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CHAPITRE 1 : SYNTHÈSE BIBLIOGRAPHIQUE

I. L E MÉTABOLISME DES LIPOPROTÉINES

α. Alguns dados biográficos

José Joaquim Nunes (n. Portimão, 1859 e m. Lisboa, 1932) foi seminarista em Faro, tendo depois desempenhado as funções de pároco em Alferce (Monchique) e de capelão militar em Lagos, Santarém e Beja. Contrai, entretanto, casamento civil. No âmbito da sua atividade docente foi Reitor do Liceu de Beja, professor no Liceu de Santarém e, já em Lisboa, lecionou no Liceu Camões e no Colégio Militar. Veio a ser, mais tarde, Diretor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e sócio da Academia das Ciências. Em 1918 dedica à memória da mulher a Crónica da Ordem dos Frades Menores (1209-1285), sob o pseudónimo de Júlio Ventura. Para além desta publicação é editado, em 1919, o Compêndio

de Gramática Histórica Portuguesa, em 1926-28, Cantigas d’Amigo dos Trovadores Galego Portugueses e, em 1932, Cantigas d’Amor dos Trovadores Galego Portugueses.

β. Definição e objetivos da gramática

Mais do que qualquer outro objetivo, importava agora situar o português no tempo e tentar perceber as leis que presidem às mudanças linguísticas. E esta obra vai incidentalmente ocupar-se da evolução dos sons e das palavras, do latim ao português, ou seja, do estudo da Fonética e da Morfologia. No ponto seguinte trataremos com mais detalhe a sua organização.

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ao nível dos liceus, como era apanágio da grande maioria das gramáticas, mas a um nível universitário. O seu objetivo, como o próprio autor refere no Prólogo, é o de auxiliar os estudantes das Faculdades de Letras, evitando-lhes investigações fastidiosas:

Com este meu modesto trabalho, no qual procurei condensar o que de melhor se acha escrito em autores nacionais e estrangeiros, tive a mira em poupar aos estudantes das nossas Faculdades de Letras e a todos quantos se empenham em conhecer a história do nosso idioma investigações e diligências que lhes absorveriam muito tempo (...) (Nunes 1919: «Prólogo» da 1.ª edição).

É assim que deparamos com uma abundante recolha de dados relativos à evolução da língua. Os seus princípios orientadores encontram-se em sintonia com as tendências então em voga na Europa quanto ao estudo das línguas. Na lista das principais obras consultadas constam nomes como Cornu, Menéndez Pidal, Meyer-Lübke, E. Bourciez... Digamos que a ‘trave-mestra’ desta obra é a concepção da língua como organismo vivo, ideia inspirada em todo o ambiente comparativista do século XIX e nas então recentes investigações em Biologia, particularmente em Charles Darwin. À semelhança do que se passa com os seres vivos, que apresentam anatomias e fisiologias próprias, considera-se que a língua é, também ela, constituída por várias partes com diferentes funções. As espécies animais modificam-se e evoluem no tempo: o mesmo acontece com as línguas. Cabia, então, ao linguista aperceber-se dessas mudanças e formular as suas leis, tidas como leis matemáticas. Ouçamos Joaquim Nunes (1919: 21; negrito nosso):

Ora é geralmente sabido que são as palavras que no seu conjunto constituem o organismo chamado idioma, que, como qualquer ser vivo, se compõe de partes várias em tamanho e funções. Mas, do mesmo que na natureza os elementos de um corpo se alteram por transformações sucessivas e inconscientes, também no domínio das línguas os sons de que constam as palavras não permanecem sempre os mesmos; estes, como aqueles, estão sujeitos a modificações que se operam duma maneira fatal e imperiosa, sem que de tal tenhamos consciência, e atingem todos os que se encontram em igualdade de circunstâncias, manifestando-se com precisão matemática tal, que de antemão podemos estabelecer as leis que as regulam (...)

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Como facilmente concluímos através desta passagem, muito longe estamos já das primeiras gramáticas portuguesas: o estudo da língua é, definitivamente, encarado numa perspetiva científica, tomando como base uma detalhada investigação histórica. A História da Língua enquanto ramo de investigação em Linguística vai ter, nesta obra e noutras congéneres, as suas fundações.

Quanto a definições de gramática, não vamos encontrar nenhuma explícita ao longo do

Compêndio. É, talvez, compreensível que isto aconteça: as gramáticas foram, durante muitos

séculos, sistematizações «preceitivas» da língua – característica a que se opõe toda a investigação científica. As leis observadas são, agora, leis diacrónicas que nunca poderão assumir o estatuto de norma.

γ. Organização da obra

Embora o título – Compêndio de Gramática Histórica – sugira que vão ser tratadas as várias partes da gramática o que acontece, de facto, é que este estudo incide basicamente na Fonética e na Morfologia do Português. À Sintaxe não é dado nenhum desenvolvimento, justificando o autor esta falha quando, no Prólogo da 1.ª edição, refere que Epifânio da Silva Dias preparava um estudo exclusivamente dedicado à Sintaxe Histórica o que, efetivamente, se verificou, chegando este estudo a ser publicado, em 1918, sob o título de Syntaxe Historica

Portuguesa.

Este compêndio começa por tratar a origem e evolução do português, tomando como ponto de partida o latim. São abordados, na «Introdução», vários pontos:

(i) A diferença entre o latim vulgar e o latim literário e a importância decisiva que o

primeiro teve na formação do nosso idioma;

(ii) A diversidade fonética existente em todo o império romano e a coexistência de

vários dialectos na Península (um deles, o galaico-português, falado nas margens do rio Minho, daria mais tarde origem ao galego e ao português);

(iii) A data em que aparece definitivamente a nossa língua. Neste particular, o autor

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se pode precisar uma data exata.60

Segue-se à Introdução o tratamento da Fonética e da Morfologia, que constituem as duas principais divisões desta obra. A Fonética encontra-se dividida em Fonética Fisiológica e Fonética Histórica. Esta divisão já a podemos encontrar em Meyer-Lübke (1914: 100):

Así, pues, en el caso de que en una lengua estén asegurados ciertos cambios fonéticos por el método histórico, entonces intervendrá justificadamente la fonética fisiológica, y hasta puede suceder que sólo ella nos dé el método para la explicación, o que decida cuál solución – entre varias – sea la más acertada.

Na parte respeitante à Fonética Fisiológica, começa o autor por apresentar o processo articulatório responsável pela produção dos sons: são descritos os orgãos do aparelho fonador, o papel da glote na produção dos sons sonoros, é referida a frágil diferença entre vogais e consoantes sob o ponto de vista da articulação, o papel da intensidade, da altura, da duração e do timbre. Joaquim Nunes apresenta, ainda, dois quadros referentes à classificação articulatória das vogais e das consoantes. Segundo estes quadros, as vogais dividem-se em

guturais, palatais e labiais e as consoantes em oclusivas e constritivas. As oclusivas podem

ser sonoras ou surdas e as constritivas incluem as nasais, as laterais, as vibrantes e as fricativas. O último quadro, referente às consoantes, foi extraído da obra Précis de

Phonétique Historique du Latin de Max Niedermann, conforme consta da nota (1) da pág. 29.

À Fonética Histórica Nunes dedica 167 páginas num total de 409. Esta secção constitui, digamos, o ‘apport’ do Compêndio: vamos encontrar, aqui, um manancial imenso de informação relativa à evolução dos sons, dos ditongos e das palavras, sendo o latim quase sempre tomado como referência de origem. Associando evolução a luta pela sobrevivência, é atribuído ao acento tónico o papel de ‘guardião’ do corpo das palavras. Ouçamos o autor:

(…) como verdadeiros organismos vivos, também os sons estão sujeitos à sua (do tempo) influência modificadora, gastando-se pouco a pouco, lutando pela sua existência, luta de que por vezes saem triunfantes, quando não sucumbem. A arma mais forte que os auxiliou neste batalhar incessante

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Nesta matéria, mais uma vez, é comparada a língua a um organismo vivo: «como qualquer ser vivo que, antes de atingir a forma que o distingue dos outros, passa por fases diversas, que lhe vão alterando as feições, as línguas, antes de se fixarem, sofrem sucessivas e constantes modificações» (Nunes 1919: 14).

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foi o acento tónico; resistindo aos rudes golpes do seu terrível inimigo, o tempo, conseguiu salvar uma grande parte do corpo de que era a alma, deixando embora no campo de batalha muitos dos seus membros perdidos e desconjuntados (Nunes 1919: 32).

Muito haveria a dizer acerca desta parte do Compêndio, na medida em que se traduz numa minuciosa investigação sobre a evolução dos sons. Isto, no entanto, escapa ao objetivo a que aqui nos propomos e que diz respeito à análise da organização da obra.

Na segunda grande parte do Compêndio é tratada a Morfologia: «ocupa-se esta das várias partes de que se compõe o discurso». Ressalta desta passagem o peso de toda uma tradição gramatical que incluía na etimologia, uma das quatro partes das gramáticas, o estudo das partes do discurso. E, aqui, Joaquim Nunes parece inspirar-se diretamente na classificação proposta por Jerónimo Soares Barbosa ao considerar duas grandes classes: as palavras «variáveis ou flexivas» e as «invariáveis ou inflexivas». Das primeiras fariam parte o

substantivo, o adjetivo, o artigo, o pronome, o particípio e o verbo; das segundas, a preposição, o advérbio, a conjunção e a interjeição. Assinalando que esta classificação se

insere em toda uma tradição gramatical que remonta às gramáticas greco-latinas, o autor propõe, mais adiante, que as palavras flexivas se reduzam a três espécies: o nome, o pronome e o verbo. Esta tripartição corresponderá a uma classificação ontológica do mundo e dos objectos que nos rodeiam:

(i) Os «objetos em si» seriam designados pelo nome, quando encarados

objetivamente, ou pelo adjetivo, se encarados subjetivamente;

(ii) As «relações de espaço ou de tempo em que eles se encontram para connosco»,

designadas pelo pronome;

(iii) A atividade dos objetos expressa pelo verbo.

De acordo com esta divisão:

(i) O adjetivo é tomado como um tipo de nome, seguindo uma tradição ancestral:

«Segundo ficou dito, compreendem-se sob a designação de nome, tanto as palavras que designam os entes, como as que mostram as suas qualidades» (Nunes 1919: 203). Os

numerais são incluídos, também, na classe dos nomes;

(ii) Os pronomes dividem-se em substantivos e adjetivos – «servindo aqueles para

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espaço, lugar ou posse» (Nunes 1919: 202); atualmente, a distinção feita é entre pronomes e

determinantes – podendo ser pessoais, possessivos, demonstrativos, relativos, interrogativos e indefinidos; os artigos são também incluídos nesta classe por razões históricas,

nomeadamente os definidos o e a que provêm do pronome demonstrativo latino ille, passando seguidamente pelas formas elo / ela> lo / la> o / a;

(iii) O verbo designaria a atividade de que todo o mundo parece estar dotado,

realizando-se de diversas maneiras correspondentes a diferentes modos, tempos e pessoas. O particípio é considerado uma «forma especial» de verbo.

Nesta singular tripartição é notória a influência de gramáticos estrangeiros como Meyer-Lübke que na Grammaire des Langues Romanes (tomo III) considera como palavras flexivas («mots à flexion»), atendendo a sua significação, o nome, o pronome, o «nom de

nombre»61 e o verbo. Difere J. Nunes deste ilustre gramático por não tomar os numerais como classe autónoma.

As palavras inflexivas, também designadas como «partículas», dividem-se, por sua vez, em duas classes: na primeira incluem-se a preposição, o advérbio e a conjunção; da segunda constaria a interjeição que não é tomada como verdadeira parte uma vez que, nas palavras do autor «são apenas gritos representativos de sentimentos, mais ou menos vivos, que nos afectam» (Nunes 1919: 203).

Nesta classificação, é questionável que se tome o pronome como classe principal de palavras, ao nível do verbo ou do nome. Seria, talvez, mais escorreito considerá-lo como um tipo de nome quanto mais não seja pela função que lhe é atribuída pela designação (do lat.

pronomine = em vez do nome). Se exceptuarmos este caso, verificamos que Joaquim Nunes

perfilha com João de Barros ou Melo Bacelar a ideia de que o nome e o verbo são as partes principais da oração.

Para concluir, diremos que o Compêndio, sob o ponto de vista da sua organização, segue uma ordem ‘tradicional’: depois de uma introdução sobre a origem e evolução do português, aparecem tratados os sons (I – Fonética) e as palavras (II – Morfologia). No entanto, se atendermos ao conteúdo das várias secções, qualquer semelhança com as gramáticas clássicas é pura coincidência. É apresentada, aqui, uma minuciosa investigação sobre a evolução dos sons e das palavras do português, tratando-se, portanto, de investigação

61 Meyer-Lübke inclui nesta classe os ordinais, cardinais, distributivos, multiplicativos, proporcionais e alguns indefinidos como muitos, poucos, alguns, etc.

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científica. Assinale-se, contudo, que a mancha gráfica se apresenta, quase sempre, muito densa o que torna a leitura porventura difícil.