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Tendo em vista a perspectiva de ouvir as vozes dos adolescentes acerca de suas próprias vivências relacionadas ao racismo, opressão, consciência, negritude e branquitude, que são alguns dos componentes que constituem as relações racializadas no Brasil, faz todo o sentido entender o que é o “lugar de fala”. Dessa forma, buscamos compreender com as pesquisadoras Patrícia Hill Collins e Djamila Ribeiro o que nos trazem sobre essa expressão.

Collins foi uma das primeiras intelectuais a tratar sobre a conceituação da expressão “lugar de fala”, embora não tenha sido a primeira a trazer à tona a discussão sobre a questão. Collins (2016), no texto: “Aprendendo com a outsider within: a significação sociológica do pensamento feminista negro”, ancora sua discussão na ideia de “insider e outsider” – que, em tradução livre, seria “de dentro/interno” e “de fora/externo”, respectivamente. A autora utiliza o termo “estrangeiro” para dar sentido à palavra “outsider” no contexto em que a mesma

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é empregada. O debate proposto pela autora encaminha a discussão por esta perspectiva para compreender como sociologicamente as mulheres negras se relacionam com a questão do feminismo negro. Nós, no entanto, traremos esta discussão mais adiante, tendo como foco a questão da empatia, o olhar do outro, a visão do outro sobre os temas pertinentes a este estudo.

O estudo proposto por Collins, contudo, utiliza-se da discussão acerca do pensamento feminista negro para dialogar sobre como a opressão produz e reproduz a inferiorização destas mulheres. Embora o estudo tenha sido realizado a partir do olhar voltado para as mulheres afro-americanas, a construção do argumento de Collins possibilita entender a importância da cultura no processo de conscientização das mulheres negras e, por consequência, no ativismo feminista. Estes argumentos evoluem para um debate importante sobre o lugar de fala. A autora apresenta conceituações referentes à autodefinição e à autoavaliação como mecanismos de sobrevivência, resistência e humanização da mulher negra. Para ela,

Quando mulheres negras definem a si próprias, claramente rejeitam a suposição irrefletida de que aqueles que estão em posições de se arrogarem a autoridade de descreverem e analisarem a realidade têm o direito de estarem nessas posições. Independentemente do conteúdo de fato das autodefinições de mulheres negras, o ato de insistir na autodefinição dessas mulheres valida o poder de mulheres negras enquanto sujeitos humanos. O tema relacionado da autoavaliação de mulheres negras põe todo esse processo um passo adiante. Enquanto a autodefinição de mulheres negras dialoga com a dinâmica do poder envolvida no ato de se definir imagens do self e da comunidade, o tema da autoavaliação das mulheres negras trata do conteúdo de fato dessas autodefinições. (COLLINS, 2016)

Ao apresentar este debate, Collins propõe um protagonismo que não é permitido pelo modelo opressor. A ideia, com isso, não é calar as vozes existentes, mas sim dar sonoridade a outras vozes, incluir novos narradores para as histórias – ou seja, uma mudança de perspectiva. E este é o sentido de lugar de fala que podemos atribuir a partir do debate sobre feminismo negro apontado por Collins: as falas são diferenciadas a partir das condições sociais de determinados grupos. Este seria, então, o sentido de lugar de fala – possibilitar que vozes historicamente silenciadas se pronunciem a partir do prisma que as oprime e que as condiciona a este lugar de invisibilidade e silêncio.

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Ribeiro (2017) afirma não haver uma epistemologia determinada sobre o termo lugar de fala. Para ela, a origem do termo é imprecisa, contudo acredita que o modo com que é utilizado amplamente na atualidade tenha surgido a partir dos debates relacionados ao feminismo. Ribeiro se utiliza das reflexões de Collins (2016) para articular sua argumentação. Sua defesa é de que, a partir do ponto de vista feminista, seja possível dialogar sobre o termo lugar de fala.

Para Ribeiro, um dos principais marcadores do lugar de fala não são as experiências individuais e sim as condições sociais que permitem ou não que grupos sociais acessem lugares de cidadania. Neste sentido,

seria, principalmente, um debate estrutural. Não se trataria de afirmar as experiências individuais, mas de entender como o lugar social que certos grupos ocupam restringem oportunidades. (RIBEIRO, 2017, p. 61)

No Brasil, há um certo equívoco quanto à conceituação do termo, pois o conceito muitas vezes é pensado a partir do indivíduo isoladamente e não das diversas condições que resultam nas desigualdades e hierarquias que localizam grupos subalternizados (Ribeiro, 2017). Para esta pesquisadora,

As experiências desses grupos localizados socialmente de forma hierarquizada e não humanizada faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes sejam tratados de modo igualmente subalternizado, além das condições sociais os manterem num lugar silenciado estruturalmente. (RIBEIRO, 2017, p. 63)

Ao apresentar o lugar social como fundamento para o debate sobre o lugar de fala, Ribeiro evidencia que a luta feminista possibilita compreender a expressão. Do mesmo modo que as mulheres foram e ainda são impedidas de acessar certos espaços, alguns grupos inferiorizados, como a população negra, também têm essa dificuldade. Essa situação amplia ainda mais o distanciamento social – ou seja, o acesso a determinados espaços, como a universidade, é dificultado. As produções epistemológicas inerentes a estes grupos também se tornam parcas ou inexistentes, e, com isso, impede-se que as vozes desses grupos sejam ouvidas.

Ribeiro nos permite fazer uma reflexão importante ao notar que, no Brasil, é recorrente o atrelamento do “lugar de fala” unicamente às experiências e

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vivências individuais – especialmente no âmbito dos debates virtuais. Isso possibilita uma desqualificação do discurso a partir das oportunidades individuais, enquanto a proposta é exatamente entender as condições sociais que constituem o grupo do qual a pessoa faz parte. Ou seja, as oportunidades, experiências e vivências individuais servem para compor – junto a outros indivíduos que fazem parte do mesmo grupo social – um conjunto de condições que constituem este grupo.

A discussão sobre lugar de fala carrega consigo diversas forças opressoras que estão entrelaçadas na sociedade. Não seria possível desatrelar as questões de gênero, sexualidade, raça e classe, pois se articulam de forma estrutural. O que busco dizer com isso é que, ao teorizar sobre lugar de fala, precisamos compreender que questões como machismo, racismo, homofobia e capitalismo sempre atravessarão e constituirão um mecanismo de exclusão e opressão que deve ser combatido de forma indissociável.

O fundamental é que indivíduos pertencentes ao grupo social privilegiado em termos de locus social, consigam enxergar as hierarquias produzidas a partir desse lugar e como esse lugar impacta diretamente na constituição dos lugares de grupos subalternizados. (RIBEIRO, 2017. p 85).

Ribeiro defende que todas as pessoas possuem lugares de fala, porque este é um conceito ligado à localização social. Neste contexto, o lugar de fala não trata apenas da possibilidade de ouvir outras vozes, mas também de interromper a exclusividade dada às vozes dos grupos privilegiados e hegemônicos.

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Capítulo 4 – AFRICANIDADES NA SOCIEDADE BRASILEIRA; A QUESTÃO