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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 150-157)

Até onde somos iguais e a partir de onde começam nossas diferenças?

A principal semelhança entre as representações dos estudantes favoráveis total ou parcialmente ao sistema de reserva de vagas, parece-me, que diz respeito ao reconhecimento unânime dos respondentes, em relação à falta de qualidade do ensino oferecido nas escolas públicas, o que inexoravelmente, cria uma impossibilidade real de haver um único sistema de avaliação, para os alunos que tiveram acesso ao ensino privado, em igualdade de condições com aqueles que não tiveram a mesma possibilidade.

Neste sentido, me parece que a forma mais simples de aproximar-se da nova realidade imposta pela lei, é considerar a possibilidade de “dar oportunidade aos alunos oriundos de escola pública” principalmente nos casos de estudantes oriundos de classes sociais menos favorecidas, não necessariamente o mesmo para os estudantes habilitados também pela categoria cor/raça.

As representações dos estudantes neste caso, giraram em torno da percepção “da desigualdade de oportunidades” entre estudantes de escola pública e estudantes de escolas particulares e “a falta de qualidade da escola pública:”

Paula (Odontologia): Que a gente sabe que o ensino é defasado né? Não é, não é bom [...] tinha muitas falhas entendeu? Já era desde o início, então é uma forma de ajudar o aluno que não tem oportunidade de cursar uma escola ou uma universidade particular. [Grifo meu].

Lucas (Letras): Mais assim, é muito assim, é muito claro,o que acontece na

escola pública, é muitas vezes a instituição, sabe? Sabe, sem...sem cuidado, é uma coisa que às vezes, deixa o aluno assim, desinteressante pra estudar, entendeu? Os professores também, muitas vezes, não são comprometidos, muitas vezes, é... o ensino de idiomas também é assim, muito, muito fraco...você vê desde a quinta série até o terceiro ano o verbo ‘to be’ o tempo todo (risos).[Grifo meu].

Isabelly (Direito): O sistema de reserva de cotas eu acho que não deveria

ser ‘ad eternum’, deveria ter um tempo assim pra acabar, mas na atual conjuntura é o melhor, é o que tá tendo de melhor assim [...] pra inserir mesmo as pessoas na universidade. porque o ideal sem dúvida seria uma implantação de ensino de base bem estruturado e tudo mais [...] E o meu ensino médio, por exemplo, foi super defasado (muita ênfase).Eu não tive história, nem literatura, que são as minhas discursivas por exemplo, no vestibular, e eu não tive história nos 3 anos do ensino médio. Então, foi realmente uma bagunça o ensino público, infelizmente. [Grifo meu].

Virgínia (Pedagogia): É de suma importância essa oportunidade que eu

estou agora tendo, há muitos que não possui, e eu estou assim, muito feliz por estar nessa universidade. [Grifo meu].

Murilo (Medicina): Eu acho, eu acredito, eu, eu... Eu sou favorável ao

projeto de cotas porque não tem como uma pessoa competir comigo, uma pessoa que teve uma formação na escola pública em termos de vestibular. Por exemplo, o meu curso é um curso muito concorrido, então, o ponto pra você, que separa a pessoa que passou ou não passou, é um limite muito pequeno e muitas vezes, tem pessoa que tá há anos no cursinho estudando, então é muito difícil você colocar de igual pra igual uma pessoa que tá saindo do 3ª ano da escola pública que normalmente é uma escola ruim. E você não permite a pessoas que tem condição sócio econômica inferior a cursar esses cursos aonde tem um [...] de ser muito concorrido. Então, esse ponto é um ponto favorável […] igual tem um menino na minha sala que é filho de vaqueiro, qual a oportunidade que ele teria de estudar na vida? E assim, tá cursando a universidade mesmo com, mesmo sem apoio nenhum intelectual de estudos dos pais, ele tá desenvolvendo e podendo tá igual a mim por exemplo, que sempre tive uma boa formação na escola, na escola particular, com os pais comprando revistas e informando a necessidade de estudar e tal, muitas outras coisas […] que antigamente, você tinha que ter uma renda específica prá poder entrar no sistema de

cotas, hoje ele tem vários níveis de cotas não são? Então, isso daí eu concordo também, você tem que estabelecer uma renda porque muitas vezes o que acontece é que o fato de você só estudar numa escola pública não quer dizer que você não tenha condições pra um estudo melhor, muitas vezes, pode ser que o aluno mesmo de condição econômica boa, estudou a vida toda na escola pública porque não quis estudar e depois decidiu, fez um cursinho veio cá e passou na Universidade. [Grifo meu].

Hélia (Medicina): Eu acho que a [...] essa restrição das vagas, dessa

reserva de vagas é necessária agora por causa do próprio sistema educacional público fundamental, que ele é deficiente, mas eu acho que não é uma coisa definitiva, seria uma coisa mais temporária pra poder resolver, porque se resolvesse o problema do fundamental não seria necessário isso. [Grifo meu].

Estevão (Direito): Mas eu concordo com a reserva de vagas pra pessoas

com renda inferior ou igual a um salário mínino e meio, concordo também com a reserva de vagas pra estudantes de escola pública, até porque, a gente não pode querer comparar o ensino privado com o ensino público, porque há sim, uma diferença muito grande. [Grifo meu].

Otávio (Direito): Porque eu acredito que não tem a mesma chance de ser

aprovado um aluno proveniente de escola particular e um aluno proveniente de escola pública. [Grifo meu].

A declaração unânime entre os estudantes pesquisados em relação à falta de qualidade do ensino público surpreendeu pela forma e ênfase dada a esta questão. Inclusive, entre os alunos que declararam que mudaram de opinião em relação às cotas, houve um esclarecimento neste sentido, um reconhecimento de que de fato, não é possível impor o mesmo sistema de avaliação para estudantes oriundos de escolas tão diferentes do ponto de vista da qualidade do ensino.

Esta condição que hoje é tão clara para os estudantes não é recente e é um importante fator gerador das condições propícias ao estabelecimento e enraizamento da desigualdade,

Assim, a queda de qualidade do ensino público nas grandes cidades do país fechou um ciclo que funcionou até a década de 1960, quando a escola

pública ainda atendia às crianças que viviam nos centros urbanos, então a minoria. A saída dos setores médios e a massificação do ensino público levaram a uma situação paradoxal: tornou a função republicana da escola pública – a de possibilitar a integração de novas gerações ao saber escolar para a sua integração à sociedade – mais difícil de ser realizada, porquanto mais elitizada […] o ensino superior é quase que exclusivo para aqueles que podem pagar a preparação ao seu ingresso, deixando de fora, um largo contingente que, devido a uma educação pública básica com grandes falhas, não tem capacidade de competir em igualdade de condições. Nessa desigualdade produzida no país, fica hoje também evidente a falta de acesso de grupos específicos, como as populações indígenas e os negros, em especial estes últimos (PAIVA, 2010,p. 8-9).

Perceptível entre as falas dos estudantes é o fato de que nenhum deles mencionou as cotas raciais como uma necessidade específica, ficando assim invisibilizadas as razões que os levaram a não mencioná-las.

Ressalto entretanto, que a forma mais comum de aproximar-se do “novo”, do estudante cotista como um par na universidade, nasce da comparação da sua origem escolar em primeiro lugar, seguida da comparação da origem social, em ambos os casos, a comparação serve tanto para acolher quanto para rejeitar este novo sujeito.

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