• Aucun résultat trouvé

chapitre II: Les réseaux sans fil et le standard IEEE802.15

II.4. Standard IEEE 802.15.4 :

II.4.1. La technologie ZigBee :

Embora Wittgenstein não diga isso explicitamente, a ideia de que a forma inalterável de conexão dos fenômenos é "governada por regras" sugere que, ao atribuirmos a certos fenômenos uma determinada forma transtemporal (tratando estes fenômenos como aspectos de um objeto físico), concedemos a essa forma o que poderemos chamar de "poderes causais".326 A concessão de poderes causais à forma

transtemporal de conexão dos fenômenos se expressaria no modo como a hipótese é uma “(...) uma lei para formar expectativas”.327

A hipótese conecta aspectos de diferentes espaços de possibilidades:

Uma hipótese é projetada para abranger mais que a reprodução de um tipo de experiência. Quando temos uma experiência particular (vemos a imagem visual de uma mesa, por exemplo) nós, com base na hipótese, esperamos ser capazes de ter experiências inteiramente determinadas de diferentes tipos (sensações táteis).328

A hipótese não apenas conecta fenômenos visuais em uma forma visual inalterável (ou fenômenos táteis em uma forma tátil inalterável etc.), mas diferentes modalidades de fenômenos. Assim, uma vez que apliquemos uma determinada hipótese a certos aspectos particulares (mesmo que tenhamos diante de nós apenas uma modalidade de fenômeno), essa hipótese desempenhará o papel de lei, que tem a possibilidade de gerar expectativas - que serão aspectos fenomenológicos (de diferentes modalidades). Por exemplo, ao aplicarmos a hipótese de mesa a determinados fenômenos em nosso campo visual, a hipótese permitirá gerar expectativas (futuras) sobre aspectos táteis, auditivos etc.. Caso toquemos nessa mesa, deveremos encontrar uma determinada resistência ao tato. Caso batamos nessa mesa, devemos escutar um determinado som (etc.). Ou seja, a hipótese não é apenas a regra de conexão dos

326 Retiro a expressão "poderes causais" ("causal powers") de Campbell (do capítulo 2.4 "An Explicit

Physics", em seu livro de 1995).

327 MS 107, p. 283 / PB, §228. (“Eine Hypothese ist ein Gesetz zur Bildung von Erwartungen”).

328 WVC, p. 258. (Grifos do autor). (Die Hypothese ist auf mehr berechnet als auf die Wiedergabe einer

Art von Erfahrung. Wenn wir eine bestimmte Erfahrung machen (etwa das Gesichtsbild eines Tisches sehen), so erwarten wir auf Grund der Hypothese, auch ganz bestimmte Erfahrungen anderer Art (Tastempfidungen) machen zu können).

133

fenômenos em uma forma que perdura, mas atribui poderes causais a essa forma, uma vez que será uma lei ("governada por regras") para gerar expectativas.

Há uma importante diferença categorial (e temporal) entre as expectativas e os objetos físicos. Enquanto os objetos físicos são entidades transtemporais (situadas no tempo físico), a expectativa é um determinado aspecto fenomenológico, que esperamos encontrar no presente da experiência imediata. Já a diferença entre a expectativa e o fenômeno poderia ser formulada da seguinte maneira. O fenômeno é o corte transversal da hipótese, que nos é dado no fluxo presente da experiência imediata (e que, após ser dado, tem como único critério de identidade a memória). A expectativa será o corte transversal da hipótese, que esperamos que no futuro nos seja dado, no fluxo presente da experiência imediata.329

A noção de expectativa estará diretamente relacionada à indução e à causalidade, pois, se espero que algo ocorra no futuro, será em decorrência das regras que governam as formas, aplicadas aos fenômenos. Assim, é o recurso às hipóteses que tornam as expectativas possíveis, pois as hipóteses serão as leis que nos permite fazer predições. Dito de outra forma: ao aplicarmos uma hipótese atribuímos poderes causais à forma de conexão dos fenômenos, de tal modo que podemos predizer aspectos fenomenológicos futuros. As regras que governam a conexão dos fenômenos serão as mesmas regras a serem expressas de forma geral nas "leis da física". Por essa razão, Russell, ao sustentar uma posição construtivista semelhante a de Wittgenstein (mas, como uma crucial diferença - como veremos ao final desta seção), afirma que os objetos físicos são "(...) séries de aparências cuja matéria obedece às leis da física".330

A relação entre a expectativa e a indução permite compreender porque, segundo Wittgenstein, no tempo da memória "(...) não há futuro”.331 Não pode haver futuro no

sistema primário (fenomenológico), pois só haverá expectativa (sobre o futuro) a partir da atribuição de poderes causais à forma hipotética de conexão dos fenômenos. Dito de forma negativa: atendo-se exclusivamente ao fenômenos não é possível ter expectativas, pois, não há nenhuma lei na ocorrência dos fenômenos, que nos permita esperar que, dado tais e tais fenômenos, outros tais e tais fenômenos deverão acontecer. No mundo

329 Esse ponto será central à compreensão da nova concepção de proposição, desenvolvida por

Wittgenstein, após o abandono da linguagem fenomenológica, pois a expectativa será o modelo epistemológico da proposição genuína.

330 RSDP, 164. ("(...) those series of aspects whose matter obeys the laws of physics"). 331 Cf. MS 113, p. 125v / BT, §105, p. 365. (“In dieser Zeit gibt es z.B. keine Zukunft”).

134

primário há apenas aquilo que é imediatamente dado e a memória do que foi imediatamente dado.332

Como dito anteriormente, os objetos físicos desempenharão um papel semântico fundamental, nas linguagens fisicalista - como é o caso de nossa linguagem ordinária. Esse papel se mostra no modo como corriqueiramente (no âmbito da linguagem ordinária) atribuímos o predicado "real" ao "mundo" dos objetos físicos e tratamos os fenômenos como uma dimensão meramente ilusória e subjetiva, resultado da maneira como a realidade nos aparece coordenada, através dos sentidos.333 Como afirma

Wittgenstein: “[é] notável que o predicado ‘real’ seja atrelado aos objetos e não aos fenômenos, que no entanto são as únicas coisas dadas a nós”.334 Isso tem importantes

consequências para o modo como concebemos a linguagem. Ao tomarmos aquilo que é inalterável e permanente como a “realidade", pensamos os objetos como um substrato fixo, portador de aspectos variáveis. A partir disso, pensamos a forma lógica das proposições, que descrevem esses objetos, como tendo a forma sujeito-predicado (na qual podemos atribuir um predicado ao objeto que é o substrato fixo). Assim, ao tomarmos os objetos físicos (que são construções) como a "realidade", nossa linguagem passa a girar em torno dos substantivos, que nomeiam esses objetos, e tomamos a forma sujeito-predicado como uma norma de representação (nos levando a negligenciar a forma lógica real das proposições).335

A atribuição do predicado “real” às hipóteses (aos objetos físicos) expressa uma outra dimensão do modo como o conceito de objeto encontra-se conectado à indução. Ao utilizarmos uma hipótese, esperamos que essa regra de conexão, que aplicamos aos diferentes espaços de possibilidades (subsumidas no objeto), continuará a ser aplicável no futuro. Com isso, a adesão a uma hipótese é, em parte, a crença de que as regras e leis, das formas aplicadas ao mundo primário, continuarão a ser aplicáveis (e, com isso, permitindo gerar expectativas verdadeiras). Por essa razão, afirma Wittgenstein:“[a] crença na realidade é a crença na indução”.336 Por exemplo, ao utilizarmos as hipóteses

de bola e mesa para organizar a experiência imediata, através da hipótese de que “há

332 Cf. MS 105, p. 86.

333 Utilizarei os termos “realidade” e "real" entre aspas para sinalizar que, nesse caso, estamos tratando do

sentido fisicalista de realidade. O uso sem aspas será destinado à realidade em sentido fenomênico.

334 WVC, p. 260. (Auffalend ist, daß das Prädikat „wirlich“ an den Gegenständen haftet und nicht and den

Phänomen, die doch das allein Gegebene sind).

335 Cf. PB, §115.

336 WVC, p. 260. (“Der Glaube an die Realität ist der Glaube an die Induktion”). Wittgenstein se refere

135

uma bola sobre a mesa”, expressamos a crença de que essas regras de conexão continuarão aplicáveis no futuro, pois esperamos que, no futuro, essas hipóteses continuarão a gerar expectativas verdadeiras.337 Ou seja, a crença na realidade dos objetos físicas é a crença na manutenção das regras e leis que aplicamos aos fenômenos. A relação entre objeto físico e indução será um importante ponto de afastamento entre o viés construtivista de Russell e de Wittgenstein. Segundo Wittgenstein:

Russell não representa a natureza do objeto corretamente quando ele concebe um objeto como uma classe. Pois uma classe não nos ajuda de modo algum a obter sentenças sobre um aspecto futuro. Uma classe não tem nada a ver com indução – um objeto, contudo, é essencialmente conectado com a indução.338

A tese de Russell, do objeto como uma classe de seus aspectos (expresso, por exemplo, no OKEW, p. 89ff.), poderia significar, segundo Wittgenstein, duas coisas: que o objeto fosse um número de aspectos (enumerados por meio de uma lista), ou que o objeto seria uma propriedade de aspectos (como uma característica (Zug) que poderia ocorrer como parte de um aspecto – por exemplo, uma cor).339 O que falta a essas

caracterizações de objeto como classe (e constitui o ponto de afastamento, que aludi anteriormente, entre esses dois autores) é que, segundo Wittgenstein, Russell perde de vista a relação entre o objeto físico e a indução. O objeto, para Russell, seria concebido como algo fechado – tendo em si já determinado os aspectos nele contidos. Diferentemente, sugere Wittgenstein (de modo metafórico), que a hipótese (que constitui o objetos físico) sempre terá “(...) rodas que giram em falso” e que permanecerão sem uso até que possam ser usadas para representar novas experiências.340 É essa falta de uma abertura para o futuro (a possibilidade de sempre

gerar novas expectativas), que Wittgenstein localiza no tratamento dado por Russell aos objetos físicos.

337 Em uma passagem bastante poética, Wittgenstein afirma: “[o] mundo escapa da pessoa que não tem

esperança, ou medo, de algo. O mundo se torna ‘irreal’” (WVC, p. 260 – Wer nichts hofft und nichts fürchtet, dem entgleitet die Welt. Sie wird “unwirklich”)) – em alusão à relação entre realidade física e o futuro (que se expressa como crença na indução).

338 WVC, p. 257. (Russell hat die logische Natur des Gegenstandes nicht richtig wiedergegeben, wenn er

ihn als Klasse auffaßt. Denn eine Klasse von Aspekten hilft uns ja gar nicht, irgendeine Aussage über einen weiteren Aspekt zu gewinnen. Die Klasse hat mit der Induktion nichts zu tun – der Gegenstand aber hängt wesentlich mit der Induktion zusammen) .

339 Cf. WVC, p. 254.

340 Cf. WVC, p. 258. (Die Hypothese egleichsam leerlaufende Räder: Solange keine weiteren

Erfahrungen.auftreten, bleiben sie unbenützt, und sie treten erst in Aktion, sobald es gilt, weitere Erfahrungen darzustellen)

136

Documents relatifs