CHAPITRE III.................................................................................................................................... 57
1. METHODES DE DOSAGE
1.1. C HROMATOGRAPHIE IONIQUE
Tal qual O arquivo, outro conto que mostra o contexto político vivido na década de 70 é A válvula. Nele, o leitor está diante de uma narrativa cujo protagonista, o Senhor Franciseh, com agá, realiza constantes mudanças de cargo durante quarenta e cinco anos de trabalho, sem uma só falta ou atraso. O personagem foi disciplinado, diplomado em Ciências Contábeis, auxiliar de escritório, chefe de grupo, de seção e de departamento. Enfim, teve uma vida de labuta. Finalmente, após o seu lado humano ter sido destituído de dignidade, uma diretoria que nunca havia dado valor a esse homem e, aparentemente a nenhum outro, gratifica-o com uma medalha. Porém, com o passar do tempo, o Senhor Franciseh “se calou no vagar da volta. Calou-se no dia, na noite, na vida, no enfim”.34
31 BAUDRILLARD, Jean. O sistema dos objetos. p.38.
32 SILVA, Vera Maria Tietzmann. A metamorfose nos contos de Lygia Fagundes Telles. p.49. 33 CHEVALIER, Jean. Dicionário de símbolos. p.248.
Na prosa ficcional de Giudice, esse personagem adquire uma grave doença, passa a ser despojado de seus valores humanos, geme e suspira devido ao crescimento do estômago. O Senhor Franciseh sofre. Sua dor aumenta resplandecendo desconfianças no ventre cada vez mais grávido.35 A princípio, a narrativa chama a atenção apenas para se ter cuidado com a enfermidade do Senhor Franciseh: é preciso colocá-lo em observação. À medida que o tempo passa, surgem opiniões que levam a crer que a doença é grave, já se manifestou anteriormente em outras pessoas e é melhor chamar um especialista, porque pode não haver tempo suficiente para tratar o paciente. Há uma lenta preparação familiar e próxima para a morte.
Finalmente, o Senhor Franciseh é removido a Budapeste com o ventre endurecido. Cirurgiões de nove nacionalidades diferentes, em uma Junta Médica, o atendem. Inesperadamente, Franciseh virou uma notícia mundial e
Alguma coisa viva, alguma coisa vivíssima vivia no interior do Senhor Franciseh. E, diante dos tremores científicos, começou a mostrar-se. Pontas ferruginosas surgiam lentamente. O vulcão enrugava dando passagem a um ser de proporções reduzidas, mas de formas humanas inegáveis. Os vértices férreos formavam uma espécie de coroa sobre a cabeça sanguinolenta, assustando a medicina balbuciante em babelizantes exclamações:
(...) __UM REI!
Um monarca de manto, cetro e coroa, um monarca de carta de baralho, um rei de paus gerado indevidamente na barriga do senhor Franciseh, estupefato na estupefação causada por sua presença, afinal de contas, real.36
De súbito, ainda no hospital, após a cirurgia, os cirurgiões pegaram a tempo o que havia saído da barriga de Senhor Franciseh enquanto
O pequeno rei debatia-se, encolhia-se, os olhinhos esbugalhando a barriga do Senhor Franciseh. Em
35 Idem. Ibidem, p.42. 36 Idem. Ibidem, pp.44 -45.
alguns segundos, imobilizou-se convertido num galho seco e desfolhado. Depois, esfarelou-se nas luvas profiláticas e desapareceu, eternizado num pozinho marrom, perdido nas estrias dos ladrilhos.37
Posteriormente, depois de quinze dias, o Senhor Franciseh está de volta à sua casa. Por um curto período ele melhora, afinal, “desbarrigou- se” e “desqueixou-se”. Todavia, volta a não falar, a não comer a não beber, não olha para nada, nem televisão, nem a medalha que tinha recebido na empresa por onde trabalhou quarenta e cinco anos. Novamente as perguntas surgem e as opiniões também. Se, antes o Senhor Franciseh poderia estourar, devido ao volume em sua barriga, agora, pode definhar porque está sumindo. Cinco meses após, donalice ouve seu antigo nome sussurrado por uma vozinha de inseto.38 Alice vai até ao banheiro e “só os olhinhos de rei de paus do Senhor Franciseh apareciam nas bordas da privada. (...) Alice aproximou-se. Viu a válvula da descarga. O coração balançou sins e nãos. Mas a mão cicatrizada disse sim.”39
Com efeito, o Senhor Franciseh, enquanto funcionário, era perfeito, ascendeu, embora sendo um ser alienado, vazio e de falsa consciência. Ele passa a ter um rei na barriga, esse rei nasce e desaparece, por fim, o protagonista diminui às proporções de tamanho de um inseto. A princípio, o leitor está diante de um personagem protagonista cuja doença remete o leitor ao provérbio “com o rei na barriga”. Esta expressão nos leva a pensar sobre o tempo da monarquia, onde o monarca era o soberano, o poderoso, a realeza. Tudo podia, mostrava-se arrogante. Afinal, era o imperador e, conforme Lexicon, visto frequentemente como a personificação de deus, do sol, do céu, como o centro do cosmos ou o intermediário entre o céu, os homens e a terra.40 O rei estava no topo da hierarquia, governava com poder
absoluto sobre o Estado e o Governo.
Pouco depois, esse monarca nasce já com seus atributos: coroa, manto e cetro. Tem seus ares de nobreza, passos pomposos, porém sofre a “síndrome monárquica”41 e o arquétipo da perfeição humana desequilibra-se e desaparece. Essa estratégia narrativa parte do princípio de que o pequeno rei, comparado ao período monárquico,
37 Idem. Ibidem, p.45. 38 Idem. Ibidem, p.47. 39 Idem. Ibidem, p.47.
40 LEXICON, Herder. Dicionário de símbolos. p.171. 41 GIUDICE, Victor. Necrológio. p.45.
passa pelo declínio em seu absolutismo e ocorre a queda da Monarquia havendo a desconstrução da legitimidade desse Império.
Por fim, o personagem em sua profunda decadência, reduzido ao tamanho e vozinha de um inseto, se anula para dar vida ao poder e é enfraquecido por este, chama por Licinha, a esposa, que o deixa ir descarga abaixo, válvula que ela aciona.
Mais uma vez, a metamorfose aparece na literatura giudiciana. Um rei que é gerado, um rei que nasce e desaparece bem como o tamanho reduzido do Senhor Franciseh às proporções de inseto. Novamente, a literatura fantástica surge para mostrar a realidade ou o desejo do povo porque este tendo um monarca que tivesse que promulgar leis e impor punições, não significava necessariamente ser autoritário. O rei governava só, mas respeitando todos.
O Senhor Franciseh sofre o processo da degradação que ocorre devido aos fatores internos e externos. Ele também se desumaniza, chega à animalidade identificando-se com a voz e o tamanho de um inseto e passa a ser rejeitado pela própria família.