3. Proposition d’une méthode d’évaluation
3.3. Contenu de la grille
3.3.3. La phase de transport
Os PCNEM/99, no intuito de implantar o trabalho pedagógico por área introduziram o conceito de interdisciplinaridade, o qual procuraremos adequar à proposição da tese que apresentamos.
Compreender a investigação das diversas disciplinas do currículo em suas ramificações supõe a atividade interpretativa dos processos significativos que ocorrem na natureza e na cultura. Procurando o elemento de coesão entre as diferentes instâncias que se projetam na esfera de nosso objeto de pesquisa, encontramos nos PCNEM o pensamento de alguns teóricos e psicólogos do conhecimento e da aprendizagem a respeito da história das disciplinas escolares. Um deles foi o estudo desenvolvido por Chervel104 na França.
O autor concluiu que a “transitoriedade disciplinar” é marca da fragilidade epistemológica da demarcação rígida das disciplinas nos planos escolares, argumentando como solução, em favor de certa solidariedade didática. Outro grande nome da pedagogia moderna foi Piaget105, para quem a ação de ultrapassar as fronteiras do observável e não apenas descrevê-lo constitui a “busca da causalidade”, irredutível à simples constatação, marca dos procedimentos consolidados na pedagogia tradicional. Na concepção piagetiana, as estruturas subjacentes do pensamento possibilitam a integração entre as disciplinas; portanto, buscar as causas e relações entre fenômenos, por análise e dedução, requer, sem dúvida, atividade operatória superior e mais complexa que as atividades de observação e reconhecimento.
Não é difícil constatar na prática pedagógica conservadora atividades apenas de reconhecimento e localização, conforme já relatamos em nossa dissertação de mestrado, ao
104 ver PCNEM (BRASIL, 1999, p. 90). 105 ver PCNEM (BRASIL, 1999, p. 89).
tratar do encaminhamento das atividades de interpretação de textos poéticos e polissêmicos nos manuais didáticos. A prática tradicional de memorização ou decodificação resumiu a semiose apenas à interpretação linear, que diverge da atitude semiótica, investigativa e relacional, por excelência, congregando linguagens e discursos, nuances do sentido estabelecidas em diferentes níveis, não apenas no superficial ou semântico, de decodificação, mas também considerando aspectos da compreensão profunda, da interdisciplinaridade da rede de conhecimentos acumulados e tecidos ao longo do tempo.
Por este prisma, não só a contextualização sócio-cultural proposta nos PCNEM/99 como também os estudos psicológicos, que adotaram o princípio da motivação como fator propulsor da aprendizagem, além do esforço de integração das ciências, garantiriam, em tese, a compreensão dos conteúdos do currículo enquanto movimento de inserção na realidade. Tal inter-relação possibilita intervenção e criação de propostas mais sintonizadas com a vida atual, prática na qual os modelos mentais devem operar, pois, com a representação entre um elemento primeiro e um segundo; entre a primeiridade e a secundidade, construindo redes. Cognição e semiótica, nesta acepção, são chamadas a integrar elementos para um novo paradigma da interpretação do sentido.
Pesquisando os modelos educacionais e a decorrência de suas formulações, verificamos como marca da pedagogia do século XX o estudo piagetiano do desenvolvimento cognitivo. Dando prosseguimento à teorização cognitiva, Vigotsky estabeleceu o sócio- interacionismo como modelo psico-pedagógico que possibilita algumas interdependências na aprendizagem dos conteúdos curriculares. Segundo ele, a aprendizagem é um movimento de antecipação da extensão da capacidade intelectual. E, como decorrência dessa extensão, o conceito de interdisciplinaridade vem formulado no projeto de reforma que deu origem aos PCN na seguinte perspectiva:
A interdisciplinaridade deve ir além da mera justaposição de disciplinas e, ao mesmo tempo, evitar a diluição delas em generalidades. [...] integra as disciplinas a partir da compreensão das múltiplas causas ou fatores que intervêm sobre a realidade e trabalha todas as linguagens necessárias para a constituição de conhecimentos, comunicação e negociação de significados e registro sistemático de resultados.
[...] A interdisciplinaridade pode ser também compreendida se considerarmos a relação entre o pensamento e a linguagem, descoberta pelos estudos sócio-interacionistas do desenvolvimento da aprendizagem. Esses estudos revelam que, nas situações de aprendizagem espontânea, seja naquelas estruturadas ou escolares, há uma relação sempre presente entre os conceitos e as palavras( ou linguagens) que os expressam.
[...] Todas as linguagens trabalhadas pela escola, portanto, são, por natureza ‘interdisciplinares’ com as demais do currículo: é pela linguagem verbal visual, sonora, matemática, corporal ou outra – que os conteúdos curriculares se constituem em conhecimentos, isto é, significados que, ao serem formalizados por alguma linguagem, tornam-se conscientes de si mesmos e deliberados. (BRASIL, 1999, p. 90, 91).
Ainda considerando a perspectiva da reforma curricular do Ensino Médio, os PCNEM afirmam que a interdisciplinaridade se assenta sobre um caráter relacional por convergência, divergência ou complementaridade, estabelecendo interconexões e passagens entre os conhecimentos, na prática escolar, não só na transversalidade, mas na disposição mesma do currículo, tarefa que se coloca no presente para pesquisadores e estudiosos.
Lingüistas e antes deles, os semioticistas já haviam antecipado a concepção disposta nos PCNEM sobre bases interdisciplinares de aprendizagem. Segundo eles, a compreensão é resultado do processo interpretativo que supõe não só trabalho cognitivo, mas também processos perceptivos de associação dos sentidos. Desde o final da década de 60, em que Jakobson visitou o Brasil e foi traduzido, divulgando a teoria da comunicação e as funções da linguagem, a relação da lingüística com outras ciências foi evidenciada.
É coerente e produtivo resgatar modos de vida e concepções de época, articulando determinantes históricos e contextualizando fatos e inovações. Percebemos, assim, expressa na LDBEN e nos PCNEM a preocupação com a estratificação, fragmentação e disciplinarização dos conteúdos, porém, essa fragmentação que ocorreu devido ao tratamento que o currículo recebeu em sua forma de didatização mutilou o sentido. Lingüistas, teóricos
da literatura, semioticistas, filósofos da linguagem e muitos outros pensadores têm refletido sobre a compreensão do universo, da cultura e da linguagem que expressa esses fenômenos. Por esta razão, buscamos na fonte científica explicações e possíveis contribuições para os problemas de aprendizagem da literatura identificados nesta pesquisas.
A generalização de procedimentos bem como a automatização de particularidades dos estilos de época partem do estranhamento, na representação da realidade, intensificando a eficácia estética da língua, representamen material do objeto simbólico, signo da Literatura. Nesta perspectiva introduzimos a proposição intersemiótica como recorrência de topos, sentidos em rede estabelecidos a partir do diálogo entre linguagens106.
No código lingüístico que sustenta a Literatura, a essência da matéria sonora é o fonema, com existência material no grafema organizado em morfemas e lexemas constituintes da organização textual. Traduzindo, encontraríamos no código imagético global da arte ou da fotografia a imagem como essência da matéria visual e na figura, traço ou linha, a forma da matéria visual, no jogo do claro/escuro. Transcodificando para o sistema semiótico musical, teríamos como essência da matéria o som e como forma da matéria o ritmo, o estilo, o produto auditivo, que precisa, a título de análise, ser dividido, devido à sua complexidade.
Hjelmslev definiu em sua teoria semiológica, a semiótica conotativa e a estética glossemática107, concebendo signos mais complexos como o conotativo e o metassígnico. Barthes108 criou um diagrama do signo conotativo a partir do esquema básico hjelmsleviano. Outros teóricos deram continuidade à teoria das conotações, dividindo-a em conotadores estéticos simples e complexos. Mas a síntese importante é que o texto considerado obra de arte é um plano de expressão estético conotando um conteúdo complexo, pois além de estético, dá hospitalidade a múltiplos conhecimentos, conforme destacou Barthes na epígrafe inicial deste estudo.
106 sentido estreito com a concepção hjelmsleviana de semiótica enquanto linguagem. 107 A glossemática tomou como elemento o signo denotativo.