CHAPITRE I. DELIMITATION ET PROBLEMATIQUE DE L'ETUDE: JANUS
1.4 LA “SEPARATION DOLOUREUSE”
Numa visão mais complexa, a comunicação não é simplesmente uma expressão de mensagens, mas sim um fenómeno de interação entre um ou mais indivíduos, e que representa todos os comportamentos num contexto social. Portanto, um ato comunicativo representa um ato social, o que necessariamente implica uma relação social entre pessoas. Logo, qualquer comportamento social tem um valor comunicativo mais ou menos fácil de entender e que depende do seu contexto. Nesta perspetiva mais elaborada, a comunicação apresenta-se como um modelo orquestra, pois admite-se que esta pode assumir várias formas - verbal e não- verbal – e depende da (inter)ação dos interlocutores em cena (Watzlawick, 2011).
2.2.1.2.1. Dimensões da Comunicação Segundo Watzlawick: Construção da Relação e Transmissão de Informação
Neste sentido, a comunicação apresenta duas dimensões fundamentais: a construção de uma relação entre os indivíduos e a transmissão de informação entre os mesmos. Dito de outro modo, a comunicação implica uma relação entre indivíduos e a existência de informação que se caracteriza por ser o conteúdo da mensagem. Apesar destas duas dimensões se encontrarem sempre presentes, há contextos em que uma delas se evidencia mais que a outra. Por exemplo, num contexto duma formação, a componente de transmissão
Vamos Comunicar? 33 de informação ganha maior peso, pois o objetivo é a aprendizagem e não a criação de relacionamentos; porém, quando na rua nos cruzemos com alguém e dizemos “olá, tudo bem?” estamos perante uma atitude se cortesia (relacionamento interpessoal), sendo que não esperamos que a outra pessoa nos confesse todos os seus problemas, isto é, normalmente obtemos uma resposta de “olá, vai-se andando” ou “tudo bem, e consigo?”, ou seja, a conversa tende a ser curta e de pouco valor informativo (Capucho, 2003).
O ato comunicativo baseia-se na criação de uma relação entre indivíduos que começam a atuar uns sobre os outros. Nesta relação existe um sentimento de partilha de informações. Pode ainda defender-se que o ato de comunicar é uma forma de tentativa de ação sobre o outro, pois ao transmitir-se uma mensagem não se pretende apenas transmitir informação, mas também se tenciona obter o entendimento e consentimento do outro, de forma a criar uma relação entre os interlocutores (Watzlawick, 2011). A própria forma da mensagem revela o modo como se vê o outro, propondo-lhe uma identidade que estará na base da relação em (co)construção.
Como tudo que o indivíduo faz e diz é comunicação e como basta a presença de dois ou mais indivíduos para que se possa falar em comunicação, facilmente se percebe que é impossível não comunicar (Watzlawick, 2011). Assim, quando um indivíduo tenta não comunicar com os outros que o rodeiam, está a transmitir através da sua atitude e postura que não quer comunicar, e esta atitude por si só já é um ato comunicativo. Comunicar não é apenas uma necessidade dos indivíduos (J. S. Silva, Pinto, Rocha & Barros, 2012), é também um imperativo da sua existência e convivência.
Ao que anteriormente foi definido no processo de comunicação como feedback, agora é melhorado como sendo uma co-construção do discurso, pois não se trata de uma simples resposta a uma mensagem doutro indivíduo, mas sim na formação de um discurso comum com partilha de informação de todas as partes intervenientes. Contudo, esta co-construção de discurso, ou cooperação comunicativa como também é designada, não deve ser de forma alguma interpretada como sinónimo de colaboração, pois não implica a ausência de conflito. Por outras palavras, dois ou mais indivíduos estão a cooperar comunicativamente mesmo quando estão num contexto de discussão (Capucho, 2003).
O sentido que os interlocutores atribuem à informação que recebem depende da sua visão da realidade, por outras palavras, o sentido é resultado da interpretação do interlocutor do que é dito pelo locutor. Existe assim uma responsabilidade partilhada dos intervenientes no processo comunicativo, pois o locutor (emissor) tem que transmitir a mensagem da forma mais clara e adequada possível para que o interlocutor (recetor) a perceba corretamente.
34 Vamos Comunicar?
Assim surge o conceito de metacomunicação, ou seja, quando um emissor está a comunicar não está apenas a transmitir uma mensagem, mas também indica ao recetor a forma como este deverá entender a mensagem transmitida, por outras palavras, consiste na comunicação sobre comunicação (Watzlawick, 2011).
2.2.1.2.2. Perspetiva de Goffman: Encenação Quotidiana e Papéis dos Intervenientes Como a vida em sociedade é formada por interações sociais, os papéis na sociedade são definidos por essas relações, traduzindo-se a comunicação em todas as expressões transmitidas pelos diversos indivíduos. Assim, todos os indivíduos/autores têm a capacidade de influenciar os outros. Um indivíduo perante outros representa uma determinada imagem de si próprio, que pode ser verdadeira ou falsa, mas que é a que quer que os outros tomem como sendo a realidade, isto é, existe uma constante encenação (Goffman, 2002).
Nas palavras de Goffman (2002, p. 77), a face é entendida como “o valor social positivo que uma pessoa efetivamente reclama para si mesma através daquilo que os outros presumem ser a linha por ela tomada durante um contato específico.” Portanto, um indivíduo perante outro tem que manter uma imagem de si positiva, isso é, tem que ser simpático, educado, solidário e cortês para com os outros. A face/ imagem que o indivíduo acaba por conquistar não depende apenas da sua representação, mas também da interpretação dos restantes indivíduos envolvidos na interação social. Ao representar o indivíduo deve não apenas construir e manter a sua face/imagem desejada, como também deve tentar respeitar a construção das faces dos outros indivíduos que o rodeiam.
Será importante referir a importância dos elogios nas relações sociais. Esta técnica pode ser interpretada como forma de manipulação do outro, mas, independentemente desse raciocínio, é inquestionável a relevância que estes assumem quando se está a lidar com os outros. Assim, uma crítica precedida por um elogio muda a predisposição de quem recebe a crítica e atenua sentimentos negativos no outro, o que funciona como um estímulo positivo que deve ser usado, principalmente quando a informação que pretendem transmitir é negativa e pode provocar reações adversas nos outros. Enfim, esta atitude permite aos indivíduos não só a manutenção da face desejada, como também evitar danos na face do outro (Goffman, 2002), como será abordado seguidamente.
Vamos Comunicar? 35 2.2.1.2.3. Face Threatening Acts e Face Flattering Acts
Surge então a distinção entre o que se designa de face positiva de face negativa. A primeira relaciona-se com a necessidade do indivíduo de se sentir aceite e aprovado pelos outros, enquanto a segunda vai ao encontro do desejo de autoafirmação, liberdade de atuação e independência (Preti, 2008). Por outras palavras, a fase positiva está relacionada com imagem do indivíduo, enquanto a face negativa se refere ao território (físico ou psicológico) desse mesmo indivíduo.
Perante outros indivíduos existe uma necessidade de preservar a face/imagem até então criada, sendo que esta é extremamente vulnerável. Assim, numa interação, os indivíduos estão perante ameaças constantes, passando a solução a ser uma negociação contínua da imagem. As ameaças podem ser suavizadas de diversas formas, nomeadamente com uma certa cortesia e polidez no discurso (Kerbrat- Orecchioni, 2006; Preti, 2008).
É neste sentido que surgem os FTA´s (Face Threatening Acts) de Brown e Levinson (1987) e FFA´s (Face Flattering Acts) de Kerbrat-Orecchioni (2006). Pode ainda acontecer uma mistura dos dois casos, como por exemplo no caso de um elogio, pode-se interpretar como sendo um ato de inveja, pois quem emite um elogio está a cobiçar a coisa alheia (face negativa), mas ao mesmo tempo manifesta cortesia e simpatia (face positiva), sendo geralmente este o sentimento que prevalece (Kerbrat- Orecchioni, 2006; Preti, 2008). Contudo, nem sempre uma atitude de cortesia é expressa com a intenção de simpatia e bom grado, basta observar quando um indivíduo emite um elogio com ironia – o típico “obrigada por nada” tantas vezes utilizado nas relações perante um conflito (Kerbrat- Orecchioni, 2006; Preti, 2008). É de notar que um FFA tanto pode ser direcionado à face positiva dum indivíduo como à sua face negativa.
Um FTA pode ser também uma ameaça à face negativa ou à face positiva para o destinatário. Quando o emissor pressiona o destinatário numa determinada direção, isto é, invade o seu território, estamos perante uma ameaça à face negativa. Por outro lado, quando o emissor não se preocupa com sentimentos e desejos, ou seja, danifica a imagem do outro, está a emitir uma ameaça à face positiva desse indivíduo. Todavia, um FTA pode também representar uma ameaça à face positiva ou negativa do emissor (Brown & Levinson, 1987; Kerbrat- Orecchioni, 1992).
Quando um indivíduo pretende realizar um FTA deve anteceder com um FFA, de forma a mudar a predisposição do recetor, isto é, se antes de uma ameaça à face positiva ou negativa for expresso um elogio à face positiva ou negativa, o recetor estará mais disposto a aceitar o FTA. Por outras palavras, deve-se tentar reduzir as ameaças que possam
36 Vamos Comunicar?
eventualmente surgir com a manifestação dum FTA. Tomemos como exemplo um gestor que pretende dizer ao colaborador que etiquetou mal um conjunto de encomendas. Assim, se o gestor começar por afirmar que o colaborador tem demonstrado um bom empenhamento e dedicação, mas que, no entanto, no dia anterior se enganou e trocou umas etiquetas nas encomendas que lhe foram atribuídas, o colaborador aceitará mais facilmente a crítica.
Concluindo, num diálogo harmonioso a emissão de um FFA leva a que a resposta seja igualmente um FFA. Por outro lado, quando um indivíduo emite um FFA em relação a outro e este responde com um FTA, ambas as partes entram em conflito.