1.3 Le partitionnement de graphes
1.3.2 L’optimisation sous contraintes
Os textos que acabámos de analisar refletem de forma clara o empenho em
(re)educar a sociedade portuguesa nos vários níveis de sociabilidades públicas e
privadas (vd. Rosas, 2001: 1037), incluindo na área dos lazeres, como veremos suceder, por exemplo, com a criação da Fundação Nacional da Alegria no Trabalho (vd. Parte III deste trabalho). A este propósito refere Fernando Rosas que o salazarismo
tentou (…) “resgatar as almas” dos portuguesas, integrá-los, sob a orientação unívoca de organismos estatais de orientação ideológica, “no pensamento moral que dirige a Nação”, “educar politicamente o povo português” num contexto de rigorosa unicidade ideológica e política definida e aplicada pelos aparelhos de propaganda e inculcação do regime e de acordo com o ideário da revolução nacional.
ibidem: 1032
As inúmeras lições de Salazar faziam a apologia do ser renovado e integrado pela ação “tutelar e condutora do Estado”(ibidem: 1037), de que já falámos, e que seria um fiel servidor do regime e da “Nação”, feliz na sua infelicidade, entendida como “honrada modéstia”. Esta lógica educativa do regime optou por criar ou reformar organizações já existentes para melhor poder cuidar do “caráter”, do “gosto”, da “cultura” e do “ideário” dos portugueses. O programa seguido por esta educação insistia em valores como a “cultura popular”, divulgada pela máquina propagandística do regime que recuperava, criava e evidenciava a todo o custo elementos exibidos como genuinamente nacionais, rurais e etnográficos (vd. ibidem: 1040).
Seis anos depois de Salazar ter recordado a António Ferro que o povo português é “facilmente educável” (Ferro, 2007 [1933]: 11-12), mais concretamente no ano de 1938, foi publicada pelo Secretariado de Propaganda Nacional uma coleção de sete
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cartazes intitulada A Lição de Salazar, que expunha e associava de forma incontornável o político ao seu papel de educador dos valores e das verdades do regime. Esta série, divulgada essencialmente nas escolas e nas Casas do Povo, foi editada para comemorar uma década da chegada de Salazar ao poder, e surgia como mais um instrumento programático do Chefe do Governo na “pose de lente de Coimbra, severo, mas paternal, sério no seu saber e na sua prática” (Torgal, 2009a: 149). A propósito desta edição Helena Matos explica-nos que
compostos à semelhança duma banda desenhada, estes quadros fazem o confronto entre o passado – o tempo em que Salazar não estava no Governo – e o presente. A sua eloquência resulta exactamente do facto de plasmarem uma mensagem política sob as cores e os traços de deliciosas ilustrações infantis.
Matos, 2003: 258
Figura 2 – A Lição de Salazar
(disponível em http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012_06_01_archive.html)
Com a publicação destas lições pretendia-se divulgar de forma clara, simples e acessível, até para os mais jovens ou iletrados, os triunfos obtidos nessa década de intervenção salazarista através de uma comparação fácil entre aquilo que o Estado Novo concretizara e o que o desregramento da I República não conseguira, ou não permitira realizar.
À exceção do cartaz “Deus, Pátria, Família”, cada um dos outros seis era composto por duas imagens contrastivas – um “antes” e um “depois” -, por um texto
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perfeitamente dispensável, devido às mensagens óbvias das gravuras, e incluía ainda um título, a saber, “Finanças”, “Estradas”, “Obras”, “Tropa”, “Trabalho” e “Portos”. Como os títulos deixam antever, a recuperação financeira e a tranquilidade da população e do “império”, bem como o grande investimento estatal nas obras públicas ocupavam os sumários destas lições.
O cartaz “Deus, Pátria, Família”, eventualmente o mais divulgado de toda a coleção, surge-nos como a principal e a mais importante lição a divulgar por ser aquela que ensinava a essência do verdadeiro bem-estar que o povo devia e podia ambicionar. Este postal mostra um singelo e perfeitamente harmonioso quadro familiar, localizado em ambiente rural, e protagonizado por um agregado trabalhador, religioso e bem estruturado, onde todos os elementos parecem ter papéis definidos e claros.
Figura 3 - A Lição de Salazar
(disponível em http://restosdecoleccao.blogspot.pt/2012_06_01_archive.html)
Durante a nossa pesquisa fomos confrontados com uma publicação do Secretariado de Propaganda Nacional, não datada, intitulada Cadernos da Revolução
Nacional. Portugal de Ontem. Portugal de Hoje. Portugal de Amanhã. A temática
abordada por este opúsculo e a estrutura usada fizeram-nos evocar de imediato a série de postais atrás referida. Acabámos por entender esta última reflexão/lição produzida pelo regime como uma teorização mais formal e académica do que aquela que tínhamos
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vislumbrado nos sete cartazes que mencionámos anteriormente. Aventamos, por isso, situá-la no final da década de Trinta devido a essa coincidência temática.
Esse opúsculo apresenta-nos também uma comparação, mas desta feita em formato quase panfletário, entre a “Nação” anterior à “Revolução Nacional” e aquela que lhe sucedeu. A primeira seria uma realidade “refugiada no mêdo ou na apatia e no desalento” (Cadernos da Revolução Nacional, s/d: 8) e que era liderada por governos relâmpago, resultantes de “lutas partidárias, travadas menos em volta de princípios que de interêsses e ambições” (Cadernos da Revolução Nacional, s/d: 9). A segunda apresentava-se aos olhos de todos de uma forma incontestavelmente diferente e, por isso mesmo, permitia e promovia um desenvolvimento comunitário, simbolizado na construção de estradas, na recuperação financeira e na estabilidade social. “A Nação confiou. Salazar realizou” afirmava-se a dado passo (Cadernos da Revolução Nacional, s/d: 40) e, neste sentido, é fácil entender que o opúsculo termine com a previsão de um futuro estável e tranquilo, como resultado natural da essência portuguesa recuperada com a “Revolução Nacional”, ou seja, com Salazar:
Sabemos donde viemos, sabemos para onde vamos, ou, pelo menos, para onde queremos ir. Os antecedentes dêste País no decurso da História animam-nos a crer nas virtudes dum povo, que no transcorrer de oito séculos venceu tantas dificuldades e adquiriu tanta experiência de crer e realizar. (…) Os homens, que empreenderam e realizaram, sob o signo dum alto pensamento e sob uma firme direcção, a renovação de Portugal e conseguiram carrilar a Nação dentro dos seus destinos e das suas tradições fundamentais de doutrina e de acção, merecem de todos os portugueses a continuação duma cooperação, sem hesitações nem restrições.
ibidem, s/d: 71