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L’organisation en bref

Dans le document RAPPORT ANNUEL DE GESTION 2020-2021 (Page 16-28)

A indústria de filmes de Hollywood, a televisão, as tecnologias de difusão por satélite, a Internet, pôsteres, revistas, outdoors, jornais, vídeos e outras formas de mídia transformaram a cultura em uma força fundamental para, como diz Stuart Hall: “moldar o significado e o comportamentos humanos e regular nossas práticas sociais a todo o momento (GIROUX, 1995, p. 128).

Partindo do argumento defendido na seção anterior, de que a cultura precisa ser compreendida levando-se em consideração os diferentes discursos e práticas provenientes de novas formas culturais, pode-se considerar aqui que as danças produzidas e/ou veiculadas pela mídia não são apenas manifestações culturais, mas são artefatos produtivos, “são práticas de representação, inventam sentidos que circulam e operam nas arenas culturais onde o significado é negociado e as hierarquias são estabelecidas” (COSTA; SILVEIRA; SOMMER, 2003, p. 38).

Queremos dizer com isso que as danças que são vistas pelas crianças na TV sejam elas advindas de uma coreografia de um ícone da música pop, sejam elas produzidas nos programas de auditório ou até reproduzidas em clipes da Xuxa ou Palavra Cantada, precisam ser, primeiramente tomadas em seu caráter produtivo e constitutivo da experiência cotidiana, com diferentes visões de mundo e de identidades, inclusive corporais. Também, que estes textos estão imersos nas relações de poder e que ele – o poder - atua para modelar tais práticas (COSTA; SILVEIRA; SOMMER, 2003, p. 43).

Tal aspecto leva esta pesquisa à noção de Pedagogia Cultural a qual, conforme Steinberg e Kincheloe (2001), enquadra os processos educativos numa variedade de áreas sociais, não limitando a ação pedagógica à escola podendo ser “aqueles lugares onde o poder é organizado e difundido, incluindo-se bibliotecas,

TV, cinemas, jornais, revistas, brinquedos, propagandas, videogames, livros, esportes etc.” (STEINBERG; KINCHELOE, 2001, p. 14).

Na noção de Pedagogia Cultural encontramos subsídios para afirmar que o ensinar - e o aprender - dá-se em diferentes espaços e tempos contemporâneos. “Quer dizer, somos também educados por imagens, filmes, textos escritos, pela propaganda, pelas charges, pelos jornais e pela televisão, seja onde for que estes artefatos se exponham” (COSTA; SILVEIRA; SOMMER, 2003, p. 57).

Então, argumentar que as danças midiatizadas são uma forma de Pedagogia Cultural é recorrer às práticas culturais produzidas e/ou veiculadas pela mídia que ressaltam a dimensão formativa desses artefatos na contemporaneidade, como efeitos na política cultural que ultrapassam ou produzem as barreiras de classe, gênero, modos de vida (COSTA; SILVEIRA; SOMMER, 2003), e está envolvida também na emergência de diferentes corpos infantis.

Giroux (1999) traz à tona uma gama de elementos para a reflexão sobre a produção das identidades e das experiências e dos significados dos sujeitos a partir do olhar para a pedagogia cultural a partir do que ele chama de uma “política do prazer”. Para o autor, tais produções estão ligadas também a investimentos emocionais e a produção de prazeres, afetos e corporeidades, ou seja, o que pode ligar os sujeitos às formas culturais “populares”, para Giroux, não pode ser analisado apenas através de uma análise de significados e das representações mas também na ideia da constituição e da expressão de desejos.

A ideia e a experiência do prazer devem ser constituídas politicamente, para que possamos analisar como o corpo se torna não somente o objeto do [seu] prazer [...], mas também sujeito do seu prazer. Neste caso o prazer torna-se consentimento da vida no corpo, e proporciona uma importante condição corpórea de vida, afirmando possibilidade (GIROUX, 1999, p. 228).

O que a reflexão anterior provoca nesta pesquisa é que as danças midiatizadas como pedagogia cultural tornam-se um campo de possibilidades no qual as crianças podem se apropriar de diferentes formas culturais ampliando suas possibilidades corporais e humanas.

Tal questão é importante, pois tornar as danças midiatizadas objeto para se pensar sobre o corpo infantil é não ignorá-las, apontando categorias de significados e investimentos efetivos que estão no corpo de cada criança. O que queremos dizer

com isso, a partir do debate de Giroux, é que sendo as subjetividades, as identidades e as corporeidades construídas também a partir das danças midiatizadas, elas não podem ser ignoradas tanto pela educação escolarizada, quanto pelas instâncias de produção e disseminação da ciência.

TERCEIRA CENA: olhares cruzados sobre o corpo

“O corpo é uma ficção, um conjunto de representações mentais, uma imagem inconsciente que se elabora, se reconstrói através da história do sujeito, com a mediação dos discursos sociais e dos sistemas simbólicos” (CORBIN, 2008) Dentre os diferentes discursos que transitam na construção de identidades dos sujeitos na contemporaneidade, esta tese se propôs a tecer uma análise sobre um elemento vital em nossas vidas, o corpo, que é construído a partir de diferentes condições – materiais, sensíveis, estéticas, biológicas, comunicacionais, de significação, impondo também diferentes modos de enunciá-lo.

Do mundo da lentidão ao mundo da velocidade, do retrato pintado ao retrato fotográfico, dos cuidados individuais à prevenção coletiva, da cozinha à gastronomia, da sexualidade moralizada à sexualidade psicologizada, tantas dinâmicas temporais, tantas visões diferentes de mundo e investimentos diferentes no corpo [...] (CORBIN; COURTINE; VIGARELLO, 2008, p. 8).

Dos sentimentos mais íntimos à manifestação social, da sexualidade aos gostos alimentares, das técnicas físicas, das lutas contra as doenças, da espetacularização à estetização, os debates sobre o corpo vêm mobilizando áreas de diferentes ciências, abrigando a variedade do debate, das epistemologias.

Tal heterogeneidade provocada pelo próprio objeto nos convoca a transitar em algumas destas epistemologias para apresentarmos a noção de corpo como produto de uma rede de inteligibilidade, essencial para o exercício de compreensão desta pesquisa, o que se revela como um conjunto obrigatório de esquemas e tendências, de ordem e de sucessões em que se distribuem os elementos recorrentes que podem valer como um conceito, nos remetendo a Foucault (2009) ou como nos fala Sant’Anna (2005, p. 13),

Memória mutante das leis e dos códigos da cada cultura, registro das soluções e limites científicos e tecnológicos de cada época, o corpo não cessa de ser (re)fabricado ao longo do tempo. Seria, portanto, empobrecedor analisá-lo tomando-o como algo já pronto e constituído para, em seguida, privilegiar suas representações ou o imaginário da época onde ele está submerso.

Torna-se fundamental neste capítulo localizar parte do debate sobre o corpo oferecido por alguns teóricos de diferentes campos de conhecimento na tentativa de argumentar que o deslocamento do território estável do sujeito infantil na contemporaneidade deu-se também através do corpo. Apostamos na perspectiva da construção do corpo pela cultura, pela própria natureza desta pesquisa, apontando-o como uma produção de um conjunto de discursividades, de diferentes campos de conhecimento que compõem uma “fábrica social do corpo” (CORBIN, 2008, p. 9).

Na primeira seção destacamos alguns debates sobre o corpo a partir da antropologia em Marcel Mauss (1974) que demonstra ser o corpo um espaço privilegiado na construção de significados simbólicos, deixando como legado a ideia de que o uso de que fazemos dele, somado ao vestuário, aos ornamentos e à pintura corporal, compõe o universo em que se inscrevem valores e comportamentos, compreendendo, assim, as especificidades de cada cultura; da filosofia em Maurice de Merleau-Ponty (1971, 1984, 1990) que dedicou parte de sua obra a reflexões sobre o corpo, partindo da percepção sobre o seu corpo como seu ponto de vista sobre o mundo; as reflexões propostas por David Le Breton (2011, 2003) no campo da Sociologia do Corpo, onde se debruçou sobre a compreensão da corporeidade humana como “fenômeno social e cultural, motivo simbólico, objeto de representações e imaginários” (LE BRETON, 2003, p. 7).

É premissa ressaltar que este é apenas um recorte no amplo debate acerca das questões corporais, e foi uma escolha movida pelo próprio objetivo da pesquisa. O argumento para a escolha desses autores, e não de outros, é a importância direta ou indireta dada por esses estudos para a produção de enunciados que migraram das teorias essencialmente biológicas para perspectivas que dialogam com a relação intrínseca entre corpo biológico e cultural, como um sistema e não mais como um instrumento ou um produto, significando dizer, como Greiner (2005, p. 43), que “não é apenas o ambiente que constrói o corpo, nem tampouco o corpo que constrói o ambiente. Ambos são ativos o tempo todo”; ou como afirma Sant’anna (2005, p. 12) quando defende o argumento da sua provisoriedade como resultado das “convergências entre técnica e sociedade, sentimentos e objetos [pertencendo] menos à natureza do que à história”.

No recorte deste trabalho buscamos na segunda seção desta Cena as noções de poder, governamentalidade e heterotopias corporais no debate foucaultiano sobre o corpo (1987, 1990a, 2002, 2008, 2008a, 2008b, 2010a, 2013)

como chave para a composição das análises que foram empreendidas. No fluxo destes argumentos trazidos por Foucault, buscamos na terceira seção reconhecer a dança como “cenário” onde são produzidos múltiplos discursos sobre o corpo. O argumento trazido por nós vê a dança como produtora de significados que estabelecem diversos modos de enunciar e perceber o corpo.

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