Questions de méthode
4. La réforme impossible?
René Girard (2008), a partir de uma tentativa de antropologia geral, buscou captar, de forma totalizadora e unitária, a dimensão humana, a partir de uma hipótese que considera os comportamentos de apropriação mimética, responsáveis pela geração de uma violência, intrínseca à própria sociedade, que necessita ser externalizada e exorcizada por meio de sacrifícios. Nesse contexto é que o sacrifício passa a ser o processo de apaziguamento capaz de impedir a explosão recorrente de conflitos entre rivais. É nesse contexto que Girard oferece o conceito de boa vítima, ou vítima propiciadora.
Nas sociedades consideradas primitivas, aquelas em que não há a presença de um poder judiciário, cabe às interdições desempenharem esse papel, incluindo então os sacrifícios e rituais necessários. O que torna a hipótese de Girard (2008) especialmente interessante para a presente tese é a mola propulsora da violência, identificada por Girard como sendo o desejo: a violência, para Girard, está em todos: mesmo para exterminá-la, ela é necessária, criando-se um ciclo da violência.
Girard traz para discussão algo fundamental na sua visão de violência, a sua racionalidade. Para o antropólogo, a violência encontra as razões para irromper a despeito de elas serem boas ou não e, ao cabo, sequer devem ser levadas a sério, uma vez que “a violência não saciada procura e sempre acaba por encontrar uma vítima alternativa” (GIRARD, 2008, p. 13). Essa vítima alternativa pode ser humana ou animais, mas mesmo os animais escolhidos, possuem “algo de humano”.
Girard explica seu posicionamento diante da hipótese do sacrifício como substituição. Para o autor, deve-se suprir a diferença moral entre inocente e culpado, “pois não há nada a ser ‘expiado’. A sociedade procura desviar para uma vítima relativamente indiferente, uma vítima ‘sacrificável’, uma violência que talvez golpeasse seus próprios membros, que ela pretende proteger a qualquer custo.” (GIRARD, 2008, p. 14).
A ideia de Girard é que a violência é incontornável e que só é possível ludibriá-la oferecendo uma válvula de escape. É interessante que, para justificar sua
tese, Girard recorra para a história de Caim e Abel. Essa história de competição começa com a gestação de Eva, a primeira mulher – nascida da costela de Adão – a conceber um filho. Ao filho mais velho dá o nome de Caim; ao mais novo, Abel. Abel tornou-se pastor de ovelhas e Caim cultivava o solo. Em oferendas a Deus, Abel ofereceu as primícias e gorduras de seu rebanho, enquanto Caim ofereceu produtos do solo. Iahweh, porém, agradou-se apenas com a oferenda de Abel, gerando um sentimento combativo e invejoso em Caim: “Entretanto Caim disse a seu irmão Abel: ‘Saiamos’. E, como estavam no campo, Caim se lançou sobre seu irmão Abel e o matou” (Gn: 4, 8-9).
Girard (2008) acrescenta algo muito interessante como leitura da narrativa bíblica: Caim oferece Terra e Abel oferece um sacrifício animal e Caim precisa matá- lo para dispor do sacrifício e da violência que o cultivo da terra não pode lhe oferecer. Essa tópica do irmão inimigo não é isolada, uma vez que recorrente, seja nos mitos gregos, seja no Antigo Testamento. A violência entre irmãos só pode ser dissipada quando entra em jogo uma vítima terceira. Girard ainda relembra o icônico sacrifício de Isaac, substituído por um carneiro no último instante que precedia sua morte, bem como os gêmeos Esaú e Jacó.
Desde a barriga da mãe, os gêmeos lutavam. Assustada, Rebeca – a mãe – indagou a Iahweh, que lhe respondeu: “Há duas nações em teu seio, / Dois povos saídos de ti separarão, /Um povo dominará um povo. /O mais velho servirá ao mais novo.” (Gn: 2, 23-24). Esaú, o primogênito, era aquele que receberia as bênçãos do patriarca Isaac quando este estava próximo da morte; Jacó porém, tendo ouvido que o pai desejava uma refeição e, aproveitando-se da cegueira de Isaac, resolveu ludibriá-lo para conseguir, antes do irmão, sua benção. Auxiliado pela mãe, Jacó prepara uma refeição com dois carneiros, dos quais também usa a pele e os pelos para se cobrir e se fazer passar pelo irmão, que tinha as mãos cobertas de pelo. Jacó engana o pai que, tateando, pensa estar recebendo a comida de Esaú e o abençoa. Jacó recebe primeiro as bênçãos, fazendo com que Esaú jurasse-lhe vingança. Girard associa a história bíblica com a Odisseia:
O personagem Jacó é frequentemente associado à manipulação ardilosa da violência sacrificial. Ulisses desempenha por vezes um papel bastante semelhante no universo grego. É interessante comparar a benção de Jacó no Gênesis com a história do Ciclope na Odisséia, principalmente no que diz respeito ao ardil maravilhoso que
finalmente permite que o herói escape ao monstro. (...) Nos dois casos, no momento crucial o animal é interposto entre a violência e o ser humano por ela visado. (GIRARD, 2008, p. 17)
Essa manipulação do sacrifício não escolhe suas vítimas de maneira aleatória: é necessário que a vítima a ser sacrificada tenha o forte caráter de semelhança – sem que, no entanto, seja confundido – e que não gere socialmente o sentimento de vingança, por isso a escolha constante dos marginalizados socialmente, como escravos, mulheres, crianças e adolescentes. É justamente por isso, também, que mulheres tendem a ser menos sacrificadas, visto que é recorrente que estejam em um relacionamento, o que faria com que o cônjuge buscasse a vingança, enquanto o sacrifício deve ser uma violência sem riscos: “a mulher casada mantém vínculos com seu grupo de parentesco, mesmo ao tornar-se, em um certo sentido, propriedade do marido ou de seu grupo” (GIRARD, 2008, p. 25). A reflexão de Girard sobre a vingança é extensa e traz à tona elementos importantes, como a importância do Poder Judiciário para que impeça que a vingança seja um ato considerado como forma de justiça. Além disso, o autor pondera como a vingança, enquanto ação, é capaz de ganhar conotação positiva ou negativa a depender do momento em que foi praticada e de que lado da história está quem atribui o juízo de valor. É nesse contexto que o sacrifício exige vítimas que não sejam suscetíveis de serem vingadas
O sacrifício oferece ao apetite de violência, que a vontade ascética não consegue saciar, um alívio sem dúvida momentâneo, mas indefinidamente renovável, cuja eficácia é tão sobejamente reconhecida que não podemos deixar de levá-la em conta. O sacrifício impede o desenvolvimento dos germens de violência, auxiliando os homens no controle da vingança. (GIRARD, 2008, p. 31)
Essa função do sacrifício como incapacitante do sentimento de vingança é primordial, especialmente em sociedades primitivas que não reconhecem um terceiro poder, como o Judiciário. Vale destacar que Girard não reconhece as sociedades primitivas como mais ou menos violentas, mas a violência é que se localiza em lugares diferentes.
É a partir desse momento da argumentação, que Girard apresenta a hipótese que dá nome ao seu livro: a violência e o sagrado. Para o autor, o sacrifício é uma forma preventiva da violência e carece do domínio religioso para dar o
aparato necessário. A própria possibilidade de deslocar o sacrifício de um objeto para o outro seria da ordem da religião: “o religioso primitivo domestica a violência, regulando-a, ordenando-a e canalizando-a para utilizá-la contra qualquer forma de violência propriamente intolerável, em um ambiente geral de violência e apaziguamento” (GIRARD, 2008, p. 33). Assim, a passagem do sacrifício preventivo para o judiciário resultaria no que Girard entende como passagem do “preventivo para o curativo”, na qual ele enxerga uma clara evolução da eficácia.
Girard também reconhece a materialidade da noção de impureza e a possibilidade do contágio por meio do contato, que deve ser ao máximo evitado. Assim, em certa medida, o sacrifício seria uma forma de impedir a propagação desordenada da violência, mas também de impedir um contágio: “Mesmo que esta verdade, de forma alguma obsoleta, tenha se tornado dificilmente visível, ao menos em nossa vida cotidiana, todos sabem que o espetáculo da violência tem algo de “contagioso” (GIRARD, 2008, p. 45). Mais que isso, a violência é irredutível e “sempre chega um momento no qual só é possível opor-se à violência com uma outra violência” (GIRARD, 2008, p. 45). A argumentação girardiana passa por elementos que nos são caros nesta análise, como a questão do sangue impuro da menstruação. Nesse momento, Girard não desenvolve, mas prenuncia que o sangue impuro da menstruação se apresenta como uma forma de ligação – que o autor considera óbvia – entre violência e sexualidade, ademais, identifica nessa associação tão direta entre a menstruação e a impureza o movimento de transferência da violência para o campo do feminino.
Acontece que Ana é sacrificada e pode ser vista como substituto sagrado para imolação, já que um homem não poderia sofrer tal punição nesse sistema. Ana é morta com um só golpe pelo pai. Ora, Ana já aparecera dançando em outro momento do livro, em cena praticamente idêntica e o elemento que difere explicitamente a Ana de antes com a do sacrifício foram os badulaques trazidos por André, símbolos da vida promíscua que ele levara. A sexualidade que está transmitida pela dança de Ana não pertence a ela, mas a André.