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Representações dos professores sobre o surdo e a surdez no curso de capacitação do AEE
O estudo foi realizado com dez professores formadores do curso de Atendimento Educacional Especializado, da Universidade Federal de Santa Maria. Essa pesquisa caracteriza-se como qualitativa, na qual procura-se analisar os discursos para compreender as representações dos professores formadores do Atendimento Educacional Especializado.
A análise crítica e reflexiva foi realizada tendo como material de estudo os fragmentos das entrevistas realizadas com os professores formadores sobre a representação/ entendimento que eles possuem sobre o surdo e a surdez. Tendo em vista os aspectos observados nas representações elaborados pelos professores, foram analisados sob diferentes aspectos: sociais, culturais e políticos.
A seguir, destacamos alguns fragmentos que foram analisados, pois apresentam as representações das professoras.
A surdez vem sendo narrada no campo educacional como uma diferença linguística e cultural e os surdos como sujeitos de uma experiência visual. Convencionamos chamar esse cenário como “visão sócio-antropológica da surdez”. Nele, o surdo é entendido como sujeito de uma cultura que possui no seu cerne a Língua de Sinais. A educação de surdos desejada é aquela que contempla todos os elementos que estão colados a essa noção de surdez. Posso afirmar que me filio a essa forma de significação da surdez a partir de traços identitários sem, no entanto, perder de vista que foram diversas as produções discursivas que trouxeram os surdos e a surdez a ocupar este local simbólico. Apontar unicamente a base antropológica e cultural na constituição da surdez seria negar que também compõe a diferença surda discursos clínicos, linguísticos, religiosos, jurídicos. Resumindo entendo que a surdez, a ausência da audição, pode ser considerada como condição primeira para a emergência de sujeitos culturais surdos, mas tento sempre não perder de vista que toma a surdez por esse viés também não é algo natural. Destaco que esta forma como procuro abordar a surdez nas formações que ministro. Isso não significa que ignore e deixe de
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abordar também a surdez a partir de outros padrões: os da deficiência, dos não usuários da língua de sinais, os dos sujeitos que buscam a reabilitação. Há múltiplas formas de constituir-se surdo e isso precisa ser abordado, além disso a própria estrutura oferecida para os surdos, sobretudo nos âmbitos da família ou da educação, certamente trazem um delineamento diferente na constituição do surdo (Professor A).
O professor A destaca a importância das concepções que permeiam a educação de surdos. Além disso, afirma a sua corrente teórica e destaca a importância do conhecimento das outras perspectivas que compõem a educação de surdos e fazem parte da formação, pois precisamos ter acesso a elas para poder refletir criticamente e assumir um posicionamento metodológico.
Dessa forma, os estudos culturais não possuem um recorte. É um campo amplo, passível de críticas, que Alfredo Veiga- Neto denomina como hipercrítica (VEIGA-NETO, 2000). O surdo é compreendido através da cultura, do social, do antropológico, de uma concepção que é problematizada, a qual se compreende no seu processo formador, mas que comporta um olhar crítico investigativo.
Ao buscar descrever meu entendimento sobre o surdo, julgo necessário enfatizar que não o compreendo na visão clínica, que adere ao conceito de surdez na condição de deficiência, passando a concebê-la sempre a partir dos referenciais ouvintes. Assim sendo, compreendo o surdo pela ótica da concepção sócio-antropológica, ou seja, a partir da diferença cultural e linguística. (Professor B)
O professor B, em seu discurso, deixa clara a sua opção metodológica pelo modelo sócio-antropológico, desconsiderando o método clínico-terapêutico como parte da educação de surdos. O docente afasta-se da perspectiva que parte do olhar ouvinte. A sua representação compreende o surdo e a surdez sob a ótica cultural e linguística. Portanto, no seu discurso, não produz em sua metodologia
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exclusões culturais e linguísticas (SKLIAR, 1999).
Penso que a partir da trajetória como formadora no curso de Atendimento Educacional Especializado – AEE da Universidade Federal de Santa Maria, conheci diferentes realidades nas mais diversas regiões do país. Percebo que no que se refere aos entendimentos sobre a surdez e sobre o sujeito surdo ainda há muito que avançar, pois muitos educadores ainda entendem a surdez como uma incapacidade cognitiva e não reconhecem a língua de sinais como língua materna dos estudantes surdos, e neste sentido a maioria dos educadores desconhecem tal língua. Em alguns estados e municípios, em especial no sudeste e sul do país há clareza sobre a importância da educação bilíngue bem como a relevância do intérprete durante as aulas, no entanto, há grande dificuldade em encontrar profissionais capacitados ou que tenham o interesse em se especializar nesta área. A partir dos relatos dos professores participantes do curso de AEE pude perceber que escolas inclusivas que investem em núcleos de surdez conseguem promove aprendizagens de maneira mais efetiva. Estas escolas são escolas comuns que atendem a comunidade em geral, e todos os surdos da região são orientados a se matricular nesta escola. Assim há investimentos de intérpretes, AEE adequado e por mais que a escola seja em sua maioria ouvinte, possibilita a constituição de comunidades surdas entre os estudantes e professores surdos. Como professora atuante em sala de recursos e também no curso de AEE, penso que o processo inclusivo ainda está consolidando práticas e rompendo concepções sobre a temática, no entanto, é necessário que as instituições assumam a inclusão como uma forma de conceber a educação. Não podemos banalizar a inclusão dos sujeitos surdos, é preciso que a escola seja capaz de garantir a educação bilíngue e a aprendizagem de conteúdos escolares. (Professor C).
A entrevistada C reflete sobre a sua atuação no curso e destaca a prática da formação em diferentes realidades, nas regiões do país nas quais o curso é ofertado. Foge inicialmente ao objetivo da pesquisa e analisa as concepções que encontra no curso de atendimento educacional especializado, refletindo sobre o enfoque da inclusão de
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alunos surdos em escolas regulares. Destaca a falta de profissionais intérpretes para atuar na área, a fim de possibilitar uma educação bilíngue para os alunos surdos. Cita como exemplo, diante dessa preocupação, o que está ocorrendo em alguns locais do país, nos quais os surdos procuram se matricular na mesma escola, favorecendo o encontro com pares para que utilizem a língua natural, a língua brasileira de sinais, pois, conforme a entrevistada, nem todos sabem a língua ou há profissionais intérpretes atuando de forma efetiva. Seria esta uma possibilidade para a inclusão de alunos surdos em escolas regulares: os surdos de uma comunidade se matricularem na mesma escola? Em seu discurso, a entrevistada deixa clara a sua opção pelo método sócio-antropológico, pois considera a educação de surdos através da língua de sinais e do encontro dos surdos.
Desse modo, a língua de sinais não é somente a forma de comunicação dos surdos, é a sua expressão identitária e cultural. Podemos refletir que, quando a língua de sinais não é utilizada nas escolas que realizam o Atendimento Educacional Especializado, volta- se a atuar no modelo de pensamento clínico-terapêutico, em que o surdo está imerso na cultua ouvinte.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A difusão do Atendimento Educacional Especializado em diversas regiões do Brasil colabora para a qualificação dessa oferta, de forma a proporcionar uma educação de surdos de qualidade. Diante disso, a presente pesquisa buscou refletir sobre se os professores formadores do Atendimento Educacional Especializado possuem um entendimento acerca do surdo e da surdez e compreender de que forma essas concepções estão sendo difundidas no curso sobre as imagens da alteridade surda.
O Atendimento Educacional Especializado disponibiliza recursos para a educação de alunos com necessidades educacionais
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especiais no ensino regular, instigando a construção do conhecimento. Desse modo, esse Atendimento deve ser articulado com o ensino regular, através de estratégias que favoreçam o desenvolvimento dos alunos surdos, ampliando as oportunidades de aprendizagem. Dentro dessa ótica, a educação de surdos se insere sob a perspectiva da sua história, cultura, identitária e social. Os alunos surdos têm assegurado os seus direitos de um ensino que abarque as suas peculiaridades educativas, favorecendo a aprendizagem através da experiência visual.
Em virtude do que foi mencionado, uma proposta educativa que contemple a educação de surdos de forma significativa precisa de profissionais qualificados e que considerem a alteridade surda e suas especificidades educativas. Nas análises realizadas, observou-se que os professores pesquisados utilizam-se da abordagem fundamentada no modelo de pensamento sócio-antropológico, que leva em consideração todos os aspectos que permeiam a educação de surdos.
Os formadores que compõem o quadro de professores do curso de Atendimento Educacional Especializado possuem a compreensão da surdez e do surdo, ou seja, em suas metodologias essas concepções se encontram presentes.
O Atendimento Educacional Especializado ofertado para diferentes regiões do país compreende a alteridade surda como base para a educação de surdos. Assim, os profissionais têm acesso a uma formação que comtempla as especificidades da educação de surdos e que considera as necessidades linguísticas. Um exemplo citado nas entrevistas, que pode ser percebido como uma alternativa, vem ocorrendo em alguns locais em que ocorre o Atendimento Educacional Especializado: a matrícula de todos os alunos surdos de uma comunidade na mesma escola, para que possam aprender a partir da experiência visual produzida por meio da língua de sinais, através da qual expressam a cultura e formam elos identitários.
Percebe-se, desta forma, uma alternativa para a inclusão de alunos surdos em escolas regulares: o incentivo à utilização da Língua
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Brasileira de Sinais, seu uso e difusão para a comunidade escolar. Esses docentes que participaram da pesquisa colaboram para a formação de profissionais que irão atuar em diversas regiões do Brasil, formando uma rede de contribuições para a educação de surdos.
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