Chapitre II : Techniques Expérimentales
III.2 Traitement par coagulation ـfloculation
(1989) que o vˆe como uma alternativa substantiva ao debate tradicional do realismo cient´ıfico64 − especialmente no que se refere ao argumento do milagre (ou do n˜ao-milagre)
e o da meta-indu¸c˜ao pessimista −, Ladyman acredita que duas quest˜oes devem ser consid- eradas: (1 ) O que ´e estrutura? e (2 ) Em que sentido o realismo estrutural ´e uma esp´ecie de realismo? No que segue, veremos o que Ladyman tem a dizer sobre estas duas quest˜oes.
(1 ) O que ´e estrutura?
Surpreendentemente, embora Ladyman lance a pergunta, ele n˜ao oferece uma resposta adequada a ela. Do seu artigo original de 1998, podemos apenas imaginar que o tipo de estrutura a qual ele se refere seja aquela entendida em uma teoria de conjuntos, j´a que La- dyman defende que o suporte adequado ao tipo de realismo que deseja sustentar ´e aquele oferecido pela abordagem semˆantica das teorias cient´ıficas (usualmente, mas n˜ao neces- sariamente, suportada por uma teoria de conjuntos). Todavia, nesse artigo, a quest˜ao permanece sem resposta expl´ıcita. J´a no artigo posteriormente publicado em parceria com French, os autores assumem − um tanto implicitamente − que a estrutura a qual se referem deve ser entendida em termos conjuntistas (French e Ladyman op. cit.).65
(2 ) Em que sentido o realismo estrutural ´e uma esp´ecie de realismo?
63Voltaremos a esse ponto na subse¸c˜ao 3.2.2.
64Segundo Ladyman, o artigo de Worrall ´e amb´ıguo no que se refere ao status do realismo estrutural. Embora a posi¸c˜ao epistemol´ogica pare¸ca prevalecer, Ladyman afirma que tamb´em h´a trechos que sug- eririam uma posi¸c˜ao ontol´ogica (ibid.). No entanto, a posi¸c˜ao geral de Worrall com respeito ao realismo estrutural parece mesmo ser epistemol´ogica (ver Votsis op. cit., cap. 2).
65Isso talvez possa ser justificado pelo fato de que os autores desejam adotar as no¸c˜oes de ‘estrutura parcial’ e ‘quase-verdade’, originalmente definidas em uma teoria de conjuntos. Voltaremos a discutir essas quest˜oes no cap´ıtulo 3.
Como aludimos acima, Ladyman acredita que o realismo estrutural n˜ao pode ser encar- ado como sendo uma abordagem estrutural ao realismo. Essa posi¸c˜ao seria, por exemplo, aquela forma de realismo estrutural encontrada nos trabalhos de Russell e Maxwell. Para Ladyman, essa posi¸c˜ao seria inadequada aos problemas para os quais ela foi destinada resolver (ibid.). Em particular, Ladyman diz que Psillos (1995), entre outros realistas, afirma que o realismo cient´ıfico tradicional j´a ´e uma esp´ecie de realismo estrutural − se esse for entendido da maneira acima referida − no seguinte sentido: o realismo cient´ıfico tradicional afirmaria que a ‘natureza’ de algo consiste em suas propriedades b´asicas, e as equa¸c˜oes expressam as leis `as quais elas obedecem. Assim, a natureza da massa, por ex- emplo, n˜ao ´e nada mais do que sua obediˆencia a algum conjunto de leis expressas atrav´es das equa¸c˜oes descritas estruturalmente. Qualquer tentativa de defesa da existˆencia de algo al´em das propriedades, segundo Psillos, nos remeteria `as discuss˜oes medievais sobre formas e substˆancias − que n˜ao seriam capazes de descri¸c˜ao estrutural −, discuss˜oes essas que teriam sido superadas pela revolu¸c˜ao cient´ıfica66, assim, a ‘natureza’ de algo seria
essencialmente estrutural. N˜ao havendo nada al´em da estrutura, o realismo estrutural epistemol´ogico colapsaria67 (Psillos op. cit.; Ladyman op. cit.; French e Ladyman op.
cit.).
Esse tipo de abordagem ao realismo estrutural (a abordagem epistemol´ogica) tamb´em sofreu uma forte obje¸c˜ao por parte de Newman (1928), como j´a tivemos a oportunidade de ver68, e que aqui lembramos resumidamente. A afirma¸c˜ao de que somente a estrutura
pode ser conhecida assume que o melhor que podemos estabelecer ´e um isomorfismo entre um modelo de nossa teoria e o mundo. Mas a existˆencia de um tal isomorfismo ´e suficiente somente para determinar a cardinalidade do conjunto de objetos no mundo, pois o modelo ´e conhecido apenas por descri¸c˜ao, e existe interpreta¸c˜oes alternativas que ser˜ao isomorfas se a cardinalidade for a mesma. Apenas as propriedades internas dos
66French e Ladyman negam esse fato. Os autores chamam a aten¸c˜ao, por exemplo, para o entendimento da natureza dos ´atomos em termos metaf´ısicos de ‘substˆancias’ ou, no caso principalmente dos f´ısicos, de localiza¸c˜ao espa¸co-temporal das part´ıculas, presentes nas discuss˜oes sobre o atomismo cient´ıfico (ibid.). Apesar da relevˆancia da quest˜ao, n˜ao a abordaremos nesta disserta¸c˜ao.
67O que Psillos vˆe como uma refuta¸c˜ao do realismo estrutural epistemol´ogico, French e Ladyman vˆeem como um suporte para sua defesa de um realismo estrutural ontol´ogico, como veremos abaixo.
modelos nos permitem distinguir as interpreta¸c˜oes rivais, mas essas s˜ao inacess´ıveis ao realista estrutural (Ladyman op. cit.).
Finalizando suas cr´ıticas `a vers˜ao epistemol´ogica do realismo estrutural, Ladyman in- voca a quest˜ao da descontinuidade ontol´ogica ocorrida nas mudan¸cas de teorias, o que ´e a base argumentativa da meta-indu¸c˜ao pessimista. Se o problema da descontinuidade atrav´es da mudan¸ca de teorias ´e ontol´ogico, e se Worrall levanta o realismo estrutural como uma resposta ao argumento anti-realista da meta-indu¸c˜ao pessimista, ent˜ao o re- alismo estrutural n˜ao pode ser apenas epistemol´ogico (ibid.). Segundo Ladyman, como podemos resolver esse problema ontol´ogico com modifica¸c˜oes puramente epistemol´ogicas? ´
E devido a essas quest˜oes que Ladyman sustenta que o realismo estrutural n˜ao pode ser visto como uma abordagem estrutural ao realismo. Ao inv´es disso, devemos assumir que ele ´e uma tese metaf´ısica substantiva, um realismo sobre estruturas, que afirma que a estrutura ´e tudo o que existe (ibid.).