Nos países mais civilizados a função do tradutor está equiparada à do escritor.
Monteiro Lobato
Pretendemos no último subcapítulo deste trabalho lançar uma vista rápida sobre o uso da literatura e, especificamente, livros ilustrados, na sala de aula de língua estrangeira (doravante L2). Apoiando-nos em dados anteriormente apresentados sobre a importância da literatura em criar uma cultura de leitura, e sobre a importância da cultura ou hábito de leitura na formação do indivíduo dentro da sociedade, propõe-se uma tradução ou migração deste hábito de leitura às salas de aulas de L2.
Em muitas salas de aula de ensino de língua estrangeira, tanto no nível local como no âmbito global, o ensino e aprendizagem da língua se concentram nos tradicionais métodos de aquisição de linguagem: ensino de gramática através de livros didáticos com vocabulário muito restrito ao conteúdo específico didático e exercícios de repetição e audição. Em linhas gerais, este método de ensino não leva em consideração a possibilidade do uso da literatura em L2 como elemento complementar e enriquecedor do processo receptivo do aluno-leitor, e não se abre ao mundo rico de possibilidades frutos da leitura dentro da sala de aula. Com o estímulo certo a literatura pode se tornar uma ponte capaz de aproximar divisas intercontinentais de questões linguísticas e culturais entre os alunos da mesma sala, assim como entre o professor e alunos da sala.
Antes de poder levantar um questionamento sobre a relação e influência da literatura dentro da sala de aula de língua estrangeira, faz-se necessário em primeiro lugar definir a leitura e apresentar de que se compõe o processo de aquisição de língua estrangeira. Maria Helena Martins afirma que: “[...] tanto Burroughs quanto Sartre indica que o conhecimento da língua não é suficiente para a leitura se efetivar” (MARTINS, 1982, p. 17). Dando continuidade à visão de Martins sobre a leitura, nota-se que:
Se o conceito de leitura está geralmente restrito à decifração da escrita, sua aprendizagem, no entanto, liga-se por tradição ao processo de formação global do indivíduo, à sua capacitação para o convívio e atuações social, política, econômica e cultura (MARTINS, 1982, p. 22).
Conforme os apontamentos da Maria Campos, “O texto literário possibilita ao indivíduo olhar para o outro e nele reconhecer-se; este ato contribui para a criação de sua
identidade” (CAMPOS, 1999, p. 12). O desejo eterno do ser humano de criar vínculos com os outros se vê fortalecido na leitura dentro da sala de aula.
A literatura traz aquele imaginário maravilhoso e devaneios bachelardianos que, em qualquer idioma, impressionam o leitor com as imagens poéticas da suas palavras. É através dessas imagens poéticas que o professor pode trabalhar elementos metalinguísticos com seus alunos na língua estrangeira (L2). Assim que, muito além de oferecer uma breve leitura e analise da literatura, o professor poderia oferecer um verdadeiro estudo nos elementos metalinguísticos, simbologia, entre outros para enriquecer o vocabulário e conhecimento dos seus alunos.
A aprendizagem de uma língua estrangeira é um conjunto de vários componentes, entre os quais se destacam a competência gramatical, competência comunicativa, proficiência oral, assim como uma mudança radical a respeito da atitude em relação a outras culturas. Apesar do grandioso apelo da leitura em geral, a literatura em L1 dentro de uma sala de aula de língua estrangeira tem um elemento ainda mais singular do que o aluno ter a chance de compartilhar de todo este processo de processamento e decodificação de símbolos e culturas em outro idioma.
Como aponta Lazar, “Literature can provide students with access to the culture of the people whose language they are studying.55” (LAZAR, 1993, p.18). Do ponto de vista da socióloga Michéle Petit, ela afirma que “A leitura tem o poder de despertar em nos regiões que estavam até então adormecidos” (PETIT, 2008, p. 7). Existem inúmeras maneiras para trabalhar e incorporar gradativamente a leitura dentro da sala de aula, desde uma incorporação mais sutil e mais ênfase no conteúdo linguístico até uma aula administrada na língua estrangeira quase por integral.
Ao enfatizar a importância de ensinar a literatura numa língua estrangeira, Marie Gilroy afirma que “[...] within the Grammar-translation method of teaching language, the role of literature was, and for some still is, unquestioned: regarded as the highest form of expression of the target language, literature was/is an essential subject of study for the language learner56” (GILROY, 1996, p. 213). Qual aluno de inglês poderia se sentir realmente completo sem ter lido uma peça original de Shakespeare? E qual aluno de espanhol poderia sentir que aprendeu tudo o que tinha que saber sobre a literatura da Era Dourada
55 A literatura pode fornecer aos alunos com acesso à cultura do povo cujo idioma está estudando. – Tr. Tonia
Wind.
56 Dentro do método de tradução-gramática de ensinar um idioma, o papel da literatura foi e para alguns continua
sendo, sem dúvida, considerado como a forma mais alta de expressão da língua meta, literatura era/é um sujeito de estudo essencial para o aluno da língua – Tr. Tonia Wind
espanhola sem nunca ter lido uma peça em castelhano do grande dramaturgo Calderón de La Barca?
A literatura entra como o complemento mais sublime ao aprendizado linguístico do aluno de língua estrangeira. Além de proporcionar ao leitor uma pequena janela através da qual se observa uma cultura nova e diferente, a literatura oferece um vocabulário variado no qual o aluno não teria acesso dentro de uma aula tradicional.
Citando Krashen no seu artigo “The Act of Reading in the Foreign Language”, James Davis, aponta que “The literary text is considered as an efficient vehicle for foreign language acquisition as an organic whole for cultural analysis, and as a non-banal context for composition writing57” (DAVIS, 1989, p. 73). Percebe-se que:
What has been lacking in much foreign language literature teaching, particularly at less advanced levels, is a more active role for the individual reader. Certain aspects of Iser´s reader-response theory provide a coherent pedagogical framework, which takes into account both prior background and reader attitudes58 (DAVIS, 1989, p. 73).
Trabalhando com este conceito de resposta do leitor, o professor poderia trabalhar na revisão e busca de ideias sobre o ensino da literatura com seus alunos; gerando assim um ambiente mais aberto e propício para a troca de opiniões e experiências.
Existe uma miríade de razões para a adoção de literatura em L2 dentro da sala de aula de língua estrangeira tais como: ajudar na expansão de conhecimento linguístico, estimular a interação entre os alunos e o professor através de discussões, promover uma educação por completo do leitor e oferecer textos muito mais ricos e interessantes, em linhas gerais, dos textos encontrados nos livros didáticos. Existem diferentes modelos de ensinar literatura dentro da sala de aula. A maneira em que o professor resolver usar certo texto literário depende inteiramente no modelo de ensino que escolha. Existem três possíveis modelos de ensino de literatura: o modelo cultural, de linguagem e de crescimento pessoal.
O modelo cultural visa o texto literário como um produto, ou seja, como se fosse uma fonte de informação sobre a cultura L2. É o modelo mais tradicional e é frequentemente usado nos cursos universitários de literatura. Normalmente examina o contexto histórico,
57 O texto literário é considerado um veículo eficiente para a aquisição de língua estrangeira, e como um total
orgânico para o analise cultural, e como um contexto não-banal para a escrita de composições – Tr. Tonia Wind.
58 O que tem faltado em muito da literatura de língua estrangeira, especialmente nos níveis menos avançados, é
um papel mais ativo para o leitor individual. Certos aspectos da teoria de resposta de leitor de Iser oferecem um enquadramento pedagógico coerente, que leva em conta ambos as prévias experiências do leitor e suas atitudes – Tr. Tonia Wind.
político e social de um texto, os movimentos literários e gêneros. Este modelo visa mais a participação e controle do professor do ensino da matéria literária. O modelo de linguagem visa ser mais direcionado ao aluno. Na maneira em que os alunos passem pela leitura, eles vão percebendo mais a maneira em que o inglês é usado dentro do texto (estruturas gramaticais e vocabulário) assim como elementos estilísticos da obra literária.
O último método de crescimento pessoal é de ser centrado mais no aluno, fazendo com que ele use seus próprios sentimentos, suas opiniões e experiências pessoais. Com este último método, os leitores são convidados a se perderem dentro do texto e expandir seus horizontes literários e de fato se vem frente a frente com o tremendo poder da literatura em L2.
O livro infantil, e com ênfase especial no livro ilustrado, pode oferecer uma nova maneira em que o professor de língua estrangeira consiga despertar o interesse do aluno na literatura, assim contribuindo à aprendizagem e conhecimento linguístico e cultural do aluno. A tradução de literatura infantil estrangeira não se limita apenas à tradução de signos linguísticos. É uma tradução da língua, do país e, principalmente, da cultura “do outro” que pode ter uma influência duradora na vida do aluno de L2.