Première Partie : Cadrage théorique, méthode et cas dřétudes
Chapitre 1 : Les stratégies démocratiques dans lřespace régional
B) Penser la participation en dehors de la gouvernabilité
1) La gouvernabilité : une hypothèse trop structurante
No Brasil, as mulheres demoraram a ser reconhecidas como autoras ou escritoras. O primeiro passo foi para serem leitoras. No dicionário de Antônio Moraes e Silva, em 1813, só existe a palavra escritor, singular e masculino, considerando autor de alguma obra escrita (BESSONE, 2005, p. 81).
A historiadora Tania Bessone ressalta, no trecho destacado acima, o tardio reconhecimento das mulheres como escritoras. Conforme abordado na seção anterior, às mulheres caberia, em um primeiro momento – e após certas reinvindicações – a leitura dos periódicos, mas não a colaboração e a escrita no mesmo. Entretanto, apesar dessa colocação, as mulheres começaram a escrever (TELLES, 2009).
A presente seção foi desenvolvida nesse sentido: entender a escrita das mulheres que compuseram parte dos artigos e elaboraram algumas séries de publicações ao longo dos anos em que a Marmota foi editada. De acordo com Monica Jinzenji, os escritos feitos por mulheres foram vistos durante um tempo como de menor qualidade, sendo reservados a uma escrita privada, a exemplo da troca de cartas. Porém, para além das epístolas, essas mulheres encontraram espaço na imprensa feminina, que vinha crescendo ao longo do século XIX (JINZENJI, 2012).
As escritoras foram se formando nesse movimento de leitoras, haja vista que o hábito da leitura resultaria em escritos posteriormente publicados. Beatriz Francisca de Assis Brandão27, mulher oitocentista que colaborou por muitos anos com a Marmota, destacou, em
uma de suas poesias publicadas no periódico, as leituras que fazia escondida dos pais:
Eu tinha conseguido a grande dita
De encontrar um Camões, e um Bernardes Que em um cesto jaziam esquecidos Entre velhos, e inúteis alfarrábios, Pude escondê-los, e em segredo os lia. Que ilustração! Que fonte de ciência! Li, reli, decorei, compus idílios!
(MARMOTA FLUMINENSE, 18 jan. 1853, p. 03).
Nesse trecho, Brandão afirmou suas leituras e sua posterior composição. O certo é que Beatriz Brandão não estava sozinha na jornada de ser uma mulher escritora oitocentista. Nesse aspecto, a leitura da Marmota nos possibilita conhecer e reconhecer outras sujeitas que compunham o conteúdo desse periódico e que utilizavam a escrita como divertimento, instrumento de objeção às concepções impostas socialmente ou como forma de sustento.
Os assuntos abordados por essas escritoras eram variados e ocupavam espaços distintos do periódico, conforme destacado em um trecho da seção anterior. Entretanto, raras vezes os escritos produzidos por mulheres se encontravam na primeira página do jornal. Afinal, era nessa primeira parte que estavam os artigos – segundo a concepção do redator – mais importantes e que atrairiam compradores.
Esses escritos eram desde poesias, passando por folhetins, até artigos reivindicando participação política. Separadamente, as questões mais interpeladas eram: amor, educação e matrimônio, pontos que abordaremos ao longo desta seção. Entretanto, também trataremos de artigos críticos relacionados às mulheres públicas e à participação das mulheres na política.
27 Mais adiante, abordaremos mais profundamente essa escritora. Para saber mais, leia: PEREIRA,
Estes, apesar de não terem sido frequentes, são fundamentais para a perspectiva social que buscamos construir neste trabalho.
Conforme destacado pelo historiador Robert Darnton (2010), quando tratamos de compreender alguma situação e/ou escrito, é necessário entender o texto pelo contexto. Nesse sentido, percebemos que alguns desses escritos eram estruturados a partir de discussões que estavam acontecendo na Corte, em meados do século XIX, e que acabavam por também se desenvolverem na imprensa. Rodrigo Cardoso (2015, p. 11), em sua tese, destacou a agência histórica da imprensa oitocentista:
Ao se analisar a imprensa, faz-se necessário enfocá-la não apenas enquanto veículo de ideias refletidas de uma realidade socioeconômica definida, mas enquanto agente histórico produtor e disseminador de textos que, ao mesmo tempo influenciavam e eram influenciadas pelo contexto.
Nesse sentido, percebemos a Marmota como partícipe de questões pertinentes ao universo das mulheres e postas na sociedade da década de 1850. Alguns pontos, contudo, iam além do universo feminino e se relacionavam com a prosperidade de um país que estava em construção. Ademais, cabe refletirmos sobre a afirmação feita por Barbosa Lima Sobrinho (1923, p. 37) de que “os povos têm a imprensa que merecem”. Essa frase ressalta a dimensão que os contextos social, cultural e político têm diante da construção da imprensa, tendo em vista que ela se desenvolve a partir de condições colocadas pelo povo, daquilo que “o povo merece”.
No mais, identificamos, ao longo da análise, certa pluralidade de pensamentos a respeito da condição feminina no século XIX. Essas noções são colocadas de formas diferentes, principalmente se nos atentarmos à autoria masculina ou feminina. Isso acontecia porque “a imprensa foi usada como fio condutor de valores sociais que deveriam ser apreendidos pelos seus leitores. Ao mesmo tempo foi também por meio dela que muitos padrões sociais puderam ser questionados e até mesmo rompidos” (NASCIMENTO, 2006, p. 16). Nesse sentido, vários discursos e opiniões podem ser encontrados na Marmota, pois seus colaboradores(as) e escritoras(es) eram diversos e discordavam sobre certas questões.28
A composição dessa seção foi pensada de forma a analisar os escritos a partir dos temas discorridos e, então, compreendermos as mulheres que estavam por trás das publicações. Foram muitos sujeitos e assuntos interpelados durante a circulação do periódico,
assim como as estratégias utilizadas por essas mulheres a fim de melhor se colocarem na Marmota. Nesse seguimento, apresentamos algumas dessas questões.