1. L'hématopoïèse
1.2 La différenciation des CSH en lignées distinctes
Depois da “Fórmula”, e também dela derivando, temos as “Constituições da Companhia de Jesus”. Elas só começaram a ser elaboradas em 1547, com o auxílio de João Alfonso de Polanco (1517-1575), secretário de Loyola. Polanco exerceu um papel crucial ao longo do processo de elaboração das Constituições, fazendo sugestões, levantando questões, buscando respostas e redigindo-as. Loyola implementou modificações no documento até sua morte, sendo que a Primeira Congregação Geral da Companhia (convocada após a morte de Loyola) aprovou o texto com pequenas modificações, submetendo-a a impressão na sua versão latina, pela primeira vez, em 1558-59. Verificam-se, no seu estilo e organização, diferenças significativas de outras constituições de outras ordens, já expostas.
John O‟Malley (2004) argumenta que as “Constituições” estabeleciam, em estruturas e procedimentos concretos, as generalidades presentes na “Fórmula”. A organização das “Constituições” apresentava um fio condutor, de ordem cronológica, porém flexível, que orientava o jesuíta desde o momento em que fazia o pedido para se inserir na Ordem, seu treinamento, os ministérios possíveis para sua prática, até as caracterizações dos cargos. As “Constituições” apresentavam-se calcadas sobre a ideia de um desenvolvimento espiritual que abarcaria etapas específicas.
As “Constituições” apresentam-se divididas em dez partes, que, por sua vez, são subdivididas em capítulos. Inclui-se nessa divisão o “Exame Geral”, sumário proposto por Loyola (por volta de 1546), que visava dar aos aspirantes à Ordem informações essenciais sobre a organização da Companhia ou, ainda, segundo Santo Inácio, para informar ao aspirante “nosso modo de proceder”. Nele insistiu Loyola em uma dupla preocupação, segundo o jesuíta William V. Bangert ([198-], p. 56): “[...] a necessidade duma grande selecção dos aspirantes à Companhia; e a total abnegação do amor próprio que se exige a todo o Jesuíta [...]”. Assim, no “Exame Geral”, o candidato à Ordem toma consciência também das restrições que lhe serão impostas: deve distribuir anteriormente seus bens materiais; interromper suas relações com o mundo
externo, por exemplo, a família; sua correspondência será monitorada, entre outros aspectos. Do candidato à Ordem também será exigida uma série de seis experiências: fazer os “Exercícios Espirituais”, trabalhar em hospitais, fazer peregrinações, executar ofícios baixos e humildes, ensinar a doutrina cristã a crianças e pessoas incultas e realizar pregações e confissões.
O mesmo “Exame Geral” se subdivide em oito capítulos: Capítulo I: “Instituto da Companhia de Jesus e diversidade das pessoas que se compõe”; Capítulo II: “Alguns casos sobre cuja possível existência se hão-de interrogar os candidatos à Companhia”; Capítulo III: “Algumas perguntas para melhor conhecer a pessoa que pretende entrar na Companhia”; Capítulo IV: “Alguns pontos que mais convém saber aos que entram na Companhia sobre o que nela devem observar”; Capítulo V: “Outro exame mais particular para os candidatos homens de letras, coadjutores espirituais e escolásticos”; Capítulo VI: “Outro exame só para os coadjutores”; Capítulo VII: “Outro exame para os escolásticos”, Capítulo VIII: “Outro exame para os indiferentes”.
Cada um desses capítulos é uma tentativa constante de contornar e contemplar todas as possibilidades e impossibilidades daqueles que se candidatam à Ordem. É um trabalho de explicação exaustivo e minucioso que retoma, em vários momentos, aquilo que já foi tratado na “Fórmula”, como, por exemplo, o fim ao qual se destina a Companhia de Jesus, o quarto voto professado pelos jesuítas, as peculiaridades que diferenciam a Ordem dos jesuítas de outras ordens religiosas.
Após a parte denominada “Exame Geral”, encontramos as “Constituições” propriamente ditas, espécie de carta magna da Ordem, que retoma e amplia aspectos já tratados anteriormente tanto na “Fórmula” quanto no “Exame Geral”, no que diz respeito à admissão e formação de um jesuíta, à diferenciação da Companhia de outras ordens, entre outros. Suas dez partes, que explicam não só a estrutura externa, mas também o espírito interior da Companhia, são nomeadas da seguinte maneira:
1. Admissão à provação.
2. Demissão dos que foram admitidos mas não deram boa prova de si.
3. Conservação e progresso dos que estão em provação.
4. Como instruir nas letras e em outros meios de ajudar o próximo os que permanecem na Companhia.
5. Admissão ou incorporação na Companhia.
6. A vida pessoal dos que foram admitidos ou incorporados na Companhia.
7. As relações com o próximo daqueles que, depois de admitidos no corpo da Companhia, são distribuídos na vinha de Cristo Nosso Senhor.
8. Meios de unir com a cabeça e entre si aqueles que estão dispersos.
9. Cabeça e o governo que dela descende.
10. Conservação e desenvolvimento de todo o corpo da Companhia em seu bom estado.
Na Quarta Parte, que nos interessa mais de perto, encontram-se as considerações sobre a educação da Companhia. Estas se organizam nos seguintes aspectos: como deve se proceder na fundação dos colégios, as características da formação acadêmica daqueles que ingressaram na Ordem, bem como os considerados externos; a forma de distribuição e organização das disciplinas a serem cursadas; as leituras permitidas; os procedimentos e métodos de ensino; as formas de premiação e castigo; o ensino da doutrina cristã e suas práticas (confissão, “casos de consciência”, “Exercícios Espirituais” etc.); a especificação dos cargos e hierarquias no interior da Ordem e dos próprios colégios (Superior Geral, Reitor, entre outros). Esses elementos também são tratados no âmbito das universidades.
Observamos assim, logo na “Introdução” desta quarta parte, a preocupação da Ordem com a formação de homens que sejam “[...] virtuosos e sábios, para cultivar a vinha de Cristo nosso Senhor [...]” (LOIOLA, 1975, p. 124), fazendo com que o objetivo da educação da Companhia de Jesus seja a chamada,
posteriormente, educação integral do homem em virtudes e letras, que coincide com a finalidade, no que diz respeito aos estudos, como podemos verificar nas palavras do próprio Inácio de Loyola:
O fim dos estudos na Companhia é ajudar, com o favor de Deus, as almas dos seus membros e as do próximo. Esta será a norma para determinar, em geral e em pormenor, as matérias que os Nossos devem estudar, e até que ponto hão-de avançar nelas.
E, como geralmente falando, são de muito proveito os estudos humanísticos de várias línguas, a lógica, a filosofia natural e moral, a metafísica, a teologia escolástica e positiva, e a Sagrada Escritura, serão estas as matérias que hão-de estudar os que se enviam aos colégios. Insistirão com maior diligência naquelas que mais se relacionam como fim indicado, tendo em conta as circunstâncias dos tempos, lugares, pessoas, etc., como parecer oportuno em Nosso Senhor, a quem tem a responsabilidade principal (LOIOLA, 1975, p. 137).
Nas “Constituições”, particularmente na Sétima Parte, são especificados os ministérios aos quais os jesuítas se dedicam. Esses ministérios, como já vimos anteriormente, podem ser classificados em quatro categorias: os da palavra e suas variantes, a administração dos sacramentos, as obras de misericórdia e, por fim, os colégios, que se tornaram o maior e mais importante de todos. Os jesuítas acreditavam que tais ministérios deveriam seguir um padrão “apostólico”, ou seja, deveriam reproduzir, em seu próprio tempo, o percurso realizado pelos discípulos de Jesus, descrito no Novo Testamento.
As “Constituições” ainda tratam, na sua Oitava Parte, da descrição das formas usadas pelos membros da Companhia para se manterem unidos, já que as missões implicavam dispersão destes por vários locais. Para manter a união, o primeiro ponto destacado é a necessidade fundamental da obediência. De acordo com Inácio de Loiola (1975, p. 222):
Esta união realiza-se sobretudo pelo vínculo da Obediência. Mantenha-se ela, portanto, sempre em seu vigor. Os que das casas são enviados fora, a trabalhar no campo do Senhor, devem, quanto possível, ser pessoas bem exercitadas na obediência. Os que têm cargos mais importantes na Companhia distingam-se entre os outros pelo bom exemplo nesta virtude, sendo muito unidos com o seu Superior, e obedecendo-lhe com prontidão, humildade e devoção [...]. Além da obediência, outra estratégia usada para a manutenção da união entre os membros da Companhia foram as cartas, que permitiam trocas frequentes de informações e notícias daqueles que se encontravam em outras partes do
mundo e sobre seu enfrentamento da realidade diária. Elas também serviriam para se ter um controle das atividades da Ordem.
John O‟Malley (2004, p. 103) nos explica que “[...] Quando praticável, os reitores escreveriam ao provincial, e os provinciais escreveriam ao Geral até uma vez por semana; o Geral responderia aos provinciais pelo menos uma vez ao mês, e os provinciais responderiam com a mesma frequência aos reitores locais.”. Assim, foi estabelecida uma rede de comunicação frequente, de caráter oficial e não-oficial e, muitas vezes, na língua vernácula.
A prática epistolar, além de ser uma fonte de conhecimento interno dos trabalhos dos jesuítas entre si, servia também como material de publicidade e promoção da Ordem, informa-nos Luiz Fernando Conde Sangenis (2006), pois dessa maneira seria possível receber ajuda política e financeira tanto dos reis católicos europeus, quanto do próprio Papado.
José Eisenberg (2000) nos mostra que as cartas trocadas entre os membros da Companhia de Jesus se classificavam em dois tipos: bijuelas e edificantes. Nas bijuelas constavam os problemas institucionais, e seu estilo era o da correspondência clássica, enquanto que as edificantes cuidavam de descrever as notícias consideradas positivas das missões. Visando atingir um público mais amplo (religiosos e leigos), utilizava-se um estilo retórico nestas últimas. Geralmente, uma carta edificante era acompanhada de uma bijuela, que tinha muitas semelhanças com uma conversa informal entre amigos, ainda que os correspondentes não se conhecessem pessoalmente. Nelas, o que se destacava eram a lealdade e a privacidade institucionais, calcadas em um vínculo corporativo. Procurava-se sempre um estilo que fosse claro e sucinto, explicando-se, logo de início, o tema a ser tratado; em seguida, discutiam-se os assuntos institucionais.
As bijuelas tratavam de assuntos diversos: auxílio financeiro para a construção de casas e igrejas, controle da quantidade e localização dos membros da Companhia em uma dada região, nomeações, solicitações do envio de mais missionários para algum lugar, envio de roupas, livros, material litúrgico. “[...]
Nessas cartas, os jesuítas também reclamavam das dificuldades criadas por cristãos e nativos e descreviam os sucessos e fracassos de sua atividade missionária, particularmente no tocante à conversão, ao batismo e ao casamento dos selvagens.” (EISENBERG, 2000, p. 53).
Por sua vez, as cartas edificantes tratavam de ações ou eventos bem- sucedidos, destacando os aspectos virtuosos das missões, com o objetivo de angariar, do leitor, simpatias.
[...] Estas cartas geralmente continham descrições pormenorizadas de algum aspecto da vida da colônia: o entorno natural, a cultura dos nativos, a história das missões até aquele ponto etc. A retórica utilizada em sua redação era similar à literatura dos relatos dos viajantes do início da Idade Moderna. Os autores usavam a autoridade do testemunho ocular para reforçar a veracidade e a fidedignidade histórica de suas narrativas (EISENBERG, 2000, p. 56).
A prática epistolar dos jesuítas representou, em síntese, uma inovação no que diz respeito à administração institucional vigente no século XVI. Considerada dentro dessa perspectiva administrativa, ela foi compreendida como uma combinação de controle institucional da hierarquia com interpretações, realizadas de forma prudente, dos missionários, sobre suas experiências. Na Nona Parte das “Constituições” encontramos a retomada e ampliação das considerações sobre o Superior Geral, cargo vitalício e máximo da Ordem, a partir dos seguintes aspectos: qualidades que este deve possuir, o alcance de sua autoridade, suas funções, suas relações hierárquicas com a Congregação, a quem ele deve obediência, casos de sua substituição. E, por fim, a Décima Parte contém as últimas recomendações para a conservação e desenvolvimento da Companhia de Jesus em sua missão.