2. TROIS ÉTUDES DE CAS : MALI, AFRIQUE DU SUD ET BANGLADESH
2.2. L’accès aux soins et l’assurance maladie en Afrique du Sud
2.2.4. La stratégie et les activités de Medscheme
Apesar de ser o alvo das críticas ao modelo mecanicista e da cisão entre corpo e mente no período moderno, Descartes - ao fazer a separação entre ress extensa/corpo e ress pensante/mente - ofereceu um avanço na reflexão sobre o corpo, pois a teoria do conhecimento medieval só se relacionava com o corpo de forma instrumental. Essa separação problematizou a natureza humana, já que se corpo e mente são instâncias distintas, como uma unidade ―pode resultar da combinação de duas realidades independentes?‖ (ABBAGNANO, 2007, p. 214).
Para responder essa e outras questões levantadas por Descartes, o filósofo holandês Baruch Spinoza (1632 – 1677) buscou primeiramente compreender o cartesianismo não com a intenção de segui-lo, mas pensar ―sua própria Filosofia‖ (DELEUZE, 2002, p. 16). Spinoza não concordava com a desconfiança e o desdém que os racionalistas tratavam os afetos e indicou que o erro de Descartes foi ter tentado explicar os afetos a partir do pensamento quando, na verdade, eles possuem outra natureza. Será no corpo que Spinoza irá buscar a compreensão da nossa capacidade de sermos afetados. Uma das perguntas que o guiou foi: O que pode o corpo? Em A natureza e a origem da mente, a segunda parte da obra Ética,o filósofo apresenta as primeiras definições:
1. Por corpo compreendo um modo que exprime, de uma maneira definida e determinada, a essência de Deus, enquanto considerada como coisa extensa (...)
2. Digo pertencer à essência de uma certa coisa aquilo que, se dado, a coisa é necessariamente posta e que, se retirado, a coisa é necessariamente retirada. (SPINOZA, 2017, p. 79)
Aqui temos uma definição de corpo completamente diferente da instrumentalidade atribuída a este no período medieval, pois o corpo é uma expressão material/extensa de Deus e a divindade não pode ser retirada do corpo. Em Deus, primeira parte da obra Ética, Spinoza apresentou uma das teses mais polêmicas e centrais de sua Filosofia: Deus é a Natureza. Nas obras spinozistas as palavras Deus, Natureza e Universo são intercambiáveis (HELLER, 2012, p. 123). Por muito tempo, a obra de Spinoza foi considerada herética, especialmente após a publicação de Tratado Teológico-Político que apresentava uma racionalidade natural a qual tudo está submetido, até o próprio Deus, como parte integrante da Natureza. Não demorou para que Spinoza fosse acusado de ateísmo e perigoso à ordem política estabelecida, um tipo de ―escândalo do seu século‖. (MOREAU, 1982, p. 10)
Em 1665, quando iniciou os escritos do referido Tratado, Spinoza se questionava sobre a dificuldade dos homens em sustentar a liberdade conquistada e por qual motivo alguns homens lutam por sua escravidão como se fosse sua liberdade. Para ele, o homem sábio deveria se questionar ―Porque uma religião que reinvidica o amor e a alegria inspiram a guerra, a intolerância, a malevolência, o ódio, a tristeza e o remorso?‖ (DELEUZE, 2002, p. 16). Se a religião de sua época não oferecia essa coerência com a preservação da vida, onde fundamentar nossa necessidade de viver e nos expressar como seres humanos? Na razão, defendeu o autor.
A superstição e o fanatismo são inimigos da racionalidade, e o racionalismo de Spinoza é absoluto, ele buscou a natureza da razão e a razão na natureza. Ao se perguntar sobre o que nos anima? O que causa o nosso movimento? O que o filósofo da imanência defende como causa de si ou o fundamento de tudo? Na obra Ética, na primeira definição da primeira parte ele defendeu que: ―Por causa de si compreendo aquilo cuja essência envolve a existência, ou seja, aquilo cuja natureza não pode ser concebida senão como existente‖ (SPINOZA, 2017, p. 13). A causa de si não está fora da natureza, mas a compõe. Para radicalizar a razão como imanente e constitutiva da nossa natureza, para evitar as supertições que aprisionam os indivíduos à religião, ele buscou em seu pensamento seguir duas vias: ―a interpretação histórica-crítica da Bíblia (para afastar o poderio supersticioso da religião e da teologia) e a correção do nosso intelecto (para que sua força suplante a da imaginação)‖
(CHAUÍ, 1995, p. 35). Ao fornecer o contexto histórico das sagradas escrituras, Spinoza nos esclareceu que o texto não deve ser visto como uma diretriz política universal, pois diz respeito ao momento histórico e social no qual foi escrito e conteúdo ético não é universal, mas preceitos morais para a vida dos crentes da época em que foi escrito.
A experiência, seja ela religiosa ou não, deve ser verificada em seus fundamentos concretos, Spinoza nos alertou sobre os riscos dos devaneios da imaginação. Ao contrário de Descartes, o autor não vê separação entre corpo e mente, mas uma relação correspondente, ou seja, paralela. De acordo com o paralelismo, existe uma conexão perfeita entre os fenômenos mentais e corporais, e vice e versa. Dessa forma, não há uma relação de causalidade entre pensar e sentir, mas uma correspondência.
Spinoza foi um modelo para a doutrina do paralelismo psicofísico (v.) que presidiu à formação da psicologia científica moderna, servindo-lhe como hipótese de trabalho até há alguns decênios (ABBAGNANO, 2007, p . 214). Pode-se dizer que o paralelismo é a semente do pensamento funcional que será adotado por Reich e Lowen como o melhor modelo para se pensar a relação corpo e mente,especialmente para a compreensão de doenças psicossomáticas. No caso de Spinoza e a correspondência entre corpo e mente, não foi encontrada numa investigação sobre o pensamento, ele procurou compreender as potências do corpo para descobrir paralelamente as potências do espírito que escapam à consciência e poder compará-los.
Em suma, o modelo de corpo, segundo Espinosa, não implica nenhuma desvalorização do pensamento em relação à extensão, porém, o que é muito mais importante, uma desvalorização da consciência em relação ao pensamento: uma descoberta do insconsciente e de um inconsciente do
pensamento, não menos profundo que o desconhecido do corpo (DELEUZE,
2002, p. 25).
Há algo desconhecido em nossos corpos e nas interações que percebemos apenas o efeito, mas desconhecemos as causas. Por não ignorar a afetabilidade como uma capacidade humana fundamental para a autopercepção e, consequentemente, a percepção do mundo, Spinoza investigou os efeitos que os afetos promovem em nossos corpos. Em A origem e a natureza dos afetos, terceira parte da Ética, definiu:
Definições (...) 3 Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as idéias dessas afecções. (...) Postulados: 1. O corpo humano pode ser afetado de muitas maneiras, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, enquanto outras tantas não tornam sua potência de agir nem maior nem menor (SPINOZA, 2017, p. 163).
Somos afetados na interação que nossos corpos, individualmente e como sociedade. Para pensar sobre os efeitos do aumento de nossa potência de agir, Spinoza articula que encontros potentes promovem a alegria que potencializam também nossas ações. Podemos perceber aqui outra semelhança entre o pensamento de Reich e Spinoza, apesar de em nenhum momento de sua obra Reichmencionar a Filosofia de Spinoza. Sobre esse assunto, a pesquisa de Daniel Camparo Ávila sobre as relações do pensamento spinozista e reichiano indicou que ambos favorecem nossa reflexão sobre a importância da afetividade nas relações humanas. Como veremos no tópico dedicado ao pensamento de Reich, o corpo é o local da potência; e a sociedade negadora do corpo e da sexualidade favorece, por meio de uma educação repressiva, a formação de indivíduos cada vez menos espontâneos e com dificuldade de se entregarem aos relacionamentos sejam eles afetivos ou não, para Reich a atitude de entrega mais potente ocorre no orgasmo, que se refere à capacidade ―de abandonar-se livre de quaisquer inibições, ao fluxo de energia biológica; a capacidade de descarregar completamente a excitação sexual reprimida, por meio de involuntárias e agradáveis convulsões do corpo‖ (REICH, 1975).
Ávila comenta que, em termo somáticos, a potência orgástica não se identifica com a capacidade de exercer o ato sexual (ereção ou lubrificação) ou de concluí-lo (ejaculação), mas a entrega de si aos fluxos de energia, ou seja, quando a individualidade se rende à Vida. Ele ressaltou que essa descarga orgânica pode ―deslocar o sujeito às correntes energéticas, onde ele deixaria de ser uma unidade permanente para imergir-se na potência‖ (AVILA, 2010, p. 41), a experiência do êxtase ou beatitude. Um dos problemas dessa teoria será o idealismo, tanto na teoria reichiana do caráter genital, como em Lowen da pessoa sexual. Aqui surge outra contribuição de Spinoza para se pensar a afetabilidade e as relações pois ele, como vimos, não fala de indivíduos potentes, mas encontros potentes. Nessa mesma direção vão as reflexões do especialista no pensamento reichiano Dr. Paulo Albertini, para ele ―não há indivíduos potentes, apenas encontros potentes‖ (ALBERTINI, 2009). Essa postura nos livra da idealização da pessoa orgástica e nos abre para as relações de maneira menos
idealizada no intuito de promover encontros que podem nos potencializar, ou seja, aumentar nossa vitalidade e a capacidade de pulsação, prazer e a alegria.
Para Spinoza, o medo vem da impotência do ânimo, para fortalecer a nossa potência, o autor nos estimula a usar a razão para fortalecer os vínculos que promovem a vida e não a ameaçam. No Apêndice da Ética ele defendeu:
Não é pelas armas, entretanto, que se pacificam os ânimos, mas pelo amor e pela generosidade. (...) É útil, acima de tudo, formarem associações e se ligarem por vínculos mais capazes de fazer de todos um só e, mais geralmente, é-lhes útil fazer tudo aquilo que contribui para consolidar as amizades. (SPINOZA, 2017, p. 353).
A disposição de Spinoza em se voltar para o corpo como o lugar da afetabilidade o levou a se encontrar com a natureza interior como beatitude ou bem-aventurança: ―A beatitude não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude‖ (Ibidem, p. 409). Spinoza tem uma ética afirmativa da vida onde o indivíduo, por desfrutar da alegria, naturalmente refreia a violência e os apetites das paixões, não por uma restrição, mas por ser a beatitude o bem mais precioso. A convivência passa ser pautada por essa busca que é individual e se estende para o coletivo numa atitude pacífica que busca o fortalecimento dos vínculos de amizade e companheirismo. Estes são a fonte de uma vida social justa que oferece as bases para que relações saudáveis sejam potencializadas e promovam mais ainda a alegria como uma realidade somática e social.