5. Surveillance - Dissimulation - Maintien d'accès
5.5. L'interception des mots de passe en réseau
Vale recordar a força, a virtude e as conseqüências das coisas descobertas, o que em nada é tão manifesto quanto naquelas três descobertas que eram desconhecidas dos antigos e cujas origens, embora recentes, são obscuras e inglórias. Refiro-me à arte da imprensa, à pólvora e à agulha de marear. Efetivamente estas três descobertas mudaram o aspecto e o estado das coisas em todo mundo: a primeira nas letras, a segunda na arte militar e a terceira na navegação. Daí se seguiram inúmeras mudanças e essas foram de tal ordem que não consta que nenhum império, nenhuma seita, nenhum astro tenham tido maior poder e exercido maior influência sobre os assuntos humanos que estes três inventos mecânicos.
Francis. Bacon
Para se compreender e melhor avaliar o significado da fundamentação baconiana da ciência como tecnologia é indispensável um exame mais detalhado das transformações que vinham ocorrendo no âmbito das técnicas. Àquela época já afloravam diversos elementos que influenciaram decisivamente a filosofia de Bacon, e que foram por ele reelaborados e reinscritos como características da ciência reformada.
I - O desenvolvimento das técnicas e da noção de progresso
A noção de progresso já podia ser entrevista em várias expressões do século XV e XVI, especialmente na comparação com os antigos que, até então, eram a principal referência de apogeu da cultura. Vários autores do período manifestam a sensação de que não apenas se equiparavam em conhecimento e feitos aos antigos, mas que até mesmo chegavam a ultrapassá-los. Assim, Campanella escreve que houve mais história em cem anos do que teve o mundo em quatro mil, e que fizeram-se mais livros nestes cem do que nos cinco mil que antecederam.
Na Ingeniosa Comparación entre lo Antiguo y lo Presente (1558), o espanhol Cristóbal de Villalón inicia o que é conhecido como a querela entre antigos e modernos.A
discussão das diferenças bem como a defesa da superioridade dos modernos aparecem em dezenas de escritos das décadas de 1560 e 70. Se inicialmente a noção de progresso é deduzida da comparação entre épocas distantes, aos poucos ela vai articulando os aprimoramentos recentes e paulatinos, até se tornar o eixo de teorias acerca da história.
A consciência dos limites dos conhecimentos antigos se desdobra como suspeita de que também as limitações presentes deverão vir a ser superadas. Um reconhecimento de que, assim como os antigos ignoravam muitas coisas que agora eram conhecidas, no futuro se conhecerá muitas outras coisas que são inteiramente desconhecidas no presente. O que invoca um certo otimismo em relação ao que ainda estar por vir a ser conhecido. A identificação do avanço dos tempos e de seu desenvolvimento material com o progresso do conhecimento é um elemento central do projeto de Bacon.1 Ainda que não tão articulada, ela já aparece em diversas obras, como no Trattato dell’Ingegno (1576) em que Antonio Persio escreve “Quantas coisas conhecemos que os antigos ignoravam e quantas das que nós ignoramos serão conhecidas pelos homens no futuro.”
O progresso podia ser particularmente entrevisto no desenvolvimento tecnológico e no interesse que despertava na cultura. Começa-se a achar admiráveis as inovações e a engenhosidade dos artefatos modernos. A bússola, a pólvora e a imprensa são os símbolos mais recorrentes do progresso tecnológico e sinal do triunfo da nova era, aparecendo em quase todos os escritos do gênero na segunda metade do século XVI.2 O uso militar e civil (mineração) da pólvora, os alcances da navegação (e de seus instrumentos: bússola, mapas e sofisticação das embarcações) e o advento da imprensa são artifícios de que os modernos mais se orgulham, e que percebem que, desde seu advento, vinham sendo gradual, coletiva e constantemente aperfeiçoados. 3
A noção do alcance deste crescimento gradual e coletivo aparece na imagem, que se tornará famosa na versão de Newton, dos anões nos ombros de gigantes. Por maior que
fosse a grandeza de um Aristóteles, ela era suplantada por aqueles que, além de saber o que ele tinha conhecido e ensinado, tinham acesso às novidades da época, fruto do engenho de gerações de anônimas experiências e inventos.
A adoção do progresso como um valor toma assim como modelo e inspiração o desenvolvimento de práticas que nada tinham de nobre. Isso decerto é sinal de muitas mudanças na sociedade e na cultura, que também necessitaram de muitas justificativas até serem assimiladas como legítimas.
II - Mudança no status social do artesão e do conhecimento técnico
O sentido original das artes mecânicas é puramente social. Denotava a falta de liberdade (daí a oposição às artes liberais) de quem empregava (ou era obrigado a empregar) apenas sua energia física para produzir algo. O desprezo a quem se ocupava (como os escravos) de atividades manuais tinha, depois de muitos séculos, sido transferido às próprias atividades manuais. (Cf. MOSCOVICI, Essai Sur l’Histoire Humaine de la Nature, 250).
Entretanto, por uma série de fatores, desde o início da alta idade média, o número dos artesãos e de suas atividades vai se multiplicando pouco a pouco por toda a Europa, com evidentes repercussões na vida social e cultural como um todo. Na vida urbana, crescente, os artistas obtêm um peso que lhes permite orientar seu próprio destino, e assegurar a realização de seus fins. O artesanato vai adquirindo um grau mais elevado de perfeição. A formação, a organização e a divisão do trabalho vão sendo progressivamente codificadas. Mesmo a habilidade se torna regulamentada e o trabalho artesão passa a receber uma dignidade e uma individualidade sem precedentes. Contudo, a grande maioria destes artistas e artesãos permanece no total anonimato, quebrado apenas por aqueles cuja notoriedade extrapola os limites regionais e, principalmente, por aqueles que nos deixaram
registro escrito. Isto não quer dizer que não haja uma longa lista com dezenas de nomes de autores de manuais, libelos, biografias. Decerto que o trabalho artesanal tradicional persistirá e o desprezo às artes mecânicas ainda durará bastante. No Dicionário de Richelet, de 1680, o termo mecânico ainda aparece como o que se opõe a liberal e honrável (honorable) e, no sentido figurado, como ‘vilão pouco digno de uma pessoa honesta e liberal’ (SHUHL, Maquinisme et philosophie, 24).
Mas novas formas de resolver os problemas práticos, novas categorias profissionais, novo tipo de instrumento 4 e novas maneiras de se instruir e de reproduzir os conhecimentos foram cada vez mais se destacando e abrindo caminho a uma nova consideração do trabalho e dos processos artificiais de transformação da natureza.5
Se na clássica concepção de techné a técnica era reconhecida por sua estagnação, pois gerada pela ocasião e guiada pela rotina, e reproduzia, segundo a perspectiva aristotélica, o mesmo padrão de trabalho geração após geração, aos olhos de muitos autores modernos o que ocorre é o inverso. A idéia de ciência como contemplação desinteressada da verdade passa a ser encarada como estagnante (submersa em disputas que não avançavam), ao passo que as artes mecânicas começam a ser identificadas com transformações, inovações inusitadas e progresso.
Diversas manifestações da cultura do séculos XV e XVI revelam essa visão. Consoante com as aspirações renascentistas de reformulação do saber e do ensino, os aspectos mais atraentes dos procedimentos técnicos eram o contato com a natureza e a abertura para as novidades que as artes contrastavam com a escolástica. Seja a ironização do pedantismo, nas peças de Rabelais ou Shakespeare, seja a aspiração à aprendizagem das diversas artes, nas Utopias de Morus, ou Bacon, se vê a exaltação das virtudes da natureza e da potência dos fatos sendo contrapostas à fascinação dos livros e aos vícios dos ensinamentos dos mestres.6
O tipo de valorização do conhecimento prático e suas motivações vão variar em função das classes sociais e ligações culturais. Enquanto os artesãos tinham que lidar com as guildas, em geral se opondo ao conservadorismo destas com relação às novidades e à publicidade dos conhecimentos técnicos, os autores com formação universitária ou ligados ao humanismo tinham que lidar com os representantes do conhecimento oficial, e suas críticas enfatizavam a futilidade daquele ensino tradicional e sua equivocada aversão às atividades práticas. O humanista espanhol Luis Vives, por exemplo, valoriza as técnicas e conclama seus colegas a que estudem as técnicas agrícolas, de navegação e de construção de máquinas para saber como estas tinham sido inventadas, preservadas, desenvolvidas e como poderiam ser aplicadas para o uso e
benefício geral, pois, a seu ver, enquanto filósofos construíam entidades metafísicas imaginárias, os artesãos operavam na natureza. Assim, ele defende que o homem culto abandone seu tradicional desdém frente aos conhecimentos vulgares e vá às oficinas e fábricas para procurar aprender com os artesãos acerca dos detalhes de seus afazeres.7
O escritor francês Rabelais inclui o conhecimento da prática artesanal na formação ideal dos jovens. Seu personagem Gargantua deveria, além de se preocupar com os estudos tradicionais, ir ver como trabalham os fundidores de metais, ourives, talhadores, relojoeiros, gráficos, tintureiros e outros tipos de artífices... “para aprender a considerar a indústria e invenção dos negócios” (livro I, capítulo 24). Mais radical, Campanela considera como “parasitas ou dejetos da república” os homens que não exercitam nenhuma arte útil à vida humana.
De uma forma geral os representantes ‘mais avançados’ da cultura européia se inclinam pela substituição da educação tradicional (literária e retórica) por um ensino que, mesmo se dirigido à classe dirigente, deveria incluir, como escreve Sir Humphrey Gilbert em 1562, coisas práticas e úteis para o presente, tanto na paz como na guerra. Ou seja, uma
instrução técnica que pudesse contribuir para a formação de um novo tipo de cavalheiro, como o estudo da geometria para edificações, geografia e astronomia para navegação e cálculo para os negócios (ROSSI, Los Filósofos y las Máquinas).
Há também defesas e valorização do conhecimento técnico pelos artesãos superiores, que eram muitas vezes letrados no latim e influenciados pelo humanismo. O arquiteto italiano Leon Alberti é certamente um dos primeiros e mais célebres. Ele defende a importância da técnica e procura elevar a figura do arquiteto-engenheiro ao nível das artes liberais. “O arquiteto deve se comportar como alguém ocupado com o estudo das ciências. Ele deve se equipar com o conhecimento e prática do melhor de todas as artes (como a matemática e pintura), e se tornar um especialista independente” ALBERTI apud KROHN, The Dynamics of Science and Technology, 170). Sua valorização da prática do arquitetos passa por mostrar como esta se diferencia de outras artes mecânicas menos nobres, e por aproximar-se das artes liberais, como a medicina. Semelhante estratégia é adotada por Agrícola quando este se empenha em mostrar que a atividade mineradora nada tem de indigno, não devendo portanto ser confundida com outras atividades meramente manuais ou servis. Ele tenta mostra como é equivocada a visão de que a atividade mineradora necessita mais de esforço do que de ciência e arte.8
Como se pode ver, esta estratégia de valorização pela diferenciação do resto mantém em parte um certo preconceito contra as artes mecânicas, e nesse sentido destoam um pouco da pregação de Campanela, que procura superar a distinção tradicional entre artes especulativas e artes mecânicas ao valorizar a dignidade de qualquer trabalho útil. Entretanto, vale ressaltar que, diferentemente dos escritos humanistas, a peculiaridade de livros como De re metallica de Agrícola é que eles são práticos. Ou seja, o que eles visavam, além da mudança da imagem do conhecimento prático, era instrumentalizar e
aprimorar a prática. E, como se verá mais à frente, traziam embutidos uma nova visão da função do conhecimento.
O livro de Agrícola, além de ser um dos primeiros levantamentos completos de procedimentos e técnicas para encontrar e processar os metais, torna-se um clássico nesta área por alguns séculos. Ligado ao ambiente das artes mecânicas, seu autor fora burgomestre com vasta cultura. Estudara medicina, a qual chegara a exercer na zona mineradora da Bohemia, e mantivera contatos com famosos humanistas da época. Sua obra é um pungente apelo à observação da natureza e valorização do conhecimento técnico, bem como da clareza e precisão na descrição destes. Não tendo os mesmos dotes pictóricos de Vessálio, que desenhava sozinho as novidades que apresentava, contratara desenhistas para que representassem, da forma mais fiel possível, os filões, os instrumentos, tipos de canais e de máquinas que descrevia de modo a facilitar a compreensão de todos. Sua preocupação com a comunicabilidade do conhecimento é expressa também na forte oposição à linguagem imprecisa dos alquimistas, cujas obras predominavam naqueles assuntos metalúrgicos.
Uma das formas de valorização das atividades técnicas era a ênfase na complementaridade entre teoria e prática. O engenheiro militar Ramelli, autor de Diverse et artificiose machine (1588), insiste na necessidade de uma união da matemática com a mecânica. Vesálio, em De corporis humani fabrica (1534), lamenta a separação entre a ciência e a técnica, entre o trabalho manual dos farmacêuticos, dos barbeiros, dos enfermeiros e de cirúrgicos, como as dissecações que ele realiza, e a leitura, preleção e explicações costumeiramente da alçada dos médicos.9
Além desses artesãos superiores, artesãos e técnicos de níveis culturais mais baixos, afastados dos círculos humanistas e iletrados no latim, também expressam neste período uma progressiva autoconsciência do reconhecimento social da importância de seu
conhecimento. Estes vão abandonando as reservas provenientes de sua falta de cultura (oficial) e se decidindo a expor suas experiências à consideração de todos. Assim, o marinheiro inglês Robert Norman descreverá seus conhecimentos sobre a agulha magnética e suas declinações, justificando que se considera inteiramente incapaz de uma discussão como os lógicos, mas que com a publicação de suas experiências visa contribuir para glória de Deus e benefício da Inglaterra. De maneira respeitosa, ele advoga ainda por outros tantos técnicos e artesãos que, como ele, “conhecem perfeitamente o uso de suas artes e são capazes de aplicá-las em diversas finalidades tão eficazmente e com maior facilidade do que aqueles (doutos) que queriam condená-los”.10
Também Dürer se desculpa por sua falta de formação universitária. “... não duvido que muitos irão criticar-me por meu propósito de escrever e ensinar sem ter tido educação, de ter pouca compreensão e não ser prendado em muitas habilidades”(apud PANOFSKY, Albrecht Durer, 123).
Para estas defensivas pode se encontrar, além de razões sociológicas (do lugar social de quem fala), estratégias discursivas e razões epistemológicas. A humildade aqui está fortemente vinculada à concepção de que o conhecimento é algo progressivo, e que a contribuição ora apresentada deverá, por sua vez, ser aprimorada por outros.11 Assim, o inglês William Bourne inicia seu libreto Inventions and Devices (1578) desculpando-se pela sua rudeza e falta de formação. Mas se seus artifícios eram deficientes, pondera ele, era porque, nas ciências ou nas artes, os primeiros passos são imperfeitos, e os que se seguem vão se aperfeiçoando ‘para o bem da comunidade’. Também o cirurgião-barbeiro Ambroise Paré, autor de La methode de traicter les playes (1545) e posteriormente cirurgião do Rei da França, endereçara seu livro aos jovens cirurgiões, na esperança de estimulá-los a escrever sobre estes assuntos de forma a engrandecer o conhecimento de todos “e trazer frutos e benefícios que ajudem a suportar a fraqueza da vida humana”.
Ainda que a maior parte dessas autovalorizações fossem algo defensivas, aos poucos foram surgindo ataques mais confiantes e imponentes. O próprio Paré, além de expressar orgulho por seu trabalho manual e desconhecimento do latim, tratava em tom jocoso a prática médica de se dedicar tão somente às palavras.
É famosa a advertência aos leitores de Discursos Admiráveis (1580) na qual o ceramista francês Bernard Palissy afirma que se aprenderia mais filosofia natural acompanhando por poucas horas seu trabalho prático do que em centenas de horas de leitura dos livros de filosofia. Palissy tivera grande fama como oleiro e por suas investidas contra a cultura dos professores, doutos e filósofos, e recusa os livros em nome da observação da natureza. Aos teóricos rebate o valor da prática das artes mecânicas e do trabalho manual.12
Estes desafios preparam o terreno para críticas mais sólidas como a que se verá em Bacon ou como as que aparecem no tratado de Lorini sobre as fortificações (1597). Diz este último, confrontando o trabalho especulativo da matemática pura com o do mecânico prático, “os conceitos com que o matemático opera não estão submetidos aos impedimentos que a matéria traz sempre consigo e com a qual opera o mecânico” (LORINI apud ROSSI, Los filósofos y las máquinas, 66). A habilidade do mecânico estaria em saber prever estas dificuldades que derivam da diversidade da matéria, pois os impedimentos são acidentais, isto é, difíceis de serem regrados.
Antes de detalharmos alguns aspectos destas mudanças gostaríamos de observar, resumidamente, o reforço que o protestantismo dava a tais mudanças, através da secularização da teologia, isto é, de sua apropriação pelo leigo, bem como pelo sentido que dava ao trabalho. Diferentemente do cristianismo católico romano que prescrevia o conhecimento de Deus através da mediação da hierarquia da igreja, os protestantes eram encorajados a lerem e interpretarem por si próprios as escrituras e por si próprios
ministrarem a graça. A chamada secularização da teologia tem seu sentido forte no encorajamento que a visão de mundo protestante dava à sacramentalização do mundo terreno e da vida cotidiana. O mundo não é mais percebido apenas como um estágio transitório, mas como o templo de Deus. O trabalho humano deixa de ser uma preparação para a vida eterna. Por mais humilde que fossem, as obras realizadas, se bem feitas, honrariam o criador. Vale também lembrar que o catolicismo não é nem era algo inteiramente homogêneo e que em alguma ordens, como a dos beneditinos e franciscanos, o trabalho era também equacionado como uma forma de oração: laborare est orare (WHITE, Medieval Religion and Technology, 174).
III - Artistas, engenheiros e inovações
Até o século XV artistas e técnicos são ambos considerados como artesãos e seus meios sociais são praticamente os mesmos. No Renascimento há um notável reconhecimento social da figura do artista, que chega a ser identificada com a do gênio. Contratados por patronos ou financiados por reis, pintores e arquitetos passam a freqüentar as cortes e ambientes humanistas em que a veneração pelos clássicos não divergia do interesse pelo mundo moderno. Na Renascença o mundo das artes parece constituir uma exceção à tradicional separação entre teoria e prática. Arquitetos e pintores tiveram não apenas uma forte influência clássica e do humanismo, mas também um evidente interesse pela perspectiva, pela pesquisa dos materiais.
Vários ateliês, como os de Florença, além de pinturas, projetavam e fabricavam bandeiras, cerâmicas, esculturas de fontes e portais, instrumentos e peças em ouro. Seus agentes tinham um notável interesse por teorias que podiam ser aplicadas ou importantes para descobertas. E ali se produzia e experimentava e ensinava conjuntamente diversos saberes como geometria, perspectiva, ótica, anatomia, características das matérias. De certa
forma, tais afazeres estavam envolvidos por uma atmosfera, que a Renascença criou e cultivou, de paixão e grandeza em torno da inventividade das artes.
Estas mudanças no papel do artista não querem dizer que este tenha se desvinculado do conhecimento técnico. As publicações dos manuais de técnicos forçavam uma estrita vinculação entre o trabalho artístico e o técnico. Desenhos e gravuras são centrais nestes tratados, que muitas vezes eram mais um grupo de gravuras com comentários do que propriamente textos ilustrados. Ou seja, os desenhos e gravuras não eram apenas uma questão ornamental, mas necessidade própria do tema. Descrever máquinas e seus funcionamentos verbalmente é, ainda hoje, não só mais difícil mas ineficaz se se pretende fazer com que alguém menos familiarizado compreenda certo instrumento. Isto sem considerar que àquela época a terminologia técnica era extremamente incipiente. Assim, os textos que acompanham os desenhos são muitas vezes algo secundário.13 Por outro lado, convém notar que as artes plásticas estavam próximas também pelos instrumentos e objetivos de várias de suas criações e que embora elas não tivessem a mesma dimensão instrumental das técnicas, as mudanças no âmbito das artes ajudaram a alterar o papel do conhecimento técnico, de suas inovações e de seus representantes.14
14 Ainda que se valha das técnicas, a arte não tem a mesma dimensão instrumental.
Uma distinção que surge neste período nos ajuda a diferenciar a dimensão inovadora do fundo conservador da tradição artesanal, bem como perceber a diferente perspectiva de seus agentes. Trata-se da separação entre o artesão e o artista- engenheiro ou artesão