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La tarification sociale sur le réseau TCL

Crisália é casada, tem 33 anos, três filhos e mora em casa própria, em Horizonte, há oito anos, para onde se mudou com o marido em busca de trabalho. Apenas o filho mais novo, de 11 anos, vive com ela, e os dois mais velhos, de 17 e 18 anos, moram com a mãe dela em Quixadá, cidade onde nasceu.

A entrevistada gosta de morar em Horizonte, pois considera o ambiente calmo e silencioso, sem muito movimento de carros e pessoas, além de o município oferecer mais oportunidades empregatícias que sua cidade de origem: “Em Quixadá o movimento que é grande, o emprego lá é mais difícil. O emprego lá tá precário. Agora é que tem. Aquela rua que eu moro ali é uma maravilha! Eu mal vejo movimento, vejo bagunça, a gente não vê muita coisa, então eu acho calmo”.

Por se considerar, mesmo que indiretamente, integrante da comunidade quilombola, Crisália é filiada à associação comunitária ARQUA, para a qual paga a

11 Nome fictício para a maior indústria de Horizonte, do ramo calçadista, que emprega aproximadamente

75% dos trabalhadores formais do município e é responsável por aproximadamente 50% do ICMS arrecadado pelo poder público municipal.

mensalidade de um real, pois tem expectativa de ser ajudada futuramente quando precisar, por exemplo, de um transporte em caso de doença. “Eu sou quase quilombola, porque eu partilho às vezes quando eu vou pra reunião, por eu morar aqui e participar um pouco do que acontece. O povo reclama que eu não sou daqui, que eu não sou como eles”.

Quando requisitada a opinar sobre as mudanças ocorridas nos últimos anos no município de Horizonte, Crisália ressaltou aspectos da educação, como um projeto do qual o filho mais novo participou e foi quando aprendeu a ler e a escrever, e a disponibilização pela prefeitura de ônibus escolares, que buscam e deixam os alunos na porta de casa e na porta da escola.

Seu marido trabalha na Sapatos há oito anos e assume as despesas fixas da casa, enquanto que Crisália faz serviços diversos para aumentar a renda familiar de aproximadamente um salário mínimo e satisfazer outras necessidades:

Eu me viro como posso. Lavo roupa, faço unha. Esse dinheiro é pras minhas coisas. Porque meu marido trabalha. Ele bota dentro de casa o que comer, paga água, luz e o gás. Agora o resto é comigo. Em termos de comprar um chinelo, uma roupa, calcinha, sutiã. Quando eu vou pra minha mãe, eu não peço nada a ele. É essas minha necessidade.

Apesar de não trabalhar fora, o dia-a-dia de Crisália não é nada fácil e ganhar o próprio dinheiro se mostra um aspecto importante até para a sua auto-estima:

Essa correria que eu vivo eu não vejo a vida nem passando. Tem dia que eu amanheço o dia com a trouxa de roupa na cara. [...] Então só faço porque eu preciso. Quero as minhas coisinhas sem tá dependendo dos outros. [...] desde pequena que eu tenho costume de trabalhar, não gosto de tá pedindo a ninguém.

Crisália não concluiu sequer o Ensino Fundamental e não demonstra vontade de voltar a estudar, mas incentiva os filhos a se dedicarem aos estudos e a fazerem cursos profissionalizantes, pois reconhece a importância da educação e da qualificação. Ela alega que não tivera oportunidades para tanto: “Eu não fiz curso nenhum porque eu não tinha condições de pagar. [...] É isso que eu digo pra eles, aproveite bem, os estudos de vocês, aproveite os cursos que tá aparecendo, é de graça, do governo, porque, no tempo que eu estudava, não tinha isso”. Nesse aspecto, ela considera que Quixadá oferece mais opções e facilidades que Horizonte, principalmente para os jovens.

Ela revelou ainda que não está oferecendo aos filhos tudo o que gostaria e que tinha mais condições de fazer isso na época em que trabalhava na Sapatos. Naquele período, ela conseguia pagar cursos e comprar objetos e remédios necessários com mais facilidade, além de receber o pagamento no dia certo, com o qual ajudava sua mãe:

Quando eu tava trabalhando, [...] Eu pagava curso pra ele, coisa que eu não tinha. [...] Todo final de mês eu tinha um compromisso, recebia o meu dinheiro e ia deixar pra eles lá. [...] Só que no momento agora ela (mãe) vê, que eu não tenho condições nem pra mim, me manter direito, nem mandar dinheiro pra eles. Aí desse jeito eu tô achando ruim.

Sobre o trabalho operário na indústria que mais emprega pessoas em Horizonte, Crisália apresenta grande desejo de retornar ao seu posto: “Meu sonho é voltar novamente pra Sapatos. Eu saí porque teve corte, me botaram pra fora. Aqui fora eu tô me virando, lavando roupa quando aparece”. Ela já tentou várias vezes a recontratação, mas existe uma política da empresa de não contratar ex-funcionários, independentemente do tempo de serviço, motivo da saída ou o período em que isso ocorreu.

A sua opinião acerca das atividades laborais nessa indústria está na seguinte fala:

Pra mim o povo que tá lá reclama de barriga cheia. Passei quatro anos lá, lá não tem esforço. Tudo bem que tava numa máquina, costurando. Não tinha salário atrasado, não tinha cesta básica atrasada, o ônibus não atrasava, nunca vi. O salário era de acordo. Eu sempre fazia muita extra, então recebia mais de salário. Tem merenda, tem almoço, tem um ônibus que vem pegar na porta, saía de lá vinha pra minha casa. Então, não é uma maravilha? [...] Eu sinto muita falta, muita, muita falta mesmo.

Interessante que o elogio às condições oferecidas pela empresa e o desejo de voltar a trabalhar com carteira assinada, tendo acesso a todos os direitos trabalhistas, predominam no discurso de Crisália: “O meu sonho mesmo é entrar numa firma novamente, assinar minha carteira, ter todos os meus direitos, porque o que aparece não é garantia de nada. Com certeza uma Sapatos daria certo pra mim”.

Contudo, no decorrer do seu depoimento, ela apresenta também pontos negativos dessa sua ocupação:

Quatro anos que eu passei na firma, eu não tinha tempo de sair de casa. Meu tempo mais era dentro da firma do que em casa. [...] Fazia muita extra pra poder conseguir ganhar melhor. [...] Tinha dia que saía de manhã cedo, tinha

de me acordar três horas, pra deixar almoço, pros meninos merendar e almoçar. Tinha dia que chegava seis horas da noite, pra fazer extra. O tempo que eu tinha era de chegar em casa, fazer minhas coisas e dormir.

Não sobrava tempo, assim, para conhecer as pessoas e interagir com a comunidade, pois, além do trabalho na fábrica, Crisália assumia completamente as responsabilidades domésticas de alimentação, limpeza, manutenção da casa e cuidados com os filhos e marido. Porém, trabalhar para Crisália é “[...] uma benção. Pior coisa é a gente tá desempregada”.

A ex-operária da Sapatos tem planos de ver seus filhos trabalhando nesta ou em outra empresa de Horizonte, parecendo ser igualmente uma vontade dos jovens, segundo a mãe: “Gostaria de ver meus filhos trabalhando na Sapatos. Não no serviço pesado, porque nenhum dos dois tem preguiça de trabalhar. Mas eles pensa muito. Sempre falei que a firma é boa. ‘Ô mãe, pois um dia nós vamos também trabalhar lá’”.

Mesmo valorizando a educação e a formação profissional, Crisália parece delegar aos filhos a conquista de certificados e diplomas, como se não fosse mais possível para ela própria. As oportunidades que aparecem não lhe servem mais, embora admire a sua mãe pelo fato de ter alcançado mais objetivos nesse sentido:

Minha mãe, ela tem estudo, tá trabalhando. Isso é uma maravilha já. Os concursos que apareceram pela prefeitura aqui, eu gostaria de ter aproveitado. Não aproveitei porque não tinha dinheiro pra pagar e pra comprar as apostila, porque se eu tivesse entrado no concurso pra prefeitura eu num tava trabalhando? Não era o resto da minha vida, até eu me aposentar?

Já o projeto “Alinhavando Sonhos / Construindo Realidades” foi uma oportunidade gratuita que Crisália considera ter aproveitado bem, pois não faltava aos encontros por qualquer motivo, como acontecia com outras companheiras, a quem critica: “Algumas delas faltava, eu não era de faltar. [...] A gente tava tendo um curso daquele, de mão beijada, de graça, se fosse faltar por tudo que acontecia, ninguém ia aproveitar nada”.

Por outro lado, Crisália não deu continuidade ao que aprendeu, pois, mesmo tendo as máquinas de costura à sua disposição no espaço físico alugado e mantido pela prefeitura, no período da entrevista ela não estava sequer exercitando o que aprendera. A amizade e o fato de ter conhecido novas pessoas parece ter sido o produto mais marcante dessa sua experiência. Porém, o que ela queria mesmo era o encaminhamento para uma das indústrias.

6.2 VIRGÍNIA: “A CORRERIA QUE A GENTE VIVE, CONTANDO COISAS, SE

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