V. Discussion
2. Mécanisme
2.1 L'inflammation est responsable de la perte de β-‐klotho 86
Para além do aspecto do sujeito epistêmico, em uma seção que se propõe a explicitar sobre as concepções teóricas imbricadas na modalidade Blended Learning, é imprescindível tratarmos de uma das teorias que usualmente ampara as modalidades de educação a distância: a Teoria da Distância Transacional. Mas para compreendermos essa teoria é necessário especificarmos antes o conceito de transação a que esta se refere. O termo "transação", na concepção do senso comum, é usado para designar um "negócio" ou “troca” consensual entre dois ou mais indivíduos. Do ponto de vista prático, uma concepção do significado de um termo raramente é censurável pois oferece elementos para novas concepções, mas, nesta pesquisa, devemos assegurar uma definição adequada para o termo. Esclarecido isso, credita- se a John Dewey a atribuição de significado à palavra “transação” no campo educacional. Inicialmente, Dewey (1971), em sua obra Experiência e Educação de 1938, empregou o termo “interação” para designar a ideia de relação entre os indivíduos e o que em determinado momento é seu ambiente (outra pessoa, um livro, a internet ou a sociedade), mas anos depois, Dewey sofisticou a ideia ao lançar um olhar mais abrangente sobre os constituintes dessa relação, fazendo uso do termo “transação”.
Para Dewey e Bentley (1949), a transação difere da interação à medida que na interação seus constituintes são configurados na investigação como elementos separados, cada um em independência da presença do outro. Na transação, nenhum de seus constituintes podem ser entendidos como independentes da descrição que outros constituintes fazem do
assunto em questão. Na perspectiva de Dewey e Bentley (1949), a experiência do mundo é adquirida por meio da transação entre o homem com o seu entorno, trata-se de uma interação mais sofisticada que funciona em duas direções: o ambiente influencia a forma como o homem o percebe, e como o homem percebe o ambiente influencia este último. Embora o objeto observado não possa ser considerado separado de quem o observa, cumpre ressaltar que a transação é um tipo de investigação na qual as descrições existentes de eventos são aceitas apenas como provisórias e preliminares, para que novas descrições dos aspectos e fases desses eventos possam ser feitas livremente em qualquer fase da investigação, mesmo que de modo reduzido ou ampliado. Em resumo, na perspectiva Deweyana, transação pode ser definido como “a interação entre o ambiente, os indivíduos e os padrões de comportamento numa dada situação” (BOYD e APPS, 1980 apud MOORE, 2002, p.2).
A partir do conceito de transação proposto por Dewey, Michael G. Moore elaborou a Teoria da Distância Transacional, publicada em 1983 sob o título de Theory of Transactional Distance, enfocando a educação a distância. Nessa perspectiva teórica, a transação ocorre entre professores e alunos em um ambiente que possui como característica peculiar a separação geográfica entre alunos e professores. Todavia, Moore considera a Distância Transacional como algo que vai além da distância geográfica, sua teoria se desenvolve a partir da distância pedagógica entre alunos e professores. Dessa forma, embora o foco da teoria seja a educação a distância, a distância transacional é passível de acontecer em qualquer programa educacional, incluisve na educação presencial. A distância pedagógica conduz a padrões especiais de comportamento de alunos e professores e afeta profundamente tanto o ensino quanto a aprendizagem. Tal distância faz emergir um espaço psicológico e de comunicação a ser transposto, um espaço de possíveis mal-entendidos entre as intervenções do professor e as do aluno, esse espaço é denominado de distância transacional (MOORE, 2002).
Na esfera do ensino e da aprendizagem, Moore (2002) chama a atenção para três grupos de variáveis em sua teoria, denominados de Diálogo, Estrutura do Programa e Autonomia do Aluno.
Para Moore (2002), o Diálogo diz respeito à interação entre alunos e professores, alunos e alunos e também entre alunos e conteúdos. Embora os conceitos de diálogo e interação possam soar parecidos, é importante diferenciá-los, dessa maneira, pode haver interações negativas ou neutras, mas aqui o termo "diálogo" é particular para interações apenas positivas, no qual o valor educacional incide sobre a natureza sinérgica da relação entre as partes envolvidas. Existem vários aspectos que podem fazer com que o diálogo não seja positivo, como por exemplo, a personalidade do professor e dos alunos, o número de
alunos por professor e, sobretudo, o meio de comunicação empregado. Levando-se em consideração esses componentes e selecionando os meios adequados de comunicação em dada situação é possível potencializar o diálogo entre alunos e professores e assim reduzir a distância transacional.
A segunda variável que influencia a distância transacional é o Projeto de Curso e o modo como ele foi estruturado. A distância transacional é medida na relação entre a Estrutura do Programa e o Diálogo (Figura 3). Quanto mais estruturado for um programa, menos diálogo acontecerá, nesse caso, a relação entre o aluno e os conteúdos poderá ser interpretada de modos diferentes, contribuindo para aumentar a distância transacional. Por outro lado, em programas pouco estruturados, os alunos recebem instruções e orientações de estudo por meio de diálogo com o professor minimizando assim a distância transacional (MOORE, 2002, p.5).
Figura 3 – A relação das variáveis diálogo e estrutura determina a Distância Transacional.
Fonte: MOORE (2002, p.5).
Por fim, a Autonomia do Aluno compreende a terceira variável que devemos considerar na teoria. É importante ressaltar que o termo “autonomia do aluno” descrito aqui diz respeito ao seu lugar dentro da teoria da distância transacional, podendo assumir diferentes conceituações em outras teorias. Para Moore (2002, p.9), “a autonomia do aluno” ocorre quando “[...] é o aluno e não o professor quem determina os objetivos, as experiências de aprendizagem e as decisões de avaliação do programa de aprendizagem”. Consciente de que se trata de uma inferência polêmica, Moore (2002) constatou em seus estudos que alunos que possuem competências avançadas como alunos autônomos sentem-se bastante confortáveis em programas com mais estrutura e menos diálogo (maior distância
transacional), pois tem maior responsabilidade e liberdade para estudar independentemente, ou seja, quanto maior a distância transacional, mais o aluno exercerá esta autonomia. Mas nesse caso, são alunos com posturas autônomas já bem definidas, para eles, até mesmo um programa pouco estruturado e com pouco diálogo não implica em impedimento de aprendizagem. Por outro lado, nem todos os alunos estão preparados para uma experiência de aprendizagem completamente independente, por essa razão, a autonomia do aluno que aprende a distância deve ser construída.
Essa percepção é compartilhada pelo próprio Moore quando cita Malcolm Knowles, teórico que estuda a autonomia na educação de adultos, de acordo com Knowles, os adultos em geral não estão preparados para uma aprendizagem independente, são treinados para serem dependentes do sistema escolar, por isso precisam atravessar um processo de reorientação para aprenderem como adultos (KNOWLES, 1970 apud MOORE 2002).
Cumpre salientar que alunos mais dependentes geralmente preferem programas mais dialogados e com grande volume de estrutura, porém, nesse caso, há pouca oportunidade de os alunos explorarem caminhos alternativos e exercitarem a autonomia. Mas seja qual for a distância transacional, alta ou baixa, o papel do professor é fundamental para identificar essa distância e mediar a relação educativa entre o aluno e o conteúdo a ele apresentado. Dessa forma, o conteúdo e as atividades podem ser pouco estruturados, mas os objetivos de aprendizagem devem ser comunicados aos alunos de modo bastante claro. Para tanto, o professor deve manipular os meios de comunicação para aumentar o diálogo entre ele e os alunos a fim de reduzir a distância transacional e ainda assim desenvolver neles a autonomia. Portanto, cabe ao professor identificar se a autonomia dos alunos está adequada aos objetivos educacionais planejados ou deve ser construída no processo.
Como o próprio Moore (2002, p. 9) diz em seu trabalho, sua teoria carece de elementos empíricos para ser comprovada: “são necessários mais testes antes que se possa dizer que esteja definitivamente provada.”. Nesse sentido, Giossos (2009, p. 2) considera que a fragilidade da Teoria da Distância Transacional é que Moore se baseou fortemente no conceito de transação de Dewey, mas interpretou o conceito de forma equivocada. Moore definiu distância transacional como o “espaço psicológico e de comunicação entre o professor e o aluno”, em vez da definição de distância transacional de Dewey que é “a distância de entendimento entre professor e aluno”. O termo “Entendimento” refere-se a compreensão mútua ou percepção comum de ideias, emoções, situações. Se a definição de Dewey fosse usada a teoria de Moore poderia ser entendida como uma teoria científica “aberta”, sem necessidade de ser provada empiricamente.
A teoria de Moore tem um caráter profundamente positivista, com regras baseadas no plano cartesiano, porém, Giossos (2009) chama a atenção para o fato de que das três regras identificadas na Teoria Transacional, apenas a primeira é bastante consistente: 1º) A distância
transacional e o diálogo são elementos inversamente proporcionais, o que significa que
qualquer aumento em um conduz à diminuição do outro. 2º) O aumento de estrutura do curso leva à redução do diálogo e, consequentemente, aumento da distância transacional. No entanto, isso não acontece no sentido inverso; a redução na estrutura não resulta em aumento no diálogo e, consequentemente, não reduz a distância transacional. Moore ressalta que, se a estrutura cair abaixo de um limite, há um aumento na distância transacional, porém, Moore não especifica esse limite. 3º) A distância transacional e a autonomia são proporcionais entre si, ou seja, o aumento ou diminuição de uma implica no aumento ou diminuição da outra. Todavia, a distância transacional é vivida e percebida de diferentes maneiras em diferentes contextos culturais e educacionais, a individualidade e a disposição dos alunos para a autonomia diferem de uma cultura para outra.
No tocante ao aspecto epistemológico da teoria de Moore, Giossos (2009) sugere que a teoria deve abandonar pressupostos positivistas para alicerçar-se na corrente filosófica do Realismo, uma vez que a busca de relacionamentos estáveis entre duas variáveis é fácil no mundo das ciências, porque é possível criar um ambiente controlado, um sistema fechado. Porém, no mundo real dos seres humanos, e, consequentemente, o da educação, isso não é viável, pessoas funcionam em um sistema aberto, que não pode ser controlado.
A corrente filosófica do Realismo investiga as ações, que, por meio de mecanismos, produzem resultados sob certas condições. Em uma analogia bastante clara, Giossos (2009) considera que o ensino é a ação que, mediante os mecanismos de diálogo, estrutura e
autonomia em uma situação de aprendizagem, produzirá resultados no sentido de ter uma
maior ou menor distância transacional, essa dinâmica pode ser visualizada na Figura 4.
Figura 4 – Representação gráfica da teoria de Moore de acordo com o Realismo.
Consciente da necessidade de uma visão holística que examine os mecanismos em vários níveis subjetivos de interação ou transação, Giossos (2009, p. 4), além de se basear na filosofia do realismo, também adiciona elementos na teoria de Moore, assim, o diálogo, a estrutura e a autonomia devem ser observados à luz de três planos relacionais: (1) A relação interpessoal entre professor e aluno, (2) a relação entre os membros do grupo de aprendizagem, e (3) a relação de mediação entre os alunos e o material didático. É importante ressaltar que um nível de relação não está ligado à apenas um mecanismo, pelo contrário, cada nível perpassa de forma transversal todos os mecanismos (Diálogo, Estrutura e Autonomia) presentes na teoria. De acordo com esse ponto de vista, a Teoria da Distância Transacional de Moore segundo pressupostos da filosofia realista acrescentados por Giossos é ilustrada esquematicamente na Figura 5.
Figura 5 – Representação gráfica final da teoria de Moore de acordo com Realismo.
Fonte: Adaptado de Giossos (2009, p. 4)
Embora, existam muitas polêmicas na teoria de Moore, é inegável que se trata de um texto extremamente relevante para se entender a educação a distância. Não importa que as variáveis não possam ser generalizadas com o objetivo de se obter uma fórmula para medir precisamente a distância transacional. O que é relevante na teoria são os indicadores para a compreensão de como ocorre a distância transacional e suas implicações no tocante ao
diálogo, estrutura e autonomia. Espera-se, portanto, que tais indicadores permitam identificar o que é singular (contexto) dentro das regularidades (teoria) ou o que é regular (teoria) dentro das singularidades dos indivíduos (contexto).
O mote abordado pela Teoria da Distância Transacional se mostra tão relevante para as modalidades de educação a distância que Valente (2002, p. 143), reconhecido estudioso do uso das tecnologias da informação e comunicação na educação, elaborou a abordagem do “estar junto” virtual, mesmo que de maneira não intencional, é um conceito que se relaciona intimamente com a Teoria da Distância Transacional, pois visa diminuir a distância de entendimento entre professor e aluno mediante um alto nível de interação possibilitado com o uso das tecnologias de telemática. Valente também utiliza o termo interação, o que nos remete ao conceito de interação, posteriormente transação, proposto por Dewey. Valente (1999, p. 141) situa sua abordagem do “estar junto” virtual no que denominamos hoje por Blended Learning: “Estamos aprendendo que o “estar junto” virtual deve ser completado com atividades presenciais, que permitirão conhecer melhor as pessoas e, assim, realizar intervenções a distância mais efetivas”. Dessa forma, uma vez que a distância transacional não é exclusiva da educação a distância, ainda que seja mais evidente nessa abordagem, o “estar junto virtual” assume proporções mais amplas pois deve levar em consideração as transações que ocorrem também presencialmente.
Não obstante a relevância da teoria seja atestada aqui, a autonomia do aluno é uma questão que deve ser relativizada para cada contexto de aprendizagem, pois, em alguns casos, fatores como a personalidade dos indivíduos e problemas de comunicação podem levar alguns alunos a aprenderem em programas de estudo com mais ou menos estrutura ou com mais ou menos diálogo. É fundamental para o professor compreender as condições subjetivas daqueles que aprendem, suas necessidades e capacidades, para que se possa determinar o ambiente pelo qual as condições objetivas de um programa educacional (diálogo e estrutura) serão reguladas. Para que a aprendizagem não seja conveniente apenas para aqueles que se ajustam às condições objetivas oferecidas, Dewey (1971, p. 39) orienta,
Não é bastante que certos materiais e certos métodos se tenham revelado bons e eficientes com outros indivíduos em outras ocasiões. Deve-se haver uma razão para se acreditar que eles sejam capazes de produzir experiência que tenha qualidade educativa com determinado indivíduo em determinado tempo.
Por essa razão há que se ter bem claro quais são as concepções que alunos e professores possuem acerca do que é ensino e do que é aprendizagem. Somente a partir dessas concepções é possível utilizar a teoria para subsidiar a prática e também adequar alunos e professores aos novos papéis que são atribuídos a eles na modalidade Blended Learning.