1. Revue de littérature
1.3. La qualité de gestion en tant que facteur
A partir dos dados obtidos nesta pesquisa pode-se concluir que os estudantes de cursos pré-vestibulares, de modo geral, não possuem hábitos regulares de estudos e que aparentemente dedicam menos tempo que o satisfatório à prática do estudo deliberado. O tempo declarado de estudo parece ser insuficiente, no próprio ponto de vista dos estudantes e também em relação à literatura sobre aprofundamento de estudos e expertise.
A expressão estudo deliberado é utilizada para caracterizar a atividade em que o estudante controla e toma a iniciativa sobre seu próprio processo de estudo com o intuito de aprimorar seu conhecimento, conforme afirmam Ericsson e seus colaboradores (1993), podendo também ser dirigida à obtenção de alguma habilidade relacionada à quantidade e qualidade de um produto final (Pear, 1927). De modo geral, o estudo deliberado leva em conta a organização passo a passo de uma habilidade que o estudante pretenda adquirir ou aprimorar. Sendo assim, o tempo de dedicação ao estudo individual torna-se um fator preponderante para a obtenção da expertise (Simon e Chase, 1973). Corroborando com essa concepção, Fitts e Posner (1973) consideram que quanto maior for o tempo dedicado ao estudo individual, melhores serão os resultados acadêmicos obtidos
Deve-se lembrar, no entanto, que os participantes da pesquisa são estudantes de cursos pré-vestibulares, ou seja, pessoas que se preparam para o ingresso no mundo universitário e que, provavelmente, apenas após a aprovação irão preocupar-se com a aquisição de expertise na área de atuação escolhida.
Como foi visto no Capítulo de Resultados, apenas 18,3% dos participantes afirmaram estudar mais de quatro horas diárias além do período que passam regularmente em sala de aula. No entanto, os próprios alunos investigados parecem ter consciência de que o tempo dedicado aos estudos fora da sala de aula é pouco, já que 40,8% deles consideram que o tempo ideal de estudo deliberado vai além das quatro horas diárias.
Recorrendo-se aos trabalhos de pesquisadores sobre o estudo deliberado (Ericsson e cols., 1993; Galvão, 2000), percebe-se que o tempo destinado ao estudo deliberado com a
intenção de aprimorar habilidades e conhecimentos deve ser acima de seis horas diárias. Desse modo, fico evidenciado que os alunos investigados não fazem o investimento temporal necessário para tornarem-se experts em alguma das disciplinas estudadas.
Além disso, pesquisas de caráter longitudinal em diversas áreas do conhecimento, como, por exemplo, Gustin (1985), Monsaas (1985) e Lehman (1953), Sosniak (1985 e 1990), demonstram que em geral são necessários pelos menos dez anos de estudo individual deliberado para que alguém atinja um nível de expertise. Levando-se em consideração que um aluno de curso pré-vestibular tem como objetivo imediato ser aprovado no concurso e que as provas das universidades mais concorridas ou do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) costumam ocorrer no intervalo de seis meses a um ano, percebe-se que não há possibilidade, de acordo com os teóricos estudados, de um aluno que tenha como objetivo maior passar no vestibular desenvolva alguma expertise, tanto por causa do pouco tempo diário dedicado aos estudos, quanto pela impossibilidade de dedicar-se a esse tipo específico de estudo por anos a fio.
É importante salientar também que quantidade é apenas uma dimensão dentro de um sistema de complexidade bem maior, que é o processo de aprendizagem humana. Assim, como afirma Galvão (2001) uma aprendizagem eficiente é consequência de diversas interações. Outros pesquisadores, como Simon e Chase (1973) demonstram que além do tempo dedicado aos estudos, a aquisição de hábitos regulares também contribui para o desenvolvimento de habilidades específicas. Entre esses hábitos regulares pode-se incluir leitura, atenção às aulas e adoção de estratégias variadas de estudo.
Foi constatado também nesta pesquisa que 57,1% dos alunos investigados não possuem um dia fixo de estudo individual fora da sala de aula regular, havendo uma tendência a não utilizar o domingo como dia de estudo, com um baixo percentual, apenas 8,8% dos respondentes, afirmando estudar todos os dias da semana. Mesmo assim, os dados obtidos apontam para a existência de uma rotina de estudo entre os candidatos a uma vaga na Universidade, com 83,2% dos respondentes afirmando que mantêm uma rotina de estudo, seja ela no mesmo horário ou em horários diferentes, com uma predominância de mais de um terço dos alunos estudando de forma fracionada, conforme aconselham diversos teóricos sobre o assunto (Brian e Harter, 1989; Galvão, 2001; Pyle, 1913) e outros
autores que estudam a aprendizagem com o intuito específico de aprovação em concursos (Guido, 2008; Bastos e Keller 2007; González, 2009; Morgado 2003).
Essa tendência ao estudo fracionado está em consonância com as ideias de Hull (1943) ao declarar que a reação de inibição trabalha no sentido inverso à potencialidade de reação de resposta em períodos extensos de atividade sem descanso. Na mesma linha de pensamento, Adams (1987) comenta que esta reação inibidora pode ser dissipada em função do intervalo de tempo entre as respostas. Dessa forma, intervalos longos de descanso após períodos de estudos concentrados podem ocasionar maior reminiscência, por diminuir a reação inibidora.
Importante notar que o contingente de alunos trabalhadores (aproximadamente 23% dos respondentes indicaram exercer atividade remunerada) encontrado na investigação não permitiu traçar um paralelo entre a atividade remunerada e a dedicação aos estudos individuais. Porém, independentemente das dificuldades encontradas, é importante que o aluno saiba adaptar os estudos ao cotidiano, ou seja, que saiba compatibilizar o tempo de estudo para a obtenção do sucesso na vida acadêmica (Ericsson e cols., 1993).
Mesmo com todas as limitações que possam advir de fatores externos aos estudos é sempre importante destacar que o desenvolvimento das habilidades cognitivas influencia a qualidade da aprendizagem (Entwistle, 1942). Os estudantes, então, deveriam ter consciência de como e quando estudar, no entanto, segundo pesquisas de Entwistle e Meyer (1981) as instituições escolares tomam para si a responsabilidade de organizar o tempo de aprendizagem dos alunos, determinando como e quando eles devem executar suas tarefas. Isso possivelmente terá reflexos no momento em que o estudante não mais dependerá da instituição de ensino como reguladora da disponibilidade temporal para a execução de tarefas e estudos deliberados. Em um curso pré-vestibular, assim como posteriormente na Universidade, o estudante precisa aprender a conviver com uma nova realidade educacional, na qual ele faz seu tempo e determina as estratégias de estudo mais adequadas para as situações que se apresentam.