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L’insuffisance de l’offre de prise en charge spécialisée

É vista como uma questão de cidadania, prioritariamente, a preservação do patrimônio histórico nos dias atuais, pois, trata-se do alicerce para a construção da identidade cultural e um direito fundamental do cidadão, tal como nos ressalta Le Goff (1990):

A memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade individual ou coletiva, cuja busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.

88 Cientes que para ter direito a esta memória, que também podemos chamar de direito à cidadania, todos devem ter acesso aos bens materiais e imateriais que representem sua história. Como definido por Sérgio Paulo Rouanet:

O indivíduo privado do uso desse direito é um indivíduo condenado à amnésia social e à anomia e esse direito é ignorado quando igrejas barrocas caem por causa de uma chuvarada em Ouro Preto ou quando monumentos importantes em Olinda ou na Bahia estão ameaçados de desabamento (ROUANET, 1992, p.83)

Mesmo nos microuniversos existem as posições dos diferentes e as disputas internas nas quais são demarcadas as esferas de poder que também estarão ligadas às questões históricas e de memória. Não podemos ter um olhar ingênuo e ignorar que as forças que estabelecem as decisões de quem e do quê devem-se lembrar, essas decisões partem de acordos políticos entre os membros de uma determinada sociedade, e, em alguns dos casos, o restante da sociedade sequer é consultada.

A questão maior, hoje, para a construção de identidades é o aprofundamento da democracia num mundo globalizado – o lutar para que ela não seja meramente formal, ou simbólica, para que se traduza em melhorias reais na capacidade de afirmação autônoma dos cidadãos para diminuírem as desigualdades (JORGE, 2005, p.16) já que a perda de valores de referência partilhados comunitariamente, em um momento no qual a maior parte das pessoas apresentam-se sem tempo nem recursos críticos para poder pensar-se vítima desse sistema, é uma realidade constante. Pois, com todas essas nuances o patrimônio cultural pode vir a ser um bem ou pode vir a ser considerado um fardo. É Paoli que nos esclarece:

Fazer com que a produção incida sobre a questão da cidadania implica fazer passar a história e a política de preservação & construção do passado pelo crivo de sua significação coletiva e plural.

De alguma forma, isto vem sendo feito como uma dupla tarefa: a de crítica e a construção historiográfica de horizontes de validade histórica. Crítica a uma história de Walter Benjamim chamou “dos vencedores”, sobre cujos feitos foram produzidos os documentos e erguidos os monumentos, referência única ao que se ensina nas escolas, se mostra aos turistas, se celebra nos feriados nacionais. Ao esconder e silenciar as outras narrativas dos acontecimentos passados e presentes, essa história se torna “oficial”: a história necessária e documentável, em referência à qual o valor de outros projetos e de outras presenças – quando aparecem – são medidos e julgados. A política de patrimônio que daí deriva conserva esta significação ao preservar apenas estes testemunhos. (PAOLI, 1992, p.26)

Acompanhando o raciocínio de Paoli, o conhecimento pode ser um instrumento de compreensão do patrimônio ao ponto de evitar que ele se torne um fardo. O saber uma forma privilegiada de poder, um capital simbólico cada vez mais determinante, e pode ainda salvar muitos inocentes (JORGE, 2005, p.24) constitui em uma alternativa que,

89 segundo Jorge, pode até parecer inocente, mas não temos outro caminho senão o de articular o patrimônio e a criação numa atitude única e envolvendo cada vez mais pessoas e territórios. Fazer do patrimônio não uma herança pesada, mas um valor dinâmico, incorporado e vivenciado coletivamente e voltado para qualificação do cidadão.

Mesmo ciente de que não é possível sair completamente da neurose contemporânea de olhar para o presente tomando sempre como pauta o passado, é possível uma consciência crítica de que se pode conservar a diversidade cultural através de múltiplos olhares (olhar o passado sem perder de vista o presente e o futuro) abrindo oportunidades de respeito, de capacidade, de afirmação para que o patrimônio não se torne um pesadelo, um problema insolúvel e sim fonte de realização pessoal e coletiva. Em geral, os monumentos considerados patrimônios refletem uma memória de “heróis” ou dos “ilustres” e a gente comum não se vê representada nestes lugares de memória. Pessoas comuns também são membros dessa mesma sociedade, não importando o gênero, raça ou credo aos quais essas pertençam. Por não se verem representadas nos lugares de memória, quer enquanto homem/mulher, quer enquanto profissional ou qualquer outra identidade a elas relacionadas. Essas pessoas não integrarão estes locais ao seu repertório patrimonial. É preciso empoderar o cidadão através do conhecimento sobre o patrimônio, e, desta forma trazer à luz os fragmentos da história que estão obscuros. Caso contrário, esse cidadão vai, pouco a pouco, perder seus referenciais históricos e progressivamente sentir-se estrangeiro no seu próprio espaço.

A não representação de determinados agentes históricos acontece como reflexo da supremacia do poder hegemônico vigente na sociedade baiana espelhada no lócus de abordagem, não esquecendo o período histórico quando esses monumentos foram erguidos, o que reforça a ideia de que os elementos ausentes são apenas um complemento nessa sociedade. Por sua vez, os representados figuram como protagonistas históricos. Podemos dizer que para essa sociedade alguns indivíduos fazem a história e outros tantos apenas a sofrem. Essas questões perpassam pelo entendimento hierarquizado de que a memória representada nesses monumentos tende a reforçar a subjetivação do conhecimento daqueles que porventura a tomam como verdade absoluta, o que repercute e reforça a ideologia do domínio patriarcal. Devemos também levar em consideração o fato de que a identidade cultural e a memória social são construídas com base na ideia de compreensão da nossa memória social, artística e cultural. Então, podemos perceber como é possível controlar o processo de evolução a que está inevitavelmente exposto o saber e o saber fazer de um

90 povo. (MAIA, 2003, p.39).

Então, nos lugares de memória das cidades nos quais são impressos, mesmo que indiretamente, as relações sociais vão apontar para esses fatos, embora eles sejam naturalizados para que se perpetuem da forma que estão mantendo seu status quo. Muitas vezes de maneira sutil, despercebida pelos agentes que sofrem a ação de silenciamento.

Mais que testemunhos do passado, os lugares de memória lutam para construir-se em um quadro vivo presente, desvelando as possibilidades políticas dos diferentes segmentos sociais pela apropriação da herança cultural. Enfrentam, constantemente, uma batalha pela defesa da preservação dos bens culturais. De um lado, os interesses dos grupos hegemônicos, que selecionam e impõem determinado padrão de cultura e, de outros diferentes seguimentos sociais, de pequena influência política, que são submetidos à tirania do mercado e da informação e, por isso mesmo mais facilmente suscetíveis à homogeneização cultural (MACHADO,2002, p.297)

Porém, quando existe uma verdadeira identificação com os objetos culturais, mesmo existindo uma tentativa de hegemonização, existe também o esforço de deixar claro o quê, para aquela população, é seu patrimônio cultural. O respeito à diversidade cultural, sua coletividade e a visão de que todo o membro desta sociedade tem o direito de conhecer e reconhecer seus bens é que vai fazer da vivência na cidade, uma vivência cidadã.

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3. A O CIDADÃO SOTEROPOLITANO E AS QUESTÕES DE IDENTIFICAÇÃO

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