de l’offre numérique en matière de formation linguistique
III. La langue française dans la communication scientifique
... e é então que, quase sem notar, você passa a deslizar pelas frestas,
sem focar, sem aderir, apenas preferindo não: não curtir, não opinar, não compartilhar, você se deixa fluir, indolente, pela(s) tela(s) infinita(s) permitindo-se encontros imprevisíveis com as HQs mutáveis e complexas,
com as composições em non-sequitur dos infinitos artistas inconscientes em permanente conflito, as tentativas de convencimento, de adesão, de discordância, o agir, o interferir, o criar, o tecer, o esgotar os possíveis do suporte, do meio, do discurso, da narrativa. Você vaza, como Buddy Baker, para o pleno vazio, você se maravilha e se aterroriza com os encontros com os padrões do
conjunto, da justaposição dinâmica, sem jamais (como Baker) escapar dos limites da “página” em que (pré)existe, mas escapando aos quadros, às unidades, aos sentidos antecipados, às verossimilhaças, às representações. Você reconhece nas extensões verticiais das timelines as “tiras”, aquela formato tão familiar e tão básico: duas imagens, uma sarjeta entre elas, três imagens, duas sarjetas, quatro, três, cinco, quatro, e as imagens começam a se sobrepor, sarjetas por trás, sarjetas pela frente, acima, abaixo, as sarjetas invisíveis, o “entre” não- delimitável, o “entre” que suporta o suporte, que não pode ser traduzido ou demonstrado, como os pontos cinzas nos vértices de uma grade de quadros, desaparecendo quando os olhos os focam. Esse “entre” onde flui tudo aquilo que o atravessa enquanto um indivíduo dotado de uma história, uma trajetória, de tudo o que o compõe, tudo o que já aprendeu, experienciou, viveu, sentiu, essa multiplicidade que, ao fluir com a rede, conecta duas imagens justapostas e as torna “tira” (uma piada, uma história, uma ironia, uma ofensa, uma bobagem, uma ideia, um conceito, uma metodologia, enfim…) não
apenas duas imagens por acaso próximas uma a outra, mas algo que você une num sentido que não poderia existir sem a sua presença ativa nesse “entre”, nessa sarjeta. Você entende que, por mais automático que seja o hábito de reconhecer as
imagens como
representações mesmo estando tão pessoal e profundamente inserido no seu processo de criação, mesmo tão soterrado nas normatizações declaradas ou meramente intuidas do uso cotidiano coletivo das imagens nas redes ou fora delas, o ato de (enfim) reconhecer/tornar as avalanches de imagens em quadrinhos, no limite nunca foi nada além de sua própria prerrogativa.
Ao compreender isso, por fim você fica em paz com a afirmação de McLOAD que sempre o incomodou (ou, ao menos, estranhou), a sua aparente negativa de que o processo de significação desencadeado pela visão de duas imagens
justapostas não pode acontecer sem a intencionalidade do leitor, não pode acontecer de forma automática e expontanea, que para haver quadrinhos é preciso antes de qualquer coisa que o leitor faça a sua parte no processo de criação.
Essa noção lhe parecia duvidosa, quase irreal diante da onipresença das imagens. Mais de um século atravessado por imagens pelos mais diversos meios, imagens desejantes que o afogavam e direcionavam, conduzindo-o e esmagando-o, cristalizando seus hábitos e presupostos, suas crenças, o evangelho sagrado/profano das imagens convergindo agora céleres para as redes sociais, preenchendo esse novo meio com crescente intensidade e fúria. Em meio à dança furiosa de posts e memes, como supor que não mais que sua mera intencionalidade pudesse fazer qualquer diferença? Que diante do esgotamento de todos os possíveis na atordoante velocidade das redes, quando o ato (o poder pré-definido) de interferir no fluxo parece limitado a não mais que acrescentar mais
imagens, mais palavras, mais construtos engenhosos de photoshops, mais geradores automáticos de gifs, mais ferramentas de manipulação, mais problematizações sagazes, discursos e contra-discursos, mais elaboradas intervenções artísticas e performatividades, nada disso lhe parece fazer mais do que alimentar a hidra, expandir a envergadura do titã, o ruído de fundo ecoando mais alto que o som dos seus próprios pensamentos. E, ao fim e ao cabo, depois de tanto som e fúria, a única (não)ação que se abre diante de você como um nova possibilidade é esse mero deslocamento. O ato de, ao olhar para a página, ao olhar para a tela, ao olhar para a projeção na parede de um prédio, não ver imagens lado a lado, mas um mapa do tempo. Escolher ver o
mapa do tempo! Sua prerrogativa, sempre sua, criatura atravessada pelas redes, você-rede, você-fluxo, você-sarjeta.
E então, e só então, a timeline de fato se torna quadrinhos. A tira infinita.
Você é um fotógrafo (não um fotógrafo profissional, mas um fotógrafo) fictício (que diferença faz?) que uma vez capturou o tempo nas sarjetas de uma história em quadrinhos na qual trabalhou por muitos e muitos anos. O fotógrafo não tinha facebook, mas tinha uma tabacaria na qual pessoas se atravessavam e falavam e debatiam e fabulavam e apresentavam argumentos e se contradiziam e (possivelmente) supunham passar pelas próprias vidas mais do que criavam suas próprias vidas (e não é isso que é viver?). O fotógrafo tentou registrar aquele continuum vital fotografando um instante por dia e postand... perdão... colando cada momento congelado lado a lado em infinitas timelin... digo... álbuns de fotografias. Páginas e páginas e páginas de fotografias justapostas que encarava como um registro de seu canto no mundo, sua vida, o tempo que passa, o tempo que lhe acontece.
E você é um escritor que visualiza... perdão... folheia os álbuns do fotógrafo, experienciando esse tempo que se foi. Ou assim supõe. Você curte algumas fotos mais que outras, você tece comentários sobre a álbum como um todo ou sobre as fotos que te chamam mais a atenção e acredita estar revivendo, ou ao menos tomando ciência de uma história em andamento, uma história que lhe pré-existe, que ocorreu com alguém em algum lugar e foi considerada digna de ser registrada, digna de ser mostrada para seus contatos amigos, destacada do fluxo do tempo para se tornar em si uma afirmação de vida.
Vocês, fotógrafo e escritor, sabem que estão olhando para o tempo, capturados pelo seu mistério, sua imponderabilidade.
O que lhes escapa(va) é a compreensão de que não é o tempo efetiva(suposta) mente vivido que flui nas sarjetas entre as fotos. Não é o tempo que passou, o tempo irrecuperável, nem
mesmo o tempo presente ou ainda por vir. É o tempo que trouxeram consigo, o tempo criado simultaneamente ao deslizar os dedos pela tela folhear as páginas do álbum, o tempo (fictício?) com que preenchem e conectam cada fotografia postagem. Esse é o tempo cartografado pelo mapa conjurado pelo projeto de Auggie independente de sua intenção original. Ambos, escritor e fotógrafo cartografam segundo crenças
em comum, crenças que preenchem as sarjetas: a fotografia como registro e autenticação do efetivamente vivido, um atestado do real; vazando para a presuposição de que a interatividade da rede (na qual, por um momento, um fotógrafo é um emissor e um escritor é um receptor) calca-se na apresentação
de registros, registros de fatos, de vivências, de ideias, de pensamentos, de tolices, de dores, de intensidades, de frivolidades, de profundidades, o que seja. Registros passíveis de serem autenticados ou falseados, de serem mais ou menos importantes e/ou significativos de acordo com variadas gradações e critérios, até esgotar os possíveis dados de antemão. Uma crença tão determinante que a experiência do pungir que atinge o escritor parte não do invisível entre as imagens que se dão a ver, desse invisível onde o escritor efetivamente conectou as inúmeras fotografias no seu próprio mapa pessoal, único e mutável, mas de uma foto em particular na qual reencontra o demônio conhecido, a dor familiar, o possível já esgotado. Uma ilha no rio que corre, onde o fluxo pode ser estancado, onde a experiência do real pode ser, uma vez mais, cristalizada num possível já dado de antemão. E a dor e as lágrimas talvez sejam até tranquilizadoras, pois familiares. Nelas você se reencontra e se re-estabiliza na identidade que o define, reveste sua própria pele, reafirma suas dores tão maiores por serem suas. E a vertigem passa: não há nada de novo sob o sol.
Manter a perspectiva da tira infinita é um exercício, uma forma de atenção, uma disciplina, um rigor constante e, talvez acima de tudo, uma intenção. O deslocamento é frágil, facilmente recapturado. O você-sarjeta se desvanece a cada re-afirmação da dicotomia real-fake, a cada recaída na crença arraigada de que os perfis e postagens representam algo para além de sua própria expressão, remetendo a um possível já dado ao invés de uma possibilidade ainda a ser criada/pensada. A cada reconfiguração da atenção para um elemento em particular que te desloca do plano da criação-cartografia para o
plano da representação, do reconhecimento: uma foto, um gif, um texto, um comentário, uma afirmação, uma possibilidade. A cada firmar as pernas, escapando do vácuo sem gravidade no qual você flutua na sarjeta, imerso e atento ao invisível. Sem dúvida não poderia ser um estado permanente, ainda que a perspectiva o possa e, possivelmente, deva, para fazer frente à pressão do imaginário coletivo das realidades pré-dadas, a flecha do tempo concreta: ontem, hoje, amanhã, timeline: “Você nasceu em 1974”, “Você casou em 1995”, “Você doutorou em 2017”. Fatos, contra-fatos. Afirmações, negações. Mas você não casou em 1995! (Ou casou?) 2017 ainda não aconteceu! (Ou aconteceu?) Você não nasceu em 1974! (Você nasceu?) E é tão fácil escorregar de volta ao familiar, se perder no jogo sem fim de “verdades” e “mentiras” que
se equivalem dentro da lógica do registro e do pré-existente. O realismo que fronteiriça, o território que precede o mapa. A verossimilhança atuando como parâmetro implícito para apontar discrepâncias entre o território e o mapa, para supostamente diferenciar o real do fake, mas que efetivamente apenas nubla a compreensão da rede como espaço de criação: de identidades, de posturas, de ideias, de sexualidades, de políticas, de verdades, de possíveis, ancorando os acontecimentos em possíveis esgotados, variações do mesmo.
Estabelecer-se na sarjeta, no espaço-entre, talvez não propriamente para despoluir o invisível (se é que é possível) mas para comungar com os fenômenos de borda, com as
multiplicidades em permanente mutação, suspender as cristalizações, auto- declarar-se feiticeiro: Os feiticeiros sempre tiveram a posição anômala, na fronteira dos campos ou dos bosques. Eles assombram as fronteiras. Eles se encontram na borda do vilarejo, ou entre dois vilarejos. O importante é sua afinidade com a aliança, com o pacto, que lhes dá um estatuto oposto ao da filiação. Com o anômalo, a relação é de aliança (DELEUZE; 1997, pg.28). A sarjeta como o “lugar” de poder do feiticeiro, a posição de borda, a não- filiação, onde potencialidades outras podem ser pensadas-criadas-conjuradas para então eclodir em exóticas intervenções do anômalo, tensionando as fronteiras do concebível, do tolerável, do desejável, erupções do intencionalmente inverossímil, do orgulhosamente incongruente, do disforme, do monstruoso, do
informe, as estratégias exóticas que burlam os mecanismos de controle das redes, tensionam seus padrões pré-definidos e fazem surgir, em rompantes, as imagens tabu, as imagens proibidas e/ou não-desejadas, manifestando-se nas brechas que o olho da máquina não pode ver, que os algoritmos
(ainda) não foram
Corpos-ciborgue auto-conscientes não só de sua própria extensão anômala através do meio digital, como também da indeterminação de seus limites em relação a toda a amálgama de corpos com que compartilham esse estranho meio e você compreende que esse auto-criar-se nunca poderá ter fim ou começo, mas sim um processo performático permanente de atenção e imaginação. A potência de um corpo que se deseja como ficção-viva, ficção que deseja, que dança, para fazer frente às “realidades” pré-dadas, não para substituí-las num processo de novas cristalizações no visível, o que se revelaria não mais que parte de um ciclo infinito de esgotamento, mas sim a tentativa intencional de manter-se num estado (precário e instável, que seja) de criação. Performers e artistas reconhecem ou intuem essa dança, mas a própria marca/alcunha de “arte” arrisca ancorar a criação em formas pré- determinadas no visível, numa certa lógica de filiação com seus próprios padrões de verossimilhança, autenticação, um “lugar” definido entre os possíveis algoritcamente marcados. O risco de recaptura permanece intenso, tão forte quanto o de qualquer outro corpo que não se auto-reconheça como artista. A dança na sarjeta não pode ser garantida por nenhum tipo de filiação, seja política ou artística. Acalentar o informe, o invisível, pressupõe a suspensão de quaisquer filiações, não para uma negação niilista de todas as contradições, um dar de ombros para a disputa enlouquecida de versões do real que desfilam pelas timelines, mas para manter-se num estado-outro em que os reais e os possíveis esgotados que pré-existem e urgem por atenção
não sufoquem a erupção do não- previsto, da criação que se reconhece e se aceita como criação em pleno ato de se realizar, não como suposta
evidência para além de si mesma, sem vínculo com quaisquer regras pré- dadas, ainda que capture do visível a música com a qual evoluirão seus movimentos, flutuando no ilógico, no inverossímil, na sagrada incongurência dos deuses. A dança do feiticeiro no limiar entre os mundos, esperando pelo fim do mundo que não acontecerá, o fim do mundo inverossímil numa data que já passou, mas ainda assim expresso como acontecimento em seu perfil “pessoal”. Não mais procurando punctuns seja no visível ou no invisível, como
um cão perseguindo a própria cauda. O feiticeiro que finalmente se dá conta que não existem punctuns na sarjeta… até que você os conjure…