aqui e se referiu na Casa da Lage, apresenta também semelhanças com o que vemos por exemplo, na Casa de Pomarchão, em Arcozelo, Ponte de Lima. Isto está claramente relacionado com a intenção moderna que agora se impõe: ver (através da varanda que se abre para o exterior) e ser visto
Fig. 5. Pormenor da varanda da ala poente e do topo da escadaria
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(através da torre que marca o edifício na paisagem). As janelas do nível intermédio surgem encimadas por frontões triangulares, solução relativamente comum e que vemos por exemplo, na Casa dos Condes d’Aurora, de autoria atribuída ao arquitecto engenheiro militar Manuel Pinto Vilalobos, responsável por uma grande actividade no Norte do País. As portas do piso inferior, piso que na sua generalidade alberga zo- nas de arrumos e arrecadações, apresentam chapas de ferro, conseguindo-se ver ain- da no canto esquerdo superior, uma seteira móvel em madeira também com chapa de ferro colocada no século XIX. As duas alas propõem, assim, um diálogo de formas e volumes, sem perder uma certa continuidade arquitectónica que as liga e evidencia, de modos diferentes, mas que contribuem por sua vez para a monumentalidade, vo- lumetria e ritmo do edifício.
O Solar de Bertiandos, considerado Imóvel de Interesse Público em 1975 e ten- do a sua Zona Especial de Protecção definida em 1992, apresenta-se assim como um exemplo de continuidades e inovações nas soluções arquitectónicas que lhe são impostas, fazendo uso das formas que circulavam, sendo ainda um exemplo do que melhor a «fidalguia de província» construía na criação do seu próprio protagonismo local. Consegue ainda, apesar das alterações que vai sofrendo ao longo do tempo, manter a sua função inicial de residência, de domínio privado, sem ter o destino de muitos dos imóveis deste género, utilizados por empresas de Turismo de Habitação ou entregues a Câmaras Municipais que nestes espaços albergam os seus serviços. Mais ainda, e como prova de que as formas e modos de construir e viver a casa, que encontramos no Solar de Bertiandos e noutros, permanecem no tempo, podemos verificar apontamentos arquitectónicos semelhantes que são reaproveitados em cons- truções contemporâneas, como os remates em pináculos, os corpos «atorreados» e, claro, a utilização de varandas.
O Solar de Bertiandos admite assim a permanência do espírito medieval com a sua torre «neo-medieval», se assim lhe quisermos chamar, integrando também ele- mentos setecentistas, oitocentistas e contemporâneos, comungando todos do mesmo espaço, e contribuído para que este edifício seja um exemplar da evolução de formas da arquitectura de habitação.
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