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La voie d’une obligation à objet à formation progressive

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§ 2 :  Interprétation renouvelée de la cession de contrat

Section 1 : Proposition du fondement nouveau d’un objet à formation progressive

B.   La voie d’une obligation à objet à formation progressive

«- Dizem que alma anda por lá. Viram-no a bater à janela de fulaninha. Igualzinho a ele. De safões e tudo.

- E você acha que Dom Pedro, com o génio que tem, ia permitir que o filho continuasse a enganar raparigas? Já estou a imaginá-lo se soubesse: «Bom- dir-lhe-ia -‟‟Tu já estás morto. Fica quieto na sepultura. Deixa esse assunto connosco‟‟ E se o visse por aì quase aposto que o mandaria de novo para o cemitério.»205

Juan Rulfo

«Como outros povos em outras terras, custa-nos deixar partir os nossos mortos.

Conservamos a sua memória e a esperança de um dia nos reunirmos. Esta é a natureza humana. No México, porém, somos afortunados: o nosso passado pré-hispânico e as nossas crenças católicas permitem-nos manter as relações com os mortos. Nós sabemos que eles regressam todos os anos […].»

Maria Antónia Sanchez de Escamilla206 (vencedora do Concurso de Oferendas para o Dia dos Mortos de 1989 em Puebla)

205 RULFO, Juan - Pedro Páramo. Lisboa: Caminho de Ferro, 2007, p. 29. 206

CARMICHAEL, Elizabeth; SAYER, Chlöe - The Skeleton at Feast: The Day of The Dead in Mexico. Austin: University of Texas Press, 2003, p. 118.

Introdução

Nesta Fase Mexicana iniciada em 1994, José de Guimarães continua a utilizar a expressão plástica desenvolvida entre 1991 e 1993, onde combina a linguagem primitivista, o informalismo e a técnica do dripping, assim como a mistura de areia nas tintas e colagens na tela, consistindo a mudança na variação do conteúdo das novas composições207, o qual passa incluir as Caveiras e os Esqueletos utilizados na Festa dos Mortos ou ainda figuras da cultura pré-colombiana como Chac Mool. Mas, além da continuidade formal, também se pode afirmar que a erupção das mencionadas criaturas da morte como que já era prenunciada pelas figuras espectrais da Série Navegadores e Descobridores - tão distintas dos personagens coloridos e vibrantes da década anterior. Assim, trata-se de um progressivo descarnar das figuras, onde corpos róseos - como o da mulher de As Três Serpentes208 - se transformam em massas esbranquiçadas e cinzentas, ainda detentoras de atributos sexuais mas carentes de erotismo, alheias aos prazeres da vida, que culmina nas Caveiras e nos Esqueletos. Ademais, porque as Caveiras e os esqueletos não são apenas ícones da civilização mexicana e produto de uma anterior mestiçagem - a do catolicismo espanhol com os cultos dos índios -, pois representam sobretudo esse confronto entre a vida e a morte que atravessa toda a obra de José de Guimarães - ou a já mencionada «identidade de temas e identidade formal»209 - também o percurso anterior do artista, mesmo nas composições de mais intensa celebração do hedonismo, concorre e explica a sua aparição.

Por outro lado, tal como acontecia na Fase Africana - podendo até se considerar que a Caveira é uma evolução da máscara angolana -, estas criaturas da morte e os fundos das telas onde são plasmadas apresentam, com frequência, a coloração verde e vermelha, prosseguindo deste modo o artista, mediante tal simbolismo cromático, a simultânea

207 As dimensões destas obras variam entre os 250x400 cm e os 22x26,25 cm.

208 AA/VV - José de Guimarães: Retrospectiva 1960-2001. Lisboa: Quetzal Editores, 2001, p. 160. 209 Câmara Municipal de Estarreja - José de Guimarães: Exposição México-China, obras de 1995-1998,

afirmação do seu país e a sua transposição para a Festa dos Mortos ou o passado indígena.

Para a compreensão deste ritual dos mortos, começamos por analisar as obras Pedro Páramo de Juan Rulfo210 - romance considerado fundamental para o entendimento da sua Fase Mexicana pelo próprio José de Guimarães - e O Labirinto da Saudade e El Pelegrino y su Pátria de Octavio Paz211 - quiçá as mais penetrantes análise da identidade do povo mexicano -, assim como as respectivas representações gráficas do fenómeno feitas por Guadalupe Posada212. Pois se a literatura - o romance e o ensaio - descreve o imaginário dos homens que criaram a Festa dos Mortos, a arte ilustra-a. Depois, viajamos até à Cidade do México, onde estivemos de 29 de Outubro a 5 de Novembro de 2008, para assistir ao mencionado ritual, analisar as gravuras de Guadalupe Posada, os murais de Diego Rivera213, José Clemente Orozco214 e David

210Nasce em Sayula em 1917. Acontecimentos traumáticos como a Revolução Mexicana e a Guerra

Cristera, durante a qual o pai e dois tios são assassinados, obrigando a viver num orfanato dos 10 aos 14 anos, são determinantes na sua futura obra. O emprego que aos 18 anos obtém na Secretaria de Gobernación vai obrigá-lo a viajar por todo o país, obtendo assim um conhecimento profundo do povo mexicano. Percursor do Realismo Mágico, em vida publicou apenas A planície em chamas (1953) e

Pedro Páramo (1955). Em 1970 recebe o Prémio Jalisco, Nacional de Letras e 1983 o Prémio Príncipe

das Astúrias – cf. AA/VV - Enciclopedia de México, Tomo XII. Ciudad de México: Compañia Editora de Enciclopedias de México. 1987, p. 7061-7063.

211 Nascido em Mixcoac em 1914, publica o primeiro poema em 1931 com o título Mar de dia e termina o

curso de Direito em 1937. Nesse ano visita a Espanha durante a guerra civil, manifestando solidariedade para com os republicanos. Em 1943 prossegue os estudos na universidade de Berkley e dois anos mais tarde torna-se diplomata e vai para Paris. Em 1950 publica O labirinto da saudade, reflexão sobre a identidade mexicana. Nos seus livros de poesia, como Piedra de sol de 1957, o amor e o erotismo animam não apenas o homem e a mulher, como a natureza e os astros. Em 1968 renuncia ao cargo de embaixador na Índia em protesto contra o massacre de estudantes na Cidade do México. Em 1985 recebe o Prémio Internacional Alfonso Reyes e em 1990 o Prémio Nobel da Literatura – cf. Enciclopedia de

México, Tomo XI. Ciudad de México: Compañia Editora de Enciclopedias de México. 1987, p. 6263-

6264.

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José Guadalupe Posada nasce em Aguascalientes em 1851, numa altura na qual o México enfrentava o trauma da derrota da guerra contra os Estados Unidos e da consequente perda de metade do território nacional. Durante a adolescência sentiu as convulsões geradas pelas Leis de Reforma, a intervenção francesa , as lutas de Juárez, a ditadura de Porfírio Diaz e o triunfo da Revolução Mexicana com a entrada de Madero no país. Trabalhou como ilustrador para jornais e revistas como El Jicote, El Teatro, La Gaceta Callejera, El Boletin,, Gil Blas cómico, El Popular, El Amigo del Pueblo, La Pátria Ilustrada, El Diablito Rojo, EL Diablazo, La Pátria Festiva, Almanaque del Padre Cobos, Almanaque de Doña Caralampia Mondongo, La Risa de el Popular. Ilustrou também livros, cartazes de corridas de touros, circos e teatros – cf. ARAGÓN, Luís Cardosa y - Posada. Cidade de México: Universidade Nacional Autonóma de México, Dirección General de Publicaciones, 1963, p. 9.

213 Nascido em 1886 em León Guanajuato, Diego Rivera, inicia os estudos na Academia de São Carlos da

Cidade do México sendo expulso em 1902 por se juntar aos protestos estudantis. Entre 1901 e 1907 vive em Paris onde conhece Picasso e descobre as tendências modernistas. Com a Revolução Soviética de 1917 começa a interessar-se pela aplicação da arte aos movimentos revolucionários. Em 1921 regressa ao

Siqueros215, visitar o Museu de Antropologia, e, por fim, a estação de Chabacano onde se encontram as duas pinturas parietais de José de Guimarães.

Chegados ao destino, constatamos imediatamente que as oferendas da Festa dos Mortos se encontram em todo o lado, não se diferenciando o sagrado do profano: na rua os estabelecimentos comerciais competem entre si na apresentação do mais esplendoroso altar de mortos ou apenas na decoração das montras e tectos com papéis picados; nas praças, nos museus, galerias de arte e centros culturais são exibidas exposições alusivas ao tema, assim como erigidos altares com fotografias de defuntos que em vida se destacaram nas artes, letras, cinema ou teatro mexicano; e até no hotel, numa zona de serviço, mas cuja porta estava aberta para ser vista, os empregados criaram uma oferenda. Porém, aquilo que mais nos impressionou foi a descoberta na avenida Francisco Sosa - zona nobre habitada pelas classes altas -, de um altar dos mortos num antigo convento ou residência de freiras, com esqueletos envergando o hábito de uma religiosa - prova de que a própria Igreja absorveu estes rituais216 - e uma oferenda

México e adere ao Partido Comunista, assim com ao movimento muralista. Recebe encomendas para a decoração de edifícios públicos, recriando a História do México e o sofrimento do povo mediante uma combinação de classicismo, cubismo e influências índias. Em 1929 casa com Frida Khalo. Nos anos 30 realiza várias exposições nos Estados Unidos compõe murais na Escola de Belas-Artes da Califórnia, no Instituto de Arte de Detroit e no Centro Rockefeller de Nova Iorque. Este último mural, juntamente com o do hotel Reforma no México, acabam por ser destruídos devido às suas mensagens políticas – cf. ARRECHEA, Julio; SOTO, Vitoria - Dicionário de Pintura Século XX. Lisboa: Editorial Estampa, 2002,p. 310.

214 Nascido em Guzmán em 1883, José Clemente Orozco estuda na Academia de São Carlos da Cidade do

México entre 1904 e 1908. Conhece Rivera em 1921 que o torna membro do Sindicato de Pintores e Escultores (que se transformará no movimento muralista). A partir de 1926 cria murais - como o da Escola Industrial de Orizaba - nos quais retrata o sofrimento humano e a violência da guerra. Entre 1927 e 1934 vive no Estado Unidos onde compõe murais em Los Angeles, Nova Iorque e Dartmouth; nesta cidade cria o mural da Epopeia da Civilização Americana. Em 1946 recebe o Prémio Nacional de Artes e Ciências. Em 1947 o Instituto Nacional de Belas-Arte realiza uma exposição retrospectiva da sua obra.

Ibidem, p. 278.

215 Nascido em 1896 em Camargo, estuda na Academia de São Carlos entre 1911 e 1913. Participa na

Revolução Mexicana e em 1921 redige, em Espanha, um manifesto defendendo as tradições índias e a função social da arte. Em 1922 regressa ao México e adere ao Partido Comunista. Cria murais com figuras robustas e perspectivas exageradas, tentando favorecer a visão do espectador diante de uma obra monumental. Entre 1936 e 1937 vive nos Estados Unidos onde toma contacto com o Expressionismo Abstracto e conhece Jackson Pollock. No ano seguinte regressa ao México e pinta murais onde retrata a opressão do povo e cenas da conquista espanhola. Em 1947 participa no assalto à residência de Trostsky. Recebe o Prémio Lenine da Paz em 1967. Ibidem, p. 344.

216 Arriscamos esta afirmação por havermos testemunhado que no exterior das igrejas, mas ainda dentro

do recinto das mesmas e contra as paredes dos templos, existiam altares de mortos. Certamente que o clero nunca permitiria que um desses altares fosse colocado dentro da igreja, porém, fora do edifício, quase no átrio, os altares dos mortos fazem parte da decoração do espaço de algumas igrejas.

exposta nos jardins de uma das muitas magnificentes casas onde a família, à semelhança do povo, prestava uma pungente homenagem a uma filha adolescente morta, a qual desejava compartilhar com os transeuntes217, trazendo-a assim de volta ao lar e ao convívio com os que a amavam. Todavia, da visita a um dos principais cemitérios da Cidade do México no dia 1 de Novembro, local onde esperávamos encontrar oferendas aos defuntos, constatamos que afinal estas não lá se encontravam, não existindo qualquer vestígio do ritual nas campas ou noutros locais do cemitério; tal ausência parece indicar que a tradição da Festa dos Mortos quiçá só seja totalmente observada nas comunidades rurais.

Por outro lado, da visita ao Museu Nacional de Antropologia comprovamos que algumas das principais civilizações pré-colombianas218 que habitaram o México associaram aos seus deuses a figura da Caveira, representaram-nos com tal rosto quando aquele era a divindade da morte, como Mictlantecuhtli219, ou quando figuraram os Cihuateteo - espíritos das mulheres mortas durante o parto -, colocaram-na (os Aztecas220) no centro da Pedra do Sol221, e criaram ainda máscaras onde uma metade é

217

Ainda que tal homenagem fosse pública, entendemos que não a devíamos fotografar. Por esta razão, não existe qualquer fotografia deste altar.

218 Aztecas, Toltecas, Zapotecas, Mixtecas, Totonacas, Huastecas.

219 Juntamente com a esposa Mictlancíhuatl, Mictlantecuhtli dominava o Mictlan , o inframundo onde

estavam guardados os ossos dos mortos que anteriormente haviam habitado a terra e a partir dos quais Quetzalcoatl irá criar a humanidade fertilizando-os com o seu próprio sangue.- cf. CARMICHAEL, Elizabeth; SAYER, Chlöe - The Skeleton at Feast: The Day of The Dead in Mexico. Austin: University of Texas Press, 2003, p. 25.

220

Depois da queda dos toltecas em 1170, segue-se um período caótico em que várias cidades-estado do centro do México lutam entre si. Dois séculos depois, em 1345, a tribo nómada dos Aztecas consegue estabelecer-se na ilha do lago Texcoco e fundar a cidade de Tenochtitlán, cujo número de habitantes poderá ter chegado a 200.00. Derrotando a cidade vizinha de Atzcapotzalco, os Aztecas estendem o seu domínio às regiões dominadas pelo anterior rival, da costa do Golfo à costa do Pacífico. Continuando a tradição militarista Tolteca, formaram um numeroso exército, comandado por um rei-sacerdote, o qual continuamente conquistava terras para pagamento de tributos e capturava prisioneiros para sacrificar a Huitzilopochtli; o número de vítimas destas cerimónias, durante a ampliação do templo de Tenochtitlán ascendeu a 20.000. Os Aztecas possuíam uma escrita hieroglífica, um sistema de astronomia que determinava correctamente a posição dos astros mais próximos e um calendário. A convicção do imperador Moctezum II de que Cortés e os soldados espanhóis eram Quetzalcoátl, e as doenças trazidas pelos colonizadores ditaram o fim da civilização Azteca em 1521- cf. AA/VV - Mundos del Passado: The

Times Atlas de Arqueologia. Barcelona: Plaza & Janes Editores, S.A., 1990, p. 226 e 227.

221 Os sacrifícios mais comuns oferecidos pelos Aztecas aos deuses consistiam num golpe violento no

peito da vítima, deitada na Pedra do Sol, desferido pelo sacerdote armado de um punhal de sílex, após o qual lhe arrancava o coração e o elevava em oferenda ao Sol. Depois a cabeça do imolado era decapitada e colocada no tzompantli -altar de crânios - cf. SOUSTELLE, Jacques - A civilização Azteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987, p. 77.

composta de carne e a restante de osso, revelando assim uma forte crença na relação indissociável entre a vida e a morte.

Essa omnipresença das figuras da morte no passado e no presente levou-nos a concluir, depois da visita à Estação de Chabacano, - como no fim deste capítulo se verá - que, provavelmente, os seus murais, onde, decerto para não ferir a susceptibilidade do público mexicano, o erotismo surge contido, a sexualidade está ausente e o sangue sacrificial dos rituais Aztecas desaparece, sejam mais facilmente descodificados pelos espectadores locais familiarizados com tal iconografia e mitos do que as restantes obras de José de Guimarães noutras partes do mundo - públicas ou não -, nomeadamente a intervenção em Carnide.

Mas, é apenas a presença da morte que define a Fase Mexicana de José de Guimarães? Se Guadalupe Posada trouxe os mortos para o mundo dos vivos, deixando-os à solta para se entregarem às diversas práticas hedonistas que alegravam a triste e ensimesmada sociedade mexicana, a música, a dança, a bebida, a tourada e um passeio de bicicleta como fulgurantes manifestações festivas e prazenteiras de um povo vencido pela vida e atraído pela morte, que a elas se entrega numa euforia mais próxima do desespero que da felicidade, José de Guimarães prossegue essa experiência de trasladar a morte para a vida, com a importante diferença de trazer o erotismo e a sexualidade para as representações dos mortos, dotando assim Caveiras e esqueletos de sensualidade, artes de sedução e até prenúncios de práticas sexuais. Censurado desde a colonização pela Igreja, proibido pela conservadora sociedade mexicana, reprimido pela ditadura de Porfírio Diaz222, o sexo encontra finalmente a liberdade de se manifestar na Festa dos Mortos223 de José de Guimarães.

222 Nascido em Oaxaca de Juarez em 1830, entra para o Instituto de Ciências e Artes de Oaxaca em 1850

para estudar Direito. Em 1855, durante a Revolução de Ayutla, apoia Benito Juárez contra o general Santa Ana, forçando-o ao exílio. Nesse ano é nomeado chefe político do distrito de Ixtlán. Participa na Guerra da Reforma, entre 1857 e 1860 e na guerra civil contra o Imperador Maximiliano, apoiado pelos franceses, entre 1861 e 1867. Em 1877 torna-se, pela primeira vez, presidente do México; tenta então pacificar o país e reatar as relações com os Estados Unidos. Mas em 1880, a quando das eleições, é escolhido como candidato pelo Partido Liberal Manuel Gonzalez, que se torna o novo presidente. Porfirio Diaz recupera o poder em 1884, conservando-o até 1911, altura em que Revolução Mexicana o força ao exílio. Influenciado pelo Positivismo, Diaz promoveu o desenvolvimento do México, investindo nas ciências, melhorando as vias de comunicação e expandindo a escola pública. O país progrediu, mas a riqueza manteve-se nas mãos das elites – cf. Enciclopedia de México, Tomo IV. Ciudad de México: Compañia Editora de Enciclopedias de México, 1987, p. 2272-2280.

E fá-lo desvairadamente.

Pois no universo de truanices eróticas e tensão sexual de José de Guimarães não resta à própria morte senão seguir as regras do jogo. Assim, se na Festa dos Mortos de Guadalupe Posada os finados não voltam ao mundo para se redimir de anteriores pecados, apenas para gozar a vida, na de José de Guimarães regressam sim para os cometer. E a única culpa que expiam é a de não terem sabido, ou podido, aproveitar intensamente os prazeres carnais.

Como tal, sendo o corpo humano a base da linguagem do artista, nesta Fase Mexicana, José de Guimarães, ao recriar Caveiras e esqueletos, e assim defrontar-se com partes anatómicas descarnadas, incompletas, frias, consegue todavia que o erotismo e o desejo sexual deflagrem entre esses seres cadavéricos, que nem os seios nem os lábios carnudos lhes disfarçam a marca da morte, como se da carne opulenta e sensível de Hélène Fourment fossem constituídos. Tendo em conta o percurso do artista até aqui, entendemos que se trata da continuação natural da temática da sensualidade feminina, da sedução e do desejo sexual iniciada após o 25 de Abril de 1974 - que tão-pouco as pinturas lúgubres do mencionado período anterior (1991-93) obnubilam, embora tenha restado pouco espaço para o erotismo e para o sexo nas exíguas Caixas-Relicários de 1992. De facto, após um período no qual o desejo sexual se apresenta contido, sublimado ou parece estar associado à violência - como na série Navegadores e Descobridores -, nesta Fase Mexicana a libido dos personagens volta a manifestar-se intensamente, atingindo quiçá o seu clímax, podendo tal zénite lascivo ser comprovado pela quantidade de obras chamadas Amantes224 ou pela exibição de genitália e práticas explícitas de sexo patente nas figuras de tinta-da-china sobre papel de uma Série México225.

E talvez desta forma os mortos encontrem por fim o último dos prazeres que demandavam, até então negado. Por essa razão, pelo motivo acima exposto - o anterior período de menor exuberância sexual - ou ainda devido ao poder que a morte possui na cultura mexicana, os personagens desta Fase estão possuídos de uma sexualidade

223 A excepção é o ritual de despedida dos mortos dos índios Tephua, durante o qual é simulado um acto

sexual.

224

Na bibliografia indicada, encontramos quatro obras com o título Amantes.

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