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La mise en œuvre et l’évolution des statuts

LIBERTAIRES DE GAUCHE

2. La mise en œuvre et l’évolution des statuts

E quando o livro digital pode ser melhor que o livro impresso em papel? Entre os títulos disponíveis nos dois meios, há um exemplo já citado anteriormente e que vale a pena ser destacado: The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, que no Brasil foi traduzido como Os Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo, na edição da Rocco Pequenos Leitores, de 2012. Esta história, na verdade, está disponível em três meios, o que faz dela um excelente item para comparação.

Como já dito, esta obra nasceu primeiro como um curta de animação, no qual não há palavra alguma, dita ou escrita: a narrativa é toda feita apenas através das imagens, de músicas e sons. Com 15 minutos de duração, o filme apresenta Morris Lessmore, um jovem que adora livros e que vive em um hotel a escrever o seu próprio livro. De repente, o vento começa a soprar com força e violência arrastando tudo à sua frente e, como em O Mágico de

Oz, uma das muitas referências usadas na construção desta obra, ele entra numa espécie de

furacão – outra referência também ao Katrina, que havia destruído o sul dos Estados Unidos em 2005, varrendo, por exemplo Nova Orleans. Tudo perde a cor. Ele cai em um mundo em preto e branco devastado, cheio de papéis e letras espalhados pelo chão, um mundo em que seu próprio livro perde as palavras, ficando em branco. Ele pega, então, um caminho até ver uma moça no céu, sendo carregada por livros voadores. Morris tenta fazer seu próprio livro voar, em vão. Então, é convidado por um dos livros que batem folhas como se fossem pássaros a segui-lo – este livro é uma homenagem a Humpty Dumpty, o ovo que surgiu em uma cantiga infantil vitoriana e que aparece em Alice Através do Espelho. Os dois chegam a uma casa onde apenas os livros moram e, ali, Morris passa sua vida a consertar os que estão danificados, ler todos eles (a única forma de eles se manterem vivos e ativos), dançar com eles, entrega-los para a população (que, assim, ganha cor) e a escrever as páginas em branco do seu próprio livro. Um dia, já velho e tendo colocado um ponto final à sua obra, Morris se despede. E, na festa de despedida dos livros, vira jovem novamente e sai voando como a

moça que ele viu no passado. Seu próprio livro, até então cinza, ganha cor e vida e retorna para morar com os demais, que estavam tristes com a partida. Até que uma menina aparece e tudo volta a ficar feliz.

Como nos livros-imagem, esta animação que mistura técnicas de stop-motion, animação computadorizada e desenho, ela não precisa de palavras para contar a história acima, um conto de amor aos livros de papel que, curiosamente, não começou em um deles, ou seja, no formato de livro impresso. As imagens do filme serviram de base para o aplicativo, que veio logo em seguida. Apesar das animações, o app oferece uma leitura mais demorada e, neste caso, ela pode ser do texto escrito ou do áudio do texto, já que também tem a possibilidade de ser narrado.

Nem todas as cenas do curta estão lá, pelo contrário, houve uma seleção dos principais momentos e, por cima deles, a aplicação de interatividade ou criação de telas que levam a propostas interativas, como quando o leitor ajuda o sr. Lessmore a consertar os livros com um quebra-cabeças...

Figura 34 – Lessmore trabalha na recuperação de um livro. Se o leitor tocar na obra, a tela muda para a segunda imagem. Então, como um quebra-cabeças, a criança deve ordenar os pedaços rasgados – não é pré-requisito para

passar para a próxima página. Curiosidade: a ilustração é do app Numberlys. Reprodução ...ou a formar palavras nos cereais de letras que ele serve aos livros.

Figura 35 – Sopa de letrinhas. A ilustração animada mostra Lessmore enchendo potes com letras de cereal. Quem nunca brincou de formar palavras com letrinhas? Aqui, o leitor também poderá, na tela que se abre com o

No momento em que ele está caminhando a esmo, por exemplo, é possível pintar o céu – no curta, o céu permanece cinza até que a mulher com livros voadores apareça.

Figura 36 – Um céu cinza pode ficar azul com o poder de um dedo. Reprodução

Seu próprio livro, que ele joga para cima na esperança de vê-lo voar, no aplicativo precisa ser atirado pelo comando do leitor. Não há dança com livros no app, em compensação, o usuário pode tocar a música que Humpty Dumpty dedilha no piano na animação.

Figura 37 – Qualquer um pode tocar. Humpty Dumpty toca uma canção na parte animada da história. É um convite para o leitor também dedilhar a música – só é preciso encostar a tecla que fica laranja. Reprodução

A história no aplicativo, reduzida, fica levemente diferente. No livro digital não existe, por exemplo, o drama de quase morte de um livro bastante envelhecido e danificado. Em compensação, o momento em que Lessmore empresta ou dá livros para a população é melhor explorado e o usuário pode, inclusive, arrastar obras como Frankenstein ou Alice no País das

Maravilhas em direção às pessoas para vê-las caracterizadas como personagens daquelas

histórias – o garoto vira o coelho, o homem o chapeleiro maluco e a mulher, a Rainha de Copas, num processo de transformação e fantasia que só o livro pode fazer.

Figura 38 – Personagens se transformam à medida que os livros são arrastados para eles. Na sequência, o menino vira coelho, a mulher, Rainha de Copas e o homem, Chapeleiro Maluco. Reprodução

Por fim, o livro impresso foi produzido no ano seguinte, também com imagens do curta, mas não exatamente as mesmas, pois o traço muda ligeiramente em algumas ilustrações e, em outras, o desenho é apresentado com outra técnica. Nem mesmo as cenas são exatamente iguais – algumas não estão nem no filme nem no aplicativo.

Apenas o texto permanece o mesmo do livro digital. Para a passagem do tempo, que no livro digital o cenário é trocado até quatro vezes à medida em que o leitor toca na tela e no curta aparece de forma mais espaçada, no livro impresso é mostrado em quatro páginas consecutivas, contudo, com imagens levemente diferentes, variando nos elementos menores. Além disso, no papel, por exemplo, o rejuvenescimento de Lessmore não é mostrado – ele apenas aparece jovem novamente – e na hora em que ele entrega livros à população, os personagens não são os mesmos, coincidindo apenas na animação e no aplicativo.

Observar tais nuances, suas diferenças, suas semelhanças torna a leitura ou visualização da história nos três formatos ainda mais interessante. Só quem tem acesso aos três entende perfeitamente a diferença na experiência de virar a página, apertar uma vez o play ou tocar com dedo para a história se desenrolar.

Figura 39 – Comparação de cenas: retirada do curta de animação. Reprodução

Figura 40 – Cena retirada do livro digital, muito semelhante à primeira. Reprodução

Um aplicativo como este não é um livro de papel, não é uma animação, mas contém elementos dos dois e consegue ser uma terceira coisa que, sim, pode ser chamada de livro digital. E, por vezes, até oferece uma experiência mais prazerosa que os outros meios – depende do tipo de leitor que se deseja ser naquele dia: o que constrói a história na cabeça ao apenas observar a sucessão de imagens animadas, o que interage e dá comandos para que a história seja contada ou lida com recursos suplementares ou o que só folheia as páginas e interage nas entrelinhas do livro, com a imaginação a pôr movimento nas imagens e no ritmo da história.

Pode-se dizer que The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, um tipo de totem para as alegrias incomparáveis da leitura, apareceu em duas diferentes adaptações na tela antes da transição para a impressão. Ganhador do Oscar no começo deste ano por melhor curta animado, depois de aparecer, no último verão, como um app de animação elogiado, a história de William Joyce sobre um nativo sulista solitário era uma proeza da imaginação digital, uma deslumbrante e requintada animação e um tributo sem palavras para uma era literária em declínio. Agora, feita finalmente como livro infantil, este conto ganha elegância, mas perde profundidade. A edição impressa de Morris Lessmore tem um ritmo elegante [...], mas que, de alguma forma, não tem a criatividade sonhadora de seus precursores animados. Por fim, o livro de Joyce nos conta algo que nós já suspeitamos: que contar histórias hoje em dia tem uma tela mais ampla que o consagrado espaço dentro das portas da biblioteca.97