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Leite e Costa (2007) propuseram um modelo conceitual de gestão do conhecimento voltado à gestão do conhecimento científico sob a visão de que são fundamentais os processos de comunicação a serem considerados em estudos sobre gestão do conhecimento. Estudaram a gestão do conhecimento científico a partir de duas perspectivas que denominaram: vertical e horizontal. A perspectiva vertical refere-se às comunidades científicas (Figura 2.5 - 1.1), que são entendidas como

agrupamentos de pares que compartilham um tópico de estudo, desenvolvem pesquisas e dominam um campo de conhecimento específico em nível internacional, por exemplo. A perspectiva horizontal está relacionada às instituições de ensino e pesquisa, também conhecidas como comunidades acadêmicas (Figura 2.5 - 1.2). Essas comunidades, segundo os autores, são os recursos humanos constituídos pelo agrupamento de membros de uma instituição acadêmica envolvidos com atividades de ensino e pesquisa, compartilhando ou não interesses comuns em seus tópicos de estudo. Tais pessoas, por seu turno, pertencem, individualmente, a grupos de interesse (comunidades científicas) em tópicos específicos, sem limites geográficos.

Figura 2.5 – Modelo conceitual de gestão do conhecimento científico.

Fonte: Leite e Costa (2007, p. 101).

A gestão do conhecimento científico no contexto das comunidades científicas, no plano vertical, está relacionada ao conhecimento produzido por uma disciplina, tópico ou campo específico do saber. Portanto a gestão desse conhecimento no âmbito de comunidades científicas tem caráter disciplinar e não institucional. Nesse sentido, as comunidades científicas, como conjuntos de pesquisadores que compartilham interesse sobre tópicos ou áreas específicas, em nível internacional, podem ser consideradas como redes. Probst, Raub, e Romhart (2002), por exemplo, afirmam que uma rede é caracterizada por um interesse básico comum entre seus membros, além de uma orientação pessoal e participação voluntária; que suas relações estão baseadas no princípio de trocas. As relações de compartilhamento e os fluxos de informação e conhecimento no seio das comunidades científicas ocorrem por meio dos colégios invisíveis. Diferentemente das

comunidades acadêmicas, as comunidades científicas não têm fronteiras nem características organizacionais.

As duas perspectivas estão inter-relacionadas quanto à abordagem da gestão do conhecimento científico. Embora seja possível e necessário definir o ângulo de análise, é importante destacar que uma abordagem não exclui a outra. A razão disso está em dois argumentos: (i) membros de comunidades científicas, em geral, possuem vínculo com instituições de ensino e pesquisa; (ii) pesquisadores membros das comunidades acadêmicas pertencem, individualmente, a comunidades científicas específicas.

Dessa forma, a estrutura do modelo conceitual da Figura 2.5 é construída pelos elementos macro (comunidades científicas (1.1); comunidade acadêmica (1.2); comunicação científica (1.3); cultura científica/organizacional (1.4); gestão do conhecimento e suas relações com os processos de comunicação científica (1.5). A comunicação científica é constituída por um conjunto de esforços, facilidades, processos dinâmicos e complexos que ajudam a identificar os conhecimentos (2.1). A partir daí, são consensualmente socializados e os conhecimentos tácito e explícito são criados, compartilhados, utilizados e convertidos em conhecimento organizacional por aquisição (2.2); organização/armazenagem (2.3); compartilhamento (2.4) e criação (2.5). Isso propicia, de certa forma, a interação social entre membros de comunidades científicas, contribuindo para a produção, disseminação e uso do conhecimento e, consequentemente, para o avanço da ciência.

A cultura científica/organizacional está relacionada a normas, valores, forças, costumes e pressuposições consensuais e socialmente compartilhados nas comunidades científicas por pesquisadores das diversas áreas do conhecimento, que influenciam e orientam a dinâmica das interações entre eles.

A essência da cultura são os valores, crenças e certeza aprendidos em conjunto, que são compartilhados e tidos como corretos à medida que a organização continua a ter sucesso. É importante lembrar que eles resultam de um processo de aprendizado em conjunto (SCHEIN, 2001, p. 35, tradução do autor).

Por essa razão, são ensinados aos novos membros como sendo o modo correto de perceber, pensar e sentir essas questões. Em suma, é a cultura

científica/organizacional que legitima os meios de comunicação, que influencia e é influenciada pelos processos de comunicação científica.

As relações entre os elementos macro e os processos de gestão do conhecimento (aquisição, organização/armazenagem, compartilhamento e criação) do modelo proposto ocorrem em quatro níveis: (i) relação entre o elemento macro comunidade acadêmica (1.2) e os processos de gestão do conhecimento; (ii) relação entre o elemento macro cultura científica/organizacional (1.4) e os processos de gestão do conhecimento; (iii) relação entre o elemento macro comunicação científica (1.3) e os processos de gestão do conhecimento; (iv) relação entre o elemento macro comunidades científicas (1.1) e os processos de gestão do conhecimento. Em cada processo de gestão do conhecimento do modelo proposto, as comunidades científicas exercem influências de fora para dentro numa comunidade acadêmica.

Com base na identificação (mapeamento) do conhecimento científico interno, pode-se determinar o que mapear externamente, isto é, localizar fontes para aquisição (3.4.1) de conhecimento relacionados às competências da comunidade acadêmica. A aquisição desses conhecimentos pode ocorrer de várias formas, após o que os conhecimentos são organizados e armazenados (3.4.2). Como o modelo proposto se insere no contexto do acesso livre à informação e ao conhecimento científico, uma vez organizado e armazenado, está disponível para ser compartilhado (3.4.3). O compartilhamento é uma ação voltada às interações sociais e à comunicação, que resulta na criação de novo conhecimento (3.4.4) dentro e fora da comunidade acadêmica. A partir da interação entre os estoques de conhecimentos existentes e as habilidades e competências dos pesquisadores, um novo conhecimento científico é criado (3.3.5), facilitado, principalmente, pela socialização e combinação desses conhecimentos.

Neste capítulo, abordaram-se conceitos e outros fundamentos teóricos no contexto de conhecimento, inclusive os conhecimentos científico e não científico, gestão do conhecimento, interdisciplinaridade, complexidade e pesquisa interdisciplinar. Apresentou-se uma visão dos fatores que impulsionaram a gestão do conhecimento, fases de sua evolução, as lacunas fundacionais registradas na literatura acerca do assunto e as perspectivas para preenchê-las. Estudaram-se modelos e sistemas de gestão do conhecimento, buscando-se compreender a distinção entre eles, detectar algum possível de ser adaptado a instituições de pesquisa agropecuária ou identificar elementos que pudessem ser incorporados à proposta deste trabalho. No próximo capítulo, serão abordados estudos sobre

instituições de pesquisa agropecuária a fim de identificar os modelos ou sistemas de gestão que adotam e outras características que possam ser úteis para embasar a proposta a ser formulada no capítulo 5.

3 CARACTERIZAÇÃO DE ORGANIZAÇÕES DE PESQUISA

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