O historiador patrístico Y. De Andia realça que Ireneu, na sua obra Adversus
Haereses, apenas se refere ao gnóstico Marcião no Livro I (I,27,2-4), onde desenvolve o seu pensamento para o refutar. A reflexão de Marcião é influenciada, de forma evidente, pela doutrina do seu mestre Cerdon, pertencente a uma corrente gnóstica dos Simonianos (cujo “pai”, Simão, é citado em χt κ,λ-24), a qual apregoava que o Deus anunciado pela Lei e pelos profetas não era o pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, porque, se por um lado, o primeiro foi conhecido e se manifestou como justo, por outro lado, o segundo não pode ser conhecido, manifestando-se como bom.
Ireneu afirma que Marcião, sucessor de Cerdon, «desenvolveu a sua doutrina blasfemando com despudor o Deus anunciado pela Lei e pelos profetas» e que o pecado de Simão é um pecado contra o Espírito Santo de quem quer comprar o poder (Cf. At 8,19), enquanto o pecado de Marcião é de «blasfémia», contra o Deus criador do céu e da terra, a quem chama também de Cosmocrator. Marcião apropria-se do Evangelho de Lucas e adapta-o à sua doutrina e, portanto, não transmite aos seus discípulos o Evangelho, mas apenas um «fragmento deste Evangelho»188. Partindo de uma reflexão pessoal, afirma que a Gratia gratis data, contrasta com a ideia da justitia ex operibus, ou seja, declara que existe uma oposição entre Lei e Evangelho.
São particularmente importantes duas palavras que Jesus proclamou no Evangelho quando, falando aos ouvintes, afirmou que é pelos bons frutos que se
187 ωf. χ. D’χδÈS, Marcion: La Reforme Chretienne au deuxième siecle, 147.
188 ωf. Y. DE χσDIχ, «δ’ώérésie et sa Réfutation selon Irénée de δyon», in Augustinianum XXIV (1985) 615-616.
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reconhece a bondade da árvore. Partindo desta afirmação Marcião, dando-lhe uma interpretação própria, compara o Antigo e Novo Testamento a duas árvores, uma boa, outra não propriamente má, mas diferente. Basicamente referia-se aos dois grandes autores divinos, o Deus do Antigo Testamento (Criador, justo) e o Deus do Novo Testamento, Pai de Jesus Cristo, fonte de todo o bem189. O abandono do Antigo Testamento tem, como consequência, um Cristo que veio pôr termo à vigência da Lei. Ora, nada que perde o seu valor pode ser divino. Para refutar a oposição introduzida por Marcião entre o Deus justo do Antigo Testamento e o Deus bom do Novo Testamento, Ireneu utiliza dois argumentos, um filosófico outro teológico.
Partindo do pensamento Platónico190, Deus é «acompanhado da justiça» e, naquele que é bom «não nasce nenhum desejo», Ireneu conclui que Platão é «mais religioso do que eles pois confessa um mesmo Deus justo e bom». Inversamente, os que «fabricam deuses múltiplos» «blasfemam o seu Criador», e «imaginam ter encontrado um Deus acima dele, um outro Deus»191, têm «desprezado Deus tendo-O como menor porque, no seu amor e na sua superabundante bondade, ele veio ao conhecimento dos homens. Portanto, imaginaram acima deste Deus, um Deus que não existe, para encontrarem um grande Deus que ninguém pode conhecer, que não comunica com o género humano e não administra os assuntos terrenos. Este é certamente o Deus de Epicuro que eles encontraram, um Deus que não serve para nada, nem para ele próprio, nem para os outros, em suma, um Deus sem Providência»192.
Portanto, Marcião inventou um «outro Deus» que de, certa forma, se aproxima mais do Deus de Epicuro do que do Deus de Platão. O argumento utilizado por Ireneu é
189 Cf. B. ALAND «Marcione, Marcionismo», DPAC F-O, 3021. 190 Cf. A. ORBE, La teologia dei secoli II e III, 34.
191 Cf. IRENEU, Adversus haereses III,12,3 (H. RIBEIRO – R. FRANGIOTTI - L. COSTA, 288). 192 Cf. IRENEU, Adversus haereses II,3,1 (H. RIBEIRO – R. FRANGIOTTI - L. COSTA, 132).
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alicerçado na encarnação de Jesus Cristo, que é verdadeiro Deus e verdadeiro homem e que, ao mesmo tempo, não pode estar separada do amor do único Deus Criador e Pai193. Quanto à mutilação das Escrituras, Ireneu quer mostrar o erro de Marcião, servindo-se do seu próprio método assim expresso: «nós convencemo-lo do erro[…], diz ele, a partir dos seus escritos e, se Deus quiser, nós o refutaremos a partir das palavras do Senhor e do Apóstolo (sermonibus…Domini et Apostoli) que ele conservou e utilizou»194.
Ireneu utilizará as palavras de Paulo para refutar Marcião, uma vez que este é o Apóstolo por excelência, o único testemunho digno de fé do Cristo reconhecido por Marcião. Inspirando-se em Paulo, Marcião estava realmente convencido de que Cristo abolira o χntigo Testamento, revelando aos homens o tal “Deus estrangeiro”, enquanto os demais cristãos continuavam a considerar um só os “dois Deuses”. εarcião via nesta conciliação uma má influência do judaísmo e também uma espécie de grande conspiração contra a verdade que, depois de Cristo, tentara manter vigente a velha religião judaica. Paulo soubera precaver-se contra tal influxo nefasto do velho fermento do judaísmo. Não fora por acaso que Paulo, já durante o seu apostolado, enfrentara tanta oposição dos judeus e judaizantes.
Este papel especial reconhecido a Paulo tinha a ver nomeadamente com a sua condição de “χpóstolo” especial, ou “verdadeiro χpóstolo”195, directamente chamado
por Cristo; o seu Evangelho não resulta de mediação humana, mas foi revelado no contexto do arrebatamento de Paulo “ao terceiro céu” (ωf.2ωor. 12,2). Por tudo isto, Marcião reconhece que Paulo foi chamado por Cristo como o apóstolo por excelência
193 Cf. Y. DE ANDIA, «δ’ώérésie et sa Réfutation selon Irénée de δyon», 618.
194 Cf. IRENEU, Adversus haereses I,27,4 (H. RIBEIRO – R. FRANGIOTTI - L. COSTA,110) 195 Cf. M. F. BIRD – J. R. DODSON, Paul and the Second Century, 2.
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para se opor aos falsos pregadores. O seu Evangelho não foi escrito por mão humana, mas transmitido diretamente por Cristo, e constituirá o cerne do cânon de Marcião196.
O próprio Paulo explica que não há senão um Evangelho que ele anunciava “tal qual o recebeu” de um modo especial. Todos os outros anunciavam um evangelho judaizante, falsificado. Na Carta aos Gálatas 1,8-9, Paulo assume-se como portador de um novo “evangelho”. εarcião retoma esta noção e intuição para repropor o seu evangelho, resultante de uma forma modificada do evangelho de Lucas com cortes e alguns acréscimos. O Evangelho de que fala Paulo não tem nada a ver com o Antigo Testamento, mas opõe-se totalmente a este. Marcião assume apenas o Evangelho de Lucas que, no entanto, deve ser depurado dos elementos judaicos. Assume as Cartas de Paulo, mas também estas devem ser purificadas das falsificações judaizantes, introduzidas posteriormente.
Marcião entende a Lei na mesma linha de Paulo (Carta aos Romanos), mas radicaliza o antinomismo paulino Rm 2,12: «Todos os que pecaram sob o regime da Lei serão julgados pela Lei»; Rm 2,13: «Não são os que escutam a Lei que são justos diante de Deus»; Rm 2,14: «Os pagãos sem a lei cumprem naturalmente o que ordena a Lei»; Rm 2,25: «A circuncisão é útil se praticares a Lei, mas se transgrides a Lei, com a circuncisão não és senão um incircunciso».