• Aucun résultat trouvé

3.3 L'intégration de CIVIC : embedded-CIVIC

3.3.3 La structure d'e-CIVIC

A questão da identidade tem sido sempre mais objeto de discussão acarretando em novos questionamentos e trazendo reais inquietações no debate acadêmico.

Não obstante esse conceito assemelhar-se passível de compreensão, torna- se, por vezes, bastante obscuro e controverso no universo do pensar social. Para o conceito de identidade há uma multiplicidade de significados. Dessa forma, depara- se com a dificuldade em defini-lo. Trata-se de um terreno movediço, íngreme, superabundante de viés de discussão.

Decorrente da peculiaridade polissêmica que esse conceito contém em si, a identidade chega a ser, por vezes, um recurso e ao mesmo tempo uma cilada. Tanto pode ser utilizada para ajudar em investigações científicas como pode ser usada para sustentar políticas e ideologias em que pela interpretação equivocada da realidade carregam no seu bojo fins altamente devastadores.

Nas ciências sociais estamos frente a frente a uma heterogeneidade conceituais. Em geral, o debate evoca diversos níveis de identidade, dentre eles: étnico, cultural, política, de geração, de gênero, econômica, de parentesco, religiosa, territorial, social, esportiva, nacional, de classe, transnacional, escolar, profissional.

Esta investigação tece uma análise da relação festa - identidade. Para tanto, segue a vertente da identidade como explicação antropológica - a pessoa como ser social - e não, puramente, como argumentação metafísica. Essa escolha é motivada pela consciência de que “a abordagem da identidade que culmina na determinação da pessoa” (GOMES, 2000, p. 402) ou de uma sociedade, parece não proceder e pode tornar-se ambígua. Uma vez que essa abordagem prima por um conceito em que a identidade é algo definido, legitimado. Portanto, ela não auxilia na compreensão e interpretação dos processos interativos nas relações individual e coletiva que busquei analisar na sociedade de Pindaré-Mirim, meu espaço de pesquisa etnográfica.

Não restam dúvidas de que há uma proliferação de conceitos que podem acarretar em perplexidade epistemológica. A fim de conduzir nossa discussão proposta, pensa-se a identidade que parte do vivido, da experiência da pessoa como ser em relação, seguindo a vertente em que os parâmetros de análises perpassam as relações interculturais, inter e intrasubjetivas onde o conceito de identidade assume o cunho de confluências.

Antonio da Costa Ciampa (1987), recorre ao poema de João Cabral de Melo Neto, “Morte e Vida Severina”, e a partir de seu texto e seu contexto analisa a forma de construção da identidade. Seu foco central está no conceito de identidade que entra na dinâmica da transformação. Fica claro que a identidade subjetiva possui um conteúdo simbólico que é socialmente produzido.

Stuart Hall ao discutir as identidades culturais na pós-modernidade mostra seu caráter amplo e provisório:

O próprio processo de identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais, tornou-se mais provisório, variável e

problemático. Esse processo produz o sujeito pós-moderno,

conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma ‘celebração móvel’: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas (HALL, 2004, pp. 12- 13).

Afirmar-se socialmente implica na possibilidade subjetiva de pertencimento a um grupo e pensar como o sujeito se define, bem como, define o meio em que vive. Dessa forma, o sujeito pode se compreender de amplas formas na relação constante com os outros. Em Pindaré-Mirim, o processo de identificação está posto desde sua história, estendendo-se a sua população, em sua linguagem, em seu imaginário, em suas expressões culturais, procurando se identificar e ser vista assim, pela festa. A festa ali vai sempre mais tomando contornos diferentes, adaptando-se, renovando- se, contudo deve assegurar o caráter festivo em todos os sentidos. Isso se expressa bem claro na fala de D. Carmina:

Aqui em Pindaré nós comemos, dormimos e trabalhamos e muito, mas o que é bom mesmo, nosso, são as nossas festas. O povo de fora sabe que em Pindaré se brinca e se festeja todo dia, por isso quando querem festa boa vem para Pindaré. Por isso não posso parar com o meu Divino Espírito Santo. Cada vez vou botando uma coisa aqui, outra ali, para fazer a festa e a Caixa mais bonita. Meu Divino é assim (D. Carmina, depoimento em 10.10.2007).

A afirmação da identidade impõe alguma forma de autenticação. Isso significa que a identidade construída é algo sempre em relação aos outros. Análises de Pollak embasam essa percepção. O autor afirma que,

a construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros, em referência aos critérios de aceitabilidade, de admissibilidade, de credibilidade, e que se faz por meio da negociação direta com os outros (POLLAK, 1992, p. 204).

Considera-se, portanto, que a identidade como processo permanente de construção, exige que as pessoas estabeleçam relação de acolhida ao que vai sendo negociado, acrescentado e transformado de acordo com as novas exigências da sociedade. A identidade, ainda está relacionada também a questão da memória, como explica Pollak,

[...] a memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade, tanto individual como coletiva, na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência e de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si. (POLLAK, 1992, p, 204).

A memória social e coletiva de Pindaré-Mirim vem sendo construída e resguardada, resconstruída, negociada com maestria por sua população. O que identifica os pindareenses é o espírito festeiro e de religiosidade. Também o convívio com pessoas alegres, animadas, à moda pindareense, são fatores que ficam claros. Deste fato decorre que sua população, de forma subjetiva e não consciente elabora uma linguagem - no gesto de esquecer e no ato de lembrar - que reforça a importância dos laços sociais que são estabelecidos no dia-a-dia.

Do Engenho Central ficou a glória e esplendor, nós temos que aproveitar esse prédio e fazer dele um Centro Cultural de nossa história com um passado bonito. As novas gerações precisam saber essa história e esse passado. Pindaré teve muitas glórias. Fica para nós a saudade. É bem verdade que aqui teve escravos, mas o que sobressaiu mesmo, foi a nossa história bonita que precisamos contar para essa juventude de hoje (Professora D. Joana, depoimento em 24 de junho de 2006).

O discurso mostra a necessidade de afirmar-se em uma identidade desde que ela continue sendo recriada, trabalhada e apresentada a partir do desejo que a população tem a respeito de como deve ser vista naquele momento histórico. Assim, a identidade é algo que pode ser reelaborado e pode se apresentar de múltiplas formas conforme afirma Pollak: “Temos a pluralidade não de objetividade, mas de objetivação, que leva em conta a pluralidade das realidades e dos atos” (POLLAK 1992, p. 211). Percebendo-se essa objetivação no cenário histórico de Pindaré- Mirim, uma vez que se trata de uma população miscigenada sim, mas que carrega em seu âmago uma cultura fortemente enraizada nas expressões da cultura negra e que ao mesmo tempo trata-se de uma população que com um passado escravagista omite a contribuição do elemento afro-brasileiro. Assim a memória tem papel relevante na construção da identidade que contempla pluralidades e vai se adaptando de acordo com a objetivação do momento.

Como a identidade, a memória é algo vivo e está sempre em construção. Decorre daí uma estreita relação entre identidade e memória. Godói afirma que,

a memória, no entanto, não é um patrimônio definitivamente constituído; ela é viva precisamente porque nunca está acabada. Verificamos que ela é ativada num contexto de pressão sobre o território do grupo, atuando como criadora de solidariedades, produtora de identidade e portadora de imaginário, erigindo regras de pertencimento e exclusão, delimitando as fronteiras sociais do grupo (GODOI, 1993, p. 186).

Essa dinâmica é evidenciada na coletividade de Pindaré-Mirim, pois ali as pessoas identificam e reconhecem o poder da história, sabem que dela se origina a sua própria história; no presente, no futuro, a historia é e será recontada, passada adiante, através das gerações. É para isto que se presta a dinâmica das constantes festas na cidade: gerar a manutenção e guardar a memória da coletividade.

Documents relatifs