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L’ouverture à l’extérieur

Dans le document ANALYSE TRANSVERSALE (Page 46-57)

A compreensão de qualquer texto depende de se saber onde ele começa e onde termina. Em se tratando de uma narrativa, tanto mais é importante inteirar-se do assunto para não tirar conclusões apressadas, fora do contexto. Tratando-se da Bíblia isso é ainda mais necessário por causa de seu caráter antológico (SIMIAN- YOFRE, 2000, p. 79), reunindo textos de diversas origens, extensões, formas, gêneros e estilos, como numa colcha de retalhos, além de várias camadas redacionais, principalmente no Antigo Testamento, atravessando séculos.

Em princípio, pode-se seccionar um texto para análise exegética em qualquer ponto, desde que o trecho selecionado constitua uma informação completa. Para esta pesquisa, por exemplo, poder-se-iam tomar apenas as linhas que contêm a ordem ao sol e à lua (v.12d e v.12e) ou mesmo somente aquela onde se afirma que o sol se aquietou (v.13a). No entanto, como afirmado acima, para a correta compreensão de uma frase é preciso ver o seu contexto e isso exige delimitar o que precisa ser lido junto para não prejudicar a compreensão do conteúdo geral. Na perícope em foco, a variação do tamanho da seção vai desde apenas os versículos 12 a 15 até ao inteiro capítulo 10.76

Simian-Yofre (2000, p. 79-80) nota que, geralmente, nas narrativas, o início e o fim do texto são facilmente identificáveis por uma fórmula típica de início e uma típica de fim de relato. Um bom indicador de fórmula de início é a presença de uma referência adverbial, como “naquele tempo”, enquanto para a fórmula de fim

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A Bíblia Sagrada (da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB)) (1993, p. 234-5), por exemplo, tem o menor corte, enquanto Yu (2012, p. 586) considera todo o capítulo 10 uma unidade literária.

procura-se pelo “ponto de repouso” da narrativa. Tais elementos são identificáveis na perícope, como se busca demonstrar a seguir.

Inicialmente, é necessário ter em conta que o episódio da “parada do sol e da lua” faz parte de um conjunto maior de relatos de batalhas, composto de pequenas narrativas que vão compondo a história da guerra de conquista de Canaã. Em resumo, ela se centra numa intervenção de YHWH, à primeira vista “parando” 77 o sol e a lua durante uma batalha nas imediações de Gabaon, num contexto em que os israelitas, liderados por Josué, combatiam para livrar seus aliados gabaonitas do cerco que lhes haviam feito cinco reis amorreus das vizinhanças, coligados para atacá-los.

Onde estariam, então, as fórmulas de início e de fim desse curto relato? Comecemos pela fórmula de fim, mais facilmente identificável com a explícita informação do versículo 15, propositalmente incluído na tradução, embora não relevante para o foco da pesquisa: “e voltou Josué e todo Israel com ele ao acampamento de Guilgal”. Com este versículo se fecha o relato das batalhas nas circunvizinhanças de Gabaon, começado em 10,1. A mesma fórmula aparece em 10,43, fechando o relato de todo o conjunto de batalhas pela conquista da região sul de Canaã. Ela corresponde à expressão “e foram felizes para sempre”, nos contos e romances modernos, e ao “The End”, nos filmes. Nesse versículo, de fato, não só o episódio da “parada do sol e da lua”, como também toda a trama da narrativa em torno do ataque dos cinco reis amorreus a Gabaon encontram o seu ponto de “repouso natural”.

Com efeito, o acampamento de Guilgal era a base de onde Josué e seus guerreiros partiam em campanha militar, retornando a ela, após algum tempo (Js 4,19; 5,9; 9,6). Ainda que no v. 16 se continue narrando os combates contra os cinco reis, dos quais se vinha tratando desde o primeiro versículo do capítulo 9, a batalha de Gabaon, imortalizada pela extraordinária “parada do sol e da lua”, já é uma etapa enfim superada, com vitória para os israelitas, nesse caso, o que não significa que a guerra de conquista já acabou.

Menos evidente, porém, é a fórmula de início desse episódio. Ela parece estar num único advérbio temporal, exatamente no início do versículo 12: ‘az, geralmente

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Esta pesquisa quer exatamente demonstrar que há outras possibilidades de se entender a ação de Deus nesse episódio. Por isso, o verbo dessa ação é usado sempre entre aspas, como também a expressão “parada do sol e da lua”.

traduzido por “então”78. Entretanto, em português, o advérbio “então”, além da

função temporal, pode exercer também função sequencial ou, ainda, conclusiva. Na função temporal, significando “naquele tempo”, “naquela ocasião”, indica ações ou informações contemporâneas ou simultâneas, como neste exemplo: “estávamos de férias na casa de nossa irmã mais velha, então grávida do primeiro filho”. Na função sequencial significa “daí”, “em seguida”, e indica ações em sequência imediata, como, por exemplo: “desceu do ônibus e então tomou um táxi”. Na função conclusiva, significa “por isso”, “logo”, “portanto”, e indica uma relação de causa e efeito, como em: “gostei do livro, então o comprei”.

Ao contrário das três funções na língua portuguesa, em hebraico o advérbio temporal ’az é utilizado apenas quando se estabelece uma contemporaneidade entre informações. Os exemplos desse uso são vários (ver Js 10,33; 14,11; 2Sm 23,14; Gn 12,6 etc.). Por isso, evidenciou-se essa função temporal, traduzindo-a por “naquele tempo”. Segundo Simian-Yofre (2000, p. 80) essa fórmula equivale ao “era uma vez” da literatura moderna, e marca um início de relato, enquanto outros advérbios de tempo, como “nesse dia”, “no dia seguinte”, “um ano depois” etc., denotam continuidade com o relato anterior. Assim, no versículo 12 tem início um novo episódio. Com Ballarini (1976, p. 35), pode-se aduzir o argumento de que a última informação do versículo 11 tem o teor de conclusão do que foi narrado imediatamente antes: “morreu mais gente por causa da chuva de pedras do que pela espada dos israelitas”.

Uma objeção contra essa delimitação tão curta para a perícope é a opinião de James Yu (2012, p. 583 e 584), segundo o qual, “apesar de sua estrutura em duas partes, Josué 10 é uma história bem trabalhada de uma única guerra cósmica” e, por isso, “o capítulo 10 deve ser lido como um todo”. De fato, o sol deve parar “sobre Gabaon” (v.12d) e o drama dessa cidade começou a ser relatado em 10,1. Além disso, o versículo 10 informa que aí os inimigos foram derrotados e que daí os remanescentes fugiram. Porém, nesse sentido, o advérbio temporal ’az exerceria uma função sequencial: dando continuidade ao ataque aos amorreus iniciado no versículo 10, Josué teria feito um pedido a YHWH, cujo teor parece ser que

78 Ver o verbete ’az no Dicionário Hebraico-Português e Aramaico-Português (1989, p. 6). Traduzem-

no simplesmente por “então” as seguintes Bíblias, entre as consultadas: da Sociedade Bíblica do Brasil (1993), da CNBB (2010), do Pe. Matos Soares (1979) e a de Oxford (1973).

interviesse mais uma vez na batalha, não deixando escapar os inimigos em fuga.79 Yu nota que nesse versículo, YHWH é o sujeito de todos os verbos indicando ação contra os amorreus. Algumas traduções, aliás, colocam nesse versículo o subtítulo da perícope, ligando o episódio da fuga dos combatentes com o da “parada do sol e da lua”.80

Pela opinião de Yu, todo o capítulo 10 é uma unidade literária, começando com os reis amorreus decidindo atacar Gabaon (10,1), passando pelo episódio do sol e concluindo com a volta a Guilgal depois da conquista de toda essa parte da terra (10,43).81

Contudo, a ligação com Gabaon também relaciona essa perícope a toda a trama que vem se tecendo desde o capítulo 9, versículo 3, quando os gabaonitas forjaram um artifício para obter uma aliança com os israelitas, o que motivará o temor dos cinco reis amorreus e seu posterior ataque àquela cidade. Dessa forma, porém, acabaríamos por ter um texto muito extenso, contendo vários episódios menores. Como já foi lembrado acima, os relatos de guerra compõem-se de pequenos episódios e não é necessário ir ao princípio da guerra para achar o início de um dia de batalha. O próprio Yu recorta os versículos 12 a 14 para seu comentário, conforme o título do seu artigo.

A perícope fica assim bem delimitada: abre-se com o advérbio temporal ’az (“naquele tempo” – v.12a) e fecha-se com a fórmula conclusiva “e voltou Josué e todo o Israel com ele ao acampamento em Guilgal” (v.15).

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