Com a oficialização da instrução primária no município de Patos de Minas, tanto a imprensa como os órgãos públicos municipais passaram a destacar a importância e os benefícios que a Educação trazia para a população e o desenvolvimento da cidade.
Nesse sentido, observa-se, no início do século XX, fragmento do jornal “O Trabalho” – de circulação no município de Patos de Minas –, destaque para a relevância dada à educação como condição de progresso do homem.
A instrucção é à base do progresso; sem ella que desenvolve as faculdades pensantes de cada individuo ou cellula social; sem ella que faz o cidadão comprehender os misteres da vida e os deveres para com a sociedade; sem ella, enfim, que reveste o homem dos poderes para lucta quotidiana pelo viver, é impossível avaliar-se o benefício e prosperidade que possa trazer à nossa Pátria. (...) (O TRABALHO, 1905, p. 1).
Aos poucos, o município passa a contar com mais escolas e alunos alfabetizados. Destaca-se a instalação na cidade, no dia 4 de junho de 1917, do Grupo Escolar Marcolino de Barros, representando um significativo avanço no campo educacional de primeiras letras. Mesmo com inaugurações desse porte, havia, ainda, um baixo número de escolas mantidas pelo legislativo municipal, nas duas primeiras décadas do século XX. Fonseca (1974) traz informações relevantes sobre essa questão.
O presidente da Câmara de Patos, Dr. Marcolino de Barros, informava em 1912, o número de escolas mantido pelo legislativo municipal. Quatro escolas, sendo 3 do sexo masculino e 1 de ambos os sexos. Nas 3 primeiras, estudavam 154 alunos. Na escola mista, 36 alunos e 11 alunas. Na mesma época funcionavam 4 escolas particulares, sendo 2 do sexo masculino com 31 alunos, uma do feminino com 23 alunas, e uma mista com 39 alunos e 24 alunas. O recenseamento de 1920 apurou, 1.088 mulheres sabendo ler e escrever, na sede do município; nos distritos: Santa Rita, 615; San'Anna, 754; Dores do Areado, 262; Lagoa Formosa, 348, totalizando todo o município 3.067 (FONSECA, 1974, p.134).
Cientes das consequências positivas que a educação traria à população, as comunidades rurais decidiram se manifestar e buscaram junto à Câmara Municipal apoio para suprir as necessidades educacionais, como se observa na representação abaixo transcrita
[...] No expediente foram lidos os seguintes requerimentos: Dos Senhores Antônio José Dias e outros, residentes na Fazenda do Leal, districto desta Cidade, pedindo a creação de uma Cadeira Municipal naquele lugar, visto existir mais de sessenta creanças em edade escolar, sem poder receber instrucção alguma, etc. Foi a Comissão de Legislação. Ata da terceira sessão ordinária de 17 de setembro de 1913 – Presidência do Senhor Arthur Thomaz de Magalhães da Câmara Municipal de Patos de Minas (CÂMARA MUNICIPAL DE PATOS DE MINAS, 1913).
Decorridos seis dias dessa manifestação, o pedido foi colocado junto à Câmara para ser discutido e votado. Não havendo manifestação de nenhum representante do povo, procedeu-se a votação e a aprovação unânime com imposição de restrições para atender a representação da comunidade denominada Fazenda Leal. O pedido:
[...] Foi lido o parecer número oito, da Comissão de Legislação e Petições, indeferindo o requerimento dos Senhores Antônio José Dias e outros, residentes na Fazenda Leal, districto desta Cidade, pedindo a creação de uma Escola Municipal naquele lugar, etc; opinando que seja attendido o pedido, com a condição, porém, de ser pela população do lugar, construído um prédio aproppriado a escola e ser este doado a Câmara, etc. Posto em discussão e não havendo quem sobre o mesmo pedisse a palavra, o senhor presidente pôs a votos, sendo unanimemte aprovado. Ata da terceira sessão ordinária de 23 de setembro de 1913 – Presidência do Senhor Arthur Thomaz de Magalhães da Câmara Municipal de Patos de Minas (CÂMARA MUNICIPAL DE PATOS DE MINAS, 1913).
Situação semelhante ocorreu em relação aos residentes da Fazenda Pião ao solicitar à Câmara a criação de uma Escola na localidade:
[...] Foi também lida uma representação assignada pelo Senhor Pedro Antônio de Oliveira e outros, residentes na Fazenda do Pião, districto de Lagoa Formosa, pedindo a Câmara crear na referida fazenda, uma Escola Municipal, onde tem para mais de sessenta meninos em edade escolar, sem receberem a menor instrucção, etc. Foi a Comissão de Legislação. Ata da segunda sessão ordinária de 9 de janeiro de 1914 – Presidência do Senhor Marcolino de Barros da Câmara Municipal de Patos de Minas (CÂMARA MUNICIPAL DE PATOS DE MINAS, 1914).
Decorridos três dias dessa representação, o Poder Público emite seu parecer
[...] O Senhor Noé Ferreira da Silva, por parte da Comissão de Legislação, apresentou o parecer que recebeu o número um, indeferindo a representação dos Senhores Pedro Antônio de Oliveira e outros, residentes na Fazenda do Pião, districto de Lagoa Formosa, pedindo a creação de uma Escola Municipal na referida fazenda, etc; opinando que sejam os suplicantes attendidos, com a condição, porém, de ser pela população do logar, construída sob planta approvada pela Câmara Municipal, um prédio destinado a escola, fazendo os interessados, doação deste a esta Municipalidade, etc. Ficou sobre a mesa para entrar na ordem dos trabalhos. Ata da quarta sessão ordinária de 12 de janeiro de 1914 – Presidência do Senhor Marcolino de Barros da Câmara Municipal de Patos de Minas (CÂMARA MUNICIPAL DE PATOS DE MINAS, 1914).
Como sinaliza os fragmentos das atas da Câmara Municipal, observou-se que mesmo nos lugares campesinos de maior densidade demográfica da municipalidade, ainda não contava com escola pública no segundo decênio do século XX. Constatou-se que a criação de uma escola estaria condicionada à edificação e doação - pelos moradores da comunidade à Câmara Municipal – de um prédio construído de acordo com os padrões arquitetônicos exigidos na época.
Em outras situações, o município cedia o professor e material necessário, como a lousa ou tinteiro, ficando a cargo do professor ou da comunidade, local para funcionamento da escola. Esses esforços eram recompensados quando, mesmo que de forma precária, havia a instalação de uma escola de primeiras letras nessas comunidades rurais.
Sabe-se que uma instituição escolar não depende, contudo, apenas desses dois fatores ora abordados: autorização para a criação de uma escola e a própria edificação de um prédio que possibilite o ensino e a aprendizagem nessas comunidades. É preciso que professores sejam capacitados para a condução da educação junto aos distritos do município.
Em consulta às atas subsequentes existentes na Câmara até 1960, constatou-se que não há registro de construção e doação de prédios, pela população campesina, para instalação de escolas autorizadas a funcionarem no município nos padrões exigidos pelo Poder Público.
3.2.3 A FORMAÇÃO DE PROFESSORES EM PATOS DE MINAS
As escolas normais brasileiras tinham como objetivo formar professores para atuarem, principalmente, no meio campesino, considerando ser o Brasil um país agrícola. Destacava-se, também, a formação cívica voltada para o patriotismo. Nas primeiras décadas do século XX, os alunos sabiam cantar o Hino Nacional, o Hino da Independência, o Hino da Proclamação da República. Os professores formados nessas escolas trabalhavam com seus alunos, um dia por semana, os cânticos cívicos. E assim, as datas mais importantes do país eram comemoradas nas escolas ou mesmo em desfiles pelas ruas das cidades e comunidades rurais.
Os professores advindos dessas escolas normais eram, dessa forma, preparados para atuarem, também, nas comunidades rurais e foi a partir de 1935 que a Escola Normal Professor Antônio Dias Maciel, instalada em 1932, insere no mercado as primeiras normalistas formadas que, somadas a outras dos anos seguintes, e as de outras instituições escolares com curso para habilitação de professores para atuar no ensino e atender às necessidades das escolas municipais rurais de Patos de Minas até a consolidação do processo de nucleação ocorrido 1998.
Apesar de terem uma formação específica para o ensino primário, alguns empecilhos dificultaram a permanência desses profissionais no campo e, também, ao aprendizado adequado do conteúdo repassado. Destacam-se os seguintes obstáculos:
• As dificuldades de locomoção para o meio rural e ou condições oferecidas ao professor para sua acomodação;
• Os professores quando direcionados para trabalharem no meio rural, já levavam consigo o pensamento de retorno à cidade.
Nesse sentido, era necessário que os professores dispostos a saírem da cidade para trabalharem no meio rural tivessem uma dedicação além da comumente existente junto àqueles que tinham essa profissão no meio urbano. Outra possibilidade seria a de oferecer à população do campo condições para que pessoas daquele próprio meio fossem capacitadas a repassarem conhecimento aos alunos rurais.
Torres (1943, p. 38) possui entendimento semelhante ao desta pesquisa, em relação a essa questão e, assim, afirma “A professora rural tem que ser uma abnegada, uma construtora antes de tudo. O ideal seria que fosse tirada de uma região campesina e não da cidade, onde a vida está cheia de comodidades.”
Nesse sentido, alguns projetos educacionais, como o Projeto Logos II e o Projeto Chama, foram implantados a fim de habilitar profissionais para o exercício do Magistério de 1a a 4a séries. Ressalta-se que foi por meio do Projeto Logos II que este pesquisador, até então professor rural leigo, formou-se normalista.
O Projeto Logos trata-se de um projeto semipresencial implantado no Brasil e em Minas Gerais em 1980 e, com núcleo em Patos de Minas, a partir de 22 de fevereiro de 1980. Esse projeto qualificou até 1988, em Patos de Minas, 282 professores que atuavam sem habilitação específica em escolas públicas municipais e estaduais, para o exercício do Magistério de 1a a 4a séries. Desses 282 apenas oito eram homens, ou seja, 2,83%, seguindo uma proporção, naturalmente mais elevada, para o índice de professores do sexo feminino nas primeiras séries escolares.
A formação desses professores visava qualificação profissional numa tentativa de reduzir os altos índices de repetência e evasão escolar no ensino primário, pois um professor mais bem capacitado é capaz de transmitir melhor as disciplinas ministradas e de estimular o desejo dos alunos em permanecer na sala de aula.
Por sua vez, o Projeto Chama foi implantado em Minas Gerais em 1993 e com núcleo em Patos de Minas no mesmo ano. O Projeto semipresencial também visava à formação de professores não titulados que atuavam no ensino de 1a a 4a séries na rede pública municipal e estadual.
3.3 A ESCOLA MUNICIPAL RURAL DE PATOS DE MINAS EM MEADOS DO