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Dans le document ETUDES SUR LE CAPITAL (Page 35-38)

As bases do pensamento social em saúde inscrevem-se nos movimentos europeus de Reforma Sanitária e de Reforma Médica, ocorridos na segunda metade do século XIX, quando surgiu a definição da ciência médica como uma ciência social, fragilizando as variadas denominações que acompanhavam essas ideias até então: higiene social, polícia médica, saúde pública, medicina legal (NUNES, 1996). Nunes (1996) esclarece também que esses movimentos possibilitaram organizar melhor as preocupações, de modo a compreender os problemas de saúde e das relações da medicina com os assuntos públicos, a partir da consciência do papel e da importância dos fatores sociais.

No afloramento do pensamento social em saúde, ocorrido em vários países durante o século XIX – também chamado século da bacteriologia –, destaca-se a atuação do médico alemão Rudolf Virchow. Para Bechler e Delizoicov (2015), Virchow foi um dos precursores e principais divulgadores de uma medicina que compreendia o indivíduo enfermo tanto pelos aspectos específicos da doença que o acometia quanto pela problematização das razões que levaram aquele indivíduo a adoecer. A compreensão sobre os macros e microfatores intervenientes no processo de adoecimento fundiam-se em uma nova ciência que nascia (BECHLER; DELIZOICOV, 2015). Os autores reforçam, entretanto, que o fato de pensar no indivíduo doente como um todo não significava, nem de longe, desvencilhar-se de práticas absolutamente metódicas e rigorosas.

No Brasil – já nas primeiras décadas do século XX – merece relevância o inquérito de Castro (1957) sobre as condições de vida das classes operárias da cidade de Recife, Pernambuco, que, segundo Nunes (2006), foi o primeiro estudo sobre o tema das ciências sociais em saúde no Brasil e que aconteceu em um período marcado pela chegada de alguns antropólogos ao País (final dos anos 30), os quais se associaram a projetos na área da saúde nas duas décadas seguintes.

Apesar desses e de tantos outros importantes antecedentes, Nunes (2006) percebe, em suas revisões sistemáticas, que é recorrente, entre os autores que se debruçaram sobre a temática, a afirmação de que a interlocução entre as ciências da saúde e as ciências sociais começou a se estruturar, em âmbito internacional, a partir do final da Segunda Guerra Mundial. O autor lembra que as preocupações com o social se expressaram diante dos problemas enfrentados pelos países europeus e Estados Unidos, durante a reconstrução econômica, política

e social. Nesse panorama, a saúde emerge como tema sociológico de destaque, quando significantes verbas foram destinadas às pesquisas sociomédicas (NUNES, 2006).

Nesse contexto, foi criada, em 1948, a Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Organização das Nações Unidas (ONU), na ocasião da Conferência Internacional de Saúde de Nova York. Com o intuito de desenvolver parâmetros de saúde a serem adotados por todos os povos, a OMS adota medidas e esforços, de seus membros, no desenvolvimento de pesquisas e estudos científicos para controle de doenças, para o desenvolvimento humano como indivíduo e como coletivo, com o objetivo da obtenção da saúde plena da população mundial atingindo o bem-estar físico, social e mental (WHO, 2018; VENTURA; PEREZ, 2014).

À medida que as reflexões sobre as questões biológicas dos seres humanos inspiravam- se, cada vez mais, nas suas relações com aspectos sociais da população, importantes mudanças na formação acadêmica em saúde ocorreram, movimentadas por essa interlocução. Canesqui (1998) situa a difusão das ciências sociais no ensino biomédico nos países latino-americanos – ainda que de forma restrita – no período entre o pós-guerra e a primeira metade da década de 60, contribuindo para parte do processo de reformulação do ensino médico, com a inclusão da abordagem da Medicina Integral e da Medicina Preventiva, desde a década de 50.

Segundo a autora, procurava-se corrigir as distorções da medicina individualizada e descentrar o enfoque estritamente biológico do processo saúde-doença. Enquanto a Medicina Integral considerava a complexidade bio-psico-social do indivíduo e sua inclusão nas relações familiares, a Medicina Preventiva, por sua vez, passou a analisar o processo saúde-doença no seu campo ecológico e social, através de suas dimensões sociais e culturais, ainda que a partir de concepções limitadas. Canesqui (1998) prossegue com suas reflexões, atribuindo a maior expansão do ensino das ciências sociais em saúde à Reforma Universitária de 19681, mediante a incorporação de conteúdos referentes à organização da prática médica e da administração dos serviços de saúde no currículo mínimo de Medicina.

Em relação a essa mesma época, Nunes (2006) lembra que, em outros países da América Central, destacava-se a atuação de antropólogos e sociólogos em projetos relacionados à nutrição. Situação totalmente diferente dos Estados Unidos que, no final dos anos 60, tinham mais de mil projetos de investigação em curso e mais de dois mil pesquisadores nas áreas de

1 Trata-se da reforma do sistema educacional de nível superior, no Brasil, que ocorreu no período do regime militar,

com o intuito de reorganizar administrativamente as universidades públicas federais, limitando a autonomia - principalmente financeira - destas instituições, as quais ficaram subordinadas às deliberações do Ministério da Cultura e Educação. A referida Reforma foi concebida mediante a forte influência do padrão de educação americano (Plano Atcon) em razão da consultoria prestada por Rudolf Atcon, o qual elaborou os princípios do modelo de educação superior a ser implementado no país, formulando um novo padrão de integração; educação

economia e sociologia da saúde, ao longo da década de 1960, a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) e algumas fundações norte-americanas dedicaram-se a analisar os pressupostos econômicos que poderiam interferir na adoção de medidas e no planejamento em saúde (NUNES, 2006). Segundo o autor, a teoria unicausal tornava-se cada vez mais incapaz de explicar as complexas relações entre condições de vida da população e suas doenças, dando espaço à busca por explicações multicausais.

3.2 REFORMA SANITÁRIA BRASILEIRA E PAULO FREIRE: CAMINHOS QUE SE

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